Meus queridos irmãos, 

A liturgia de hoje tem um fio condutor muito excelso: a humildade.  Logo na primeira leitura(Sb 2,12.17-20), por sinal bem escolhida, no sentido de demonstrar que a inveja dos homens ímpios contra o justo, que considera Deus como seu pai. A reação dos “ímpios” apresenta-se sempre em forma de perseguição, de ciladas, de ultrajes, de torturas e, em último caso, de assassínios. Trata-se de uma realidade que os justos de todas as épocas conhecem bem. A vida dos “justos” estará, então, condenada ao fracasso? Valerá a pena enfrentar a perseguição e conservar-se fiel a Deus e às suas propostas? O texto que nos é hoje proposto como primeira leitura não responde a estas questões; no entanto, o autor do Livro da Sabedoria dirá, mais à frente, que a fidelidade do justo será recompensada e que a sua vida desembocará nessa vida plena e definitiva que Deus reserva para aqueles que seguem os seus caminhos. Quem escolhe a “sabedoria de Deus”, não tem uma vida fácil. Será incompreendido, caluniado, desautorizado, perseguido, torturado… Contudo, o sofrimento não pode desanimar os que escolhem a “sabedoria de Deus”: a perseguição é a consequência natural da sua coerência de vida. Não devemos ficar preocupados quando o mundo nos persegue; devemos ficar preocupados quando somos aplaudidos e adulados por aqueles que escolheram a “sabedoria do mundo”. 

No Evangelho (Mc 9,30-37) vamos estudando que Jesus passara a maior parte de sua vida pública na Galileia, retomando os episódios da Paixão ou a sua eminência. 

A Paixão é inexorável e Jesus a coloca como a mais bonita vontade do Pai em benefício da salvação da humanidade, como vontade de Salvação, já preparando seus fiéis para a grande novidade: a Ressurreição dentre os mortos ao terceiro dia de sua paixão e morte. Nesta caminhada pela Galileia, Marcos quer nos convidar a fazer uma caminhada de fé e de esperança, uma caminhada de crescimento espiritual, compreendendo os mistérios de Jesus, fazendo com que cada um dê um passo maior, sempre em forma progressiva, de crescimento na fé e no seguimento de Jesus Cristo. 

Discípulo é aquele que recebe a instrução de um mestre, é aquele que adere a uma doutrina, pautando seu comportamento e a sua conduta em conformidade com ela. Os fariseus tiveram discípulos. João Batista também teve discípulos. Temos que fazer uma distinção em discípulo e apóstolo. Discípulos são os seguidores e apóstolos eram os discípulos que seguiam Jesus de dia e de noite, que se tornaram como a família de Jesus, tanto que foi com eles que Jesus quis comer a Ceia Pascal, que era um ritual familiar. 

Mas, a grande novidade que o Evangelho de hoje nos apresenta é que discípulo é aquele que testemunha a pessoa e a verdade do Mestre, já que é chamado a também levar a cruz, a beber seu cálice. Cristão é aquele que sobe a Jerusalém com Jesus, padece e ressuscita com Ele, aquele em cujas mãos Jesus poderá entregar a continuidade de sua missão aqui na Terra, nesta nossa peregrinação rumo à Jerusalém Celeste. 

Meus queridos irmãos, 

O Evangelho que meditamos nesta celebração (Mc 9,30-37) coloca em relevo uma das maiores inovações do seguimento cristão: o serviço. Todo o discípulo ou mesmo apóstolo é aquele que é o último em honrarias e o primeiro em serviço para todos os irmãos. 

Como ontem na sociedade judaica, o filme do tempo se repete nos dias atuais. A sociedade moderna prioriza as precedências, as grandezas pessoais, a vantagem pessoal, o aparecer, o impor-se; os primeiros lugares e o estar com as pessoas gradas e importantes da sociedade. A vontade inaudita de comandar, de ter alguém sobre o comando é tão antiga como a humanidade. Mas isso, como o aplauso e a bajulação, vai contra o projeto de salvação inaugurada por Jesus Cristo! 

Afinal, o que quer Jesus Cristo? O Divino Mestre vai na contramão e quer o contrário: prega o espírito de serviço aos irmãos, o espírito de renúncia e, acima de tudo, o espírito de desapego e de simplicidade. Ser como foi o seráfico Francisco de Assis, que pregava a paz, o bem e o amor!  Ensinamentos que devem não apenas ser pregados pelo cristão, mas, sobretudo, vivido pelos seguidores de Nosso Senhor. Por isso Jesus nos ensina a ser o último e o primeiro a servir a todos. 

O exemplo a ser seguido nós o encontraremos no caminho do Calvário, quando, na última Ceia, depois de lavar os pés dos Apóstolos, Jesus acrescentou categoricamente: “Se eu, que sou o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo” (Jo 13,14-15). 

A carta de Tiago (Tg 3,16-4,3) traz os sentimentos que são advindos da busca desenfreada do ter e do poder: ciúme, ambição, lutas, conflitos, cobiça, inveja, insatisfação. O que fazer para reverter este quadro? Ser simples como as pombas e as crianças, se limitando a seguir Jesus com humildade e lealdade aos Santos Evangelhos. 

A primeira parte da carta de São Tiago (cf. Tg 3,16-18) exorta os batizados a viverem de acordo com a “sabedoria de Deus”. A “sabedoria do mundo” gera inveja, contendas, falsidade (cf. Tg 3,14), rivalidade, desordem e toda a espécie de más ações (cf. Tg 3,16). Acaba por destruir a vida da própria pessoa e por impedir a comunhão dos irmãos. Trata-se de uma “sabedoria” incompatível com as exigências da adesão a Cristo. Ao contrário, a “sabedoria de Deus” é “pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia e boas obras, imparcial e sem hipocrisia” (Tg 3,17). São sete as “qualidades” da “sabedoria” aqui enumeradas: dado que o número sete significa “perfeição”, “plenitude”, o autor da Carta de Tiago está, assim, a propor aos batizados um caminho de perfeição, de realização total, de vida plena. Se o cristão quer viver em paz (isto é, em comunhão) com Deus, deve acolher a “sabedoria de Deus” e atuar de acordo com ela em cada passo da sua existência. Na segunda parte desta segunda leitura (cf. Tg 4,1-3), o autor da Carta analisa as causas da situação de conflito e de discórdia que se nota em muitas das comunidades cristãs e que é incompatível com as exigências do compromisso com Cristo. Esse quadro resulta do fato de os crentes não terem ainda interiorizado a proposta de Cristo… Em lugar de fazerem da sua vida, como Cristo, um dom de amor aos irmãos, e de traduzirem esse amor em gestos concretos de partilha, de serviço, de solidariedade, de fraternidade, estes crentes vivem fechados no seu egoísmo e no seu orgulho. O seu coração está dominado pela cobiça, pela inveja, pela vontade de se sobrepor aos outros… E essas “paixões” más traduzem-se naturalmente, a nível da relação comunitária, em atitudes de luta, de inveja, de rivalidade, de ciúme, de arrogância, de ira. Vivem de acordo com a “sabedoria do mundo” e não de acordo com a “sabedoria de Deus”. 

 Meus caros irmãos e minhas caras irmãs, 

A humildade tem o seu ápice na Cruz de Jesus, na sua Paixão redentora. A humildade não é a virtude do medroso, a carência transformada em virtude. É a opção pelo caminho do Cristo, o caminho de obediência até a morte por amor, contrariamente ao orgulho, que leva à morte absurda. O exemplo de Jesus nos empenha a escolher o caminho oposto. Olhar para os outros, sim, mas não para nos comparar com eles, porém, para ver como servir melhor. 

Ser grande é ser o servo de todos. Por isso, neste domingo, vamos acolher o pedido de humildade e de serviço que nos pede o Redentor, para que possamos pedir a graça de viver como últimos para sermos os primeiros no Reino dos Céus. Busquemos, pois, transformar a graça de servir em motivo de ação de graças a Deus, com a celebração deste grande banquete que tira os pecados nossos e do mundo: a Santa Missa. Assim seja! 

 Homilia por: Padre Wagner Augusto Portuga