A messe é grande e poucos são os operários

Meus irmãos,

Estamos caminhando no tempo comum, o quotidiano de nossa liturgia que coloca lições diárias de vida cristã para que todos os cristãos procurem a conversão e a mudança de vida, caminhando para a meta de santidade e missão que permeia a vida de discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo para sermos no mundo seus missionários.

A liturgia de hoje nos fala do discipulado ou do apostolado. Dentro desta novidade devemos considerar dois pontos básicos: 1) é o próprio Cristo que convoca os seus apóstolos, daí a afirmação de que o discipulado é uma graça que provém do Onipotente. O discípulo tem que ter o coração gratuito, generoso, desapegado das coisas do mundo e voltado para as coisas do Alto, deixando de lado a auto-suficiência, colocando o seu ministério a serviço da edificação do Reino de Deus. 2) O discípulo que vai ser enviado deve estar munido de um coração aberto e compreensivo, sempre tendo presente que é necessário ter compaixão e grande compaixão pelo pecador, nunca tendo medo de odiar o pecado, mas sempre receber o pecador de braços abertos, sentindo com o pecador a miséria de sua condição, anunciando-lhe as maravilhas que provém do Senhor da Vida e do Seguimento de Seu projeto de edificação da civilização do amor. Aqui cabe lembrar que Jesus assumiu nossa condição humana para anunciar o tempo da graça.

Irmãos e Irmãs,

Deus quis precisar do homem. Deus quis ter um povo para si, um povo santo, um povo sacerdotal, para santificar o mundo todo em seu nome; um povo que fizesse a sua vontade, realizasse seu reino: UM REINO DE SACERDOTES E UMA NAÇÃO CONSAGRADA. Essa vocação do povo, na ocasião da proclamação da Lei do monte Horeb, prefigura aquela vocação mais plena, que, do alto da montanha da Galiléia, Jesus dirigiu a doze humildes galileus.

Na primeira leitura(cf. Êx 19,2-6a) a iniciativa da “aliança” é de Deus: é Jahwéh que convoca Moisés – o intermediário entre Deus e o Povo – para a montanha e propõe, através dele, uma “aliança” à “casa de Jacob”. A iniciativa de estabelecer laços de comunhão e de familiaridade com o seu Povo é sempre de Deus. Essa “aliança” que Deus propõe é, em segundo lugar, uma realidade que envolve toda a história do Povo. As palavras de proposição da “aliança” aparecem em três estrofes, cada uma das quais abarca um tempo: passado, presente e futuro. É uma relação que aponta à totalidade da caminhada do Povo de Deus. A primeira estrofe (vers. 4) refere-se ao passado. Faz referência à libertação da escravidão do Egito (“vistes o que Eu fiz no Egito”), à presença e assistência amorosa de Deus ao longo da marcha pelo deserto (“como vos transportei sobre asas de águia”) e ao chamamento à comunhão com o próprio Deus (“e vos trouxe até Mim”). Tudo isso resulta do “compromisso” que Deus assumiu com Israel, ainda antes da “aliança” do Sinai. A segunda estrofe (vers. 5a) refere-se ao presente. Jahwéh convida Israel a aceitar estabelecer com Deus laços privilegiados de comunhão e de familiaridade. Para que isso aconteça, Deus pede a Israel que escute a sua voz e guarde a “aliança” (os mandamentos de Deus são as exigências com que o Povo se deve comprometer). A terceira estrofe (vers. 5b-6) refere-se ao futuro. Se Israel aceitar comprometer-se com Deus numa “aliança”, Deus oferecerá ao Povo uma relação especial, que o tornará o Povo eleito de Deus, um reino de sacerdotes e uma nação santa. Entre todos os povos da terra, Israel passará a ser o Povo eleito, que Deus escolheu entre todos os povos da terra para com ele manter uma relação única. Será também um reino de sacerdotes – quer dizer, um Povo cuja missão é testemunhar Deus e torná-l’O presente no mundo. Será finalmente uma nação santa – quer dizer, um Povo “à parte”, separado do convívio dos outros povos para se dedicar exclusivamente ao serviço de Jahwéh.

A “aliança” aparece aqui como fazendo parte integrante do projeto de salvação que Deus tem para os homens. Israel é convidado por Deus a desempenhar um papel primordial nesse processo: se aceitar fazer parte da comunidade de Deus e percorrer um determinado caminho (o caminho dos mandamentos), ele será o Povo escolhido por Deus para o seu serviço e para ser um sinal de Jahwéh diante de todos os outros povos. Esta “eleição” não é um privilégio, mas um serviço, que se concretiza numa missão profética: ser um sinal vivo de Deus no mundo. Descobre-se aqui o sentido fundamental do Êxodo: a libertação do Egito não se resume em fazer sair um povo da escravidão para a liberdade: a caminhada que Jahwéh começou com este Povo no Egito aponta para o compromisso com Deus e com os homens; aponta para a construção de um Povo que não só conquista a sua liberdade mas se torna testemunha de Deus, sinal de Deus, sacerdote de Deus no meio do mundo.

Vivemos num tempo em que não é fácil – no meio da azáfama em que a vida decorre – reconhecer a presença, o amor e o cuidado de Deus com essa humanidade que Ele criou; alguns dos nossos contemporâneos chegam mesmo a falar da “morte de Deus”, para exprimir a realidade de uma história de onde Deus parece estar totalmente ausente.

O livro do Êxodo que acabamos de ouvir revela um Deus empenhado em caminhar ao lado dos homens e mulheres, em estabelecer com eles laços de familiaridade e de comunhão, em apresentar-lhes propostas de salvação, de libertação, de vida definitiva.

O livro do Êxodo define a resposta do Povo aos desafios do Deus da “aliança” em termos de “ouvir a voz” de Deus e “guardar a aliança”. “Ouvir a voz” de Deus significa escutar as suas propostas, acolhê-las no coração e transformá-las em gestos na vida diária; “guardar a aliança” significa comprometer-se com as propostas de Deus e viver de forma coerente com os mandamentos.

O Povo que aceita o compromisso com Deus e que “embarca” na aventura da “aliança” é um Povo que é propriedade de Deus, que aceita ficar ao serviço de Deus. A sua missão é testemunhar o projeto salvador de Deus diante de todos os povos da terra

Meus irmãos,

O Evangelho de hoje(cf. Mt 9,16-10,8) nos fala, em primeiro lugar, do discípulo, que é aquele que aprende. Jesus chama seus discípulos de “sal da terra”, dando-lhes como distintivo o amor mútuo como a oração do Pai Nosso, prometendo-lhe o Reino das Bem-Aventuranças.

Em segundo lugar o Evangelho nos fala, que entre os discípulos, Jesus chamou Apóstolos, que significa o enviado, o mensageiro. É aquele que envia uma mensagem a um destinatário. No Evangelho de hoje Jesus é que envia e quem lhes dá as instruções de como se comportar. A mensagem é o Reino dos Céus e os destinatários são as ovelhas perdidas e sem pastor. O apóstolo não é um mero empregado do culto divino e das obras de exercício espiritual, mas é um prolongamento do Cristo, com uma missão bastante especificada: mostrar presente no meio da comunidade de fiéis o Reino de Deus ou ensinar como torná-lo presente e atuante. Os apóstolos são os embaixadores de Cristo e por isso agem IN PERSONA CHRISTI CAPITAS.

Doze discípulos conforme nos ensina o Evangelho de hoje, numa alusão as doze tribos de Israel, numa simbologia que quer explicar que todos estão representados no Colégio Apostólico. Não foi levado em consideração a origem dos apóstolos, nem a condição pessoal de cada qual, nem a ideologia e nem muito menos a militância religiosa, nem muito menos se eles eram os mais santos e puros da comunidade. De simples pescadores, a cobrador de Impostos, de zelota até o traidor. Jesus demonstrou com isso um coração confiante de compaixão e gratuidade, sempre desarmado aos “clichês” meramente humanos.

Apóstolo ao longo da vida, no quotidiano, no dia a dia, nas pequenas coisas, dilatando nos corações das pessoas a novidade cristã. Guardar primeiro em seu coração a palavra de Deus para anunciá-la para todos os gentios, para as ovelhas perdidas de Israel, anunciando inicialmente para as pessoas de perto, para depois anunciar aos de longe.

A grandeza do missionário se mede por sua consciência em ser porta-voz de Jesus Cristo e, portanto, da grandeza de seus gestos de compaixão e de misericórdia. Bem mais que sua palavra, vale o testemunho de seu comportamento prático. O bom missionário não é aquele que leva a boa notícia da verdade, mas aquele que se identifica por sua vivência da verdade. Por isso Jesus nos convida a combater três males: a doença-lepra; os espíritos imundos-demônio e a morte, que Jesus contrapõe com a ressurreição. Isso porque o Reino de Jesus tendo destruído os três males não se limita à vida aqui. A vida continua depois da morte, pelos séculos dos séculos.

Como cenário de fundo desta catequese sobre o envio dos discípulos está o amor e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Não esqueçamos isto: Deus nunca Se ausentou da história dos homens; Ele continua a construir a história da salvação e a insistir em levar o seu Povo ao encontro da verdadeira liberdade, da verdadeira felicidade, da vida definitiva.

Como é que Deus age hoje no mundo? A resposta que o Evangelho deste domingo dá é: através desses discípulos que aceitaram responder positivamente ao chamamento de Jesus e embarcaram na aventura do “Reino”. Eles continuam hoje no mundo a obra de Jesus e anunciam – com palavras e com gestos – esse mundo novo de felicidade sem fim que Deus quer oferecer aos homens. Jesus não chama apenas um grupo de “especialistas” para O seguir e para dar testemunho do “Reino”. Os “doze” representam a totalidade do Povo de Deus. É a totalidade do Povo de Deus (os “doze”) que é enviada, a fim de continuar a obra de Jesus no meio dos homens e anunciar-lhes o “Reino”.

Hoje cabe esta pergunta questionadora: Qual é a missão dos discípulos de Jesus? É lutar objetivamente contra tudo aquilo que escraviza o homem e que o impede de ser feliz. Hoje há estruturas que geram guerra, violência, terror, morte: a missão dos discípulos de Jesus é contestá-las e desmontá-las; hoje há “valores” (apresentados como o “último grito” da moda, do avanço cultural ou científico) que geram escravidão, opressão, sofrimento: a missão dos discípulos de Jesus é recusá-los e denunciá-los; hoje há esquemas de exploração (disfarçados de sistemas econômicos geradores de bem-estar) que geram miséria, marginalização, debilidade, exclusão: a missão dos discípulos de Jesus é combatê-los. A proposta libertadora de Jesus tem de estar presente (através dos discípulos) em qualquer lado onde houver um irmão vítima da escravidão e da injustiça.

Meus irmãos,

A Carta aos Romanos é um texto sereno e amadurecido, escrito por Paulo por volta do ano 57/58 e no qual o apóstolo apresenta uma síntese da sua mensagem e da sua pregação. O pretexto para a carta é um projeto de passagem por Roma, a caminho de Espanha (cf. Rom 16,23-24): Paulo sente que terminou a sua missão no oriente e quer anunciar o Evangelho de Jesus no ocidente. No entanto, a opinião da maioria dos estudiosos da Carta aos Romanos é que Paulo se serve deste pretexto para lembrar, quer aos cristãos vindos do judaísmo (e para quem a salvação dependia da prática da Lei de Moisés), quer aos cristãos vindos do paganismo (e para quem a Lei de Moisés constituía um empecilho) o essencial da mensagem cristã. São Paulo insiste, sobretudo, no facto de a salvação não ser uma conquista do homem, mas um dom do amor de Deus. Na verdade, todos os homens vivem mergulhados no pecado, pois o pecado é uma realidade universal (cf. Rom 1,18-3,20); mas Deus, na sua bondade, a todos “justifica” e salva (cf. Rom 3,1-5,11); e essa salvação é oferecida por Deus ao homem através de Jesus Cristo; ao homem, resta aderir a essa proposta de salvação, na fé (cf. Rom 5,12-8,39). O texto lido hoje é a parte final de uma perícope que começa em Rom 5,1. Nessa perícope, São Paulo explica o que brota dessa “justificação” que Deus nos ofereceu: em primeiro lugar, a paz, que é a plenitude dos bens (cf. Rom 5,1); em segundo lugar, a esperança, que nos permite caminhar por este mundo de cabeça levantada, de olhos postos no futuro glorioso da vida em plenitude (cf. Rom 5,2-4). Em terceiro lugar (e assim chegamos, finalmente ao texto que nos é proposto hoje como segunda leitura), sermos “justificados” (isto é, recebermos, de forma totalmente gratuita uma salvação não merecida) implica descobrir o quanto Deus nos ama. O amor de Deus pelos homens é, para Paulo, algo que nunca deixará de o “espantar”; e é esse “espanto” que ele procura transmitir aos cristãos nas linhas seguintes. Para São Paulo, a história da salvação é uma incrível história de amor. Como o homem, contando apenas com as suas forças, não conseguiria superar a situação de escravidão, de egoísmo e de pecado em que havia caído, Deus enviou o seu Filho ao mundo; Ele ofereceu toda a sua vida – até à cruz – para que os homens percebessem que o egoísmo gera morte e sofrimento e que só o amor gera felicidade e vida sem fim. Dessa forma, Ele salvou os homens da escravidão do egoísmo e do pecado e ofereceu-lhes, de forma totalmente gratuita, a salvação.

O mais incrível, no entanto, é que tudo isto aconteceu “quando éramos, ainda, pecadores”. Trata-se de algo incompreensível do ponto de vista humano, que subverte totalmente a lógica dos homens. Nós talvez aceitássemos morrer por alguém a quem amamos muito; mas em nenhum caso estaríamos dispostos a dar a nossa vida por alguém egoísta, orgulhoso e autossuficiente. No entanto, Deus ama de tal forma os homens – todos os homens – que aceitou que o próprio Filho morresse pelos ímpios.

O amor de Deus é verdadeiramente um amor “inqualificável”, incrível, ilógico, inexplicável. Soa a absoluto, a eternidade. Nada nem ninguém conseguirá vencê-lo, derrotá-lo, eliminá-lo. São Paulo acrescenta ainda: e se Deus nos amou desta forma quando éramos pecadores, com muito mais razão nos amará agora que nos reconciliamos com Ele. Esse amor que nada nem ninguém conseguirá apagar é para nós garantia de vida em plenitude.

O cristão é fundamentalmente alguém que descobriu que Deus o ama. Por isso, enfrenta cada dia com a serenidade, a alegria, a esperança que brotam dessa certeza fundamental. O amor de Deus é totalmente gratuito, incondicional e eterno. Não espera nada em troca; não põe condições para se derramar sobre o homem; não é descartável. Numa época em que a cultura dominante (não só a “cultura das telenovelas”, mas também a cultura de certas elites pretensamente iluminadas) vende a imagem do amor interesseiro, condicionado e efémero, o amor de Deus constitui um tremendo desafio aos batizados. O amor de Deus é universal. Não marginaliza nem discrimina ninguém, não distingue entre amigos e inimigos, não condena irremediavelmente os que falharam nem os afasta do convívio de Deus.

Caros irmãos,

O Pai nos reconciliou consigo pela morte de seu Filho. O cristão é chamado a romper as cadeias do mal, da violência e do pecado. O Apóstolo das Gentes, Paulo sublinha a compaixão, a misericórdia, o amor gratuito de Deus. Deus nos amou enquanto éramos inimigos e deu seu Filho por nós.

Que a liturgia de hoje nos faça entender a missão dos doze apóstolos que não é só deles: porque os doze apóstolos representam todo o mundo, a Igreja, tendo em vista que a missão do apostolado e do discipulado é manifestar o Reino de Deus, a vida nova, a comunhão, o mundo novo iniciado na morte-ressurreição de Jesus pelo derramamento do Espirito Santo. Amém!