A gratuidade de Deus - Homilia do 25º Domingo Tempo Comum
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Meus irmãos,

Hoje vivenciamos a liturgia da gratuidade de Deus, num estudo apurado das realidades do Reino de Deus. Tudo isso dentro daquilo que a todos os homens que não são serenos aflige: “Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”(cf. Mt 20,16).

A liturgia quer nos ensinar o que é a justiça: a bondade que vem de Deus Nosso Senhor. A Justiça de Deus não é contrária à sua bondade, pelo contrário, ela é idêntica. Isso porque Deus perdoa a todos os pecadores que se convertem. Deus não está interessado em pagamento, mas em vida, e vida em abundância: “Não quero a morte do pecador, mas sim, que ele se converta e viva”. (cf. Ez 18, 23). Essa mensagem é a primeira mensagem que vamos levar para casa hoje, refletindo a primeira leitura de Isaías(cf. Is 55,6-9), que nos oferece o convite para o tempo messiânico, que é também o tempo da plena revelação da estranha justiça de Deus, que tanto ultrapassa à nossa, quando o céu transcende a terra.

O apelo do profeta Isaías é, portanto, a um recomeço. Nesses novos caminhos que as vicissitudes da história vão abrir aos exilados, é preciso que este Israel renovado pela experiência do Exílio continue a procurar o Senhor, a invocá-l’O, a cultivar laços de comunhão e de proximidade com Ele. Fundamentalmente, Israel é convidado a converter-se ou, literalmente, a “voltar para Deus”. Essa “conversão” exige uma transformação radical do homem, quer em termos de mentalidade, quer em termos de comportamento (“deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos” – Is 55,7). A mentalidade, os valores, as atitudes dos “ímpio” e do “homem perverso”, estão muito longe da mentalidade, dos valores e dos esquemas de Deus. A vida do “ímpio” e do “homem perverso” funciona numa lógica de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência, de violência, de exploração; os esquemas do “ímpio” geram sofrimento, infelicidade, morte. Deus funciona numa lógica de amor, de serviço, de partilha, de doação; os esquemas de Deus geram alegria, paz verdadeira, vida definitiva. Ao Povo de Deus, pede-se que prescinda da lógica do “ímpio” e do “homem perverso”, para abraçar a lógica de Deus.

O profeta adverte que os fiéis não vivam de olhos postos no chão, mas que olhe para o céu e contemple os horizontes de Deus. O profeta Isaías sublinha que devemos sermos capazes de confiar em Deus e de compreender o acerto dos seus caminhos. Só dessa forma o Povo poderá será feliz nessa Terra a que vai regressar; só dessa forma Israel poderá continuar a ser fiel à sua missão de testemunhar Jahwéh no meio dos outros povos.
A conversão implica também uma mudança na forma de ver Deus. O homem tem sempre tendência a construir um deus à sua imagem, um deus previsível e domesticado que funcione de acordo com a lógica e a mentalidade do homem. No entanto, Deus não pode ser reduzido aos nossos esquemas humanos: os seus pensamentos não são os pensamentos do homem, as suas reações não são as reações do homem, os seus caminhos não são os caminhos do homem. “Converter-se” é, a este nível, aprender que Deus não é redutível às nossas lógicas e esquemas humanos; e é aprender que Deus tem os seus próprios caminhos, diferentes dos nossos… “Converter-se” é, a este nível, prescindir das nossas certezas, preconceitos e autossuficiências, confiar em Deus e na bondade dos caminhos através dos quais ele conduz a história da salvação.

O “voltar para Deus” significa, neste contexto das palavras do Profeta Isaías, re-equacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da existência do homem.
É infletir o sentido da existência, de forma a que Deus (e não o dinheiro, o poder, o sucesso, os amigos, a família) ocupe sempre, na vida do homem, o primeiro lugar. A cultura pós-moderna prescindiu de Deus. A cultura moderna considerou que o homem é o único senhor do seu destino e que cada pessoa tem o direito de construir a sua felicidade à margem de Deus e dos seus valores; considerou que os valores de Deus não permitem ao homem potencializar as suas capacidades e ser verdadeiramente livre e feliz.

É na escuta e na reflexão da Palavra de Deus, na oração frequente, na atitude de disponibilidade para acolher a vida de Deus, na entrega confiada nas mãos de Deus, que o batizado descobrirá os valores de Deus e os assumirá. Aos poucos, a ação de Deus irá transformando a mentalidade desse batizado, de forma a que ele viva e testemunhe Deus e as suas propostas para os homens.

Somos, como batizados, pessoas em permanente processo de busca do rosto de Deus. A conversão é um processo nunca acabado. Todos os dias o batizado terá de optar entre os valores de Deus e os valores do mundo, entre conduzir a sua vida de acordo com a lógica de Deus ou de acordo com a lógica dos homens. Por isso, o verdadeiro batizado nunca cruza os braços, instalado em certezas definitivas ou em conquistas absolutas, mas esforça-se por viver cada instante em fidelidade dinâmica a Deus e às suas propostas.

  • Finalmente, o nosso texto sugere uma reflexão sobre a imagem que temos de Deus. Não

Amigos e amigas,

O Evangelho de hoje(Mt 20,1-16) nos convida a sermos gratuitos como o Pai do Céu é gratuito para com todos os viventes, dentro da universalidade da Salvação. A lição de hoje é muito difícil e provocadora: é a lição da gratuidade. Deus oferece e dá porque é generoso, não porque alguém o mereça ou tenha “comprado” direitos que possam garantir algum ganho em troca. Todos os homens recebem o dom da vida com gratuidade, e esse deveria ser o seu comportamento por toda a sua peregrinação neste vale de lágrimas, rumo à Jerusalém Celeste.

A gratuidade é a maior demonstração do tanto que Jesus nos ama e nos quer bem: “Ele morreu generosa e gratuitamente no Madeiro da Cruz para a salvação de toda a humanidade”.

Hoje a parábola não nos fala de trabalho/salário, mas da generosidade do patrão, do empregador, que deve ser a nossa meta para a nossa vida diária. A lição central da Missa de hoje é a bondade do patrão, que pagou aos últimos tanto quanto aos primeiros, dentro do sentido do Reino de Deus, usando não os critérios dos homens, mas os critérios de Deus, que nos ensina que ama os últimos como ama aos primeiros. Deus não faz acepção de pessoas e nem comete injustiça, pelo contrário, é o patrão das bem-aventuranças, da acolhida sem limites, do perdão, da partilha, do acolhimento, com generosidade superabundante do amor gratuito.

Irmãos e Irmãs,

Não pensemos que a lição central de hoje foi fácil no tempo de Jesus. Ainda mais nos nossos tempos, a lição é provocadora, porque a gratuidade é difícil de ser entendida e dificílima de ser vivida. No tempo de Jesus os hebreus comprovam com “moeda” as bênçãos de Deus, pela observância das leis.

Jesus veio dar um novo sentido de sofrimento, iluminado pelas sua Cruz e Ressurreição Redentora, porque os homens recebem não porque a criatura o mereça, não porque a criatura é boa, mas porque Deus é bom, misericordioso, gratuito, generoso e quer dar.  Tudo isso junto com as boas obras que somos convidados a empreender, mas o critério básico é o desapegar-se e a gratuidade.

Não adianta ao homem querer comprar a Deus, porque o Reino de Deus é o reino da gratuidade, do despojamento, da gratuidade.

A gratuidade é a realização da perfeição da lei. Jesus ensinou que o operário é digno de seu salário (cf. Lc 10,7). Mas Deus ensinou mais com o projeto da gratuidade. Deus é sempre gratuito e todas as ações de seus filhos devem ser a mesma linha do desapegamento dos pagamentos e recompensas, para a generosidade de tudo, até de si mesmo, para alcançar o Reino das bem-Aventuranças.

A lição da gratuidade é a grande meta desta semana, de nossas ações, de nossos trabalhos, de nossos relacionamentos, de nossa vida de comunidade. Devemos agir sem esperar receber nada, mas com bondade, compaixão, misericórdia.

Jesus ensinou e viveu o que pregou. Jesus não faz acepção entre os primeiros e os últimos. Um pecador que passou toda a sua existência fazendo o mal, convertendo-se arrependido de seus pecados será acolhido no céu igualmente ao homem justo e santo, porque DEUS CARITAS EST, ou seja, DEUS É AMOR E CARIDADE.

Tudo isso é muito difícil de assimilar aos olhos humanos, mas a gratuidade que provém de Deus nos chama para procurarmos o rosto sereno e radioso do Senhor “cuja plenitude recebemos graça sobre graça” (cf. Jo 1,16). O amor de Jesus é perfeito.

Caros irmãos,

O Evangelho deste domingo deixa claro que o Reino de Deus (esse mundo novo de salvação e de vida plena) é para todos sem exceção. Para Deus não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados. Para Deus, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha. A única coisa verdadeiramente decisiva é se os interpelados aceitam ou não trabalhar na vinha de Deus. Fazer parte da Igreja de Jesus é fazer uma experiência radical de comunhão universal.

Todos têm lugar na Igreja de Jesus. Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há é homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor – tarde ou cedo, não interessa – e foram trabalhar para a sua vinha. Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social, a posição hierárquica, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.

Importante destacar que o Evangelho deste domingo denuncia ainda essa concepção de Deus como um “negociante”, que contabiliza os créditos dos homens e lhes paga em consequência. Deus não faz negócio com os homens: Ele não precisa da mercadoria que temos para Lhe oferecer. O Deus que Jesus anuncia é o Pai que quer ver os seus filhos livres e felizes e que, por isso, derrama o seu amor, de forma gratuita e incondicional, sobre todos eles.

Entender que Deus não é um negociante, mas um Pai cheio de amor pelos seus filhos, significa também renunciar a uma lógica interesseira no nosso relacionamento com ele. O cristão não faz as coisas por interesse, ou de olhos postos numa recompensa (o céu, a “sorte” na vida, a eliminação da doença, o adivinhar a chave da lotaria), mas porque está convicto de que esse comportamento que Deus lhe propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.

Irmãos e Irmãs,

Hoje refletimos sobre o modo de agir de Jesus. Isso é muito bom, porque se fossemos medidos por Jesus poucos entrariam no Reino dos Céus. Mas Deus não faz estatísticas. Ele faz acolhimento com generosidade.

Pensemos em Paulo, que escreve aos Filipenses que ele não sabe o que escolher: viver para um frutuoso trabalho ou morrer para estar com o Ressuscitado. Continuar a trabalhar não teria para ele o sentido de ganhar o céu; desejá-lo somente porque seria bom para os filipenses. Mas o que ele deseja mesmo é participar ativamente da proximidade do Senhor Jesus. Viver, para ele, é Cristo. Uma vida animada pela amizade por Cristo, não pelo cálculo…. Na mesma Carta, ele dirá que seu espírito de merecimento, suas vantagens conforme os critérios farisaicos, ele as considera como perda, como esterco (cf. Fl 3, 7-8). Só a graça, a gratuita bondade que Deus lhe manifestou em Cristo Jesus, o impulsiona ainda.

A Segunda leitura da missa de domingo(Fl 1,20c-24.27a) demonstra que para São Paulo, Cristo é que é a autêntica vida. Ele é a razão de ser e de viver do apóstolo. Na perspectiva de São Paulo, a morte seria bem-vinda, não como libertação das dificuldades e das dores que se experimentam na vida terrena, mas como caminho direto para o encontro definitivo, imediato, sem intermediários, com Cristo. São Paulo não se importaria nada de morrer a curto prazo, porque isso significaria a comunhão total com Cristo. Especialmente significativa, a este propósito, é a conhecida frase (que, aliás, está escrita no seu túmulo, em Roma): “para mim, viver é Cristo e morrer é lucro”. No entanto, Paulo está consciente de que Deus pode ter outros planos e querer que ele continue – para benefício das comunidades cristãs – algum tempo mais na terra, a dar testemunho do Evangelho de Cristo. Paulo aceita isso: por Cristo, está disposto a tudo. Na verdade, não são os interesses de Paulo que contam, mas os interesses de Cristo.

Diante de Cristo, todos os interesses pessoais e materiais do apóstolo passam a um plano absolutamente secundário. O apóstolo vive de Cristo e para Cristo; nada mais lhe interessa. São Paulo aparece, neste aspecto, como o perfeito modelo do cristão: para os batizados, Cristo deveria ser o centro de todas as referências e interesses, a “pedra angular” à volta da qual se constrói a existência cristã. É mais importante falar de Cristo e do seu Evangelho do que dos artigos do Código de Direito Canônico; é mais importante testemunhar Cristo e os seus valores do que discutir a estrutura hierárquica da Igreja; é mais importante anunciar Cristo e a sua proposta de Reino do que debater questões de organização e de disciplina.

Contemplemos, na segunda leitura, a liberdade total do Apóstolo Paulo face à morte. Essa liberdade resulta do fato de a fé que anima o apóstolo lhe permitir encarar a morte, não como o mais terrível e assustador de todos os males, mas como a possibilidade do encontro definitivo e pleno com Cristo. Dessa forma, São Paulo pode entregar-se tranquilamente ao exercício do seu ministério, sem deixar que o medo trave o seu empenho e o seu testemunho. Também aqui a atitude de Paulo interpela e questiona os crentes. Para um cristão, a morte é o momento da realização plena, do encontro com a vida definitiva. Não é um drama sem sentido, sem remédio e sem esperança. Para um cristão, não faz sentido que o medo da perseguição ou da morte impeça o compromisso com os valores de Deus e com o compromisso profético diante do mundo.

O epitáfio do túmulo do mais ilustre purpurado mineiro do século XX, Cardeal Lucas Moreira Neves, resume bem a liturgia da gratuidade deste domingo: “Passou a vida na busca do rosto sereno e radioso do Seu Senhor. Agora o encontrou”.

Vamos buscar a gratuidade deste rosto e transfigurá-lo na nossa vida, no nosso compromisso evangelizador!