toma sua cruz e me siga

Meus queridos Irmãos,

Na liturgia de hoje nós refletimos que Jesus vive um dos seus grandes momentos de intimidade com Deus, talvez refletindo sobre o sentido dos sinais messiânicos que lhe é dado fazer. Quer conscientizar seus discípulos daquilo que o Pai lhe faz ver. Pergunta quem, na opinião dos homens, ele é; e, depois de respostas aproximativas, que poderia ser João Batista ou Elias, pergunta também por quem os discípulos o têm. Pedro se torna porta-voz dos seus companheiros e diz: “Tu és o messias de Deus”. Jesus manda Pedro guardar esta intuição para si e explica por quê: o Filho do Homem deve sofrer e morrer, mas também ser ressuscitado. O povo ainda não entenderia isso. Só o entenderão depois de o ter transpassado, o que não deixa de ser mais um cumprimento das Escrituras, ou seja, da estranha lógica de Deus. Pois Jesus é o ponto final e a plenitude de toda uma linhagem de profetas rejeitados, messias assassinados, e de todos os servos e pobres de Deus. A pedagogia de Deus, que consiste em converter o homem não pela força, mas pelo exemplo do amor até o fim, atinge a plenitude em Jesus de Nazaré.

Caros irmãos,

Na Primeira Leitura(cf. Zc 12,10-11) não se sabe quem foi, historicamente, o “transpassado” de Zacarias 12. Foi um profeta, um “pastor”. Foi um mártir: sua morte significou uma catástrofe para o povo, mas também um novo início, conversão e volta a Deus. A liturgia de hoje relaciona este texto com a predição da Paixão de Jesus. Infundindo um espírito de graça e de consolação fará com que os habitantes de Jerusalém se arrependam contemplando “aquele a quem transpassaram” e o corem tanto quanto por um primogênito. A era da salvação depende, pois, de um sofrimento e morte misteriosa, comparável à do Servo.

Esta figura do “trespassado” faz-nos pensar em todos os “profetas” que lutam pela justiça e pela verdade e que são torturados, vilipendiados, massacrados por causa do seu testemunho incómodo. A identificação do “trespassado” com o próprio Deus nos diz que o profeta nunca está só e perdido face ao ódio do mundo, mas que Deus está sempre do seu lado; nos diz, também, que é de Deus que brota a missão profética, mesmo quando ela incomoda e questiona os homens. Pelo Batismo fomos constituídos profetas que se manifesta na fidelidade e no empenho na inquebrantável confiança no Deus que está ao nosso lado.

São João, o autor do Quarto Evangelho, verá em Jesus, morto na cruz e com o coração trespassado pela lança do soldado, a concretização da figura aqui evocada (cf. Jo 19,37).

Irmãos e Irmãs,

Na Segunda Leitura(cf. Gl. 3,26-29) observamos a superação de todas as discriminações em Cristo. Jesus é o fim da Lei. Nele se cumpre a promessa feita a Abraão. Nele são benditos todos os povos da terra, judeus e gentios: “todos” pela fé e o batismo, tornam-se semelhantes ao Filho, sendo eles mesmos filhos e co-herdeiros. Todas as diferenças tornam-se irrelevantes. Só o Cristo importa. Na comunhão em Cristo, já começam a desfazer-se as diferenças que dividem os homens. Jesus sabe que a fidelidade a esta decisão, de realizar o plano do Pai, num mundo dominado pelo pecado, lhe causará muito sofrimento, a recusa da parte do poder de então, por isso aceita livremente esta consequência da sua decisão, para não trair o amor fiel ao Pai e ao homem.

Aos gálatas, tentados a voltar à escravidão da Lei, São Paulo recorda a experiência libertadora que resultou da sua adesão a Cristo. Pelo Batismo, os crentes foram “revestidos de Cristo” e tornaram-se “filhos de Deus”. Dizer que os batizados foram “revestidos de Cristo” significa que entre os batizados e Cristo se estabeleceu uma relação que não é apenas exterior, mas que toca o âmago da existência: pelo Batismo, os cristãos assumiram a existência do próprio Cristo e tornaram-se, como Ele, pessoas que renunciaram à vida velha do egoísmo e do pecado, para viverem a vida nova da entrega a Deus e do amor aos irmãos. Em todos os crentes circula, agora, a vida do próprio Cristo; essa vida veste-os completamente, da cabeça aos pés. A primeira consequência que daqui resulta é que os cristãos são livres: eles receberam de Cristo uma vida nova e não estão mais sujeitos à escravatura do egoísmo, do pecado e da morte. A segunda consequência que daqui resulta é que os cristãos são iguais. Identificados com Cristo (porque todos – judeus e não judeus, homens e mulheres – foram revestidos da mesma vida), não há qualquer diferença ou discriminação quanto à raça, ou ao sexo; todos são “filhos”, com igual direito quanto à herança (todos são filhos do mesmo Pai e todos têm acesso, em Cristo, à mesma vida plena).

Irmãos e Irmãs,

Naquele tempo comentava-se que Jesus provinha de família pobre, que não fizera estudos especializados, mas ensinava coisas sábias, cheias de sentido, e com autoridade. Havia quem o julgasse um demagogo, outros um agitador. Na verdade, entretanto, ele fugia dos aplausos políticos. Alguns o acusavam de contestar o domínio romano sobre o país, mas Jesus mandara dar a César o que era de César. Outras viam nela a força do príncipe dos demônios, mas Jesus dava prova de santidade, incompatível com o mal. Acusavam-no de não observar o sábado, nem os jejuns prescritos, de comer com pecadores públicos. Então Jesus veio abolir todo este rigorismo, ou jurisdicismo para anunciar a vida plena, a salvação pela conversão e pela mudança de vida.

O comportamento de Cristo no Evangelho de hoje(cf. Lc. 9,18-24) deve ser o comportamento dos homens e das mulheres que seguem o Ressuscitado: a atitude de conversão, de mudança de vida e de busca da santidade. Os Apóstolos que conviviam com Jesus sabiam que ele era homem como eles, mas envolto em mistério. E o mistério tinha a ver com o divino. Todos conheciam a família de Jesus, mas suas palavras eram maiores que as doutrina dos rabis. Pedro expressou o que eles pensavam: era o Cristo, o enviado de Deus. Era preciso, aos poucos, que eles se convencessem de que o Cristo, o ungido de Deus, viera para restaurar a integridade das criaturas humanas, manchadas e fragmentadas pelo pecado. Era o Cordeiro de Deus que viera tirar o pecado do mundo e cumpriria essa missão, deixando-se pregar numa cruz. Sua morte, longe de ser um fim, tornar-se-ia fonte de graça sobre graça. Era a luz do mundo. Era o Filho de Deus vivo com poder de dar a vida divina a quantos nele acreditassem.

Meus queridos Irmãos,

Porque Jesus pediu a Pedro que não revelasse que Jesus era o Messias, o Cristo esperado? Isso porque o conceito de Messias, tanto na cabeça do povo quanto na cabeça dos doze apóstolos estava intimamente ligado à idéia do restabelecimento do Reino de Israel, como o único povo de Deus, plantando no coração do mundo. E o povo andava convencido de que isso só poderia acontecer através de uma revolução armada. Jesus precisava mudar esta mentalidade, porque o seu reino não era deste mundo, e era e é o Reino da paz, da partilha, da misericórdia, da acolhida, do perdão e do amor.

Jesus não podia morrer antes da hora, por isso era preciso calar a Pedro e seus companheiros. Deveriam primeiro ser testemunhas do ministério de Cristo, de seus ensinamentos, dentro de uma missão de retiro, um período de humildade e reclusão. O Cristo Ressuscitado é que é o Senhor. Páscoa que ele revela a plenitude de sua divindade salvadora.

Caros irmãos,

O Evangelho de hoje, e é bom isso ficar muito claro para os que buscam o caminho fácil das seitas, das buscas de “falsas vitórias”, de felicidade sem limite, quando a página sagrada, ao contrário define a existência cristã como um “tomar a cruz” do amor, da doação, da entrega aos irmãos. Supõe uma existência vivida na simplicidade, no serviço humilde, na generosidade, no esquecimento de si para se fazer dom aos outros. Na sociedade transloucada de hoje, em geral, e na Igreja em particular, encontramos muitos cristãos para quem o prestígio, as honras, os postos elevados, os tronos, os títulos são uma espécie de droga de que não prescindem e a que não podem fugir. Frequentemente, servem-se dos carismas e usam as tarefas que lhe são confiadas para se autopromover, gerando conflitos, rivalidades, ciúmes e mal-estar. À luz do “tomar a cruz e seguir Jesus” quem é Jesus, para nós? Cristo é aquele que está no centro da nossa existência, cujo “caminho” tem um real impacto no nosso dia a dia, cuja vida circula em nós e nos transforma, com quem dialogamos, com quem nos identificamos e a quem amamos, por isso o batizado “toma a sua cruz todos os dias e siga-Me…

Irmãos e Irmãs,

O MESSIAS se revela pelo sofrimento da Paixão redentora, que ele anuncia depois de impor silêncio aos discípulos. Vencer a morte pela morte é a manifestação como o Cristo de Deus.

Todo mundo sabe que existem distinções e, muitas vezes, discriminações no tratamento das pessoas. O que fazemos com isso na Igreja, na comunidade de Cristo? São Paulo, na segunda leitura de hoje, anuncia a igualdade de todos no sistema do senhor Jesus. Acabou o regime da lei judaica, que considerava o ser judeu um privilegio, por causa da aliança com Abraão e Moisés. A crucificação de Jesus, em nome desse regime antigo, marcou a chegada de um regime novo. Simplesmente observar a lei de Moisés já não é salvação para quem conhece Jesus, para quem sabe o que ele pregou e como ele deu sua vida por sua nova mensagem e por aqueles que nela acreditassem. Eles constituem o povo da Nova Aliança. São todos iguais para Deus, como filhos queridos e irmãos de Jesus – filhos com o Filho e co-herdeiros de seu Reino, continuadores do projeto que ele iniciou.

Não há mais judeu, nem grego, nem escravo, nem livro, nem homem e nem mulher. Não há mais rico ou pobre, analfabeto ou doutor: todos, todos, indistintamente são igualmente filhos de Deus pelo batismo. É preciso perder a sua vida, renunciar ao pecado, para encontrar o rosto sereno e radioso de Cristo ressuscitado. Quem se apega aos seus privilégios não vai encontrar a vida em Cristo. Só quem coloca suas vantagens a serviço dos irmãos, especialmente dos mais pobres, poderá participar da vida igual à de Cristo, na comunidade dos irmãos. O resumo é simples: é tomar a cruz todos os dias e seguir a Jesus. É perder a vida por causa de Cristo para que Cristo nos salve, Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal