Meus queridos Irmãos,

O tempo do Advento se nos é apresentado como um tempo oportuno para preparar o nosso coração para que Deus se manifeste em sua plenitude na nossa vida e na vida da Santa Igreja. A vinda do Messias propicia a salvação de todo o gênero humano e nela se concretiza a manifestação definitiva de Deus. Jesus vem para nos mostrar como Ele foi constituído nosso Pai Celestial e vem nos dar uma prova cabal do seu amor para com toda a humanidade.

A Liturgia deste domingo gira toda ela em torno da Preparação para a Vinda do Senhor. Por isso todos nós somos chamados a crescer na altura de recebermos Deus. Mas neste nosso crescimento, a força que nos anima e nos envolve é o próprio fato de Deus se voltar para nós.

O Evangelho de hoje(cf. Lc 3,1-6) sublinha a volta do povo, oriundo do exílio da Babilônia. Um retorno festivo. Um retorno esperado. Um retorno aguardado e celebrado com grande festa pelo povo de Israel. Foi anunciado por Isaías o fim da escravidão do povo hebreu e o conseqüente retorno para a Terra Prometida.

Mas a libertação a que aduz a liturgia não é somente a libertação do povo enquanto nação é a nossa libertação do pecado e da morte. É a vitória do bem sobre o mal, da vida sobre a morte, da graça sobre o pecado, da partilha contra o orgulho. Para que possamos esperar e receber o Senhor que Vem é necessário nos abandonarmos na misericórdia incessante de Deus.

Na primeira Leitura(cf. Br 5,1-9) notamos que depois do fim do exílio, muitos judeus continuaram vivendo na Diáspora. Também eles participavam da esperança messiânica. Em Baruc 5 considera-se Jerusalém restaurada apenas sendo um início. Na base da confiança na justiça e misericórdia de Deus se deve esperar a reunião completa e total. Tudo isso com a condição de que Israel escute a voz de Deus e se conscientize de sua missão. A primeira leitura sugere que este “caminho” de conversão é um verdadeiro êxodo da terra da escravidão para a terra da felicidade e da liberdade. Durante o percurso, somos convidados a despir-nos de todas as cadeias que nos impedem de acolher a proposta libertadora que Deus nos faz. A leitura nos interpela e nos convida, ainda, a viver este tempo numa serena alegria, confiantes no Deus que não desiste de nos apresentar uma proposta de salvação, apesar dos nossos erros e dificuldades.

O Advento é um tempo favorável para o êxodo da terra da escravidão para a terra da liberdade. Neste tempo somos especialmente confrontados com as cadeias que ainda nos prendem e convidados a percorrer esse caminho de regresso que a bondade e a ternura de Deus vão aplanar, a fim de que possamos regressar à cidade nova da alegria e da liberdade.

Irmãos e Irmãs,

João Batista, o Precursor, anuncia no Evangelho de hoje que pregou na região do Jordão um Batismo de conversão para o perdão dos pecados, como está escrito nas palavras do profeta Isaías: “Esta é a voz daquele que clama no deserto: preparai os caminhos do Senhor, endireitai as veredas.”(cf. Lucas 3, 3-5).

Fica evidente que João Batista ao pregar a conversão e a vinda de Outro, mais poderoso do que ele, que batizará não somente com água com o espírito de Vida e da Verdade, pede que os homens abandonem a vida do pecado, a vida da luxúria, a vida do prazer hedonista, a vida do ter e se entregue nas mãos de Deus, ouvindo a voz que clama no deserto. Mais do que ouvir a voz que clama no deserto todos nós somos responsáveis em preparar o nosso próprio caminho de salvação.

São Lucas no Evangelho de hoje escreve para o mundo todo e para todos os tempos. Isso porque? Para acentuar que o Reino de Deus não é um mito, não é uma invenção, mas, sim, é um acontecimento histórico. A história da salvação acontece e se realiza dentro da história do homem e da mulher. E em muitos momentos os protagonistas são os mesmos. Outra, para mostrar que todos esses poderes e reinos terrenos serão substituídos pelo Reino de Deus, embora em situações bem diferentes.

O Evangelista nos apresenta Jesus como aquele que é esperado e que vem não somente para os judeus, mas para toda a humanidade. Este gesto, teologicamente, é chamado de universalidade da salvação. Por isso o evangelista anuncia: “Todos verão a salvação de Deus!”.

São Lucas enumera no Evangelho de hoje as autoridades civis de então. Começa com Tibério que reinou do ano 14 até 37. Depois anuncia que Pôncio Pilatos era o Procurador romano na Judéia e na Samaria, isso de 26 a 36. Herodes Antipas era o filho mais moço de Herodes Magno. Esse era o governador de uma quarta parte do reinado de seu pai, Herodes Magno. Foi Herodes que mandou matar o precursor João Batista e zombou de Jesus na Paixão, tendo governado a Galiléia do ano 4 a. C a 39 d. C. Felipe era, também, filho de Herodes Magno tendo governado a Ituréia e Traconítide até o ano 34. Lisânias governou a Abilene, hoje Líbano, entre 14 e 29 de nossa era. Por fim São Lucas fala dos sumo Sacerdotes Anás e Caifás. Anás foi sumo sacerdote de 6 a 15. O sucedeu seu genro Caifás de 18 a 36.

Porque explicar a vida de cada uma das autoridades que são elencadas no Evangelho de hoje? Muito simples, para demonstrar que João Batista, o último profeta do antigo testamento e o primeiro do novo testamento, tem grande importância no mistério de nossa salvação. Ninguém é profeta por escolha pessoal como qualquer profissional liberal pode escolher a sua profissão. A vocação do profeta vem de Deus e é investida em benefício do povo de Deus que caminha. João recebeu seu chamado no deserto de Judá, um deserto em que os monges essênios faziam penitência para preparar a vinda do Senhor através da santificação pessoal. João vem como precursor, ou seja, como aquele que vem preparar os caminhos para o Senhor. João, o penitente, com o seu batismo de água em que o batizado fazia o sinal público de que deixaria o pecado e se comprometeria a mudar de vida, largar um caminho de pecado e tomar o caminho da graça de Deus. Abandonar o mundo humano e contingente e procurar o mundo de Deus, da santificação, da vida nova, da vida e da mente voltadas para o Redentor.

Caros fiéis,

O Evangelista João convida a exprimir, através de um sinal que não é apenas cerimonial, a vontade de conversão e a esperança dos tempos novos, caracterizados pela efusão do Espírito Santo. Nesses tempos novos, que para nós já começaram, embora ainda não totalmente realizados, o convite à conversão manifesta-se necessariamente em gestos significativos, “sacramentais” no sentido mais amplo da palavra. Entre esses a penitência, como sacramento, nos ajuda a olhar para a preparação do nosso caminho ao encontro do “caminho” do Evangelho. Esse sacramento é o momento privilegiado de encontro com o Deus que salva e que perdoa, mas também as atitudes concretas da comunidade e de cada um de partilhar, acolher, em que transparece a realidade de um coração novo. São exatamente estes gestos que o profeta e João, presentes no anúncio litúrgico, indicam na imagem de “preparar o caminho”.

Caros irmãos,

Preparar o caminho do Senhor é convidar a uma conversão urgente, que elimine o egoísmo, que destrua os esquemas de injustiça e de opressão, que derrote as cadeias que mantêm os homens prisioneiros do pecado.

Preparar o caminho do Senhor é um voltar a vida para Deus, de forma a que Deus e os seus valores passem a ocupar o primeiro lugar no nosso coração e nas nossas prioridades de vida. Esse processo de conversão é um verdadeiro êxodo, que nos transportará da terra da opressão para a terra nova da liberdade, da graça e da paz. Só quem aceita percorrer esse “caminho” experimentará a “salvação de Deus”. A preocupação de São Lucas em situar concretamente, no espaço e no tempo, os acontecimentos da salvação chama a atenção aos profetas que anunciam a “vinda do Senhor”, no sentido de encarnar o seu anúncio no contexto cultural e político onde estão inseridos, a ir ao encontro do homem concreto, com a sua linguagem, os seus problemas concretos, as suas ânsias, os seus dramas, sonhos e esperanças.

A Palavra de Deus, eterna, feita carne, está sempre presente, porque Jesus ressuscitou, está vivo para sempre. Sobre ele a morte não tem mais nenhum poder, nem qualquer outro poder, político, militar, económico e mesmo religioso! Esta Palavra é dada a nós, hoje. Quando deixamos a Palavra iluminar o nosso caminho e comemos o Pão da Vida – as duas mesas da liturgia eucarística – é Jesus vivo que vem endireitar os nossos caminhos, preencher as nossas ravinas interiores. Então, tornamo-nos porta-vozes da Palavra. Vendo-nos, os homens podem pressentir, pelo menos, a salvação de Deus.

Meus caros irmãos,

O sentido do Advento e do Natal não é algo sentimental, chorar de emoção por causa de uma criancinha. É tempo de alegrar-se porque aquele que podemos chamar de Filho de Deus veio – e sempre vem – viver no meio de nós, para que seu exemplo e sabedoria, lucidez e entrega de vida, mostrar, no concreto, o que significa o bem conforme a última instância, que é Deus, a Paz da Justiça.

O Apóstolo Paulo começa por manifestar a sua comoção pelo empenho dos Filipenses na difusão do Evangelho e na ajuda àqueles que se empenham no anúncio da Boa Nova, e, de forma especial, ao próprio Paulo, prisioneiro por causa do seu testemunho. São Paulo sente uma grande ternura por esta comunidade atenta às necessidades dos evangelizadores, solidária com todos os que dão a sua vida à causa do Evangelho. E isso deve ser o empenho de todos a solidariedade, particularmente neste ano jubilar que está para ser aberto. Depois, São Paulo pede a Deus que aumente a caridade dos Filipenses (apesar de ser uma comunidade modelo, nem tudo era perfeito a este nível: Paulo tem que pedir a duas senhoras para fazerem as pazes e não dividirem a comunidade – cf. Flp 4,2-3). A vivência da caridade é fundamental para que os Filipenses possam aguardar, puros e irrepreensíveis, o dia da vinda de Cristo. A essência da Igreja de Jesus é ser missionária. “Ide e anunciai” – diz Jesus. Para que Jesus venha, para que a sua proposta de salvação chegue a todos os povos da terra, é necessário este compromisso contínuo com a evangelização.

A segunda leitura(cf. Fl 1,4-6.8-11) chama a atenção para o fato de a comunidade se dever preocupar com o anúncio profético e dever manifestar, em concreto, a sua solidariedade para com todos aqueles que fazem sua a causa do Evangelho. Sugere, também, que a comunidade deve dar um verdadeiro testemunho de caridade, banindo as divisões e os conflitos: só assim ela dará testemunho do Senhor que vem.

A essência da Igreja de Jesus é ser missionária. “Ide e anunciai” – diz Jesus. Para que Jesus venha, para que a sua proposta de salvação chegue a todos os povos da terra, é necessário este compromisso contínuo com a evangelização. Só é possível acolher, com um coração puro e irrepreensível, o Senhor que vem se a caridade for, entre nós, uma realidade viva. Mas, frequentemente, a vida das nossas comunidades cristãs é marcada pelas divisões, pelas murmurações, pelas lutas pelo poder, pelas tentativas de manipular, pelos interesses mesquinhos e egoístas, pelas guerras de sacristia e pelas redes sociais. É possível que a nossa comunidade não seja, ainda, um modelo de perfeição: somos um grupo de irmãos com os nossos limites e defeitos. Sem desânimo, devemos ter presente que somos uma comunidade “a caminho”, em processo de construção. O que é importante é que saibamos acolher o Senhor que vem e deixar que Ele nos conduza à plenitude da vida e do amor.

São Paulo, na segunda leitura(cf. Filipenses 1,4-6.8-11), reza pelos filipenses para que tenham aderido ao Evangelho, pedindo que Deus leve à perfeição até o dia em que Jesus Cristo a boa obra nova neles iniciada. E a melhor maneira, ontem e hoje, de se prepara para que estejamos puros e irreprováveis no dia de Cristo, no seu Natal, é que o seu amor cresça cada vez mais em conhecimento e em sensibilidade. Isso é advento! Isso é Natal!

Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal