Meus queridos Irmãos,

A liturgia de hoje nos abre os olhos para vermos a universalidade da salvação. Todos nós somos vocacionados para sermos filhos e filhas de Deus. Assim a missão da Igreja e dos batizados é apresentar o convite para o ingresso no Reino de Deus através da conversão, da mudança de vida e da vivência da santidade.

Assim a todos Jesus deu o poder de tornar-se filhos e filhas de Deus. Jerusalém é colocada no Evangelho como o ponto culminante e a meta decisiva, seja pela Cruz de morte e triunfo, seja pela ascensão gloriosa de Jesus aos céus.

Os acontecimentos de Jerusalém nos apressam uma reflexão sobre a realidade última de todos os homens: a irmã morte nas palavras de São Francisco de Assis. A morte que sempre nos transporta para a cidade de Jerusalém com seus dois significados: o final duro, mas feliz, da caminhada salvadora de Jesus e o final positivamente duro e provavelmente feliz de cada homem e de cada mulher.

Tudo é misturado: a morte e a ressurreição de Jesus com a morte e a vida eterna das criaturas humanas.

Caros amigos,

A Primeira Leitura deste domingo (cf. Is 66,18-21) nos apresenta a Revelação universal da glória de Deus. Uma “utopia”, por isso olhar para o futuro nós convidados, como faz o profeta pós-exílico ao encontro da realidade que vem de Deus, seu poder e grandes feitos realizados na História. O profeta concebe Israel como o lugar desta manifestação. De fato, a própria pessoa de Cristo será esse lugar.

A primeira leitura ensina que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. É nessa perspectiva que ele compõe a visão de caráter escatológico que o nosso texto nos apresenta: no mundo novo que vai chegar, todos são convocados por Deus para integrar o seu Povo. O esquema apresenta várias etapas: primeiro, Deus virá para dar início ao processo de reunião das nações (v.18); depois, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros), a fim de que anunciem a glória do Senhor – mesmo às nações mais distantes (v 19); em seguida, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o “umbigo” do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do seu Povo e onde irá irromper a salvação definitiva), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); finalmente, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para o servirem (v. 21).
Estamos num contexto político em que não era fácil ter uma visão tolerante sobre as outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus e que Deus a todos oferece a salvação já é algo de escandaloso para os judeus da época; porém, é algo de inaudito dizer que Deus escolherá de entre eles missionários, a fim de os enviar ao encontro das nações; e é absolutamente inconcebível dizer que Deus vai escolher, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde, recorde-se, qualquer pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.

“Ao novo Povo de Deus, todos os homens são chamados” (Concílio Vaticano II, Lumen Gentium 13). No Povo de Deus não é decisivo nem a raça, nem o sexo, nem a posição social, nem a preparação intelectual, mas sim a adesão a Jesus e o compromisso com o projeto de salvação que o Pai oferece, em Jesus.

Prezados irmãos,

 Na Segunda Leitura (cf. Hb 12,5-7.11-13) nos é apresentado o sofrimento, pedagogia de Deus. Nossa condição atual é frágil. O Filho de Deus entrou nesta fragilidade, para nos ajudar. Conheceu tentação, sofrimento e morte: aprendeu a obediência. Assim também os fiéis devem passar pela escola de Deus. Chegarão então à justiça, à retidão, à salvação. Deus nos educa para a vida.

A pericope de hoje é a continuação do que lemos no passado domingo. Estamos na segunda secção da quarta parte da carta (cf. Hb 12,1-13), onde o autor faz um veemente apelo à constância e a perseverar na fé. Recordemos que esta carta se destina a uma comunidade (ou grupo de comunidades) que já perdeu o entusiasmo inicial e que se arrasta numa fé instalada, cómoda e sem grandes exigências; recordemos também que esta comunidade começa a conhecer as tribulações e as perseguições e corre o risco da apostasia. É neste contexto que temos de situar o apelo que o texto nos apresenta.

Depois de apelar aos crentes no sentido de se esforçarem, como atletas, para chegar à vitória, a exemplo de Cristo (cf. Hb 12,1-4), o autor convida os cristãos a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos de um Pai preocupado com a felicidade dos filhos.

A questão fundamental gira à volta do sentido do sofrimento e das provas que os batizados têm que suportar (nomeadamente, as perseguições e incompreensões que os cristãos sofrem). Uma certa mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como um castigo de Deus para o pecado do homem (cf. Jo 9,1-3); mas o sofrimento não é um castigo, mas sim uma medicina, uma pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar a viver. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; dessa forma, Ele demonstra a sua solicitude paternal. Como sinais do amor que Deus nos tem, os sofrimentos são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”.

Além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, vamo-nos fazendo interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa.

Irmãos amados,

São Lucas (cf. Lc 13,22-30) nos ensinou hoje que Jesus anunciava o Reino de Deus pelas suas pregações para todos. Jesus não fez acepção do público destinatário de sua Palavra de Salvação. Pelo contrário Jesus ensinou em todos os povoados, lugarejos, vilas, para pessoas de todas as classes, especialmente para aqueles que estavam à margem da sociedade excludente e repleta de castas de então.

Jesus não determinou o número dos que seriam salvos. Para ser salvo é necessário aceitar o Evangelho, procurar uma boa mudança de vida pela conversão e o perdão dos pecados e a vivência da santidade cristã.

Assim, a salvação foi colocada como UNIVERSAL. A questão da salvação deve ser vista pelo empenho, pelo esforço de conversão e pelo testemunho. Todos são chamados, indistintamente. Não há restrições para ninguém. Muito menos há privilégios ou castas dos que serão salvos. Todos nós nos tornamos filhos de Deus e somos inscritos no livro da vida pelo batismo quando é apagado nosso pecado original e nos é restabelecida a graça de Deus, a graça que nos santifica e nos dá ânimo para a vivência da vida cristã no quotidiano.

A porta de entrada no Reino de Deus é estreita. Mas, com graça e humildade, poderemos passar pela porta para entrar na vida eterna.

A porta significa a passagem. Passar para o Reino de Deus, para dele participar em plenitude, exige esforço, luta, penitência, conversão, mudança de vida, e cruz.

Não basta ouvir sermões sobre a vida de Jesus ou ir à mesa da Santa Eucaristia. É preciso mais do que isso. É necessário lutar e combater o bom combate vivendo as obras de justiça, colocando em prática os ensinamentos de Jesus, entendendo, assim os mistérios da Paixão do Senhor e sofrer com ele os fatos acontecidos em Jerusalém.

A oração pela oração não basta para entrar na porta estreita. Ajuda. Mas não é tudo. Depende muito mais da conversão. Jesus nos dá a mão para o grande esforço do combate espiritual conversão. A resposta se dá de maneira individual com um raio de compromisso comunitário na Paróquia, na Diocese e na Igreja Católica espalhada pelo orbe.

Caros irmãos,

A salvação é um dom de Deus. Ele tomou a iniciativa de nos dar o seu Filho, que deu a sua vida para fazer de nós salvos. Mas é necessário ainda que participemos nesta salvação. Fomos batizados, catequizados, talvez fomos também fiéis praticantes, mas isso não basta para entrar no Reino. Será preciso que manifestemos pelos atos a nossa adesão à salvação proposta por Cristo. Deus quer salvar-nos, contando conosco. É sobre este amor que seremos julgados: “Vinde a Mim, benditos de meu Pai, vós que destes de comer ou beber, vós que visitastes o prisioneiro ou o doente, vós que vestistes aquele que estava nu…” Aqueles que terão feito o mal serão afastados do Reino. Aqueles que terão feito o bem estarão no número dos eleitos do céu.

Meus queridos Irmãos,

Todos os homens e mulheres que estão fatigados são convidados a virem a Jesus para ser pelo Senhor aliviados. O vindo implica em dar um sim ao chamamento. Esse caminhar, feito de esforço, de luta, de encantamento, de perseverança, de fidelidade, está incluído no esforço para adentrar a porta estreita.

Salvação que é pura graça do Senhor. Pedi e receberei. Procurai e será achado. Assim deve ser a salvação. No caminho de salvação os tropeços, os espinhos, as incompreensões, as perseguições aparecerem e elas amadurecem a nossa fé. Não há glória sem Calvário. Peguemos a nossa Cruz e com ela procuremos a doce salvação.

A primeira leitura lembra que Deus não apenas quis salvar o povo de Israel do exílio babilônico, como também o encarregou de abrir o Templo e a Aliança a todas as Nações. Quando Deus concede um privilégio, como foi a salvação de Israel do cativeiro babilônico, este privilégio se torna responsabilidade para com os outros. Deus rejeita a auto-suficiência. Todos nós caminhamos num processo de busca, de humildade e de partilha.

A segunda leitura, por seu turno, nos lembra que Deus “castiga” para nos educar. Pois o Senhor educa a quem ele ama e castiga tudo aquele que acolhe como filho, nos ensina Hb 12,6. O sofrimento pode ter o valor de educação para uma vida que agrade a Deus, já que este, em Cristo encarou o sofrimento. Não é errada tal valorização do sofrimento, já que não se consegue escapar dele, nem mesmo no admirável mundo novo da era escatológica.

Queridos Irmãos,

Celebramos hoje a vocação de nossos queridos irmãos leigos e leigas, particularmente os inúmeros catequistas. O LEIGO tem hoje um papel muito importante dentro da Igreja. Tão importante que o legislador canônico de 1983, invertendo a antiga disciplina jurídica da Igreja, colocou o povo de Deus em maior destaque do que a hierarquia eclesiástica. A celebração eucarística deve, pois, levar a Comunidade a dar graças ao Senhor da Vida pela vocação cristã recebida e a renovar o compromisso de corresponder ao dom misericordioso de Deus, não se fechando sobre si mesma, mas abrindo o coração para acolher, sem distinção, a todos. Assim se dará graças por todos os homens e mulheres que participam dos bens do Reino, além da comunidade de fiéis, em todos os homens e mulheres de Boa Vontade que procuram entrar pela porta estreita da renúncia de si mesmos e da prática da caridade e do sumo bem.

Padre Wagner Augusto Portugal