Homilia A viúva e o juiz injusto

Meus queridos irmãos,

Mais um domingo nos é colocado para a nossa vida de oração, oração insistente que provoca a Justiça. Assim neste domingo as leituras, iniciando pela primeira leitura(cf. Ex 17,8-13), nos lembra a história de como Moisés conseguiu a vitória de seu general Josué sobre os amalecitas, os eternos inimigos de Israel. Enquanto Moisés, segurando o bastão da força divina, ergue as mãos por cima dos combatentes, Israel ganha. Quando ele as deixa baixar, perde. Observemos que na batalha contra os amalecitas, quem decide da vitória não é Josué, o general, mas Moisés, o homem de Deus, que reza de braços estendidos desde a manhã até a noite. Sendo Moisés o enviado de Deus é evidente que se trata de uma maneira de tornar a força do Senhor presente no combate. O gesto pode bem significar que Deus mesmo é o general do combate. O próprio gesto de levantar as mãos indica o relacionamento com o Altíssimo. Levantar as mãos a Deus sem cessar, eis a grande lição da leitura do livro de Êxodo.

Convém recordar que as tradições sobre a libertação (Ex 1-18) têm como objetivo primordial fazer uma catequese sobre o Deus libertador, que salvou o seu Povo da opressão e da morte, que o fez atravessar a pé enxuto o mar Vermelho e o encaminhou através do deserto… Não interessa aqui a reportagem jornalística do acontecimento; importa a catequese sobre esse Deus a quem Israel é convidado – pela história fora – a agradecer a sua vida e a sua liberdade.

A catequese que o texto nos propõe sublinha a importância da oração. Os teólogos de Israel sabem que é preciso invocar o Deus libertador com perseverança e insistência. Para vencer as duras batalhas que a vida nos apresenta, é preciso ter a ajuda e a força de Deus; e essa ajuda e essa força brotam de um diálogo contínuo, nunca interrompido e nunca acabado, do crente com Deus.

Hoje, somos convidados a percorrer um caminho semelhante e a descobrir o Deus libertador vivo e atuante na nossa história, agindo no coração e na vida de todos aqueles que lutam por um mundo mais justo, mais livre e mais humano. Israel descobriu que, no plano de Deus, aquilo que oprime e destrói os homens não tem lugar; e que, sempre que alguém luta para ser livre, Deus está com essa pessoa e age nela. É exatamente por a ajuda de Deus ser decisiva na luta por um mundo mais livre e mais humano que os catequistas de Israel sublinham o papel da oração… Quem sonha com um mundo melhor e luta por ele, tem de viver num diálogo contínuo, profundo, com Deus: é nesse diálogo que se percebe o projeto de Deus para o mundo e se recebe d’Ele a força para vencer tudo o que oprime e escraviza o homem.

Estimados Irmãos,

O Evangelho de hoje(cf. Lc. 18,1-8) nos relata a qualidade da oração. Jesus nos é apresentado como um Jesus orante a caminho de Jerusalém, estando próximo de sua morte, de sua ressurreição e de sua glorificação, a oração vem colocada no viés da escatologia, isto é, das coisas últimas da vida humana e do destino que é reservado a criatura humana. Jesus o justo Senhor e Juiz Universal. Jesus ensinou a rezar pela vinda do Reino; mas quando esta se completar, na parusia do Filho do Homem, encontrar-se-á ainda fé na terra? Por isso, até lá, é tempo de oração. Devemos reconhecer a carência em que vivemos e assumi-la na oração insistente. Se não clamarmos a Deus para fazer justiça, sua vinda nos encontrará sem fé.

O contexto dos primeiros tempos depois da paixão, morte e ressurreição de Jesus para alguns de seus seguidores seria que Jesus voltaria logo. Assim muitos se desfaziam de seus bens, porque já não haveria tempo para desfrutá-los. Havia até os que deixavam de trabalhar porque já não se precisaria de sustento. Mas sempre era feita a seguinte indagação: “Qual será o dia do retorno de Jesus?”.

Passados dois mil anos ainda aguardamos o Juízo final dentro do contexto cristão, devendo estarmos bem firmes na fé. Devemos estar em espera confiante. Jesus nos ensinou que viria o fim, mas não determinou o tempo exato. Como Jesus disse que viria de repetente, quanto menos às pessoas podem esperar, Ele poderá retornar. A parusia, ou seja, os últimos tempos, virá. Os que estiverem acordados verão a Deus.

O que, então, fazer neste tempo de espera? Devemos frutificar os talentos, socorrer os irmãos, praticar o bem e mudar de vida buscando uma conversa sincera e absoluta. Assim, a oração continuada, confiante e humilde é a melhor forma de esperar a segunda vinda, a vinda gloriosa do Cristo Senhor, que certamente acontecerá. Rezemos neste sentido!

Caros amigos,

De esperança em esperança em Cristo Senhor os homens e mulheres vão vencer todas as adversidades do mundo. O Evangelho nos fala em um juiz humano. Um juiz sem fé que faz justiça apenas para não se aborrecer quanto mais fará Deus, que é todo atenção para o seu povo eleito? Deus, o justo, o misericordioso, o verdadeiro Juiz que luta contra o mal vai vencer a iniqüidade. Deus veio morar em nosso meio para tirar o nosso pecado e a maldade do mundo. Assim a viúva do Evangelho de hoje representa a humanidade, os homens e as mulheres, que lutam contra a maldade do mundo. Assim Deus nos ensina a pedir, a lutar e a esforçar-se em procurar em ver a Deus. O sofrimento e o desespero se prolongam. Mas Deus fará justiça bem depressa, porque para Deus mil anos são como o dia de ontem.

Os textos da Sagrada Escritura pediam proteção e carinho para as viúvas: “Defendei as viúvas”(cf. Is. 1,17). A viúva é a humanidade pecadora, com fome de pão e de sede de Deus, cercada de injustiças por todos os lados. O desespero não é a saída. O desespero foi o caminho tomado por Judas. As bem-aventuranças apontam para o caminho não-violento. O cristão é um lutador paciente, corajoso, mas não guerreiro; dinâmico e não resignado, contra todas as formas de maldade dentro e em torno de si. Todos nós devemos lutar com fé, único caminho capaz de abrir as portas e caminhos de Deus. A fé, capaz de remover montanhas, transplantar árvores na crista de uma onda, de acalmar o mar, é também capaz de sustentar nosso esforço, reanimar o cansaço da espera, iluminar o mistério da caminhada, dar certeza à nossa esperança, mesmo que seja contra todas as esperanças humanas, porque Deus nunca nos abandona; mas nos abre seus braços e nos chama: Vem e segue-me!

Assim vamos manter viva e confiante a fé no meio das tribulações e escândalos, como os que o próprio Cristo enfrentou em Jerusalém, sem perder, em momento nenhum a confiança no Pai, tão lindamente expressa em sua última frase do Evangelho de hoje que deve ser a nossa profissão de fé jubilosa: “Em tuas mãos, Pai”(cf. Lc, 23,46).

Caros irmãos,

Contextualizando a parábola deste Evangelho é certo que São Lucas pretende dirigir-se a uma comunidade cristã cercada pela hostilidade do mundo, que começava a ver no horizonte próximo o espectro das perseguições e que estava desanimada porque, aparentemente, Deus não escutava as súplicas dos crentes e não intervinha no mundo para salvar a sua Igreja. A resposta que São Lucas deixa aos seus cristãos é a seguinte: ao contrário do que parece, Deus não abandonou o seu Povo, nem é insensível aos seus apelos; Ele tem o seu projeto, o seu plano e o seu tempo próprio para intervir… Aos crentes resta moderar a sua impaciência e confiar em que Ele não deixará de intervir para os libertar. Que é que tudo isto tem a ver com a oração? Porque é que esta é uma parábola sobre a necessidade de rezar (“Jesus disse-lhes uma parábola sobre a necessidade de orar sempre, sem desanimar” – vers. 1)? São Lucas pede aos cristãos a quem a mensagem se destina que, apesar do aparente silêncio de Deus, não deixem nunca de dialogar com Ele. É nesse diálogo que entendemos os projetos e os ritmos de Deus; é nesse diálogo que Deus transforma os nossos corações; é nesse diálogo que aprendemos a entregar-nos nas mãos de Deus e a confiar n’Ele. Sobretudo, que nada (nem o desânimo, nem a desconfiança perante o silêncio de Deus) nos leve a desistir de uma verdadeira comunhão e de um profundo diálogo com Deus.

O diálogo que mantemos com Deus não pode ser um diálogo que interrompemos quando deixamos de perceber as coisas ou quando Deus parece ausente; mas é um diálogo que devemos manter, com perseverança e insistência. Quem ama de verdade, não corta a relação à primeira incompreensão; o ou à primeira ausência. Pelo contrário, a espera e a ausência provam o amor e intensificam a relação.

Muitas vezes, Deus terá as suas razões para não dar muita importância àquilo que Lhe pedimos: às vezes pedimos a Deus coisas que nos compete a nós conseguir; outras vezes, pedimos coisas que nos parecem boas, mas que a médio prazo podem nos roubar a felicidade; outras vezes, ainda, pedimos coisas que são boas para nós, mas que implicam sofrimento e injustiça para os outros… É preciso termos consciência disto; e quando parece que Deus não nos ouve, perguntemos a nós próprios se os nossos pedidos farão sentido, à luz da lógica de Deus. Como diz Dom Darci José Niciolli: “Rezar resolve tudo!”.

Meus irmãos,

A segunda leitura(cf. 2Tm 3,14-4,2) insiste também na pregação da própria palavra do Evangelho, oportuna ou inoportunamente! O tempo sempre é breve! O homem moderno, mais do que secularizado, é sobretudo objetivo: gosta de saber logo qual é o assunto.

A fé é uma graça de Deus, mas também algo que a gente aprende, tanto o conteúdo quanto a atitude. Isto vale, sobretudo, para quem tem responsabilidade na comunidade. Sua fé deve crescer pela leitura da Sagrada Escritura, pela experiência vital e desinteresseira transmissão da Palavra, traduzida novamente para cada geração. A palavra de Deus atinge os homens através dos homens. Só o convicto pode convencer. Daí a solene admoestação de que o Pastor eterno julgará primeiro os pastores. Por isso sejamos claros. Não se trata de fanatismo, que é disfarce de insegurança. A insistência que Paulo aconselha é a exteriorização da convicção, sobretudo, porque o evangelho que ele propõe é o da “graça e benignidade de Deus, nosso Salvador”.

A Segunda Carta de São Paulo a Timóteo pretende convidar os batizados e, os animadores das comunidades, em particular, a redescobrirem o entusiasmo pelo Evangelho e a defenderem-se de tudo aquilo que punha em causa a verdade recebida de Jesus, através dos apóstolos.

A posse da verdade está garantida quando aquele que ensina é um sucessor legítimo dos apóstolos (deles recebeu a autoridade para animar e pastorear a Igreja) e quando ele transmite fielmente a verdade recebida dos apóstolos, em conformidade com a Escritura. A Palavra transmitida na Escritura é “inspirada por Deus” (o termo grego “théopneustos”, aqui utilizado, tem sentido passivo e sugere que, na composição dos livros que formam a Escritura, interveio, além do autor humano, o próprio Deus); por isso, nela está “a sabedoria que leva à salvação” (3,15). A utilidade da Escritura é descrita através de quatro verbos fortes: “ensinar”, “persuadir”, “corrigir” e “formar”. Fica assim claro que a Escritura é a fonte para toda a formação e educação cristã, para fazer aparecer o “homem perfeito” (3,17). Nos últimos versículos da segunda leitura de hoje (4,1-2), continua a exortação a Timóteo no sentido de que cumpra a sua tarefa de animador da comunidade cristã de forma adequada e entusiasta. Em tom solene e patético, o autor desta carta convida Timóteo a proclamar a Palavra “a propósito e fora de propósito” (a expressão utilizada indica que a Palavra deve ser proclamada mesmo quando a ocasião não parece muito propícia, sem medo, sem respeitos humanos, sem falsos pudores), “com toda a paciência e doutrina” (isto é, com uma adequada pedagogia pastoral).

O grande Pontífice, Papa Leão XIII, disse que a Escritura é “uma carta outorgada pelo Pai celeste ao género humano viandante longe da sua pátria, e que os autores sagrados nos transmitiram” (Providentissimus Deus, nº 4). A Escritura deve, pois, assumir um lugar preponderante na nossa vida pessoal e na vida das nossas comunidades cristãs.

Todos aqueles que estão ao serviço da Palavra devem anunciá-la em todas as circunstâncias, sem respeito humano, sem jogos de conveniências, sem atenuarem a radicalidade da Palavra; e devem, também, preparar-se convenientemente, a fim de que a Palavra se torne atraente e chegue ao coração dos que a escutam.

Caros irmãos,

O modelo da oração de súplica é a de Jesus no Getsêmani: “Pai, se queres, afasta de mim esse cálice! Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (cf. Lc 22,42). Aquele que crê não quer obrigar Deus a fazer a própria vontade, utilizá-lo para realizar seus desejos, mas obter a graça de conformar sua vontade à dele. Só ele sabe o que é verdadeiramente o nosso bem.

A oração de súplica, quando autêntica, é fonte límpida de energias para começarmos a fazer aquilo que pedimos. Orar pela paz leva a começar a empenhar-se pela paz; orar para que cessem os sofrimentos, leva a ajudá-lo quem sofre…

Irmãos rezemos sempre e com muita fé! O homem deve ser solidário! O homem deve estar a serviço do próximo para torná-lo mais humano e mais divino, tanto no âmbito da secularidade, consagrando o mundo a Deus, como no âmbito da pastoral orgânica.  O homem que sofre poderá unir o seu sofrimento ao de Cristo para a salvação da humanidade. Não devemos separa a oração da vida e nem nos intimidar perante a calúnia, a queixa fácil. Porque confiando na misericórdia de Deus que venceu o mundo nós poderemos cantar colocando tudo “Em tuas mãos, Pai, amém!”.

 Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal.