º Domingo do tempo comum - A - Homilia tesouro escondido
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Irmãos e Irmãs,

Nos tempos em que a Santa Igreja coloca os pobres no centro da atenção pastoral, resgatando a sua dignidade, atentamo-nos tanto para essa triste realidade de alguns desafortunados que corremos o risco de nos esquecer do exemplo de algumas pessoas ricas, como o caso o rei Salomão. Ele não pediu a Deus riqueza, e sim sabedoria, isto é, o dom de distinguir entre o bem e o mal (cf. 1Rs 3,5ss). Neste sentido, Salomão prefigura o negociante da parábola da pérola, homem de bem, mas perspicaz: arrisca tudo o que tem num investimento melhor.

A primeira leitura – 1 Reis 3,1.7-12 – nos apresenta um sonho: os catequistas deuteronomistas vão utilizar este recurso literário para apresentar Salomão como “o escolhido” de Deus, a quem Jahwéh comunica os seus projetos e a quem confia a condução do seu Povo. O “sonho” de Salomão está estruturado na forma de um diálogo entre Deus e Salomão. Há, em primeiro lugar, uma interpelação de Deus (“que posso Eu dar-te?”); e há, depois, uma resposta de Salomão: consciente da grandeza da sua tarefa e das suas próprias limitações, o jovem rei pede a Deus que lhe dê um coração “sábio” para governar com justiça. A prece do rei é atendida e Deus concede a Salomão uma “sabedoria” inigualável (na continuação – que, todavia, o nosso texto de hoje já não apresenta – Deus acrescenta ainda outros três dons: a riqueza, a glória e a longa vida – cf. 1 Re 3,13-14).

Em termos religiosos, qual a mensagem que os autores deuteronomistas pretendem deixar com esta “ficção”? Antes de mais, o nosso texto deixa claro que, em Israel, o rei é o “instrumento de Deus”, o intermediário entre Deus e o seu Povo. É através da pessoa do rei que Deus governa, que intervém na vida do seu Povo e o conduz pela história. Depois, o texto mostra que Salomão não concebeu o seu papel como um privilégio pessoal que podia ser usado em benefício próprio, mas sim como um ministério que lhe foi confiado por Deus.

Salomão tinha consciência de que a autoridade é um serviço que deve ser exercido com “sabedoria” e que o objetivo final desse serviço é a realização do bem comum. Finalmente (e é talvez o aspecto mais significativo para o tema da liturgia deste domingo), os autores deuteronomistas sublinham a “qualidade” da resposta de Salomão: ele não pede riqueza nem glória, mas pede as aptidões necessárias e a capacidade para cumprir bem a missão que Deus lhe confiou. Salomão aparece aqui como o modelo do homem que sabe escolher as coisas importantes e que não se deixa distrair por valores efémeros. Dizer que a súplica de Salomão “agradou ao Senhor” (vers. 10) é propor aos israelitas que optem pelos valores eternos, duradouros e essenciais.

Infelizmente, nestes tempos difíceis em que vivemos, algumas pessoas e grupos com um peso significativo na opinião pública procuram vender a ideia de que a realização plena do indivíduo está num conjunto de valores que decidem quem pertence à elite dos vencedores, dos que estão na moda, dos que têm êxito. Em muitos casos, esses valores propostos são realidades efêmeras, materiais, secundárias, relativas. Quase sempre, por detrás da proposição de certos valores, estão interesses particulares e egoístas, a tentativa de vender determinada ideologia ou a preocupação em tornar o mercado dependente dos produtos comerciais de determinada marca.

O “sábio”, contudo, é aquele que está consciente destes mecanismos, que sabe ver com olhar crítico os valores que a moda propõe, que sabe discernir o verdadeiro do falso, que distingue o que apenas tem um brilho dourado daquilo que, na essência, é um tesouro que importa conservar. O “sábio” é aquele que consegue perceber o que efetivamente o realiza e lhe permite levar a cabo, dentro da comunidade, a missão que lhe foi confiada.

A figura de Salomão interpela também todos aqueles que detêm responsabilidades na comunidade (seja em termos civis, seja em termos religiosos). Convida-os a uma verdadeira atitude de serviço: o seu objetivo não deve nunca ser a realização dos próprios esquemas pessoais, mas sim o benefício de toda a comunidade, a concretização do bem comum.

Meus irmãos e minhas irmãs,

Estamos caminhando no Tempo Comum, refletindo neste domingo a necessidade de procurar viver o seguimento do Senhor (cf. Am 5,6). Nesse sentido, a Liturgia nos leva a refletir da necessidade de nos desfazermos de tudo o que possuímos para adentrar na realização do projeto do Reino de Deus entre nós.

O Reino de Deus para Jesus é tão significativo na vivência do seguimento cristão que tudo aquilo que está ao largo passa a ser considerado “resto”.

O Evangelista São Mateus nos coloca duas parábolas no Evangelho de hoje, em que fala de dois homens, um lavrador e um comerciante, que trabalham, procuram, encontram, compram e vendem… todas essas atividades que as pessoas comuns praticam no quotidiano de suas vidas. O que nos retém, entretanto, na mente em importância sintática são as palavras tesouro e pérola. Tesouro e pérola, numa alusão à sabedoria que é colocada pelo Antigo Testamento, para se aproximar da figura que se tornou realidade, chamada REINO DOS CÉUS.

Irmãos e Irmãs,

Continuamos nossa caminhada de fé estudando e degustando os significados quotidianos da palavra de Jesus que nos chega, pelo terceiro domingo consecutivo, pelas figuras de linguagem presentes nas parábolas descritas no capítulo 13 do Evangelista Mateus. Parábolas que contêm símbolos e comparações. É difícil falar das coisas de Deus em palavras, daí a necessidade de recorrermos tantas vezes a símbolos e comparações, exatamente como fez Jesus.

O Reino dos Céus, da forma como nos expõe o Evangelho deste domingo(cf. Mt 13,44-52), refere-se à presença ativa de Deus, embora sempre misteriosa, no mundo e entre as criaturas humanas. Trata-se de um modo de viver, aqui e agora, na presença divina, invisível, mas, de certo modo, sensível por seus sinais.

Devemos que ter presente um comportamento consciente e conseqüente que constrói a vida segundo o modelo da própria vida de Jesus na terra. Os dois homens, ambos da vida de cada dia, ou seja, o agricultor e o comerciante, não fazem nada de extraordinário, concorrendo apenas para encontrar um tesouro ou descobrir uma pérola, porque o Reino de Deus não é um privilégio, mas uma conquista de caridade, de misericórdia e de perdão.

Irmãos e Irmãs,

Jesus coloca que o “Reino dos Céus é um tesouro, que se busca com justiça e santidade”, como algo que provém do Divino Salvador. O Evangelho deste domingo ensina que o Reino de Deus vale mais do que todos os outros bens que um homem possa ter, como terras, carros, propriedades, nomes e sobrenomes famosos. Para se conquistar o Reino de Deus, vale a pena desfazer-se de tudo o que se tem. Não importa se temos muito ou pouco. Importa, entretanto, é que se troque tudo pelo Reino de Deus, deixando tudo que oprime ou escraviza de lado.

O lavrador conseguiu grande alegria porque consegui o Reino dos Céus.

A parábola da pedra preciosa nos é apresentada com o mesmo significado da parábola do tesouro: a procura da graça de Deus, do reino das bem-aventuranças. Por isso, todos nós somos convidados, com insistente pedido, a procurar “o Reino dos Céus em primeiro lugar” (cf. Mt 6,33).  Essa busca é colocada com o mesmo empenho em que o Filho de Deus veio “buscar o que estava perdido” (cf. Lc 19,10), pelo que todos nós somos convidados a lançar as redes mais profundas e voltar nossas ações, pensamentos e atitudes para o Reino das Bem-aventuranças.

Busca difícil!

Mas Deus, que agregou a si até o pecado, perdoando os pecadores, é quem nos dá força para buscar as coisas do Alto, com amor e compreensão. Quanto mais perto da pessoa amada se chega, tanto maior ela se torna. E quanto mais compreendemos um assunto, mais extenso e mais profundo se nos depara. “Estou onde está o meu pensamento – nos diz a Imitação de Cristo – e o meu pensamento, de ordinário, está onde está o que amo” (cf. Livro III cap. 48, 5). Logo, se nos deixamos seduzir pelo amor e a compreensão divinas, estaremos sempre unidos a Deus.

O Reino de Deus tem valor infinito e nenhuma jóia tem algum valor perante a grandiosidade da misericórdia do Reino das Bem-aventuranças. Mas, para alcançarmos essa bem-aventurança, temos que abominar o pecado e acolher o pecador, ter capacidade de desprendimento, de perdão, de solidariedade, de amizade, de recomeçar, de caminhar juntos, de amar e de servir, dentro da dialética do Reino de Deus. Em suma, temos que relativizar todos os bens do mundo e valorizar os bens do Céu, cujo mandamento máximo é o seguinte: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.

Caros irmãos,

Para Mateus, não há qualquer dúvida: ser cristão é ter como prioridade, como objetivo mais importante, como valor fundamental, o Reino. O cristão vive no meio do mundo e é todos os dias desafiado pelos esquemas e valores do mundo; mas não pode deixar que a procura dos bens seja o objetivo número um da sua vida, pois o Reino é partilha. O cristão está permanentemente mergulhado num ambiente em que a força e o poder aparecem como o grande ideal; mas ele não pode deixar que o poder seja o seu objetivo fundamental, porque o Reino é serviço. O cristão é todos os dias convencido de que o êxito profissional, a fama a qualquer preço são condições essenciais para triunfar e para deixar a sua marca na história; mas ele não pode deixar-se seduzir por esses esquemas, pois a realidade do Reino vive-se na humildade e na simplicidade. O cristão faz a sua caminhada num mundo que exalta o orgulho, a autossuficiência, a independência; mas ele já aprendeu, com Jesus, que o Reino é perdão, tolerância, encontro, fraternidade.

A decisão pelo Reino, uma vez tomada, não admite meias tintas, tibiezas, hesitações, jogos duplos. Escolher o Reino não é agradar a Deus e ao diabo, pactuar com realidades que mutuamente se excluem; mas é optar radicalmente por Deus e pelos valores do Evangelho.

Mais uma vez o Evangelho nos convida a admirar (e a absorver) os métodos de Deus, que não tem pressa nenhuma em condenar e destruir, mas dá tempo ao homem – todo o tempo do mundo – para amadurecer as suas opções e fazer as suas opções.

Irmãos e Irmãs,

Observando a Segunda Leitura desta Celebração, encontramos um dos textos maiores da Carta aos Romanos(cf. 2Rom 8,28-30). Mostra-nos Deus que, como um bom empreiteiro, faz todo o necessário para o bem daqueles que O amam, levando a termo a execução de seu “desenho”. De antemão, Ele conheceu os que queria edificar, como um arquiteto tem sua obra na cabeça; Ele os projetou conforme o protótipo: Jesus mesmo, seu filho querido, com quem ele gostaria que todos se assemelhassem.

E aos que assim planejou, também os escolheu, os justificou e, arrematando sua obra, os glorificou. Como bom empreiteiro, Deus faz tudo o que for preciso para arrematar a salvação naqueles que se dispõem para ela. E, mais ainda, como conhece o coração de cada um, Ele também perscruta os que se prestam à salvação e os que não se dispõem a participar de sua obra de misericórdia.

A teologia paulina é clara a este respeito: o projeto salvador de Deus está aberto a todos aqueles que querem acolhê-l’O. O que São Paulo sublinha é que se trata de um dom gratuito de Deus e que esse dom está previsto desde toda a eternidade.

Em todas as cartas de Paulo transparece o espanto que o apóstolo sente diante do amor de Deus pelo homem. Este tema está, contudo, especialmente presente na Carta aos Romanos. O nosso texto nos convida a dar conta – outra vez – desse fato extraordinário que é o amor de Deus (amor que o homem não merece, mas que Deus, com ternura, insiste em oferecer, de forma gratuita e incondicional), traduzido num projeto de salvação preparado desde sempre, e que leva Deus a enviar ao mundo o seu próprio Filho para conduzir todos os homens e mulheres a uma nova condição.

Numa época marcada por uma certa indiferença face a Deus, este texto nos convida a tomar consciência de que Deus nos ama, vem continuamente ao nosso encontro, aponta-nos o caminho da vida plena e verdadeira, desafia-nos à identificação com Jesus, convida-nos a integrar a sua família. Nós, os batizados, somos convidados a conduzir a nossa vida à luz desta realidade; e somos convocados a testemunhar, com palavras, com ações, com a vida, no meio dos irmãos que dia a dia percorrem conosco o caminho da vida, o amor e o projeto de salvação que Deus tem.

Diante da oferta de Deus, somos livres de fazer as nossas opções – opções que Deus respeita de forma absoluta. No entanto, a vida plena está no acolhimento desse “valor mais alto” que é o seguimento de Jesus e a identificação com Ele.

Quem optar por acentuar a linha escatológica desta Liturgia, nunca se esqueça que nenhum bem terreno deve impedir o nosso desejo de salvação. A alegria do Reino poderá não ser a alegria que o mundo propõe. Entrar no Reino dos Céus nos faz lembrar as palavras de Santa Paulina: “Há anos não gozo tanta paz como agora, embora o Senhor mande sempre alguma coisa para sofrer, como a sujeição nos ofícios etc, mas tudo é suavizado pela caridade. Enfim, Deus seja bendito em todas as coisas”.

Investir no Reino de Deus é amar, servir e perdoar, do contrário nos espera o Reino das Trevas….