Homilia Pedi e recebereis

Meus queridos Irmãos,

Este domingo é voltado totalmente para o modo e o jeito de rezar de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Assim nosso relacionamento espiritual para com a Santíssima Trindade é evidenciada nesta liturgia, quando pediremos e receberemos do Senhor da Vida e da História. Aquele que sustenta todo ser deve, também, sustentar a nossa vida cotidiana. Jesus nos ensinou a pedir e a suplicar, até com insistência. Fala de uma viúva que pede, pede até cansar o juiz; de um vizinho que bate, à noite, até que o dono se levanta para se ver livre dele, conforme nos ensina o Evangelho. Faz pensar em Abraão, que, ao rezar por Sodoma e Gomorra, conforme a primeira Leitura, se lê a lição de Deus: “Não podes perder os justos com os injustos, é uma questão de honra!” E Deus atende: “Cada vez que te invoquei, me deste ouvido”, reza o Salmo Responsorial, Salmo 138.

Caros irmãos,

A Primeira Leitura(cf. Gn 18,20-32) nos apresenta a oração de Abraão por Sodoma e Gomorra. O pecado de Sodoma e Gomorra clama ao céu, mas Deus não pode julgar conforme os muitos injustos, porém, deve poupar a cidade por causa de poucos justos: é o que lhe pede Abraão. É uma questão de honra para Deus. O Juiz do mundo(Gn 18,25) é também amigo, o Pai(cf. Lc. 11,8). Se poucos justos lhe são suficientes(embora não os houvesse em Sodoma) para salvar muitos, a vida de um justo, seu Filho, salvará a todos.

O diálogo entre Abraão e Deus a propósito de Sodoma confirma esse Deus da comunhão, que vem ao encontro do homem, que entra na sua casa, que Se senta à mesa com ele, que escuta os seus anseios e que lhes dá resposta; e mostra, além disso, um Deus cheio de bondade e de misericórdia, cuja vontade de salvar é infinitamente maior do que a vontade de condenar. É esse Deus “próximo”, cheio de amor, que quer vir ao nosso encontro e partilhar a nossa vida que temos de encontrar: só será possível rezar, se antes tivermos descoberto este “rosto” de Deus. A “oração” de Abraão é paradigmática da “oração” do crente: é um diálogo com Deus – um diálogo humilde, reverente, respeitoso, mas também cheio de confiança, de ousadia e de esperança. Não é uma repetição de palavras ocas, gravadas e repetidas por um gravador ou um papagaio, mas um diálogo espontâneo e sincero, no qual o crente se expõe e coloca diante de Deus tudo aquilo que lhe enche o coração.

Irmãos e Irmãs,

A Segunda Leitura(cf. Cl 2,12-14) nos ensina que as nossas dívidas são saldadas por Cristo. O sacramento, que é sinal da pertença de Deus, do Antigo Testamento era a circuncisão. Jesus se lhe submeteu, como a toda a Lei, mas assumiu toda a condição humana e a sepultou consigo na sua morte, para criar o Homem Novo na ressurreição. O que acontece a Cristo, acontece para nós: no batismo somos corressuscitados com Cristo. Com ele somos agora livres.

A Palavra de Deus afirma a absoluta centralidade de Cristo na nossa experiência cristã. É por Ele – e apenas por Ele – que o nosso pecado e o nosso egoísmo são saneados e que temos acesso à salvação – quer dizer, à vida nova do Homem Novo. É nisto que reside o fundamental da nossa fé e é à volta de Cristo (da sua vida feita doação, entrega, amor até à morte) que se deve centralizar a nossa existência de cristãos. Ao denunciar a atitude dos Colossenses (mais preocupados com os poderes dos anjos e com certas práticas e ritos do que com Cristo), São Paulo nos adverte para não nos deixarmos afastar do essencial por aspectos secundários. O critério fundamental, no que diz respeito à vivência da nossa fé, deve ser este: tudo o que contribui para nos levar até Cristo é bom; tudo o que nos distrai de Cristo é dispensável.

Caros fiéis,

Jesus hoje nos ensina que o amor ao próximo e o amor a Deus vivem-se em comunidade orante. Três pilastras do cristão, que nunca sabemos se acabam sendo uma só ou se é possível distingui-las: a oração, a escuta da Palavra e a ação missionária. Elas são simultâneas e se exigem.

Não há santo que não tenha sido pessoa de oração. Tanto o cristão individualmente quanto à comunidade são, por definição, orantes. Quando Paulo escrevia aos tessalonicenses: “Orai sem interrupção”(cf. 1Ts 5,17), ou aos romanos: “Sede perseverantes na oração”(cf. Rm 12,12), estava falando do estado e vida normal dos cristãos.

Jesus nos ensinou a orar, a começar pelos seus apóstolos que com ele aprenderam a rezar. Embora tenha ensinado no Evangelho de hoje uma fórmula, não está na fórmula a oração. Porque a oração é uma atitude do ser humano em conversa com Deus. O próprio Jesus recordou-nos que a oração não está nas palavras: “Nas orações não faleis muitas palavras como os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por causa das muitas palavras. Não o imiteis”(cf Mt 6,7-8).

Meus prezados amigos,

Todos nós aprendemos hoje um tratado sobre a vida de oração. Temos que pedir, com que palavras devemos pedir e fala-nos da força da oração e da confiança com que devemos rezar. A lição é dada pelo próprio Jesus num momento em que ele mesmo estava rezando. A oração verdadeira é coisa tão íntima e pessoal que ninguém consegue penetrar na oração de um santo, mesmo quando tenha deixado fórmulas escritas. Como Jesus, os santos deixam a certeza de que a oração é essencial, mostram-nos alguns princípios e modelos, fornecem-nos textos. Mas tudo isso é muito pouco, se não fizermos a experiência pessoal de nossa oração, se não juntarmos nossa inteligência e vontade, nosso sentimento, nosso ser inteiro e com ele dialogarmos com Deus, na humildade de criaturas e na confiança de filhos.

A oração requer a escuta da Palavra de Deus. Muitas vezes escutamos as nossas próprias necessidades, ideologias e vaidades e esquecemos de nosso contacto com Deus mesmo.  Oração que vem junto da misericórdia, que rezamos há dois domingos.

Irmãos e Irmãs,

Jesus rezou em lugares públicos e no deserto. Jesus e o Pai. Jesus na sua intimidade da oração, quando reza pelos Apóstolos, por Pedro, por aqueles que o perseguem. Hoje vemos Jesus como homem de intimidade profunda na oração, como o mestre que oferece a comunidade um verdadeiro catecismo sobre a oração. E é Lucas o Evangelista que recolhe uma série de textos usados pelas primeiras comunidades cristas, como o Magnificat, o Cântico de Zacarias, o Cântico de Simeão, o Canto dos Anjos, o Hino de Jesus de louvor ao Pai e o Pai Nosso.

Jesus nos pede uma oração constante. A nossa oração deve ser insistente, perseverante e contínua. O Pai Nosso nos é dito o que devemos pedir. A parábola nos ensina como devemos pedir. Cada um dos verbos empregados tem seu sentido. O verbo pedir, por exemplo, pressupõe o reconhecimento de que somos pobres e necessitados. O verbo procurar marcar um dos temas que volta na Escritura todas as vezes que a criatura se coloca diante de Deus e do destino eterno que a espera. Poderíamos dizer que somos um ser à procura. Jesus sabe disso e diz que a procura não é vã para os que crêem. No fim da procura encontramos quem e o que procuramos: a divindade perdida, a participação nas coisas divinas, a convivência eterna com Deus numa só família.

Caros irmãos,

O Evangelho de Lucas sublinha o espaço significativo que Jesus dava, na sua vida, ao diálogo com o Pai – nomeadamente, antes de certos momentos determinantes, nos quais se tornava particularmente importante o cumprimento do projeto do Pai. A forma como Jesus Se dirige a Deus mostra a existência de uma relação de intimidade, de amor, de confiança, de comunhão entre Ele e o Pai (de tal forma que Jesus chama a Deus “papá”); e Ele convida os seus discípulos a assumirem uma atitude semelhante quando se dirigem a Deus…

Irmãos e Irmãs,

“Ninguém salva a ninguém. Será? Ninguém é salvo se não quer. Mas, em Cristo, existe uma comunhão de vida entre aqueles que buscam a fonte da vida, que é Deus. Esta comunhão de vida faz com que Cristo nos redima”(cf. Cl. 2,12-14). Desde que participemos da vida que ele viveu podemos dizer que a santidade de Cristo salda nossas dívidas e que sua morte por amor supre nossa falta de amor. Como nós mesmos perdoamos alguém a pedido de uma pessoa amigo, assim nossa comunhão com Cristo vale para nos restabelecer na amizade de Deus. E também nossa oração de intervenção junto a Deus será eficaz.

Na medida que a sua oração de súplica é verdadeiramente a de filho adotivo, o cristão tem a certeza de ser atendido. Mas isso exige um longo aprendizado, um progressivo despojamento de si, a fim de que a oração de súplica se purifique a tenda a identificar-se com a ação de graças: “Pai, faça-se a tua vontade, não a minha”.

Uma coisa é certa. Se pedirmos com confiança o dom do Espírito Santo, ele nos será concedido. E se possuirmos o Espírito do Senhor e o seu santo modo de agir, temos tudo. Ele nos há de ajudar a acolher todas as coisas e acontecimentos das mãos de Deus. Ele nos faz possuir Cristo. E isto nos basta. Temos a própria Salvação.

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal.