Ovelha perdida

Meus queridos Irmãos e Irmãs em Cristo Jesus!

A liturgia nos ensina que Deus “não quer a morte do pecador, mas sim, que ele se converta e viva”(cf. Lc 15,32). Assim gira toda a liturgia neste domingo. A primeira leitura(cf. Ex 32,7-11.13-14) mostra Deus voltando atrás no seu projeto de rejeitar Israel, depois de sua apostasia com a adoração de bezerro de ouro. Em Ex 32,7, Deus já não o chama “meu povo”, como na fórmula da Aliança (cf. Ez 37,23 etc), mas “teu povo”. Porém, por causa da intervenção de Moisés, que lhe lembra sua promessa, ele retira sua ira. O Novo Testamento penetra mais fundo no ser de Deus. Nas parábolas colecionadas em Lc 15, ninguém precisa lembrar a Deus a promessa dele. Ele está totalmente voltado para o que se afastou do caminho, como um pastor concentra toda sua atenção na ovelha que está faltando em seu rebanho, ou como a dona-de-casa que deixa até queimar a comida por estar preocupada com uma nota de dez reais faltando na sua carteira.

No livro do Êxodo, que nos é apresentado hoje, O Senhor arrependeu-se das ameaças que fizera contra o seu povo(cf. Primeira Leitura de Ex 32,7-11.13-14) Enquanto Moisés está ainda no Sinai, o povo adora o bezerro de ouro. A sanção de Deus é dura. Não quer mais este povo(“Teu povo”, diz ele a Moisés). Mas Moisés se torna mediador e lembra a Deus suas promessas, como Abraão lhe lembrou a sua justiça(cf. Gn 18,25).

E Deus se deixa convencer… – A narração representa Deus de modo bastante humano: tanto a cólera de Deus quanto seu arrependimento são modos de falar; importa que mostrem que Deus não é indiferente, nem ao nosso pecado,, nem à nossa prece. São maneiras humanas de falar de seu amor sem fim. A primeira leitura sublinha a lealdade de Deus para com o seu Povo, a “justiça” que marca a relação de Deus com Israel (entendida como fidelidade aos compromissos assumidos por Deus para com os homens).

Fica, aqui, claro que a essência de Deus é esse amor gratuito que Ele derrama gratuitamente sobre os homens, qualquer que seja o seu pecado. Deus ama infinitamente, seja qual for a resposta do homem; e esse amor nunca será desmentido. É à luz desta perspectiva que devemos encarar Deus e a sua relação conosco. O pecado dos israelitas (a construção de uma imagem deturpada de Deus) nos leva a questionar as imagens que, às vezes, construímos e transmitimos de Deus. O Deus em Quem acreditamos e que testemunhamos, quem é? É o Deus que Se revelou como amor, bondade, misericórdia, ao longo da história da salvação, ou é um Deus vingativo e cruel, que não desculpa as faltas dos homens e que anda à cata de qualquer comportamento faltoso para deixar cair sobre eles a sua cólera e a sua crueldade? Não esqueçamos: testemunhar um Deus vingativo, impositivo, sem coração e sem misericórdia, é fabricar uma falsa imagem de Deus.

Caros irmãos,

Na segunda Leitura – 1Tm 1,12-17 – Jesus veio para reconciliar os pecadores: experiência de São Paulo, que de perseguidor passou à anunciador da bondade de Deus. Desde a segunda viagem missionária, Timóteo acompanho São Paulo como seu fiel colaborador. As cartas a Timóteo e Tito são o “testamento espiritual” de Paulo. Mostram como foram as comunidades pelo fim do século I. A mensagem central do texto de hoje é a vinda de Jesus ao mundo, para salvar os pecadores. Paulo mesmo o experimentou e, além disso, recebeu uma missão importante. À partir daí, gratidão e alegria formaram a tônica de sua vida.

Quem era o destinatário da segunda leitura? Timóteo era natural de Listra (Licaónia), filho de pai grego e de mãe judeo-cristã. Aparece no Livro dos Atos como companheiro inseparável de Paulo, a partir da segunda viagem missionária. São Paulo teria confiado a Timóteo missões importantes entre os tessalonicenses (cf. 1 Tess 3,2.6) e entre os coríntios (cf. 1 Cor 4,1.17;16,10-11).

Ainda muito jovem Timóteo recebeu de Paulo a responsabilidade pastoral das Igrejas da província da Ásia (cf. 1 Tim 4,12). A tradição considera-o como o primeiro bispo de Éfeso. Esta carta apresenta-se como escrita por Paulo a Timóteo, quando este está encarregado da animação da Igreja de Éfeso. Contém uma série de instruções que versam, fundamentalmente, sobre três temas: a organização da comunidade, a forma de combater os hereges e a vida cristã dos fiéis. Convém, no entanto, acrescentar que a maior parte dos comentadores não considera esta carta de autoria paulina: a linguagem e a teologia não parecem ser paulinas; e, sobretudo, a carta supõe um modelo de organização eclesial que é dos finais do séc. I d.C. (Paulo teria morrido na perseguição de Nero, por volta de 66/67 d.C.)

São Paulo recorda, agradecido, a sua história de vocação. O apóstolo afirma que recebeu de Cristo o seu ministério; e proclama que isso se deve, não aos seus méritos, mas à misericórdia de Deus. Paulo tem consciência do seu passado de perseguidor violento da Igreja de Cristo. É verdade que Paulo atuou dessa forma por ignorância; no entanto, isso não o exime de culpa. Apesar desse passado duvidoso, Deus, na sua bondade, cumulou-o da sua graça. São Paulo reconhece que Cristo “veio ao mundo para salvar os pecadores”, entre os quais Paulo se inclui.

Pelo exemplo de Paulo, fica evidente a misericórdia e a magnanimidade de Deus, que se derrama sobre todos os homens, sejam quais forem as faltas cometidas. A partir deste exemplo, todos os homens são convidados a tomar consciência da bondade de Deus e a responder-lhe da mesma forma que Paulo: com o dom da vida e com o empenho sério no testemunho desse projeto de amor que Deus tem para oferecer. O profundo reconhecimento que Paulo sente diante da misericórdia com que Deus o distinguiu leva-o a um canto de louvor que, neste texto, apresenta contornos litúrgicos (“ao rei dos séculos, Deus imortal, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos, amén” – vers. 17).

Irmãos e Irmãs,

O Evangelho de hoje(cf. Lc. 15,1-32 ou 15,1-10) é uma das páginas mais bonitas e emocionantes do Santo Evangelho e marca definitivamente a diferença entre a teologia do Antigo e a teologia no Novo Testamento. Hoje estudamos e refletimos a nova maneira ensinada por Jesus. Nas parábolas Deus está figurado no pastor, na mulher que procura seus bens, no pai que abraça e beija o filho retornado. É um Deus feito de misericórdia, de acolhida e de perdão sempre: como sempre tenho insistindo um DEUS AMOR-PERDÃO, um DEUS PERDÃO-AMOR.

Jesus procura o pecador, como o pastor procura uma ovelha transviada dentre cem que compõem o rebanho; como a mulher, que procura a dracma perdida; como o pai, que abre os braços para acolher o filho, sem lhe perguntar porquês nem lhe impor condições para o retorno.

Jesus acolhe os pecadores e toma refeição com eles, um costume não muito recomendável dentro da Lei Judaica que dizia o que era puro e impuro. E era impuro tomar refeição com os pecadores, porque eles transgrediam os dez mandamentos. Mais do que isso os pecadores exerciam, via de regra, profissões que eram consideradas impuras, ou eram analfabetos.

Sentar-se à mesa, ontem e hoje, é uma demonstração de amizade e de carinho. Assim Jesus ensinou que comer com os publicados e pecadores era ter uma atitude de misericórdia para com todos, os santos e os pecadores, acolhendo a todos de maneira como que a pessoa se apresenta e com todas as suas particularidades.

Meus caros irmãos,

Os pecadores procuravam Jesus para ouvi-lo! Assim Jesus ensina que a misericórdia deve ser para todos: aqueles que nos procuram e os que nós vamos ao seu encontro. Misericórdia sempre e perdão contínuo e persistente, até para o maior dos pecados.

Assim somos chamados a ter um coração aberto, receptivo, generoso, como os pecadores que ouviam Jesus no Evangelho de hoje e os fariseus que murmuravam contra Jesus de pregar para os chamados impuros. Os pecadores aceitavam a pregação de Jesus. Os chamados religiosos, ou seja, os fariseus que cumpriam todo o rigorismo da lei eram fechados para ouvir ao Redentor.

O orgulho cegava os fariseus e a humildade favorecia aos pecadores. Assim a ovelha perdida tanto pode ser o fariseu quanto o pecador. A solicitude do pastor não distingue ovelhas negras e ovelhas brancas. Todas são ovelhas do aprisco do Senhor. Ser pastor é estar a serviço de todos, até daqueles que são considerados os piores membros da sociedade. O evangelho é universal e não admite exclusão. Apenas exige abertura para a pedagogia de Jesus. Por isso nos alegramos com a conversão de um único pecador, mas do que a fidelidade dos justos, que tem o dever próprio de serem justos.

Irmãos e Irmãs,

Somos todos ovelhas que devem ser conduzidas pelo Pastor, pelo Bom Pastor, o Cristo Ressuscitado! A ovelha, necessariamente, tem que viver junto ao rebanho e nunca desgarrada. O homem e a mulher também são como ovelhas: precisam viver em comum, em comunidade. Converter-se não significa perder a liberdade e a identidade, mas perceber e viver a presença de Deus estampada nos irmãos.

Assim convertidos em Cristo vamos modificando as três dimensões básicas da consciência – interior -, a exterior – com as pessoas; e a do alto – voltado para Deus. Assim um fariseu orgulhoso transforma-se, então, em Paulo de Tarso; um publicano torna-se o Apóstolo Mateus; uma prostituta transfigura-se em Santa Maria Madalena, a quem Jesus não perguntou quais eram os seus pecados, mas, sim vai e não peques mais!

Misericórdia que é abertura, sair de si mesmo: de Deus para nós; de nós para Deus, de cada um para os outros. Uma vida relacional que gera alegria, a doce alegria que deve ser o apanágio dos cristãos.

Caros irmãos,

As parábolas da misericórdia revelam-nos um Deus que ama todos os seus filhos, sem exceção, mas que tem um “fraco” pelos marginalizados, pelos excluídos, pelos pecadores… O seu amor não é condicional: Ele ama, apesar do pecado e do afastamento do filho. Esse amor manifesta-se em atitudes exageradas, desproporcionadas, de cuidado, de solicitude; revela-se também na “festa” que se sucede a cada reencontro… Não é que Deus pactue com o pecado; Deus abomina o pecado, mas não deixa de amar o pecador. É este Deus – “escandaloso” para os que se consideram justos, perfeitos, irrepreensíveis, mas fascinante e amoroso para todos aqueles que estão conscientes da sua fragilidade e do seu pecado – que somos convidados a descobrir. Se essa é a lógica de Deus em relação aos pecadores, é essa mesma lógica que deve marcar a minha atitude face àqueles que me ofendem e, mesmo, face àqueles que têm vidas duvidosas ou moralmente reprováveis. Como é que eu acolho aqueles que me ofendem, ou que assumem comportamentos considerados reprováveis: com intolerância e fanatismo, ou com respeito pela sua dignidade de pessoas?

Quando somos incomodados, geralmente recriminamos ou acusamos. Os fariseus e os escribas recriminam Jesus porque acolheu bem os pecadores. O filho mais velho da parábola recrimina o seu pai porque acolhe, com os braços abertos, o filho mais novo. Recriminam porque os seus corações estão fechados, recriminam porque eles próprios não podem acolher. De facto, não estarão eles a recriminar-se a si mesmos? O caminho está em acolher e deixar-se acolher.

Meus caros irmãos,

São Paulo de perseguidor tornou-se doce apóstolo que propagou o cristianismo. A graça de Deus agiu em abundância em sua caminhada que Cristo deu a Paulo vida e caridade. Jesus veio para salvar os pecadores e Paulo foi o principal deles. Com isso, Paulo se tornou exemplo daquilo que ele apregoa no seu serviço: a reconciliação, conforme nos ensina a segunda leitura de hoje.

Cristo nos revelou um Deus que é amor e misericórdia. É uma pessoa que dificilmente encontra lugar em nossa sociedade, e essa, por isso mesmo, tem dele necessidade vital. Aparentemente não serve, não é útil, não produz, não entra no jogo da inflação; mas nos dá tudo, dá-nos o que nenhuma análise científica nem progresso tecnológico jamais poderá dar-nos: que nos sintamos amados individualmente, um por um, de modo absoluto.

Assim, na Santa Missa de hoje queremos transformar em ação de graças todas as ocasiões que fomos objeto da misericórdia de Deus. Queremos dar graças a Deus por todas as vezes que tivemos a graça de oferecer o perdão ao nosso próximo. Perdão-amor e amor-perdão. E, que possamos, com a graça de Deus, procurar sempre o confessionário que nos ajuda a voltar sempre com a amizade com Deus. Uma boa confissão, pedindo o perdão completo de nossos pecados, nos ajuda a viver realmente a reconciliação, primeiro com Deus, depois com o irmão, com a comunidade e conosco mesmo. Que Deus nos ajude a buscar sempre o reencontro com Deus. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal