Meus queridos irmãos,

A liturgia de hoje é rica na dialética do seguimento de Jesus. A primeira leitura (Dt. 4,1-2.6-8) nos ensina que a Lei tem a sua riqueza: nada tirar nem acrescentar.

O Livro do Deuteronômio descreve muito bem o alto valor da Lei: um tesouro de sabedoria, que supera as leis e filosofias dos outros povos. E a primeira leitura diz muito bem o que é preciso fazer e o que não é preciso fazer. A Lei servirá para garantir a posse pacífica da Terra Prometida? E, mais do que isso, servirá como um testemunho de Deus entre as nações, pois qual é o povo que tem um Deus tão sábio?

Escrita no tempo de Israel, e não no tempo de Moisés, tendo em vista que o povo vivia a aflição do exílio babilônico, a conversão à prática da Lei seria o meio para voltar à Terra Prometida e, entretanto, já servia de testemunho entre as nações. Observar a lei, sem tirar ou sem colocar nenhuma nova prescrição, era manter viva a palavra divina de intervenções dos homens.

Os intérpretes da Lei, querendo protegê-la de ingerências humanas, fizeram uma blindagem em torno da Lei, pelas suas interpretações, tradições, jurisprudências etc. Querendo preservá-la, tornaram-na inacessível para os iletrados, para os simples, para os humildes. O principal, aquilo que ilumina a Palavra de Deus, foi relegado para segundo plano. Isso porque a Palavra de Deus, como expressão do amor de Deus, foi deixada de lado.

Essa prática trouxe conseqüências nefastas: somente eram justos aqueles que seguissem a Lei na sua integralidade. Os outros, que nem conheciam a Lei, ou ainda não tinham possibilidade de ter acesso à Palavra de Deus, eram considerados ignorantes. Tudo contra o espírito da Lei que veio para libertar e não para escravizar.

A primeira leitura vê nas leis e preceitos de Deus um caminho seguro para a felicidade e para a vida em plenitude. Por isso, recomenda insistentemente ao seu Povo que acolha a Palavra de Deus e se deixe guiar por ela.

A Lei de Deus veio para anunciar e proclamar a Vida e a Vida em abundância. A Palavra de Deus deve iluminar nossa caminhada, e não se transformar numa nuvem negra de rigorismos. “A letra mata e o espírito vivifica”, adverte-nos São Paulo. Por isso, a lição da primeira Leitura é que cada um de nós deve procurar viver o espírito da Lei e não o seu rigorismo perfeccionista, porque nenhuma tradição está acima do amor fraterno. No meio de mundo cada vez mais frenético, temos de encontrar tempo para escutar Deus, para meditar as suas propostas, para repensar as suas leis e preceitos, para descobrir o sentido da nossa ação no mundo. Sem a escuta da Palavra, a nossa ação torna-se um “fazer coisas” estéril e vazio que, mais tarde ou mais cedo, nos leva a perder o sentido do nosso testemunho e do nosso compromisso.

Meus irmãos,

O Evangelho de hoje (Mc 7,1-8.14-15,21-23) pode ser pintado em três momentos de um belo quadro. O primeiro momento, a tela, nos fala dos fariseus e escribas oriundos de Jerusalém. Quem eram os fariseus do tempo de Jesus? Eram aqueles apegadíssimos às leis e às tradições e que se esforçavam por cumpri-las rigorosamente, ao pé da Letra.

Mas, por outro lado, é necessário perguntar: quem eram os Escribas? Como aqueles que copiavam a palavra de Deus, os escribas eram considerados os intérpretes das leis e dos costumes. Aqui, também, na tela, temos a presença dos Apóstolos que serão aqueles que anunciaram as Escrituras e as ensinariam por toda a terra. Ou seja, os apóstolos serão aqueles que vão interpretar, em nome de Jesus, as Leis e as Tradições. Não uma interpretação rigorosa, mas uma interpretação pautada pelo amor fraterno.

No segundo momento de pintura da tela encontramos o povo humilde, manipulado e explorado pelos dirigentes religiosos, que dominavam e oprimiam com práticas religiosas muito rigorosas. Já o terceiro momento, a moldura da tela, encontramos no ambiente familiar: Jesus e os discípulos, que comentam o mesmo assunto das Leis e das Tradições. Os discípulos foram tirados do meio do povo, do meio daquela gente, daquele ambiente social em que estavam bem arraigadas às leis e tradições judaicas. Era difícil para o coração dos apóstolos assimilar a nova dialética de Jesus.

Mais do que estas colocações, os apóstolos de Jesus eram considerados impuros públicos. Uns eram pescadores, portanto pecadores; outros eram cobradores de impostos e outros, ainda, estavam à margem da sociedade religiosa do tempo de Jesus.

A grande novidade do Evangelho escrito por Marcos reside no amor. Partindo do amor fraterno, Jesus, grande conhecedor do coração do homem e da mulher, nos diz que o coração é a raiz, a fonte e o fator decisivo das boas e más ações da criatura humana. É preciso que se reze com o coração, isto é, com a participação de todo o nosso ser.

Cumprir a lei externamente é muito fácil; o difícil é cumpri-la interiormente. Nada adianta cumprir todo o rigorismo litúrgico, canônico ou mesmo das prescrições morais, se se continua a fazer o mal, a não perdoar, a não amar. O amor e o perdão são o critério básico da salvação.

Aqui cabe a advertência de São João Paulo II, ao promulgar o novo Código de Direito Canônico: “Entre o direito e a salvação das almas, abandone-se o direito e opte-se pela salvação das almas. Esse é o espírito da Lei, que serve de normativa para que possamos arrepender do pecado, procurar a conversão, a emenda de vida, de vida externa e de vida interna, nos abandonando no amor misericordioso de Deus”.

Irmãos caríssimos,

Os ensinamentos do povo do Antigo Testamento eram feitos pela chamada tradição oral, ou seja, era passado de geração em geração. Havia, a partir daí, um grande respeito pela tradição, que tinha um valor normativo paralelo às leis. O povo hebreu sempre foi muito rico em suas tradições. Pernicioso era-lhes o apego exagerado às tradições – coisas mínimas, às vezes, como a lavação dos copos e o número de vezes que se devia lavar as mãos por dia. Essas leis foram colocadas e impostas pelos chamados fariseus de extrema observância, os fanáticos em linguagem atual.

Jesus sempre respeitou as leis e as tradições judaicas. Entretanto, em nome da libertação que Ele veio cumprir em nome de Deus Pai, com a sua morte redentora na Cruz e a sua ressurreição, nos ensina no Evangelho de hoje que não podemos nos apegar no Legalismo, que é o seguimento da Lei pela Lei. A Lei tem que nos libertar de todas as amarras, tem que nos dar o espírito da vida plena.

Os doutores da Lei pregavam o cumprimento da lei e dos preceitos ao pé da letra, isto é, na sua parte externa, não importando a intenção ou os sentimentos do coração. Jesus, ao contrário, veio implementar a Lei do coração, assimilando a vontade salvadora do Redentor e deixando o coração do homem se conduzir pelo Coração de Jesus.

Para Jesus e o seu Evangelho é importante acolher o irmão, principalmente o pecador, e procurar levá-lo à graça de Deus, porque o amor ao irmão é critério básico de nossa fé. Jesus nos ensina no Evangelho o que é verdadeiramente impuro e o que torna impura a criatura. Não são os preceitos, nem as tradições, nem o tipo de comida, nem as espécies de animais, mas é a maldade que sai do coração. Coração, aqui, tomado no sentido de pessoa integralmente: mente, vontade, sentimentos.

Todos nós temos a experiência da maldade. Jesus conhece bem o coração do homem. É esse interior do ser humano que lhe interessa curar, converter, isto é, fazer com que ao invés de se inclinar para o mal, se inclinar para o bem. É preciso mantermo-nos livres e críticos em relação às “leis” que nos são propostas, sejam elas leis civis ou religiosas… Elas servem-nos e devem ser consideradas se nos ajudarem a ser mais humanos, mais fraternos, mais justos, mais comprometidos, mais coerentes, mais “família de Deus”; elas deixam de servir se geram escravidão, dependência, injustiça, opressão, marginalização, divisão, morte. O processo de discernimento das “leis” boas e más não pode, contudo, ser um processo solitário; mas deve ser um processo que fazemos, com o Espírito Santo, na partilha comunitária, no confronto fraterno com os irmãos, numa procura coerente e interessada do melhor caminho para chegarmos à vida plena e verdadeira.

Tomemos muito cuidado com o rigorismo e o legalismo. É preciso mantermo-nos livres e críticos em relação às “leis” que nos são propostas, sejam elas leis civis ou religiosas… Elas servem-nos e devem ser consideradas se nos ajudarem a ser mais humanos, mais fraternos, mais justos, mais comprometidos, mais coerentes, mais “família de Deus”; elas deixam de servir se geram escravidão, dependência, injustiça, opressão, marginalização, divisão, morte. O processo de discernimento das “leis” boas e más não pode, contudo, ser um processo solitário; mas deve ser um processo que fazemos, com o Espírito Santo, na partilha comunitária, no confronto fraterno com os irmãos, numa procura coerente e interessada do melhor caminho para chegarmos à vida plena e verdadeira.

Caros irmãos,

Para Jesus, a obsessão dos fariseus com os ritos externos de purificação é sintoma de uma grave deficiência quanto à forma de ver e de viver a religião; por isso, Jesus responde ao reparo dos fariseus com alguma dureza. Partindo da Escritura (vers. 6-8) e da análise da praxis dos judeus (vers. 9-13), Jesus denuncia essa vivência religiosa que aposta apenas na repetição de práticas externas e formalistas, mas que não se preocupa com a vontade de Deus (“este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” – vers. 6) ou com o amor aos irmãos. Trata-se de uma religião vazia e estéril (“é vão o culto que Me prestam” – vers. 7), que não vem de Deus mas foi inventada pelos homens (“as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos” – vers. 7). Àqueles que apostam na religião dos ritos estéreis, Jesus chama “hipócritas” (vers. 6): interessa-lhes mais o “parecer” do que o “ser”, a materialidade do que a essência das coisas. Eles cumprem as regras, mas não amam; vestem com fingimento a máscara da religião, mas não se preocupam minimamente com a vontade de Deus. Esta religião é uma mentira, uma hipocrisia, ainda que se revista de ares muito santos e muito piedosos. Depois, Jesus dirige-Se à multidão e formula o princípio decisivo da autêntica moralidade: “não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro; o que sai do homem é que o torna impuro” (vers. 15). Este princípio geral, à primeira vista enigmático e passível de várias interpretações, será explicado mais à frente: “do interior do homem é que saem os maus pensamentos: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem lá de dentro e tornam o homem impuro” (vers. 22-23). O dito de Jesus refere-se, naturalmente, a dois “circuitos” diversos: o do estômago (onde entram os alimentos que se ingerem) e o do coração (de onde saem os pensamentos, os sentimentos e as ações). Os alimentos que entram no estômago não são fonte de “impureza”; os pensamentos e as ações más que saem do coração do homem é que são fonte de “impureza”: afastam o homem de Deus e da comunidade do Povo santo. Na antropologia judaica, o “coração” é o “interior do homem” em sentido amplo; é aí que está a sede dos sentimentos, dos desejos, dos pensamentos, dos projetos e das decisões do homem. É nesse “centro vital” de onde tudo parte que é preciso atuar. A verdadeira religião não passa, portanto, pelo cumprimento de regras externas, que regulam o que o homem come ou não come; mas passa por uma autêntica conversão do coração, que leve o homem a deixar a vida velha e a transformar-se num Homem Novo, que assume e que vive os valores do Reino. A preocupação com as regras externas de “pureza” é uma preocupação estéril, que não toca com o essencial – o coração do homem; pode até servir para distrair o crente do essencial, dando-lhe uma falsa segurança e uma falsa sensação de estar em regra com Deus. A verdadeira preocupação do crente deve ser moldar o seu coração, a fim de que os seus sentimentos, os seus desejos, os seus pensamentos, os seus projetos, as suas decisões se concretizem, no dia a dia, na escuta atenta dos desafios de Deus e no amor aos irmãos.

Meus irmãos,

A segunda leitura (Tg 1,17-18,21b-22.27) nos ensina que devemos cumprir, e não apenas ouvir, a Palavra de Deus. Deus é “limpo” no seu agir: não engana, propicia dádivas boas, é constante como o firmamento. Ele é que nos gerou pela Palavra da Vida, isto é, a multiforme manifestação de sua vontade, desde a Palavra da Criação até a sua plenitude em Cristo, que nos torna nova criatura. O cristão deve sempre ter claro que só Lei de Deus é intocável; as interpretações humanas, por necessárias que foram, não. Por isso, Jesus reduziu a Lei Antiga ao essencial: amor a Deus e ao próximo.

Quando ficamos apenas pela escuta e pela contemplação da Palavra, ela torna-se estéril e inútil. É preciso transformar essa Palavra que escutamos em gestos concretos, que nos levem à conversão e que tragam um acréscimo de vida para o mundo. A Palavra de Deus que escutamos tem de nos levar ao compromisso – à luta pela justiça, pela paz, pela dignidade dos nossos irmãos, pelos direitos dos pobres, por um mundo mais fraterno e mais cristão.

No último versículo da segunda leitura (vers. 27), o autor da carta descreve a religião autêntica (por oposição à religião vazia, inoperante, morta, daqueles que falam muito mas não praticam ações coerentes com as suas palavras – vers. 26): “visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo”. Ligando este versículo com o tema central do resto da leitura (a Palavra de Deus), podemos dizer que é a escuta atenta da Palavra de Deus que nos projeta para a ação e para o compromisso. A escuta da Palavra de Deus leva o crente a passar de uma religião ritual, legalista, externa, superficial, para uma religião de efetivo compromisso com a realização do projeto de Deus e com o amor dos irmãos

A Palavra de Deus que escutamos e que acolhemos no coração deve conduzir-nos à ação. Se ficamos apenas pela escuta e pela contemplação da Palavra, ela torna-se estéril e inútil. É preciso transformar essa Palavra que escutamos em gestos concretos, que nos levem à conversão e que tragam um acréscimo de vida para o mundo. A Palavra de Deus que escutamos tem de nos levar ao compromisso – à luta pela justiça, pela paz, pela dignidade dos nossos irmãos, pelos direitos dos pobres, por um mundo mais fraterno e mais cristão.

À vontade de Deus, não basta escutar sua formulação na Lei, é preciso executá-la. Verdadeira religião não é doutrina, mas amor prático para com os mais humildes, porque destes é o Reino dos Céus. Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal