Homilia A cura dos dez leprosos

Meus queridos Irmãos,

Quando nós recebemos um elogio a nossa reação deve ser de um pronto agradecimento. E, assim, por conseguinte, não seria diferente para com a graça de Deus quando nós somos convidados a agradecer a sua misericórdia para conosco.

A história de Eliseu e Naamã, tema da primeira leitura deste domingo(cf. 2Rs 5,14-17), mereceria mais carinho do que a liturgia lhe consagra. De fato, o recorte litúrgico exige pelo menos uma pequena introdução narrativa, para pôr os ouvintes a par do que precedeu à entrada de Naamã nas águas do Jordão: como este estrangeiro criou a idéia de consultar um profeta de Israel e, sobretudo, como ele queria montar o espetáculo, levando ricos presentes (cf 2 Rs 5,5). Queria que Eliseu o curasse por sua palavra, mas Eliseu o mandou banhar-se no Jordão. O general, apertado, aprendeu a obedecer. Veio a hora de agradecer: novamente, Naamã oferece um presente digno de um príncipe. Eliseu, por sua vez, recusa, pois quem agiu foi o Senhor Deus! Então vem o comovente fim da história: curado, não só de sua lepra, mas de seu orgulho militar, Naamã pede para levar à Síria um pouco de terra de Israel, para adorar, na Síria, o Deus de Israel no seu próprio chão. Além disso, pede antecipadamente perdão porque, como funcionário real, terá que adorar de vez em quando o deus sírio Remon; e Eliseu responde: “Pode fazer tranqüilamente”.

A primeira leitura relata a cura do sírio Naamã e as reações das várias personagens envolvidas; mas, mais do que apresentar uma reportagem do acontecimento, os autores deuteronomistas quiseram tecer algumas considerações de carácter teológico e catequético, que ajudassem os israelitas (seduzidos pelo culto de Baal) a redescobrir os fundamentos da sua fé.

Cinco pontos devem ser destacados: 1. Os catequistas de Israel quiseram deixar claro que Jahwéh é o Senhor da vida, que Ele tem um projeto de libertação para o homem e que só Ele pode salvar aquele que parece condenado à morte. Deus até Se pode servir de homens para atuar no mundo; mas é d’Ele – e apenas d’Ele – que brotam a salvação e a vida; é preciso que os israelitas reconheçam isto, como o sírio Naamã o reconheceu. 2. Os catequistas de Israel quiseram mostrar que a intervenção salvadora de Jahwéh não é uma ação meramente circunstancial, que apenas resolve os problemas externos, mas é uma ação que atua a um nível profundo e que transforma radicalmente a vida do homem… Naamã não ficou só curado de uma doença física que punha em risco a sua vida; mas a intervenção de Deus saldou-se numa transformação espiritual que fez do sírio Naamã um homem novo e o levou a deixar os ídolos para servir o verdadeiro e único Deus… A expressão dessa mudança radical é a afirmação de Naamã de que “não há outro Deus em toda a terra senão o de Israel” (vers. 15) e que nunca mais irá “oferecer holocausto ou sacrifício a quaisquer outros deuses, mas apenas ao Senhor, Deus de Israel” (vers. 17). 3. A história deixa claro que a oferta da salvação não é um dom exclusivo, reservado a alguns privilegiados ou a uma raça especial: Naamã é sírio e, portanto, um inimigo tradicional do Povo de Deus… Mas Deus não faz distinção de pessoas e oferece a todos, sem exceção, a sua graça. O que é decisivo é o acolher o dom de Deus e aceitar deixar-se transformar por Ele. 4. A catequese deuteronomista sublinha a “gratidão” de Naamã. Liberto dos males que o apoquentavam, ele quis agradecer a sua cura cumulando Eliseu de presentes; mas depressa percebeu (por ação de Eliseu, que o ajudou a ver claro) que não era a um homem que tinha de agradecer o dom da vida, mas sim a Deus… E a sua gratidão manifestou-se numa adesão total a Jahwéh. Os catequistas de Israel sugerem que é essa a resposta que Deus espera do homem. 5. Atente-se na atitude de Eliseu que nunca manifestou qualquer vontade de se aproveitar da intervenção de Deus em favor de Naamã para benefício próprio. Ao recusar aceitar qualquer presente das mãos de Naamã, Eliseu dá a entender que não é a ele mas a Jahwéh que o general sírio deve agradecer a cura. É provável que haja aqui uma denúncia irónica da atitude dos líderes religiosos da época, sempre preocupados em utilizar Deus em benefício dos seus esquemas egoístas.

 De tudo isso podemos depreender de que a gratuidade do agir de Deus; nem presentes, nem ordens o movem, mas a ingênua confiança que se esconde por trás das manias militarescas de Naamã. A humildade do profeta, que só quer que Deus apareça. A comovente gratidão do sírio. A abertura de espírito do profeta quanto às obrigações religiosas do sírio. O fato de Naamã ser estrangeiro: Deus, assim, “não tinha obrigação com ele”. Mas a nossa fé é uma fé gratuita, generosa e misericordiosa.

Irmãos e Irmãs,

Somos chamados a viver em contínuo agradecimento. A nossa fé tem que ser sempre agradecida. A gratidão, embora todos a queiram, poucos a manifestam com sinceridade. Talvez na mesma proporção dos dez leprosos curados: um só voltou para agradecer. A gratidão é um ornamento da humildade. O orgulhoso não conhece a gratidão(Cf. Evangelho de hoje Lc 17,11-19)

Somos servidores de Deus e como servidores devemos ser gratuitos e misericordiosos. Toda a história da salvação, descrita pelas Sagradas Escrituras, é a história dos benefícios contínuos e gratuitos de Deus ao povo seu que peregrina neste mundo. Devemos estar em atitude de ação de graças, lembrando as palavras do sábio Sirácida: “Eu te agradeço, Senhor e Rei, e te louvo, porque és o meu Deus salvador! Rendo graças a teu nome… que me livrou da perdição e me serviu de sustentáculo no meio da falsidade”(cf. Eclo 51,1-2).

Jesus sempre rezou agradecendo a Deus as maravilhas que operava pela sua missão, pela ressurreição de Lázaro, por exemplo. E neste sentido São Paulo nos deu vários exemplos, em seus escritos aos coríntios, aos colossenses e aos efésios.

Meus queridos amigos,

Todos nós sabemos que na Bíblia a Lepra era uma doença muito comum no oriente. Leproso era etimologicamente aquele que foi ferido por Deus. A lepra era olhada como castigo de Deus e a pessoa adoentada era considerada uma pessoa pecadora. Aos leprosos eram proibidos o acesso ao templo ou a sinagoga. Os leprosos não podiam freqüentar a praça pública e não podiam viver dentro da urbe. Assim os dez leprosos foram atrás de Jesus fora da cidade. Sendo impuro o leproso não podia se aproximar de ninguém, porque era pecador.

O Evangelho deste Domingo nos apresenta dez leprosos(cf. Lc 17,11-19). Dez eram os leprosos: o número da totalidade, quando nos lembramos que 10 eram os apóstolos e dez são os apóstolos. Os dez leprosos vieram pedir a ajuda de Jesus e chamam Jesus reconhecendo-o como Mestre. Assim todos são convidados a salvação. Da mesma forma a conversão e a mudança de vida para uma inserção na vida comunitária e pastoral.

Na grande comunidade, como na companhia dos dez leprosos, todos somos chamados a sermos filhos e filhas de Deus. Dez foram os curados, mas somente um voltou para agradecer. Assim acontece no dia a dia com as pessoas que quase sempre nunca agradecem. Poucos são os agradecidos que louvam a misericórdia de Deus.

Jesus curou os dez leprosos e mandou que eles se apresentassem ao sacerdote para declarar a cura da lepra efetuada por Jesus. O samaritano voltou para agradecer antes porque não tinha que submeter ao ritual da cura. Isso demonstra que Jesus nos pede que superemos o ritualismo e vivamos uma fé libertadora e inovadora que seja baseada na fé em Jesus de Nazaré e em sua palavra salvadora.

Os leprosos tiveram fé e pediram misericórdia pelo seu estado. Esta deve ser a nossa atitude: fé filial e pedido de ajuda de Deus para superar nossas limitações. Gratuidade do agir de Deus, gratidão por tudo o que Deus faz: tudo é graça. Estes seriam os temas da reflexão de hoje.

Caros irmãos,

A “lepra” que rouba a vida a esses “dez” homens que o Evangelho deste domingo nos apresenta representa o infortúnio que atinge a totalidade da humanidade e que gera exclusão, marginalidade, opressão, injustiça. É a condição de uma humanidade marcada pelo sofrimento, pela miséria, pelo afastamento de Deus e dos irmãos, que aqui nos é pintada…

São Lucas garante, no entanto, que Deus tem um projeto de salvação para todos os homens, sem exceção; e que é em Jesus e através de Jesus que esse projeto atinge todos os que se sentem “leprosos” e os faz encontrar a vida plena, a reintegração total na família de Deus e na comunidade humana. Por isso é preciso ter uma resposta de gratidão e de adesão à proposta de salvação que Deus faz.

Parece engraçado mais muitas vezes são aqueles que parecem mais fora da órbita de Deus que primeiro reconhecem o seu dom, que o acolhem e que aderem à proposta de vida nova que lhes é feita. Às vezes, aqueles que lidam diariamente com o mundo do sagrado estão demasiado cheios de auto-suficiência e de orgulho para acolherem com humildade e simplicidade os dons de Deus, para manifestarem gratidão e para aceitarem ser transformados pela graça… Convém pensar na atitude que, dia a dia, eu assumo diante de Deus: se é uma atitude de auto-suficiência, ou se é uma atitude de adesão humilde e de gratidão.

Caros irmãos,

Na segunda leitura(cf. 2Tm 2,8-13), o testamento de Paulo chega ao mais alto grau de condensação: Paulo confia a seu cooperador, Timóteo, “seu evangelho”, o anúncio da ressurreição de Cristo, que garante também nossa ressurreição, se ficarmos firmes na fé nesta palavra. As últimas frases formam um hino (cf. 2 Tm 2,11-13). A palavra que é a verdadeira nos ensina: se morrermos com Cristo, viveremos; se formos firmes, reinaremos com Ele; se o renegarmos, Ele nos renegará; e agora vem uma quebra surpreendente nos paralelismos – se formos infiéis, ele será…fiel! Pois não pode negar seu próprio ser.

Na segunda leitura de hoje depois de São Paulo exortar Timóteo a uma dedicação total ao ministério (cf. 2 Tim 2,1-7), a epístola apresenta o motivo supremo que justifica essa entrega: o exemplo de Cristo, que chegou à glória da ressurreição pelo caminho da cruz e do dom da vida… O próprio Paulo seguiu esse duro caminho e é por isso que está preso; mas não está preocupado, pois o essencial é que a Palavra de Deus continue a transformar o mundo. Aliás, é preciso que alguns entreguem a própria vida para que a proposta libertadora de Jesus chegue a todos os homens… Vale a pena sofrer, a fim de que este objetivo se concretize. O parágrafo final (vers. 11-13) corrobora e clarifica as afirmações precedentes. O cristão é chamado a identificar-se com Cristo na entrega da vida e no serviço aos irmãos; essa entrega não termina no fracasso e no sem sentido, mas – a exemplo de Cristo – na ressurreição, na vida nova. O cristão não pode é recusar fazer da sua vida um dom de amor, se quiser identificar-se com Cristo.

Irmãos caríssimos,

Quando as relações pessoais se baseiam unicamente na utilidade e no prazer é muito difícil abrir-se à contemplação do amor gratuito de Deus. A mentalidade utilitarista e egocêntrica desvirtua os atos religiosos. Se tivermos perdido o senso de generosidade, de gratuidade, se só agimos movidos pela esperança de algo ou pelo direito à recompensa, muito provavelmente não poderemos ter a experiência da Eucaristia em nossa vida.

Por isso a missa deste domingo nos ensina a descobrir o sentido do receber para abrir-se ao agradecimento.

A Santa Missa, sacramento base e centro de nossa fé, é em primeiro lugar ação de graças sem outra utilidade, sem outro fim senão ela mesma; é a alegria que brota da contemplação do Deus que é grande no amor, que nasce da descoberta de sermos salvos com gratuidade, sem nada querer em troca.

De segunda-feira a sábado os cristãos deveriam recordar os benefícios, as bênçãos de Deus em nosso favor. Assim a nossa oração na missa de domingo ficaria recheada dos benefícios de Deus, manifestados em Jesus Cristo e na vida da Santa Igreja. Importa recolhê-los e apresentá-los a Deus por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Homilia por: Pe. Wagner Augusto Portugal