Homilia Mestre onde moras? Vinde e vede

Iniciamos, uma vez mais, o Tempo Comum, tempo das coisas cotidianas, em que a Liturgia Sagrada nos convida à reflexão sobre os mistérios da Redenção, permeando a vida dos homens e das mulheres.

Os primeiros domingos do Tempo Comum são marcados por um clima de manifestação do Senhor, da sua missão no mundo e do chamado dos discípulos. A atitude desses domingos é sugerida pela voz do Espírito que desceu sobre Jesus nas águas do Jordão: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu bem-querer”.

Refletimos hoje o Evangelho de João. Este evangelista, chamado de “Evangelista existencial”, procura peneirar os problemas básicos da existência humana para iluminá-los com a luz de Jesus Cristo, essa luz que pode iluminar todo homem que vem a este mundo, tendo em vista que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, o Mestre Definitivo.

Somos chamados a refletir sobre a dialética do crer e do não crer, entre a luz e as trevas, entre o bem e o mal, entre o sim e o não, entre a graça e a desgraça e, por fim, entre a bênção e a maldição. Temos que optar pelo lado correto, o lado do Salvador, como nos adverte Jo 3,36.

Jesus, como renovador do mundo, tem neste domingo uma apresentação de sua trajetória, que mais do que de um profeta, é a trajetória do Messias, o Cristo Senhor.

João Batista é o precursor, aquele que abre os caminhos para Jesus. João manda dois de seus discípulos em busca de Jesus, porque era o Cordeiro de Deus, o Salvador. Não há concorrência entre João e Jesus. João vivia cheio de alegria ao ver a atuação de Jesus, tendo consciência de que preparava os caminhos para o Cristo. Por isso, os discípulos de João deverão tornar-se discípulos de Jesus, aquele que tem o poder de “batizar no Espírito Santo, por ser Filho de Deus”. Contemplando-se o tempo e somente, Ele pode ser o Mestre. O ideal da vida do cristão é ter Jesus como Mestre e Senhor, por isso todos nós somos convidados a refletir sobre o seguir e o procurar a Deus, por meio de Cristo.

Cristo se serve de João Batista no Evangelho de hoje(Jo 1,35-42). Para seguir e procurar a Jesus nós devemos ser bons discípulos. Para seguir temos que crer e dar testemunho daquele que Seguimos. Por isso, necessitamos de uma fé constante e sólida no Salvador do gênero humano.

Ser discípulo não nasce de repente. É preciso ter uma experiência de Deus, uma receptividade para a sua palavra e, assim sendo, uma evolução pelos seus caminhos, uma procura diuturna de conhecer o rosto de Deus.

Quem é chamado tem que ir ao encontro e permanecer com o Senhor. O discípulo sai sempre para viver este encontro em comunidade e dar testemunho da permanência de Deus em sua vida: por isso, neste vale de lágrimas, somos convidados a estar com Deus. Para estar com Deus é preciso abandonar o pecado e viver a graça de Deus, pela conversão e santidade de vida.

Devemos ter isso muito bem discernido em nossas vidas, o por que e para que procuramos a Deus. O que buscamos? Para que buscamos?

O discípulo de Jesus está sempre vindo e indo. Indo a procura dos povos que ainda não crêem e dando testemunho para aqueles que crêem. Somos enamorados pelo seguimento e pela procura do Cristo Senhor. Podemos seguir Jesus e não procurá-Lo, não sermos bons discípulos. Podemos procurá-Lo e não segui-Lo, e nunca seremos discípulos.

O discipulado não nasce de repente. Exige perseverança atenta e atenciosa, bem como receptividade. Neste encontro contínuo com o Cristo devemos ter presente de que Ele é o caminho e quem anda com Ele permanece nele.

Queremos todos ver o rosto de Deus. O que buscais? Esta é a mesma pergunta. O que buscamos hoje? Não poderia ser outro, senão Cristo, o caminho que nos leva ao Pai. O discípulo vai e vem sempre.

Na prática o discípulo nunca sabe ao certo se está indo ou vindo, porque a procura contínua de Cristo coincide com a procura contínua dos irmãos, especialmente dos mais pobres.

Prezados irmãos,

A identidade cristã não está na simples pertença jurídica a uma instituição chamada “Igreja”, nem na recepção de determinados sacramentos, nem na militância em certos movimentos eclesiais, nem na observância de certas regras de comportamento dito “cristão”. O cristão é, simplesmente, aquele que acolheu o chamamento de Deus para seguir Jesus Cristo.

O que é, em concreto, seguir Jesus? É ver n’Ele o Messias libertador com uma proposta de vida verdadeira e eterna, aceitar tornar-se seu discípulo, segui-l’O no caminho do amor, da entrega, da doação da vida, aceitar o desafio de entrar na sua casa e de viver em comunhão com Ele. Essa adesão só pode ser radical e absoluta, sem meias tintas nem hesitações. Os dois primeiros discípulos não discutiram o “ordenado” que iam ganhar, se a aventura tinha futuro ou se estava condenada ao fracasso, se o abandono de um mestre para seguir outro representava uma promoção ou uma despromoção, se o que deixavam para trás era importante ou não era importante; simplesmente “seguiram Jesus”, sem garantias, sem condições, sem explicações supérfluas, sem “seguros de vida”, sem se preocuparem em salvaguardar o futuro se a aventura não desse certo. A aventura da vocação é sempre um salto, decidido e sereno, para os braços de Deus.

A história da vocação de André e do outro discípulo (despertos por João Batista para a presença do Messias) mostra, ainda, a importância do papel dos irmãos da nossa comunidade na nossa própria descoberta de Jesus. A comunidade ajuda-nos a tomar consciência desse Jesus que passa e aponta-nos o caminho do seguimento. Os desafios de Deus ecoam, tantas vezes, na nossa vida através dos irmãos que nos rodeiam, das suas indicações, da partilha que eles fazem conosco e que dispõe o nosso coração para reconhecer Jesus e para O seguir. É na escuta dos nossos irmãos que encontramos, tantas vezes, as propostas que o próprio Deus nos apresenta.

Caros irmãos,

A procura de Jesus é contínua. A liturgia combinou o Evangelho (Jo 1,35-42) com a vocação de Samuel, da primeira leitura (1Sm 3,3-10.19). Este também mostra que o encontro com Deus não é uma coisa evidente. Samuel ouve três vezes sua voz e só pela orientação do sacerdote Heli é capaz de reconhecer seu sentido. Mas, uma vez entendendo a voz, acolhe-a com plena disponibilidade, deixando-se ensinar para ser o porta-voz do Senhor.

Sublinha-se na história da vocação de Samuel é que a vocação é sempre uma iniciativa de Deus (“o Senhor chamou Samuel” – vers. 4a). É Deus que, seguindo critérios que nos escapam absolutamente mas que para Ele fazem sentido, escolhe, chama, interpela, desafia o homem. A indicação de que “Samuel ainda não conhecia o Senhor porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a Palavra do Senhor” (vers. 7) sugere claramente que o chamamento de Samuel parte só de Deus e é uma iniciativa exclusiva de Deus, à qual Samuel é, num primeiro momento, totalmente alheio.

Historicamente Deus dirige-Se a Samuel enquanto este estava deitado, presumivelmente, durante a noite. É o momento do silêncio, da tranquilidade e da calma, quando a algazarra, o barulho e a confusão se calaram. A nota sugere que a voz de Deus se torna mais facilmente perceptível ao vocacionado no silêncio, quando o coração e a mente do homem abandonaram a preocupação com os problemas do dia a dia e estão mais livres e disponíveis para escutar os apelos e os desafios de Deus. Uma terceira momento diz respeito à forma como se processa a resposta de Samuel ao chamamento de Deus.

O texto sublinha a dificuldade de Samuel em reconhecer a voz do Senhor. Deus chamou Samuel por quatro vezes e só na última vez o jovem conseguiu identificar a voz de Deus. O fato sublinha a dificuldade que qualquer chamado tem no sentido de identificar a voz de Deus, no meio da multiplicidade de vozes e de apelos que todos os dias atraem a sua atenção e seduzem os seus sentidos.

Depois, sobressai o papel de Eli na descoberta vocacional do jovem Samuel. É Eli que compreende “que era o Senhor quem chamava o menino” e que ensina Samuel a abrir o coração ao chamamento de Deus (“se fores chamado outra vez, responde: «fala, Senhor; o teu servo escuta»” – vers. 9). O pormenor sugere que, tantas vezes, os irmãos que nos rodeiam têm um papel decisivo na percepção da vontade de Deus a nosso respeito e na nossa sensibilização para os apelos e para os desafios que Deus nos apresenta. Finalmente, o autor põe em relevo a disponibilidade de Samuel para ouvir e para acolher a voz de Deus: “fala, Senhor; o teu servo escuta” (vers. 10).

No mundo bíblico, “escutar” não significa apenas ouvir com os ouvidos; mas significa, sobretudo, acolher no coração e transformar aquilo que se ouviu em compromisso de vida. O que Samuel está aqui a dizer a Deus é que está disposto a acolher os seus apelos e desafios e a comprometer-Se com eles. O que Samuel está a dizer a Deus é que aceita embarcar no desafio profético e ser um sinal vivo de Deus, voz “humana” de Deus, na vida e na história do seu Povo.

A primeira leitura é significativa e sempre atual porque conta a história do chamamento de Samuel. Você já pensou no seu chamamento? Na sua pertença em Deus? O autor desta reflexão deixa claro que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, o qual vem ao encontro do homem e chama-o pelo nome. Ao homem é pedido que se coloque numa atitude de total disponibilidade para escutar a voz e os desafios de Deus.

Prezados irmãos,

A pergunta do Evangelho deve nos acompanhar nesta semana de janeiro, tempo de devoção a São Sebastião, o Santo guerreiro, o mártir destemido, a quem nos é repetida a pergunta ingente: Quem é “discípulo” de Jesus? Quem pode integrar a comunidade de Jesus? Na perspectiva de João, o discípulo é aquele que é capaz de reconhecer no Cristo que passa o Messias libertador, que está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e da entrega, que aceita o convite de Jesus para entrar na sua casa e para viver em comunhão com Ele, que é capaz de testemunhar Jesus e de anunciá-l’O aos outros irmãos.

A segunda leitura (1Cor 6,13-15.17-20) é uma das questões particulares, abordadas em 1Cor 5-12: a fornicação. A oposição paulina à libertinagem sexual não se deve ao desprezo do corpo, mas à sua alta estima por ele, pois reconhece que o corpo não é alheio às alturas do espírito, mas, antes, as sustenta e delas participa. Por isso, qualquer ligação vulgar avilta do homem todo. Porque o corpo é tabernáculo do Espírito Santo, devendo ser governado para este fim do homem integral, membro de Cristo e não o homem subordinado às finalidades particulares do corpo.

A questão fundamental, para São Paulo, é esta: pelo Batismo, o cristão torna-se membro de Cristo e forma com ele um único corpo. A partir desse momento, os pensamentos, as palavras, as atitudes do cristão devem ser os de Cristo e devem testemunhar, diante do mundo, o próprio Cristo. No “corpo” do cristão manifesta-se, portanto, a realidade do “corpo” de Cristo. Por outro lado, o cristão torna-se também Templo do Espírito. Para os judeus, o “templo” de Jerusalém era o lugar onde Deus residia no mundo e se manifestava ao seu Povo.

Dizer que os cristãos são “Templo do Espírito” significa que eles são agora o lugar onde reside e se manifesta a vida de Deus. No Batismo, o cristão recebe o Espírito de Deus; e é esse Espírito que vai, a partir desse instante, conduzi-lo pelos caminhos da vida, inspirar os seus pensamentos, condicionar as suas ações e comportamentos. Aqui estão os elementos fundamentais da antropologia cristã: O “corpo” é o lugar onde se manifesta historicamente a realidade dessa vida nova que inunda o batizado, após a sua adesão a Cristo.

O “corpo” não é algo desprezível, baixo, miserável, condenado – na linha do que pensavam algumas correntes filosóficas bem representadas na cidade de Corinto; mas é algo que tem uma suprema dignidade, pois é nele que se manifesta para o mundo a realidade da vida de Deus. No “corpo” do cristão que vive em comunhão com Cristo manifesta-se – através das palavras e das ações do batizado – essa vida nova que Deus quer propor ao mundo e oferecer aos homens. Daqui, Paulo tira as devidas consequências e aplica-as à situação concreta dos batizados de Corinto, às vezes tentados por comportamentos pouco edificantes, particularmente no âmbito da vivência da sexualidade.

Se os cristãos são membros de Cristo e se vivem em comunhão com Cristo, os comportamentos desregrados no domínio da sexualidade não fazem qualquer sentido; se os cristãos são “Templo do Espírito” e os seus corpos são o lugar onde se manifesta a vida nova de Deus, certas atitudes e hábitos desordenados não são dignos dos batizados.

No “corpo” dos cristãos deve manifestar-se a vida de Deus. Ora, tudo aquilo que é expressão de egoísmo, de procura desenfreada dos próprios interesses, de realização descontrolada dos próprios caprichos, de comportamentos que usam e instrumentalizam o outro, está em absoluta contradição com essa vida nova de Deus que é relação, que é intercâmbio, que é entrega mútua, que é compromisso, que é amor verdadeiro. Os batizados são livres; mas a liberdade cristã tem como limite o próprio Cristo: nada do que contradiz os valores e o projeto de Jesus pode ser aceite pelo cristão.

Aliás, os batizados devem ter consciência de que o radicalismo da liberdade acaba frequentemente na escravidão. A segunda leitura termina com um convite singular: “glorificai a Deus no vosso corpo” (vers. 20). É através de comportamentos e atitudes onde se manifesta a realidade da vida nova de Jesus que os batizados podem “prestar culto” a Deus. O “culto” a Deus não passa pela prática de um conjunto de ritos externos, mais ou menos pomposos, mais ou menos solenes, mas por um compromisso de vida que afeta a pessoa inteira e que diz respeito à relação do batizado com os outros irmãos ou irmãs e consigo próprio. É preciso que em todas as circunstâncias – inclusive no campo da vivência da sexualidade – a vida do batizado seja entrega, serviço, doação, respeito, amor verdadeiro. É esse o culto que Deus exige.

São Paulo, com muita propriedade, convida os cristãos de Corinto a viverem de forma coerente com o chamamento que Deus lhes fez. No fiel e na fiel batizado(a) que vive em comunhão com Cristo deve manifestar-se sempre a vida nova de Deus. Aplicado ao domínio da vivência da sexualidade – um dos campos onde as falhas dos cristãos de Corinto eram mais notórias – isto significa que certas atitudes e hábitos desordenados devem ser totalmente banidos da vida do cristão.

Que possamos, pois, todos procurar a Cristo, não perguntando onde Ele Mora, mas exigindo de nós um movimento: ir e ver onde está Deus, vivificando com o creio, a experiência de fé na busca contínua do Deus da Vida, o nosso Salvador Jesus Cristo, para que o tenhamos sempre ao nosso lado. Amém!

Homilia: Padre Wagner Augusto Portugal