multiplicação dos paes

Meus queridos irmãos e minhas queridas irmãs,

A auto-revelação de Jesus é colocada no Evangelho de hoje(Jo 6,1-15), lido segundo a tradição joanina, para demonstrar um momento decisivo de fé dos discípulos. Refletimos o episódio da multiplicação dos pães, numa seqüência às leituras dos domingos precedentes. João fala da multiplicação dos pães como ponto de partida do discurso eucarístico e como seu sinal. Entretanto, a parte principal do trecho da multiplicação dos pães nós iremos refletir nos domingos seguintes.

Nós nos lembramos que, depois que os discípulos foram enviados para a missão pastoral, no domingo passado, foram convidados por Jesus para um retiro espiritual, para um momento de privilegiada oração e de súplicas ao Pai, para abençoar a missão que era feita em Seu nome. E, mais do que tudo isso, os discípulos que receberam um mandato de anunciar o Senhor deveriam voltar a Ele próprio para se enriquecerem com a água viva que saía de sua boca. Quando foram para o retiro espiritual nós vimos que a multidão que estava sem pastor pediu que Jesus viesse ao seu encontro.

É essa mesma multidão que caminhava para Jerusalém, que faz uma estadia em Cafarnaum. E o que fazem em Cafarnaum? Querem ver a Jesus, quer ouvir aquele que cura, aquele que é um profeta, que dá o pão da palavra e o pão da vida eterna.

Nós vimos no domingo precedente que Jesus teve compaixão do povo que estava naquela relva. Era tempo da Páscoa, esses peregrinos caminhavam para Jerusalém, para a Páscoa. Grande multidão que quer significar que o povo simples acolhia os ensinamentos de Jesus e caminhava à sua procura para ouvi-Lo, para converter-se ao seu Evangelho, para vivenciar os seus conselhos e para caminhar com Ele.

Irmãos e irmãs,

Jesus subiu ao monte para rezar ao Pai, para depois descer à planície para saciar a fome daquela multidão que, próxima da Páscoa, caminhava em busca daquele que era considerado o Salvador, o novo Messias.

Os montes sempre foram para os judeus a habitação de Deus. Ao falar de cima do monte, Jesus fala com a autoridade divina e, ao descer do monte, para fazer o discurso eucarístico na planície de Cafarnaum, vem revestido da força de Deus. Cristo é o novo mestre e guia. Jesus oferece seu corpo como alimento vindo do céu. A fartura do alimento distribuído, de cinco pães comem cinco mil pessoas e sobram doze cestos, sem contar as crianças e as mulheres, essa fartura indicava a bênção do Onipotente, dos céus, sinal da era messiânica, intervenção direta de Deus.

A Eucaristia será a maior de todas as bênçãos, porque será o próprio Filho de Deus que não só intervém com força divina, mas se deixa comer como fonte inesgotável de graças salvadoras. Quem lhe come o corpo e lhe bebe o sangue não terá mais fome nem sede, o que significa uma vida de alegria e de graça, que se completa na posse da divindade, da comunhão com Deus.

Irmãos e irmãs,

O pão que alimentou essas pessoas na planície de Cafarnaum tem um significado profundo para todos nós: Cristo é o próprio pão, o maná que desceu do Céu, dado em cada Santa Missa pela nossa salvação, alimento que nos conduz a Deus, que nos sacia para os embates da vida, alimento de salvação, alimento que pavimenta uma auto-estrada para o céu, o Reino das alegrias eternas.

Jesus, ao repartir o pão para cinco mil homens, inaugura um novo tempo na vida comunitária. Por isso, todos nós devemos repartir o pão como alimento que sacia e pão da palavra que alimenta nossa vida de fé. Palavra de fé, palavra de vida que é plenificada na Missa, com o alimento do Cristo, que se dá a nós como alimento de salvação.

Caros irmãos,

A Primeira Leitura(2 Reis 4,42-44) texto que nos conta que um homem de Baal-Shalisha trouxe a Eliseu o “pão das primícias”: vinte pães de cevada e trigo novo num saco. De acordo com Lv 23,20, o pão das primícias devia ser apresentado diante do Senhor e consagrado ao Deus, embora depois revertesse em benefício do sacerdote. Deve ser este costume que está subjacente ao episódio da entrega dos pães a Eliseu. Eliseu, no entanto, não conservou os dons para si, mas mandou reparti-los pelas pessoas que rodeavam o profeta. O “servo” do profeta não acreditava que os alimentos oferecidos chegassem para cem pessoas; no entanto, chegaram e ainda sobraram. Estamos, aqui, diante de uma sucessão de gestos que revelam generosidade e vontade de partilhar: do homem que leva os dons ao profeta e do profeta que não os guarda para si, mas os manda partilhar com as pessoas que o rodeiam. A descrição de uma milagrosa multiplicação de pães de cevada e de grãos de trigo sugere que, quando o homem é capaz de sair do seu egoísmo e tem disponibilidade para partilhar os dons recebidos de Deus, esses dons chegam para todos e ainda sobram. A generosidade, a partilha, a solidariedade, não empobrecem, mas são geradoras de vida e de vida em abundância.

Como é que Deus atua para saciar a fome de vida dos homens? É fazendo chover do céu, milagrosamente, o “pão” de que o homem necessita? A nossa primeira leitura sugere que Deus atua de forma mais simples e mais normal. É através da generosidade e da partilha dos homens (primeiro do homem que decide oferecer o fruto do seu trabalho; depois, do profeta que manda distribuir o alimento) que o “pão” chega aos necessitados. Normalmente, Deus serve-Se dos homens para intervir no mundo e para fazer chegar ao mundo os seus dons. Muitas vezes sonhamos com gestos espectaculares de Deus e vivemos de olhos fixos no céu à espera que Deus Se digne intervir no mundo; e acabamos por não perceber que Deus já veio ao nosso encontro e que Ele Se manifesta na ação generosa de tantos homens e mulheres que praticam, sem publicidade, gestos de partilha, de solidariedade, de doação, de entrega. É preciso aprendermos a detectar a presença e o amor de Deus nesses gestos simples que todos os dias testemunhamos e que ajudam a construir um mundo mais justo, mais fraterno e mais solidário.

Irmãos e Irmãs,

A Carta aos Efésios (que temos vindo a refletir e cujo texto vai continuar a acompanhar-nos nos próximos domingos) parece ser uma “carta circular”, enviada a várias comunidades cristãs da parte ocidental da Ásia Menor, inclusive aos cristãos de Éfeso. É considerada uma “carta de cativeiro”, escrita por Paulo da prisão. De qualquer forma, é um texto bem trabalhado, que apresenta uma catequese sólida e bem elaborada. Poderia ser um texto da fase “madura” de Paulo. Alguns autores consideram a Carta aos Efésios uma espécie de síntese do pensamento paulino.
O texto que hoje nos é proposto como segunda leitura é o início da parte moral e parenética da carta (cf. Ef 4,1-6,20). Temos, aí, uma espécie de “exortação aos batizados”, na qual Paulo reflete longamente sobre a edificação e o crescimento do “Corpo de Cristo”. Em termos sempre bastante concretos, São Paulo dá pistas aos cristãos acerca da forma como eles devem viver os seus compromissos com Cristo, de forma a chegarem a ser Homens Novos.

A segunda leitura(Efésios 4,1-6) ajuda-nos a sentir o ambiente de reunião escatológica que marca a multiplicação dos pães, realização do banquete escatológico anunciado em Is 25,6-8. Esse banquete é para todos os povos, demonstrando o universalismo da unidade e da salvação da Igreja, resumida na leitura de Ef 4,4-6: “Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos”.

Jesus não veio propriamente para distribuir cestas básicas e ser eleito político, para resolver problemas sociais. É preciso caminhar para o fundamental: que conheçam o Deus de amor e de justiça que se revela em Jesus. É para isso que o Mestre vai pronunciar o Sermão do Pão da Vida, como veremos nos domingos seguintes.

Para que a unidade seja possível, Paulo recomenda aos destinatários da Carta aos Efésios a humildade, a mansidão e a paciência. São atitudes que não se coadunam com esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de preconceito em relação aos irmãos.

Oremos, irmãos, para que Deus nos ensine cada vez mais a repartir o pão da vida e o pão da palavra. Lembre-se que a sua parte deve ser feita, porque o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada. A política de Deus é a da partilha, do amor, da acolhida e da solidariedade. Estas políticas pessoais, cada vez mais esquecidas por nós.

Ajude-nos a Providência a caminhar e a repartir, valorizando a Eucaristia como momento privilegiado de nossa caminhada de fé. Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal