Meus queridos irmãos,

Estamos adentrando para mais da metade do mês de outubro, mês dedicado para a primavera, tempo em que a Divina Providência enche nossos olhos de encantamento e de beleza das grandiosidades do mistério da salvação. É Deus que caminha conosco em nossa caminhada rumo à Jerusalém Celeste.

Hoje a liturgia gira em torno do serviço, do serviço que Jesus veio inaugurar com a sua vida e o seu ministério. Isso porque Jesus veio para servir e para dar a sua vida em resgate de nossa salvação. Hoje vamos refletir sobre a salvação de Jesus que ilumina e pavimenta a nossa salvação.

A primeira leitura (cf. Is. 53, 10-11) vai abrindo nossos corações para a reflexão deste domingo. A primeira leitura de Isaías nos leva a refletir sobre a missão de Deus de assumir os pecados da humanidade escravizada pelo pecado original. Jesus assumirá nossos pecados, carregará nossos pecados inaugurando um tempo novo, o tempo da salvação. No quarto canto do Servo de Javé, Deus não segue a lógica dos homens. O justo esmagado é que assume e resgata as faltas dos “muitos”. Por isso, Deus o exalta, na figura de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Evangelho.

A primeira leitura demostra, uma vez mais, como os valores de Deus e os valores dos homens são diferentes. Na lógica dos homens, os vencedores são aqueles que tomam o mundo de assalto com o seu poder, com o seu dinheiro, com a sua ânsia de triunfo e de domínio, com a sua capacidade de impor as suas ideias ou a sua visão do mundo; são aqueles impressionam pela forma como vestem, pela sua beleza, pela sua inteligência, pelas suas brilhantes qualidades humanas. Na lógica de Deus, os vencedores são aqueles que, embora vivendo no esquecimento, na humildade, na simplicidade, sabem fazer da própria vida um dom de amor aos irmãos; são aqueles que, com as suas atitudes de serviço e de entrega, trazem ao mundo uma mais valia de vida, de libertação e de esperança. Qual destes dois modelos faz mais sentido para mim? Quando, no dia a dia, tenho de estabelecer as minhas prioridades e de fazer as minhas escolhas, deixo-me conduzir pela lógica de Deus ou pela lógica dos homens? Quem são as pessoas que eu admiro, que eu tenho como modelos, que me impressionam?

Tenho sido muito questionado, ultimamente, sobre o sofrimento humano. Qual o sentido do sofrimento? Porque é que há tantas pessoas boas, honestas, justas, generosas, que atravessam a vida mergulhadas na dor e no sofrimento? Trata-se de uma pergunta que fazemos frequentemente e que o autor do quarto cântico do “Servo” também punha a si próprio. A resposta que ele encontra é a seguinte: o sofrimento do justo não se perde; através dele, os pecados da comunidade são expiados e Deus dará vida e salvação ao seu Povo. Trata-se, sem dúvida, de uma resposta incompleta, parcial, não totalmente satisfatória; mas encontra-se já nesta resposta a convicção de que, nos misteriosos caminhos de Deus, o sofrimento pode ser uma dinâmica geradora de vida nova. Jesus Cristo demonstrará, com a sua paixão, morte e ressurreição, a verdade desta afirmação.

Irmãos e Irmãs,

O cenário do Evangelho de hoje (cf. Mc. 10,35-45) é a estrada para Jerusalém. Jesus e os Apóstolos se aproximam da cidade Santa. Dois discípulos queriam sentar-se, um à direita e outro à esquerda, de Jesus. Puro engano! Ainda não haviam compreendido o projeto de salvação de Jesus, que era morrer na Cruz pela salvação da humanidade. O Evangelho de hoje anuncia a missão de Jesus. O Evangelho de hoje nos ensina a identidade de Jesus que é humana e é divina. Um só homem em duas naturezas. Jesus é aquele que dá a sua vida para resgatar as criaturas. Jesus é o Servidor Justo, que justificará, que salvará muitos, assumindo sobre si a iniqüidade humana. Essa será também a missão daqueles que seguem a Jesus, de seus apóstolos e de seus discípulos.

Em vista disso três pontos hoje devem nos tornar mais próximos de Deus e refletir sobre nossa vida, para conformar se estamos seguindo o que Deus quer de cada um de nós, ou se queremos nós mesmos nos transformar em Deus.

A primeira reflexão nos fala do Serviço. O que é o serviço para Deus? Servir a Deus é ser humilde, é colocar-se como servo dos servos, como servidor da fé, como animador e catequizador da comunidade de fiéis, nunca procurando os privilégios, mas procurando dispensar a misericórdia e a bondade de Deus, do Deus Servo dos Servos, daquele que se abaixa para lavar os pés de seus discípulos e envia-los para a missão do serviço. E o serviço por excelência na evangelização é feito pela Santa Igreja que se coloca como a primeira servidora da comunidade fiel. Serviço fiel, serviço gratuito, serviço generoso!

A segunda reflexão nos fala de trabalhar, de usar o poder eclesiástico, a “potestas” como um sublime ministério de serviço na caridade. A discussão para ver se sentará à direita ou à esquerda de Jesus deve ser encarada como “topar” todos os serviços na comunidade, desde o mais humilde ao mais responsável, sempre com caridade, desprendimento, humildade e, acima de tudo, amor. Tiago e João cometeram o pecado de querer ser iguais ao Deus Salvador. Isso é um grave pecado, querer usurpar o lugar do Redentor, porque Tiago e João não poderiam morrer na cruz pela nossa salvação: essa era uma missão privativa do Filho de Deus, que depois subirá ao Céu e se sentará à direita do Pai. Jesus se humilha, fazendo-se servidor e morrendo pelos nossos pecados, para ser glorificado, ou seja, irromper a morte e anunciar a vida eterna. Jesus nos ensina hoje a amar e esperar com fé e esperança a morte. A Morte de Jesus é para nós muito cara, principalmente quando relembramos que todos nós bebemos do mesmo cálice da salvação e recebemos o mesmo batismo, ou seja, a porta de entrada para sermos associados ao Senhor Ressuscitado, pela salvação. Todos nós temos muito de João e Tiago: queremos o Reino de Deus, mas não trabalhamos para isso, não fazemos jus a este prêmio eterno. Hoje os homens procuram o poder, a glória, o ter, a honra. O que nós devemos ter é uma atitude de desprendimento, de renúncia, de serviço, é humilhar-se como Cristo, para subir ao céu depois de nossa peregrinação neste mundo!

A terceira reflexão nos fala da RENÚNCIA. Fazer de nossas vidas cálices de salvação é renunciar a tudo o que nos oprime, a tudo que nos faz pecar e faz o irmão também pecar. Renúncia que é compartilhar a dor que Jesus sentiu na cruz pela salvação da humanidade pecadora. Cálice que hoje na liturgia é relembrado como participação e comunhão no mistério da salvação, é participar do mistério, do destino e da cruz de Cristo.

Caros irmãos,

Na lógica da “mundanidade” os primeiros são os que têm dinheiro, os que têm poder, os que frequentam as festas badaladas nas revistas da sociedade, os que vestem segundo as exigências da moda, os que têm sucesso profissional, os que sabem colar-se aos valores politicamente corretos… E na comunidade cristã? Quem são os primeiros? As palavras de Jesus não deixam qualquer dúvida: “quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos”. Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos irmãos. Na comunidade cristã não há donos, nem grupos privilegiados, nem pessoas mais importantes do que as outras, nem distinções baseadas no dinheiro, na beleza, na cultura, na posição social. Na comunidade cristã há irmãos iguais, a quem a comunidade confia serviços diversos em vista do bem de todos. Aquilo que nos deve mover é a vontade de servir, de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu. A atitude de serviço que Jesus pede aos seus discípulos deve manifestar-se, de forma especial, no acolhimento dos pobres, dos débeis, dos humildes, dos marginalizados, dos encarcerados, dos doentes, dos que vivem no escondimento, dos sem direitos, daqueles que não nos trazem o reconhecimento público, daqueles que não podem retribuir-nos. Cabe uma pergunta cortante: seremos capazes de acolher e de amar os que levam uma vida pouco exemplar, os marginalizados, os estrangeiros, os doentes incuráveis, os idosos, os difíceis, os que ninguém quer e ninguém ama?

Que cada um tome o seu lugar, mas não reclame o primeiro lugar. Jesus não vem dar conselhos, começa por oferecer o seu testemunho. Ele, que era de condição divina, tomou o lugar de escravo. Deus elevou-O e deu-Lhe um Nome que ultrapassa todo o nome. Jesus não prega o abaixamento pelo abaixamento. Quem escolhe o serviço é elevado por Deus ao lugar de “grande”, Deus dá o primeiro lugar a quem escolheu o último. É Deus que altera as situações que o homem, na sua liberdade, escolhe para ser verdadeiro cidadão do Reino de Deus.

Meus irmãos e Minhas irmãs,

A segunda leitura(Hb. 4,14-16) nos fala do sacerdote, como o santificador da comunidade. Tenhamos presente que o apóstolo quer nos dizer que a participação de Jesus nos mais profundos abismos da condição humana – exceto no pecado – o qualifica para ser o melhor sacerdote imaginável. Um sacerdote que não está do outro lado da barra, mas que participa e celebra conosco, como o próprio Cristo.

Jesus, nosso Sumo Sacerdote. Temos um pontífice que por nós entrou no Santuário, mas, também, é capaz de compadecer-se de nossas fraquezas, conhecendo a carência humana. Jesus leva nossa condição humana à santidade de Deus. Jesus nos exorta na fidelidade na confissão da fé e na confiança na misericórdia divina.

Os discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo são, naturalmente, convidados, a assumir o seu exemplo. Assim como Cristo, por amor, vestiu a nossa fragilidade e veio ao nosso encontro, também nós devemos – despindo-nos do nosso egoísmo, da nossa acomodação, da nossa preguiça, da nossa indiferença – ir ao encontro dos nossos irmãos, vestir as suas dores e fragilidades, fazer-nos solidários com eles, partilhar os seus dramas, lágrimas, sofrimentos, alegrias e esperanças. Não podemos, do alto da nossa situação cômoda, limpa, arrumada, decidir que não temos nada a ver com o sofrimento do mundo ou com a carência que aflige a vida de um nosso irmão. Somos sempre responsáveis pelos irmãos que conosco partilham os caminhos deste mundo, mesmo quando não os conhecemos pessoalmente ou mesmo que deles estejamos separados por fronteiras geográficas, históricas, étnicas ou outras.

Deus nos ama, por isso nada devemos temer. Fazemos parte da família divina, e esta família tem vida em abundância.  Por isso vamos encarar a vida, o cotidiano, os desafios do dia a dia com serenidade e confiança. Os batizados são pessoas serenas e com o coração em paz, nunca afastadas de Deus e do seu amor.

Quem segue a Cristo no seu caminho, deve contar com a incompreensão, o sofrimento, as perseguições e o próprio aniquilamento. Sua vida será uma permanente oblação a Deus, passando pelo serviço ao próximo. Neste serviço, expressão do amor, realiza-se a libertação plena.

Demos graças ao Senhor Onipotente por tantos discípulos de Cristo que, a exemplo dele, continuam a dar a vida por seus amigos e por seus irmãos de fé. E neste dia das Santas Missões, da Santa Infância e da Evangelização entre os gentios peçamos a graça de compreender que o discipulado de Cristo passa pelo caminho da cruz que leva à ressurreição, à vida, à glória eterna. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal.