Evangelizar

“Os discípulos foram catequizados pelo maior e mais santo catequista, o próprio Senhor Jesus. e nós também temos que conhecer as verdades de nossa fé” 

Irmãos e irmãs,

A missão de evangelização é urgente e pede de cada um de nós um grande despojamento. Por isso, o Evangelho deste domingo (Mc 6,7-13) nos pede que imitemos a Jesus. Os apóstolos recebem de Jesus a autoridade para curar, para exorcizar e fazer os sinais assim como Ele. Ao imitarem Jesus, os apóstolos faziam acontecer o Reino de Deus, convertendo os incréus, anunciando o Evangelho e dando continuidade ao Projeto de Jesus, projeto de seguimento, projeto de partilha, projeto de comunidade.

No domingo passado, refletimos que Jesus fora rejeitado pelos seus conterrâneos, pelo povo de Nazaré. Hoje, o Divino Mestre vem falar do envio dos seus apóstolos para a missão.

Essa missão tem muitos momentos de alegria e de contentamento espiritual; mas também suas grandes dificuldades, desilusões, incompreensões, perseguições e seus reveses.

Lembrando, ainda, a mensagem evangélica do domingo passado, o verdadeiro discípulo não pode e não deve estar preocupado em ser ou não ser aceito, e, muito menos, aplaudido no desempenho da sua missão. A conseqüência disso é não se preocupar com nada, nem com o que vai acontecer com sua vida, porque, se for necessário, terá que perder a sua vida em benefício do anúncio do Reino de Deus.

O mais importante é que todos nós sejamos fiéis ao projeto do Reino de Deus, fiéis ao Evangelho, comprometidos com a missão. Carregando a Cruz de Cristo, chegaremos todos à glória da ressurreição final.

Meus irmãos,

Jesus envia os seus discípulos para a missão.

Ora, todos nós temos que conhecer as verdades de nossa fé, por isso freqüentamos a catequese. Os discípulos também foram catequizados pelo maior e mais santo catequista, o próprio Senhor Jesus.

Depois de ser diplomados, de ter aprendido a missão, é hora de colocá-la em prática. É hora de colocar a mão na massa. Fé e vida, uma dialética muito importante na nossa caminhada de cristãos. Colocar no nosso cotidiano, em prática, tudo aquilo que vivemos e entendemos intelectualmente. Daí a grande advertência de Jesus aos seus discípulos: o DESAPEGO. Desapegar-se das coisas do mundo e apegar-se ao amor generoso do Sagrado Coração de Jesus. Deixar se contaminar pelo coração misericordioso e amoroso do Senhor da Messe e Pastor do Rebanho. Ser misericordioso, acolher com o abraço e o sorriso do Senhor que nos faz um apelo ingente: VEM E SEGUE-ME!

Para ser um verdadeiro discípulo, não devemos servir aos nossos projetos pessoais, mas devemos nos apagar, devemos nos aniquilar, para que o CRISTO APAREÇA E ILUMINE A NOSSA MISSÃO DE EVANGELIZADORES.

Evangelizamos para quem? Evangelizamos por quem? Evangelizamos quem?

Permitimo-nos ser evangelizados e nos tornamos evangelizadores somente para Jesus, o Ressuscitado.

Para pregar a Palavra de Deus, temos que nos desapegar até de nossos caprichos e vaidades pessoais. Precisamos nos tornar a ser instrumentos da misericórdia e da graça de Deus. O verdadeiro discípulo é aquele que se despega do pão, do dinheiro, das posses e bens materiais, da segurança, da vaidade, por isso Jesus adverte no Evangelho de hoje: “Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas” (Mc 6, 9).

O apóstolo é aquele que serve. Ele é o primeiro servidor, aquele que “serve com alegria”. O SERVIÇO passa pelo diálogo, pela escuta, pela comunicação necessária do entendimento e da partilha. É evangelizar a partir do prisma da necessária comunicação da paz e do amor. O apóstolo e o discípulo devem esquecer de si mesmo e preocupar-se com as coisas de Deus. Isso exige um despojamento contínuo da ostentação, da vaidade, das aparências falsas.

Irmãos e Irmãs,

A grande qualidade do cristão é colocada em relevo pelo Evangelho de hoje (cf. Marcos 6,7-13): ser testemunhas do Senhor Ressuscitado.

Jesus manda sacudir a poeira das sandálias, caso fossem rejeitados. Era um costume israelita, toda vez que, tendo estado em território pagão, regressavam para casa.

Pagãos agora não seriam mais os não-judeus, mas aqueles que não quisessem receber a Boa Nova de Jesus, o Reino das Bem-aventuranças. Pelo que nos ensina o Evangelho de hoje, os Apóstolos tiveram êxito na sua primeira missão, na sua primeira evangelização.

Outro aspecto a ser valorizado é a nossa vocação para evangelizar.

Pelo Batismo, somos todos lavados do pecado original e nos tornamos na Igreja cidadãos que têm direitos e deveres, obrigações.

Mas a nossa vocação batismal é eminentemente evangelizadora. A missão dos apóstolos de ontem é a missão dos discípulos de hoje e de amanha: “fui enviado para anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus” (Lc 4,43).

Os apóstolos seguiram a caminhada de Jesus percorrendo vilas, anunciando o Reino de Deus, curando doentes, exorcizando demônios e, mais do que tudo isso, valorizando a sua vocação profética anunciando o Evangelho da Salvação. Os apóstolos ontem, e nós hoje, somos convidados, com renovado ardor missionário, a ser uma Igreja inteiramente evangelizadora, misericordiosa e participativa, onde todos se sintam co-responsáveis no envio, no estudo, na vivência da palavra de Deus, dando testemunho e sendo testemunho vivo da missão do Senhor Ressuscitado.

As palavras de Jesus recomendam ainda aos discípulos que actuam por um tempo prolongado num determinado lugar, a moderação e o agradecimento para com aqueles que os acolhem. Quem é recebido numa casa ou num lugar como hóspede, deve converter-se numa bênção para essa casa e comportar-se com sobriedade, equilíbrio e maturidade. Com frequência os discípulos de Jesus têm de lidar com a oposição e a recusa da proposta que eles testemunham. É um fato que deve ser visto com normalidade e compreensão. No entanto, quando isto suceder, é missão dos discípulos alertar os implicados para a gravidade da recusa. Quem recusa as propostas de Deus, deve estar plenamente consciente de que está a perder oportunidades únicas e a afastar-se da sua realização plena, da vida verdadeira

Caros irmãos,

A primeira leitura apresenta-nos o exemplo do profeta Amós (Am 7,12-15). Escolhido, chamado e enviado por Deus, o profeta vive para propor aos homens – com verdade e coerência – os projetos e os sonhos de Deus para o mundo. Atuando com total liberdade, o profeta não se deixa manipular pelos poderosos nem amordaçar pelos seus próprios interesses pessoais.

Para Amós transparece a absoluta convicção de que o profeta é um homem de Deus, escolhido por Deus, chamado por Deus, enviado por Deus, legitimado por Deus. Deus está na origem da vocação profética; e a atuação do profeta só faz sentido se partir de Deus e se tiver como objectivo apresentar aos homens as propostas de Deus. É preciso que nós batizados – constituídos profetas pelo Batismo – tenhamos Deus como a referência de onde parte e para onde se orienta a nossa acção e missão proféticas. Nenhum profeta o é por sua iniciativa pessoal, ou para anunciar propostas pessoais; mas é Deus que nos chama, que nos envia e que está na base desse testemunho que somos chamados a dar no meio dos homens.

O profeta é um homem livre, que não se amedronta nem se dobra face aos interesses dos poderosos. Por isso, o profeta não pode calar-se perante a injustiça, a opressão, a exploração, tudo o que rouba a vida e impede a realização plena do homem. Amasias – o sacerdote que alinha ao lado dos poderosos, que defende intransigentemente a ordem estabelecida, que se compromete com ela, que vende a sua consciência para manter o lugar e que transige com a injustiça para não incomodar os poderosos – é um exemplo a não seguir… Amós, o profeta que não se cala nem se vende, que está disposto a arriscar tudo (inclusive a própria vida) para defender os pequenos e os fracos e que não hesita em propor os projetos de Deus para o homem e para o mundo, deve ser o modelo para qualquer batizado a quem Deus chama a cumprir uma missão profética no meio do mundo.

Amasias é o homem comodamente instalado nos seus privilégios, benesses, que cala a voz da própria consciência porque tem muito a perder e não quer arriscar; Amós é o profeta livre da preocupação com os bens materiais, que não está preocupado com a defesa dos próprios interesses, mas sim com a defesa intransigente dos interesses dos pobres e marginalizados, que são os interesses de Deus. A diferença entre os dois é a diferença entre aquele para quem os valores materiais são a prioridade fundamental e aquele para quem os valores de Deus são a prioridade fundamental. O verdadeiro profeta não pode colocar os bens materiais como a sua prioridade fundamental; se isso acontecer, perderá a sua liberdade profética e tornar-se-á um escravo de quem lhe paga.

A primeira leitura, também, ressalta a promiscuidade entre a religião e o poder. Trata-se de uma combinação que não produz bons frutos (como, aliás, a história da Igreja tem demonstrado nas mais diversas épocas e lugares). A Igreja, para poder exercer com fidelidade a sua missão profética, tem de evitar colar-se aos poderosos e depender deles, sob pena de ser infiel à missão que Deus lhe confiou. Uma Igreja que está preocupada em não incomodar o poder para manter privilégios fiscais, ou para continuar a receber dinheiro para as instituições que tutela, será uma Igreja escrava, de mãos atadas, dependente, que está longe de Jesus Cristo e da sua proposta libertadora.

Prezados irmãos,

São Paulo, na sua Carta aos Efésios(cf. Ef 1,3-10)nos mostra que Deus “elegeu-nos… para sermos santos e irrepreensíveis”. Já vimos que “ser santo” significa ser consagrado para o serviço de Deus. O que é que isto implica em termos concretos? Entre outras coisas, implica tentar descobrir o plano de Deus, o projeto que Ele tem para cada um de nós e concretizá-lo dia a dia com verdade, fidelidade e radicalidade. Jesus veio ao nosso encontro, cumprindo com radicalidade a vontade do Pai e oferecendo-Se até à morte para nos ensinar a viver no amor.

A Carta aos Efésios enfatiza, de forma clara, que Deus tem um projeto de vida plena e total para os homens, um projeto que desde sempre esteve na mente de Deus. É muito importante termos isto em conta: somos atores principais de uma história de amor que o nosso Deus sempre sonhou e que Ele quis escrever e viver conosco. No meio das nossas desilusões e dos nossos sofrimentos, da nossa finitude e do nosso pecado, dos nossos medos e dos nossos dramas, não esqueçamos que somos filhos amados de Deus, a quem Ele oferece continuamente a vida definitiva, a verdadeira felicidade.

A centralidade de Cristo nesta história de amor que Deus quis viver connosco. Jesus veio ao nosso encontro, cumprindo com radicalidade a vontade do Pai e oferecendo-Se até à morte para nos ensinar a viver no amor.

Irmãos e Irmãs,

O critério básico do evangelizador é a SANTIDADE DE VIDA E DE ESTADO. O Evangelizador não precisa ser especialista, capaz de discutir nas praças e nas ruas. Nem precisa ser um excelente orador, muito menos especialista somente nas coisas secundárias, ou melhor, nas coisas supérfluas.

Ser um bom evangelizador é ser santo, é ser simples, é ser coerente, é amar a Deus, temendo a sua Palavra e o seu Evangelho, fazendo da sua vida um santuário de salvação. A palavra do pregador será fidedigna, se acompanhada de uma prática que mostre no Reino de Deus em gestos e, particularmente, na mão na massa na prática.

OREMOS, pois, irmãos e irmãs, para que nossos líderes leigos e todos os fiéis em geral exerçam a sua missão com sua presença no mundo, na sua família, no seu trabalho, nas relações sociais, para que, dando testemunho do Cristo Ressuscitado, evangelizem aqueles que estão fora do grêmio da salvação e colaborem na implantação, aqui e agora, do reino de justiça e da paz. Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal