Meus queridos Irmãos,

Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

O livro da Sabedoria nos ensina, na primeira leitura(cf. Sb 9,13-18), que a sabedoria nunca é conquistada para sempre. É a prece de Salomão pela sabedoria, especialmente a segunda parte, que ensina o quanto à sabedoria é indispensável e necessária para os embates chamados diários de nossa caminhada neste mundo transitório. A sabedoria tão necessária nos dias hodiernos e nesta sociedade utilitarista em que vivemos o hedonismo campear e a falta de compromissos que sejam duradouros e sérios.  O lucro reina pelo lucro e o poder pelo poder, sempre se esquecendo que todos os dons devem ser colocados na gratuidade da graça que provém de Deus Trindade. Assim, a sabedoria ensina a dar a tudo o seu devido lugar, a ponderar o que é mais e o que é menos importante. Isso nos leva a conduzir as conclusões que, aos olhos das pessoas superficiais, parecem loucura.

A Primeira Leitura nos apresenta o discernimento e a ponderação, dons de Deus. Saber discernir é o que Salomão pediu a Deus(1Rs 3,9). Também o autor do livro da Sabedoria pede isso e ensina que se deve pedi-lo. Nosso esforço intelectual não é o suficiente. As faíscas do Espírito Santo não se deixam programar; devem ser recebidas como dádivas.

Essa sabedoria que é um dom de Deus permite ao homem compreender tudo, fazer o que agrada a Deus e ser salvo. O livro sagrado parte da constatação da nossa finitude, das nossas limitações, das nossas dificuldades típicas de seres humanos, para concluir: por nós, não conseguimos compreender o alcance das coisas, não conseguimos descobrir o verdadeiro sentido da nossa vida, apercebermo-nos dos valores que nos levam, verdadeiramente, pelo caminho da vida e da felicidade. Como chegar, portanto, a “conhecer os desígnios de Deus”? A perícope só encontra uma resposta: o homem tem de acolher a “sabedoria”, dom de Deus para todos aqueles que estão interessados em dar um verdadeiro sentido à sua vida. Só a ação de Deus que derrama sobre os homens a “sabedoria” permite encontrar o sentido da vida e discernir o verdadeiro do falso, o importante do inútil.

Meus caros irmãos,

As exigências do seguimento de Jesus parecem loucura extrema: “Odiar pai e mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs(cf Lc 14,26)”, por causa de Cristo e de seu Evangelho, não é uma loucura? Não, isso nos ensina São Lucas em seu Evangelho. É a conseqüência da sabedoria cristã, da ponderação a respeito do investimento necessário para o Reino de Deus. Começar a construir a torre sem o necessário capital é que é loucura, pois, todo mundo ficará gozando da gente porque não conseguiu concluir a obra! O homem sábio e prudente faz o devido orçamento, decidindo com prudência aonde irá aplicar e investir. No caso de todos os cristãos, o único orçamento adequado de se investir é o SUPREMO BEM, sem o qual os outros investimentos ficam sem sentido.

A Segunda Leitura(cf. Fm 9b-10.12-17) nos lembra que não haverá mais escravo nem oprimido, mas será estabelecido que todos serão irmãos. O escravo Onésimo fugira de seu dono, Filêmon, discípulo de Paulo. Paulo o envia de volta, mas agora batizado, portanto, “filho” de Paulo, como o próprio Filêmon. Por isso, Filêmon o deve receber não mais como escravo, mas como irmão. A abolição da escravidão ainda não se impunha como perspectiva histórica no tempo de Paulo, mas mesmo assim devia realizar-se, entre os cristãos, o “nem escravo, nem livro” de Gl 3,28. Deste espírito novo surgiram também novas estruturas, que nos fazem perfeitos filhos de Deus pelo batismo.

A Carta a Filêmon é a mais breve e pessoal das cartas de São Paulo. É endereçada a um tal Filêmon, aparentemente um membro destacado da Igreja de Colossos. A partir dos dados da carta, podemos reconstruir as circunstâncias em que o texto aparece. Onésimo, escravo de Filêmon, fugiu de casa do seu senhor. Encontrou Paulo, ligou-se a ele e tornou-se cristão. São Paulo, que nessa altura estava na prisão (em Éfeso? Em Roma?), fê-lo seu colaborador e manteve-o junto de si. No entanto, a situação podia tornar-se delicada se Filêmon se ofendesse com Paulo; e, do ponto de vista legal, ao dar guarida a um escravo fugitivo, São Paulo era cúmplice de uma grave infracção ao direito privado. Enfim, Onésimo corria o risco de ser preso, devolvido ao seu senhor e severamente castigado. É neste contexto que Paulo resolve enviar Onésimo a Filêmon. Onésimo leva consigo uma carta, em que Paulo explica a Filêmon a situação e intercede pelo escravo fugitivo. Com extrema delicadeza, São Paulo insinua a Filêmon que, sendo possível, lhe devolva Onésimo, já que este lhe vem sendo de grande utilidade; no entanto, Paulo pede, sugere, mas sem impor nada e deixando a decisão nas mãos de Filêmon. Para o Apóstolo Paulo o amor deverá ser a suprema e insubstituível norma que dirige e condiciona as palavras, os comportamentos, as decisões dos crentes. Ora, o amor tem consequências bem práticas, que os membros da comunidade cristã não podem olvidar: implica o ver em cada homem um irmão – independentemente da sua raça, da sua cor, ou do seu estatuto social. Vistas as coisas nesta perspectiva, não é de estranhar que Paulo solicite a Filêmon que receba Onésimo não como o que era antes (um escravo), mas sim como é agora – um irmão em Cristo. Se Filêmon é, de fato, cristão, é essa a atitude que deve assumir para com Onésimo.

O amor – elemento que está no centro da experiência cristã – exige ao cristão o reconhecimento efetivo da igualdade de todos as pessoas, apesar das diferenças de cor da pele, de estatuto social, de sexo, de opções políticas. O amor exige que as nossas comunidades sejam espaços de comunhão, de fraternidade, de acolhimento, sejam quais forem os defeitos dos irmãos. Como eu acolho, nas comunidades, os irmãos? Acolho com carinho e sem distinção?

Irmãos e Irmãs,

O Evangelho de hoje(Lc 14,25-33) nos ensina que o ponto de partida para a autêntica vivência cristã é o DESAPEGO. Desapego que, inicialmente, foi pedido aos discípulos e apóstolos, mas que paulatinamente foi entendido como desejo de Cristo que fosse assumido por toda a COMUNIDADE ECLESIAL. Desapego a exemplo de Jesus que deixou tudo para trás, não acumulou riquezas, e distribuiu tudo para os outros, até a sua preciosa vida na Cruz pela salvação de todo o gênero humano.

A mania das pessoas de possuir bens chega a ser uma doença. Doença que nos interpela a ficarmos livres de tudo o que nos oprime. O dinheiro em si não é mal e nem os bens. A maneira como se usa o dinheiro ou se usa os bens materiais deve ter uma finalidade comunitária, de servir a quem precisa e ao nosso semelhante. E aceitar a Jesus, na sua totalidade, para sermos um só com ele, como o verso e o reverso de uma medalha fazem uma unidade nos pede o DESAPEGO dos bens materiais.

            Assim, o Evangelho de hoje nos coloca quatro condições radicais postas por Jesus para ser cristão:

  1. O desprendimento das coisas familiares;
  2. O desprendimento da própria vida e dos próprios interesses;
  3. O desprendimento de qualquer tipo de posse material ou espiritual;
  4. O assumir da cruz, isto é, a própria história em suas situações concretas no nosso quotidiano.

Jesus por sua vez fez tudo o que falamos acima: deixou a glória do Paraíso, assumiu a pobreza em todos os sentidos, aniquilou-se a si mesmo, tomando a condição de servo sofredor, sofreu todas as vicissitudes do seu tempo e de seu povo e morreu na Cruz pela nossa salvação.

Jesus repartiu tudo o que era e o que tinha com os discípulos, até mesmo o seu poder divino de perdoar os pecados e de santificar o povo de Deus. Mas quer repartir hoje e agora também a cruz e a morte, partes integrantes de sua missão salvadora, e partilhar a ressurreição e a glorificação, nova meta da criatura redimida.

Irmãos e Irmãs,

Jesus não é contra a família. Jesus não vai na contramão de um cultivo dos valores pessoais. Tudo o que os homens possuem vem da misericórdia de Deus. A família é um dom sagrado, a Igreja doméstica. A família vai mal quando ela está sem Jesus. A família com Jesus é querida e incentivada. Jesus está presente na família para transformá-la e não somente visitando-a nos batizados, primeiras eucaristias, missas de exéquias ou matrimônios. Jesus quer caminhar com as famílias no cotidiano, no dia a dia, sendo presença-presente e viver segundo o seu Evangelho todos os momentos.

Jesus não vai contra uma vida confortável do ponto de vista individual ou pessoal. O que Jesus é contra é o egoísmo, a ausência de partilha, da misericórdia e do perdão. Jesus nos quer misericordiosos, mansos e compassivos. Jesus não quer uma religião de orações apenas pessoais, mas quer que nós nos engajemos na vida de comunidade, na Paróquia e na vida da Igreja Particular.

O discípulo renuncia a tudo, principalmente ao seu eu, as suas exigências, caprichos. O verdadeiro e autentico discípulo pega a cruz de Cristo e a carrega na dimensão comunitária e pastoral.

O Reino dos Céus é como a torre a ser construída. Tem que ser iniciada do alicerce, fazendo as bases para que se tenha uma boa sustentação. Assim, também, é o Reino de Deus que pede o esvaziamento do eu, coisa que exige muito mais esforço e trabalho do que levantar uma catedral ou arrasar uma montanha. É preciso assumir a Cruz e estar preparado para a morte, para as perseguições, para as calúnias, para as fofocas e para as intrigas. E estas surgindo vão nos purificando, deixando aquilo que realmente é o mais importante, a graça de Deus que nos embala e nos anima na missão.

Jesus é o Deus que veio ao nosso encontro com uma proposta de salvação, de vida plena; no entanto, essa proposta implica uma adesão séria, exigente, radical, sem “paninhos quentes” ou “meias tintas”. O caminho que Jesus propõe não é um caminho de “massas”, mas um caminho de “discípulos”: implica uma adesão incondicional ao “Reino”, à sua dinâmica, à sua lógica; e isso não é para todos, mas apenas para os discípulos que fazem séria e conscientemente essa opção.

O que Jesus critica nos dois personagens das parábolas é o fato de não terem tomado tempo para se sentar. Ora, Ele propõe estas duas parábolas no momento em que convida os seus discípulos a segui-l’O sem condições, e mesmo a levar a sua cruz, isto é, a aceitar as provas que seguirão ao seu compromisso. Quer dizer que, antes de seguir Jesus, é preciso reservar tempo para a reflexão. Jesus não esconde as exigências, mas é preciso perguntar porque O seguimos, até onde O podemos seguir. É a maneira de Jesus respeitar a liberdade do homem. Ele não quer discípulos que decidem segui-l’O sem mais nem menos. Ele não pede a mesma coisa a todas as pessoas, mas a cada um Ele pede para segui-l’O em função dos seus carismas. Mais uma razão para nos sentarmos e perguntar: quais são os meus carismas que quero pôr ao serviço do Reino?

Irmãos e Irmãs,

Paulo hoje é focalizado preso. Mesmo na prisão, coloca-se a serviço dos irmãos, implorando pela liberdade do escravo Onésimo. A comunidade eclesial deste Domingo dará graças a Deus pela graça de seguir a Cristo, de carregar as cruzes no seu seguimento, pela liberdade no uso das coisas, sem a elas se apegar. Pedirá o dom da sabedoria para ser fiel ao seguimento de Cristo. São as experiências pascais transformadas em ritos no memorial eucarístico que celebramos. Amém!

Pe. Wagner Augusto Portugal