Homilia Senhor, aumentai a nossa fé!

Meus queridos Irmãos e Irmãs,

Duas palavras hoje nos convidam para a reflexão em torno de toda a liturgia: a FÉ e a FIDELIDADE. Quando Habacuc, na primeira leitura, diante da desordem em Judá, nos últimos anos antes do exílio, grita a Deus com impaciência, quase com desespero, Deus anuncia que ele tratará o mal por um remédio mais tremendo ainda: os babilônicos. À objeção de Habacuc contra esta solução, o Senhor Deus responde: “Eu sei que o faço; não preciso prestar contas; mas os justos se salvarão por sua fidelidade”.

Na primeira leitura(cf. Hab 1,2-3; 2,2-4) o profeta pede explicação a Deus – Este trecho é um diálogo entre Deus e o profeta. O profeta se queixa, por causa do tirano rei Joaquim, que reinava sobre Judá entre o período de 609-598aC, porque a impiedade está vencendo. O direito e o próprio justo são pisados ao pé. Resposta: vem coisa pior ainda! Deus não precisa prestar contas para o homem. Este é que lhe deve obediência, também nas horas negras.
O rei de Judá é, nesta altura, Joaquim (609-598 a.C.). Trata-se de um rei fraco, incompetente, que explora o povo, que deixa aumentar as injustiças e cavar um fosso cada vez maior entre ricos e pobres; além disso, o rei desenvolve uma política aventureirista de alianças com as super-potências da época… Apesar das simpatias pró-egípcias de Joaquim, Judá sente já o peso do imperialismo babilônio e vê-se obrigado a pagar um pesado tributo a Nabucodonosor. Prepara-se a queda de Jerusalém nas mãos dos babilônios, a morte de Joaquim, a deportação do seu filho e sucessor Joaquin (que reinou apenas três meses – cf. 2 Re 24,8) e a partida para o exílio de uma parte significativa da classe dirigente de Judá (primeira deportação: 597 a.C.).

O profeta Habacuc grita a sua impaciência (e a impaciência do seu Povo), questionando a atitude complacente de Deus para com o pecado; ele não compreende que Deus contemple, impassível, as lutas e contendas do seu tempo… Habacuc sente-se interpelado pelo que o rodeia e não concebe que Deus (esse mesmo Deus que Se manifestou como libertador e salvador na história do Povo e que Se proclama fiel aos compromissos que assumiu para com os homens) não ponha fim a tantas grosseiras violações do seu projeto para o mundo. O profeta não se limita a escutar a Palavra de Jahwéh e a transmiti-la; mas ele próprio toma a iniciativa, pergunta a Deus, exige respostas. E, como uma sentinela vigilante, o profeta fica à espera que Deus Se justifique (cf. Hab 2,1). Finalmente, Deus digna-Se responder. A mensagem é de esperança, pois a resposta de Deus deixa claro que Ele não fica indiferente diante do mal que desfeia o mundo e que o momento da vingança divina está para chegar; ao homem, resta esperar com paciência o tempo da acção de Deus (cf. Hab 2,2-5): nessa altura, o orgulhoso e o prepotente receberão o castigo e o justo triunfará.
Todos nós devemos aprender a confiar em Deus, a entregarmo-nos nas suas mãos, a sentir que Ele é um Pai que nos ama e que, aconteça o que acontecer, está a escrever a história por caminhos direitos (embora os caminhos pelos quais Deus conduz o mundo nos pareçam, tantas vezes, estranhos, misteriosos, enigmáticos, incompreensíveis). Há que confiar na bondade e na magnanimidade desse Deus que nos ama como filhos e que tudo fará, sempre, para nos oferecer vida e felicidade.

Caros fiéis,

A Segunda Carta de São Paulo a Timóteo contém, como a primeira, conselhos pastorais do Apóstolo Paulo para o seu grande colaborador e sucessor na animação das Igrejas da Ásia: esse Timóteo que acompanhou Paulo nas suas viagens missionárias e que, segundo a tradição, foi bispo de Éfeso. Também aqui, é muito duvidoso que seja Paulo o autor deste texto. Os argumentos são os mesmos que vimos, a propósito da Primeira Carta a Timóteo: linguagem diferente da utilizada habitualmente por Paulo, estilo diferente, doutrinas diferentes e, sobretudo, um contexto eclesial que nos situa mais no final do séc. I ou princípios do séc. II do que na época de Paulo (o grande problema destas cartas já não é o anunciar o Evangelho, mas o “conservar a fé”, frente aos falsos mestres que se infiltram nas comunidades e que ensinam falsas doutrinas). De qualquer forma, quem escreve a carta (e que se apresenta na pele de Paulo) diz encontrar-se na prisão e pressentir a proximidade da morte. Exorta insistentemente Timóteo a perseverar no ministério e a conservar a sã doutrina. É uma espécie de “testamento”, no qual Timóteo (que aqui representa todos os animadores das comunidades cristãs) é convidado a manter-se fiel ao ministério e à doutrina recebidos dos apóstolos.

A segunda leitura(cf. 2Tm 1,6-8.13-14) São Paulo nos adverte que não devemos nos envergonhar do Evangelho e guardar o bem depositado. Esta exortação paulina aos pastores, que precisam lembrar-se de que está servindo ao Cristo aniquilado. O “bom depósito” é a plena verdade do Evangelho. Repletos dela, poderão distribuí-la aos outros. O cristão é responsável não só por sua própria fé, como também pela fé do irmão.

É um pedido lógico: mesmo que a opção de doar a vida a Deus e aos irmãos já tenha sido tomada, essa decisão fundamental necessita, cada dia, de ser aprofundada e confirmada. As desilusões, os fracassos, a monotonia, a fragilidade humana arrefecem o entusiasmo original; e é necessário, a cada instante, redescobrir o sentido das opções fundamentais que, um dia, o discípulo fez. Na sequência, são recordadas a Timóteo três das qualidades fundamentais que devem estar sempre presentes no apóstolo: a fortaleza frente às dificuldades, o amor que o impulsionará para uma entrega total a Cristo e aos homens e a prudência (ou moderação) necessária para a animação e orientação da comunidade.

A interpelação do autor da Segunda Carta a Timóteo dirige-se, antes de mais, a todos aqueles que um dia aceitaram o Batismo e optaram por Cristo… Na verdade, o mundo que nos rodeia apresenta imensos desafios que, muitas vezes, nos desmobilizam do serviço do Evangelho e dos valores de Jesus. É por isso que é preciso redescobrir os fundamentos do nosso compromisso. Quais são os interesses que influenciam a minha vida e que condicionam as minhas opções: os meus gostos pessoais, as indicações da moda, as sugestões da sociedade, ou as exigências e os valores do Evangelho de Jesus? Esta leitura nos convida a redescobrir, cada dia, esse entusiasmo que lhes enchia o coração no dia em que optaram pela entrega da própria vida a Cristo e aos irmãos. Este convite nos insiste a nos despirem da preguiça, da inércia, do comodismo e a fazerem da sua vida, em cada dia, um dom corajoso ao “Reino”.

Meus irmãos,

A fé não se mede pelo tamanho, mas muito mais pela qualidade e pelo compromisso de evangelização, de nova e eterna evangelização aonde somos chamados a resgatar a pessoa humana na sua integralidade. Assim, hoje, Jesus no Evangelho(cf. Lc. 17,5-10), capítulo 17 de São Lucas, nos fala da fé, razão propulsora da misericórdia. Jesus não diz o que é a fé, mas apresenta qualidades da fé, que nos ajudam a examinar a fé que temos e que professamos.

A fé é uma experiência pessoal que nós vamos evoluindo para se transformar numa experiência comunitária ou eclesial que nos enche de encantamento na busca do rosto de Deus.

A fé pessoal tem que se transformar em fé eclesial ou religiosa. Confiamos, mesmo contra todas as nossas tendências e pecados, na misericórdia de Deus que nos embala pela força do Santo Espírito na vivência da fé pela Palavra de Deus e pela celebração dos sacramentos e sacramentais.

Vivemos um grande momento de crise de fé e de grande secularismo. A humanidade está vivendo uma grande crise de relacionamento. À raiz dessa crise está o amor-tecimento da fé em Deus criador e provedor. A fé cristã vê a força de Deus encarnada em Jesus Cristo, Palavra viva de Deus no meio de nós, conosco fazendo comum unidade.

Irmãos e Irmãs,

Jesus apresenta o Deus misericordioso, que abraça o filho pródigo, sem pedir satisfações nem impor condições. Assim deve ser a nossa práxis cristã. Jesus nos ensina que o perdão não tem limites e isso a homens cuja generosidade maior havia chegado até a lei do talião, isto é, “elas por elas”.

Os apóstolos pedem a Jesus que aumente a sua fé. As exigências de Jesus são difíceis para aqueles que foram escolhidos para o Colégio Apostólico. Jesus chama os discípulos a dar um passo adiante, com novo modo de pensar e de se comportar. A fé pode até ser pequena como um grão de mostarda, mas terá a força de fazer coisas extraordinárias, até mesmo contra as chamadas leis da natureza, como plantar uma árvore sobre as ondas do mar. A fé põe a criatura em comunhão com Deus e a faz participar de sua força criadora e salvadora.

Meus amigos,

A fé necessita de duas qualidades: a primeira a fé deve ser DINÂMICA. A fé não é sinônimo de resignação. A fé nada tem a ver com o quietismo. A fé é coragem e decisão, ação e iniciativa. A fé é tão ativa que é capaz de mudar a ordem da criação. A fé pode ser o impossível, porque Jesus nos ensinou que: “Comigo tudo podeis”(cf Jo 15,5). A fé é dinâmica e opera sempre, em dias de bonança e em dias de martírio ou de dificuldades. A fé tem a força de nos fazer caminhar também por cima das coisas negativas como o pecado, a dúvida, a confusão e a violência injusta.

Tudo dentro do contexto de perseguições a que estariam submetidos os cristãos, particularmente os apóstolos, pela tortura, pela calúnia e pela intransigência dos judeus e do poder romano.

A segunda qualidade da fé: a HUMILDADE. Fé humilde que deve ser generosa e gratuita. A criatura diante do Criador deve ser disponível, sem cálculos, sem pretensões, sem contrato.
Neste contexto muitos cristãos procuram a fé em troca de uma recompensa. Essa era a mentalidade dos judeus e até nos apóstolos no início da pregação. Mas Jesus fala da gratuidade. Jesus é duro e direto: depois de um dia de trabalho ou de vida inteira consagrada às coisas de Deus, devemos dizer: “Somos servos inúteis. Fizemos apenas o que devíamos fazer”. Quando os discípulos pedem a Jesus que “aumente a sua fé” Jesus confirma a necessidade da fé. Mas uma fé profundamente dinâmica na dimensão para Deus e na dimensão para o próximo: uma fé humilde diante de Deus e diante de nossas pretensões.

Caros irmãos,

A “fé” é, antes de mais, a adesão à pessoa de Jesus Cristo e ao seu projeto. O “Reino” é uma realidade sempre “a fazer-se”; mas apresentam-se, com frequência, situações de injustiça, de violência, de egoísmo, de sofrimento, de morte, que impedem a concretização do “Reino”. Como é que eu – homem ou mulher de fé – ajo, nessas circunstâncias? A minha “fé” em Jesus conduz-me a um empenho concreto pelo “Reino” e entusiasma-me a lutar contra tudo o que impede a concretização do “Reino”? Nós, homens, somos, com frequência, muito ciosos dos nossos direitos, dos nossos créditos, daquilo que nos devem pelas nossas boas ações. Quando transportamos isto para a relação com Deus, construímos um deus que não é mais do que um contabilista, que escreve nos seus livros os nossos créditos e os nossos débitos, a fim de nos pagar religiosamente, de acordo com os nossos merecimentos… Na realidade – ensina o Evangelho de hoje – não podemos exigir nada de Deus: existimos para cumprir, humildemente, o papel que Ele nos confia, para acolher os seus dons e para O louvar pelo seu amor. É nesta atitude que o discípulo de Jesus deve estar sempre.

Meus caros amigos,

Na segunda Leitura São Paulo admoesta seu amigo Timóteo a manter plena fidelidade ao Senhor. Pois também o ministro da fé deve firmar-se na fidelidade, para poder firmar seus irmãos na fé. Não se envergonhar, observar a doutrina sadia recebida do Apóstolo, guardar o “bom depósito”, ou seja, o bem a ele confiado, o Evangelho. Nas circunstâncias daquele tempo e de todos os tempos, ontem, hoje e amanhã, isso só é possível com a força do Santo Espírito.

O seguidor de Jesus Cristo vive num contexto e num mundo secularizado do qual Deus está ausente, que vive e se organiza sem ele. Com a sua fé, o cristão tem neste mundo a tarefa de destruir as falsas seguranças propondo-lhe as questões fundamentais e oferecendo a todos a sua grande esperança. A fé cristã é posta diante de um desafio: tornar-se propugnadora de problemas que nenhum laboratório, experiência ou computador eletrônico podem resolver, e que, no entanto, decidem o destino do homem e do mundo.

O católico, com a sua fé, tem a tarefa evangelizadora de destruir as falsas seguranças propondo ao mundo Jesus Cristo Ressuscitado, esperança contra toda esperança humana. A fé cristã é posta diante de um desafio hodierno: tornar-se propugnadora de problemas que nenhum laboratório, experiência ou computador podem resolver. A fé resolve o destino do homem e do mundo, por isso pedimos que nossa fé seja sempre revigorada.

Assim, a Comunidade eclesial, neste dia do Senhor, é convidada com insistência a dar graças a Deus e unir à oferta de Cristo todas essas experiências de páscoa. Por elas os cristãos fazem uso dos bens materiais sem, no entanto, a elas estarem escravizados. A confiança em Cristo liberta o coração do homem para Deus e para os irmãos. Por isso rezemos com insistência: “Senhor, aumentai a nossa fé!”.

Padre Wagner Augusto Portugal.