Meus queridos Irmãos,

O mês de agosto vai chegando, como encantamento do mês vocacional, e as suas multifacetadas vocações, de ordem, como os bispos, presbíteros e diáconos; a paternidade, com o dia dos pais, com a Semana Nacional da Família, a vocação para a vida religiosa e consagrada, e, por fim, a vocação dos catequistas.

A liturgia nos propõe a vigilância, em que somos convidados à disponibilidade para acolher o Senhor, escutar os seus apelos e ajudar na construção do Reino de Deus.

Meus caros irmãos,

A Primeira Leitura(cf. Sb 18,6-9) nos apresenta a vigilância de Israel na noite da libertação. O trecho do livro da Sabedoria, no capítulo 10,19 descreve a atuação da divina Sabedoria na história de Israel. Na noite do Êxodo, ela castigou o Egito pela morte dos primogênitos; foi o juízo de Deus, para salvar Israel. Os pais prepararam-se para essa noite; era a noite da vigilância, em que eles no escondido celebravam Javé. Tal vigilância e fidelidade é tarefa para todas as gerações, até a libertação final.

A primeira leitura nos apresenta as palavras de um “sábio” anônimo, para quem só a atenção aos valores de Deus gera vida e felicidade. A comunidade israelita – confrontada com um mundo pagão e imoral, que questiona os valores sobre os quais se constrói a comunidade do Povo de Deus – deve, portanto, ser uma comunidade “vigilante”, que consegue discernir entre os valores efémeros e os valores duradouros.

O texto de hoje, em concreto, apresenta à noite em que foram mortos os primogênitos dos egípcios, à noite do êxodo (cf. Ex 12,29-30). O autor interpreta essa noite (cf. Sb 18,5) como a “resposta de Deus” ao decreto do faraó que ordenava a matança das crianças hebreias do sexo masculino (cf. Ex 1,22). Para os egípcios, foi uma noite trágica, de ruína, de pesadelo, de destruição, de morte e de luto; para os judeus, foi uma noite de salvação, de glória e de louvor do Deus libertador. Na perspectiva do autor deste texto, Deus não só esteve na origem da libertação, mas, através de Moisés, fez saber com antecedência aos hebreus os acontecimentos da noite pascal (cf. Ex 12,21-28), a fim de que eles ganhassem ânimo. Tudo isto foi entendido pelo Povo como ação de Deus.

A leitura chama a atenção para a diferença que há entre o viver de acordo com os valores da fé e o viver de acordo com propostas quiméricas de felicidade e de bem-estar. O “sábio” que nos fala na primeira leitura assegura que só a fidelidade aos caminhos de Deus gera vida e libertação; e que a cedência aos deuses do egoísmo e da injustiça gera sofrimento e morte. Hoje, como ontem, nem sempre parece fazer sentido trilhar o caminho do bem, da verdade, do amor, do dom da vida. O tema da liturgia deste domingo gira à volta da “vigilância”. Não se trata de estar sempre com “a alminha em paz”, “na graça de Deus” para que a morte não me surpreenda e eu não seja atirado, sem querer, para o inferno; trata-se de eu saber o que quero, de ter ideias claras quanto ao sentido da minha vida e de, em cada instante, atuar em conformidade. É esta “vigilância” serena, de quem sabe o que quer e está atento ao caminho que percorre, que me é pedida.

Caros irmãos,

A Segunda Leitura(cf. Hb 11,1-2.8-19) ensina que a fé é a esperança daquilo que não se vê. Os capítulos 11-12 da Carta aos Hebreus é dedicado ao tema da fé. Esta fé olha para o futuro, como a de Abraaão, como a dos israelitas no tempo do Êxodo, como a do discípulo que espera a vinda do Senhor: é esperança. Não deixa o homem instalar-se no presente. Esse mundo não é o termo de seu caminho. Deus preparou uma pátria melhor. O cristão é um estrangeiro neste mundo. Leva este mundo a sério, exatamente no fato de ficar livre diante dele. A segunda leitura apresenta Abraão e Sara, modelos de fé para os batizados de todas as épocas. Atentos aos apelos de Deus, empenhados em responder aos seus desafios, conseguiram descobrir os bens futuros nas limitações e na caducidade da vida presente. É essa atitude que o autor da Carta aos Hebreus recomenda aos crentes, em geral.

Pela fé, Abraão acolheu o chamamento de Deus, deixou a sua casa e partiu ao encontro do desconhecido e do incômodo; pela fé, Abraão aceitou estabelecer-se numa terra estranha e aí habitar; pela fé, Sara pôde conceber e dar à luz Isaac, apesar da sua avançada idade; pela fé, Abraão não duvidou quando Deus o mandou sacrificar, no alto de um monte, o filho Isaac, o herdeiro das promessas e o continuador da descendência. Abraão não viu concretizar-se a promessa da posse da terra, nem a promessa de um povo numeroso; mas, pela fé, ele contemplou antecipadamente a realização das promessas de Deus, “saudando-as de longe”. Assim, Abraão assumiu a sua condição de peregrino e estrangeiro, ansiando constantemente pela cidade futura, e caminhando ao encontro do céu, a sua pátria definitiva. É precisamente esse exemplo que o autor da carta quer propor a esses cristãos perseguidos e desanimados: vivam na fé, esperando a concretização dos dons futuros que Deus vos reserva e caminhem pela vida como peregrinos, sem desanimar, de olhos postos na pátria definitiva.

A nossa caminhada nesta terra está marcada pela finitude, pelas nossas limitações, pelo nosso pecado; mas isso não pode fazer-nos desanimar e desistir: viver na fé é, apesar disso, apontar à vida plena que Deus nos prometeu e caminhar ao seu encontro. É esta esperança que nos anima e que marca a nossa caminhada, sobretudo nos momentos mais difíceis. O cristão deve ser o homem da serenidade e da paz; ele sabe que a sua existência não se conduz ao sabor das marés, mas que o sentido da vida está para além dos êxitos ou dos fracassos que o dia a dia traz. Guiado pela fé, ele tem sempre diante dos olhos essas realidades últimas, que dão sentido pleno àquilo que aqui acontece.

Irmãos e Irmãs,

São Lucas nos faz contemplar no Evangelho que hoje refletimos(cf. Lc 12,32-48) sobre a nossa vida em sua dimensão verdadeira. O ambiente lucano era permeado pelo mercantilismo do Império Romano. Assim, Lucas contempla constantemente o mal causado pelas falsas ilusões de riqueza e bem-estar, além do escândalo da fome e da miséria(cf Lc 16,19-31). O Evangelho apresenta uma catequese sobre a vigilância. Propõe aos discípulos de todas as épocas uma atitude de espera serena e atenta do Senhor, que vem ao nosso encontro para nos libertar e para nos inserir numa dinâmica de comunhão com Deus. O verdadeiro discípulo é aquele que está sempre preparado para acolher os dons de Deus, para responder aos seus apelos e para se empenhar na construção do “Reino”.

O ambiente histórico é o mesmo de ontem e de hoje, sem muita diferença, por isso o Evangelho é atualíssimo em todos os tempos e em todas as realidades históricas e sociais.

O Evangelho nos ensina a Vigilância, viver para aquilo que realmente é DEFINITIVO. Temos que ficar vigilantes diante das ilusões vãs. A vigilância é uma atitude bíblica, desde a noite da libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, quando o anjo exterminador visitou as casas dos egípcios, enquanto os israelitas, de pé, cajado na mão, celebravam Javé pela refeição pascal, prontos para seguir seu único Senhor, que os conduziria através do Mar Vermelho até o deserto, conforme nos ensina a Primeira Leitura.

A vigilância é, assim também, a atitude do cristão, que espera a volta do seu Senhor, que encontrando seus servos a vigiar, os fará sentar à mesa e os servirá. Pois já fez uma vez assim. Jesus é o Senhor Servo.

Meus caros amigos,

Jesus continua a propor as qualidades que o discípulo deve ter para morrer e ressuscitar com Ele em Jerusalém. Jesus faz uma consoladora promessa: “Não tenhais medo: o Pai dar-vos-á o Reino!”(cf. Lc 12,32).  Mas para ganhar o Reino de Deus é necessário deixar tudo para trás e abraçar o Reino como o único tesouro da vida(cf. Lc 12,34).

Para entrar no Reino de Deus é necessário esvaziar o coração dos bens materiais, de tudo o que desperta ganância, avareza e ansiedades. Quando a Sagrada Escritura fala em “coração puro”, entende, em primeiro plano, um coração livre, desapegado de interesses, de tudo o que amarra e totalmente aberto e voltado para Deus.

O ser humano tem a triste tendência em correr ao encontro dos bens materiais. Assim o Evangelho nos ensina que devemos caminhar acordados, conscientes, com atenção, na firme certeza de que não estamos trabalhando em vão: o Senhor virá ao nosso encontro, Ele está no meio de nós!

A vigilância é um tema muito caro na Sagrada Escritura. Vigiar significa, em seu sentido próprio, renunciar ao sono da noite. Pode ser para prolongar o trabalho ou para evitar ser apanhado de surpresa por um inimigo. Os pastores conheciam bem este último significado, porque ficavam acordados para espantar os lobos que quisessem aproximar-se do rebanho. A partir deste primeiro sentido, nasceu o segundo: ficar atento, lutar contra a tentação da negligência e do desânimo, e, por conseguinte, ter paciência e ser fiel.

Jesus ensinou que o ladrão chega escondido e imprevistamente, o patrão que pode voltar para casa a qualquer hora, o pai de família desvelado, o servo fiel, as moças prudentes.

Irmãos e Irmãs,

Jesus dá três exemplos no Evangelho de hoje: a do porteiro, a do ladrão e a do administrador. O patrão que volta da festa do casamento lembra a parábola das moças vigilantes, a do porteiro é parecida com a parábola contada por Marcos 13,33-27. A parábola do administrador é contada também por Mt 24,42-51. A figura do Senhor que chega como um ladrão encontramo-la também em 1Ts 5,2; 2Pd 3,10 e Ap 3,3.

Para nós fica claro que o discípulo não pode se comportar como patrão e dono das coisas e das situações. O discípulo é um administrador dos bens que Deus, o verdadeiro patrão, lhe confiou. Bens materiais, sim, mas, sobretudo, os bens espirituais trazidos pelo Cristo e, acima de tudo, o bem dos bens: o próprio Cristo Senhor. A referência à distribuição da “porção do trigo” lembra José do Egito, homem prudente, grande e fiel administrador, que salvara o povo da fome e da morte. Mas, por outro lado, também, há uma referência as palavras de Jesus: “Eu sou o pão da vida descido do céu: quem dele comer não morrerá”(cf Jo 6,48-49). Desse Cristo vivo o discípulo será o administrador responsável. Ninguém tem o Cristo para si. O Cristo deve ser distribuído como se distribuiu o pão aos pobres e desvalidos.

Irmãos e Irmãs,

A segunda leitura nos fala da fé. A fé é como que possuir antecipadamente aquilo que se espera; é uma intuição daquilo que não se vê. Com esta definição é claramente enunciado o teor escatológico da fé. O sentido original da fé não é a adesão da razão a verdades inacessíveis, mas o engajamento da existência naquilo que não é visível e palpável, porém tão real que possa absorver o mais profundo do meu ser. Hebreus cita toda uma lista de exemplos desta fé, pessoas que se empenharam por aquilo que não se enxergava. A fé, baseada na realidade definitiva que se revelou na ressurreição de Cristo, nos dá a firmeza necessária para abandonar tudo em prol da realização última – a razão de nosso existir.

Caríssimos irmãos,

A Palavra de Deus que hoje nos é proposta contém uma interpelação especial a todos aqueles que desempenham funções de responsabilidade, quer na Igreja, quer no governo, quer nas autarquias, quer nas empresas, quer nas repartições, quer nas ONGs, quer nas instituições do terceiro setor, no campo da saúde e da educação. Convida cada um a assumir as suas responsabilidades e a desempenhar, com atenção e empenho as funções que lhe foram confiadas. A todos aqueles a quem foi confiado o serviço da autoridade, a Palavra de Deus pergunta sobre o modo como nos comportamos: como servos que, com humildade e simplicidade cumprem as tarefas que lhes foram confiadas, ou como ditadores que manipulam os outros a seu bel-prazer? Estamos atentos às necessidades – sobretudo dos pobres, dos pequenos e dos débeis – ou instalamo-nos no egoísmo e no comodismo e deixamos que as coisas se arrastem, sem entusiasmo, sem vida, sem desafios, sem esperança?

Há felicidade em receber. Se Jesus declara felizes os servidores que esperam para estarem prontos para servir, é porque vão beneficiar de um privilégio extraordinário: em lugar de servir, vão ser servidos, e logo pelo seu Mestre. O fato de esperar muda totalmente a situação. Jesus recomenda para se vigiar porque é uma atitude daquele que espera e assim manifesta que a pessoa esperada tem um preço a seus olhos. No momento em que Lucas escreve o seu Evangelho, os cristãos estão um pouco adormecidos e desanimados, pois parece que o Mestre tarda a voltar, como havia prometido. Terão eles esquecido que Ele tinha prometido o seu regresso de imprevisto? A sua felicidade depende da sua espera ativa. Decididamente, Jesus não Se cansa de chamar os seus discípulos a uma vida de pobreza, no Evangelho deste domingo e do domingo passado. Mas Ele próprio sabia bem que o dinheiro é necessário para viver. O grupo dos apóstolos tinha uma bolsa comum. São Paulo fará um peditório, que dará uma grande soma, para a Igreja de Jerusalém. Segundo o Evangelho, a pobreza não é a miséria. Já domingo passado Jesus nos convidava a sermos ricos em vista de Deus e não a amealharmos para nós mesmos. Hoje, diz uma pequena frase muito esclarecedora: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino”(Cf. Lc 12,32). O Pai quer encher-nos com a sua plenitude. Mas isso supõe, da nossa parte, uma atitude de despojamento para nos tornarmos disponíveis e acolhedores do dom de Deus. Recordemos que somos apenas criaturas. Não somos a nossa própria origem. Desde o início da nossa existência, devemos primeiramente tudo receber, a começar pela vida. Numa palavra, devemos, em primeiro lugar, ser amados para podermos aprender a amar. A verdadeira pobreza consiste em reconhecer a ligação de dependência no amor e na vida. Se a recusamos, fechamo-nos em nós mesmos, numa riqueza que poderá asfixiar-nos. Dito de outro modo, somos convidados a nunca esquecer que tudo o que temos e somos é sempre, antes de mais, um dom. Não somos proprietários da vida. Dela temos apenas usufruto. O nosso Pai confia-nos a vida, para que a façamos frutificar em aventura de amor. Isso deveria preservar-nos do “espírito de possessão” e abrir o nosso coração para aprender sem cessar a receber e podermos, por nossa vez, dar.

Celebramos, neste domingo no Brasil, o dia dos pais. Rezamos pelos pais que já nos antecederam na visão beatífica de Deus. Aos pais que nos edificam com a sua fé e o seu exemplo nossa gratidão e nosso pedido de bênção! Parabéns! Deus os abençoe!

Uma palavra final, queridos irmãos, o verdadeiro tesouro que não lhes será tirado, é o Reino dos céus. A maneira de acumular um tesouro, que permanece, é assumir a atitude de vigilância, para perceber quando e como o Senhor está chegando, para colocar-se sempre a seu serviço. Então o Senhor os servirá. Já terão a recompensa neste mundo: o Senhor os constituirá sobre todos os seus bens; é a participação nos bens do Reino. Tudo isso é celebrado na Eucaristia. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal