Homila, O pão da vida

Meus queridos irmãos,

A liturgia de hoje está envolvida de uma bonita atmosfera: FIDELIDADE para com DEUS e para com a ALIANÇA que Ele estabeleceu para conosco.

A primeira leitura (1 Reis 19,4-8) é repleta de significado para nós: ela iluminará o Evangelho. O primeiro livro dos Reis conta a história de Elias. O mesmo Deus que alimentou o povo no deserto agora alimenta Elias. Depois de comer, Elias quer descansar. Entretanto, Deus o faz caminhar, pela força do alimento recebido, 40 dias e 40 noites, até a montanha de Deus. O que significa isso? Não somente relembra os 40 anos em que o povo peregrinou no deserto, mas significa que a comida dada a Elias é o alimento para os embates da nossa vida.

Se Elias, assaz cansado, ao ser alimentado por Deus caminhou 40 dias e 40 noites, todos nós, ao recebermos o Pão da Vida, o próprio Cristo, poderemos repetir a missão de Elias. Uma leitura do Antigo Testamento que, iluminada pelo Evangelho, demonstra-nos a força da Eucaristia que faz a Igreja.

Deus não abandona aqueles a quem chama a dar testemunho profético. No “pão cozido sobre pedras quentes” e na “bilha de água” com que Deus retempera as forças de Elias, manifesta-se o Deus da bondade e do amor, cheio de solicitude para com os seus filhos, que anima os seus profetas e lhes dá a força para testemunhar, mesmo nos momentos de dificuldade e de desânimo. Quando tudo parece cair à nossa volta e quando a nossa missão parece condenada ao fracasso, é em Deus que temos de confiar e é n’Ele que temos de colocar a nossa segurança e a nossa esperança.

Irmãos e irmãs,

No Evangelho (Jo 6,41-51), os judeus murmuravam contra Jesus, por causa de suas afirmações. No deserto, exatamente no contexto da doação do maná, os judeus murmuravam contra Moisés. “As murmurações de vocês não são contra mim, mas contra o Senhor” (Ex 16,8), interpela-os Moisés.

Murmurar significa, para João, falta de fé, insinuando que, de qualquer maneira, triunfará a verdade de Deus. Assim como as murmurações no deserto, na verdade, não eram contra Moisés, mas contra Deus, assim também, agora, a murmuração não alcança apenas a pessoa de Jesus, que eles acreditavam apenas homem, mas alcançava o próprio Deus, que o escolhera e o enviara.

Os judeus estranhavam a linguagem de Jesus. Os judeus conheciam José e Maria e, portanto, sabiam quem eram concretamente os pais de Jesus. Como podia Jesus dizer que descera do céu? Apesar da Encarnação por obra e graça do Espírito Santo, Jesus era conhecido como filho de José. A fé está novamente colocada em tela pelo Evangelho. Os olhos do corpo veem apenas o parentesco físico. A cegueira dos judeus não permitia que enxergasse naquele menino o FILHO DE DEUS.

Aceitando Jesus como o enviado de Deus, aceitaremos sua palavra, seu ensinamento, sua verdade. A aceitação de Jesus, embora nos exija a humildade e o reconhecimento de que nada podemos sozinhos (Jo 15,4-5), implica num sincero esforço de nossa parte, numa caminhada de fé. É nesse esforço pessoal, na abertura e iluminação desse caminho que entra o Espírito Santo e faz-nos compreender a origem e a missão de Jesus, seus ensinamentos e sua paixão, sua páscoa e glorificação.

A fé é e sempre será obra e graça divinas. A fé é um diálogo entre Deus, que nos atrai a Jesus Cristo e nós, que nos dispomos a escutar sua palavra e a vivê-la. Escutar Jesus alimenta-nos para a vida com Deus, para sempre. Ora, João diz que quem crê já tem a vida eterna. Como é essa vida eterna, divina? Será talvez esse bem-estar incomparável que sentimos quando ficamos mortos de cansaço por nos termos dedicado aos nossos irmãos até não poder mais? Portanto, sermos ensinados por Deus significa que, mediante a adesão à existência que Jesus viveu até a morte, abrimos em nossa vida espaço para a dimensão divina e definitiva de nossa vida, dimensão que lhe confere um sentido inesgotável e irrevogável: o sentido de Deus mesmo.

Assim, irmãos e irmãs, a segunda leitura (Ef 4,30-5,2) nos ensina a imitar a Deus – no perdão mútuo – e a amar como Cristo nos amou. Em outros termos, nossa vocação de sermos semelhantes ao Pai se realiza na medida em que assumimos a existência de Cristo, dando-lhe crédito e imitando-o. Seguir Cristo e ser um Homem Novo implica, na perspectiva de Paulo, assumir uma nova atitude nas relações com os irmãos. O apóstolo chega a especificar que o azedume, a irritação, os rancores, os insultos, as violências, a má-língua, a inveja, os orgulhos mesquinhos devem ser totalmente banidos da vida dos cristãos. Esses “vícios” são manifestações do “homem velho” que não cabem na existência de um “filho de Deus”, cuja vida foi marcada com o selo do Espírito. É necessário que estejamos cientes desta realidade: quando na nossa vida pessoal ou comunitária nos deixamos levar pelo rancor, pelo ciúme, pelo ódio, pela violência, pela mesquinhez e magoamos os irmãos que nos rodeiam, estamos a ser incoerentes com o compromisso que assumimos no dia do nosso Baptismo e a cortar a nossa relação com a família de Deus.

Por isso, a primeira leitura ilumina o Evangelho: é a vida que Deus quer e o pão que alimenta essa vida é Jesus. Alimenta-a pela palavra que falou, pela vida que viveu, pela morte de que morreu: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. O Pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 6,51).

Caros irmãos,

Esta “doença” de que padecem os líderes e “fazedores” de opinião do mundo judaico não é assim tão rara… Todos nós temos alguma tendência para a acomodação, a instalação, o aburguesamento; e quando nos deixamos dominar por esse esquema, tornamo-nos prisioneiros dos ritos, dos preconceitos, das ideias política ou religiosamente corretas, de catecismos muito bem elaborados mas parados no tempo, das elaborações teológicas muito coerentes e muito bem arrumadas mas que deixam pouco espaço para o mistério de Deus e para os desafios sempre novos que Deus nos faz. É preciso aprendermos a questionar as nossas certezas, as nossas ideias pré-fabricadas, os esquemas mentais em que nos instalamos comodamente; é preciso termos sempre o coração aberto e disponível para esse Deus sempre novo e sempre dinâmico, que vem ao nosso encontro de mil formas para nos apresentar os seus desafios e para nos oferecer a vida em abundância.

Meus irmãos,

Tenhamos certeza de que todos nós temos limitações e momentos de crise. Nestes momentos de crise a fé na presença de Deus, fortalece-nos e nos põe novamente de pé para retomar a caminhada. Jesus provoca crise e momentos de ruptura, pois sua mensagem nem sempre agrada; muito pelo contrário, a Palavra nos faz interpelar pela Verdade única que é Jesus, o Ressuscitado.

Neste domingo dedicado aos pais, estes silenciosos homens que nos legaram a vida, recebam o carinho e as nossas orações para que continuem dando testemunho da fé católica, que supera todas as crises. A todos os pais, particularmente aos pais de nossa Paróquia, a nossa bênção afetuosa, pedindo-lhe que sejam pais comprometidos com a missão de anunciarem ao Cristo e que sejam comprometidos com uma família toda ela evangelizadora. Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal