homilia do evangelho Jo 2,1-11

Meus queridos Irmãos,

Retornamos ao chamado tempo comum. Por que tempo comum? É o tempo litúrgico das coisas ordinárias na vida da Igreja Católica. Vamos retomar a normalidade de nossa vida na ordinariedade da vida da Igreja de Cristo. Caminhando com Cristo rumo ao Pai somos convidados a confiar no poder de Jesus Cristo que leva Maria a pedir algo inusitado. A mesma certeza de que Jesus atenderá o pedido de Maria deve mobilizar os filhos e as filhas de Deus na busca do rosto sereno e radioso de Cristo. Pela fé e pela vida nos aproximamos de Jesus e do Pai e devemos, neste tempo comum, colocar nas suas redentoras impressões digitais os nossos pedidos, as nossas agruras, as nossas necessidades, as nossas alegrias, a doce esperança e alegria cristã. A esperança, a fé e a ação concreta andam sempre juntas e devem iluminar todo o novo tempo que estamos inaugurando com este domingo.

Meus caros irmãos,

A Primeira Leitura (cf. Is 62,1-5) fala que depois do fim do Exílio, veio do difícil período da restauração. O povo pergunta se isso é a salvação. O profeta responde: “Esperança! ”Não pode calar-se de anunciar, com nomes carinhosos, quanto Deus ama seu povo. É a renovação dos esponsais.

A imagem do amor do marido pela esposa é uma imagem que define de forma muito feliz o imenso amor, o amor nunca desmentido de Deus pelo seu Povo. É verdade que Jerusalém, a esposa, abandonou Deus e correu atrás de outros deuses;

A situação antiga de Jerusalém é evocada discretamente (“abandonada”, “devastada”); mas a preocupação essencial do profeta é sublinhar o rejuvenescimento operado por Deus na esposa, a novidade inesgotável do amor de Deus que, sem se mostrar marcado pelo passado, “desposa” a cidade/noiva e passa a chamar-lhe “minha preferida”.

Deus que não esquece o seu amor e que, apesar das falhas da esposa no passado, continua a amar. É esse amor nunca quebrado que vai rejuvenescer a relação, que vai possibilitar um novo casamento e que vai transformar a “esposa” infiel numa “coroa esplendorosa”, num “diadema real” que brilha nas mãos do rei/Deus. Também é de sublinhar a “alegria” de Deus pelo refazer da relação: o Deus da “aliança” quer, com toda a força do seu amor, fazer caminho ao lado do seu Povo; e só está feliz quando o homem aceita esse amor que Deus quer partilhar e que enche o coração do homem de paz, de vida e de felicidade.

O amor de Deus pelo seu Povo é um amor que nada consegue quebrar: nem o nosso afastamento, nem o nosso egoísmo, nem as nossas recusas. Ele está sempre lá, à espera, de forma gratuita, convidando ao reencontro, ao refazer da relação; e esse amor gera vida nova, alegria, festa, felicidade em todos aqueles que são atingidos por ele. Viver em relação com o Deus-amor implica também dar testemunho, ser “profeta do amor”.

Caros irmãos,

A Segunda Leitura (cf. 1Cor 12,4-11) nos fala da diversidade de dons, mas um só Espírito. Trata-se do início de uma seqüência de leituras de 1Cor 12-15. Nestes capítulos nos é apresentado os carismas que são diversos, mas isso não pode causar divisão, pois têm a mesma fonte: a riqueza de Deus e o amor do Espírito, mandado pelo Filho por parte do Pai. Cada cristão está com seu dom específico: a serviço de toda a comunidade.

A comunidade cristã necessariamente deve ser o reflexo da comunidade trinitária, dessa comunidade de amor que une o Pai, o Filho e o Espírito. Como cristãos, somos todos membros de um único corpo, com diversidade de funções e de ministérios. A diversidade de “dons” não pode ser um fator de divisão ou de conflito, mas de riqueza para todos. Os “dons” que Deus nos concede deve sempre ser colocado ao serviço do bem comum.

A comunidade cristã tem de ser o reflexo da comunidade trinitária, dessa comunidade de amor que une o Pai, o Filho e o Espírito. As nossas comunidades paroquiais, as nossas comunidades religiosas são espaços de comunhão e de fraternidade, onde o amor e a solidariedade dos diversos membros refletem o amor que une o Pai, o Filho e o Espírito. Como cristãos, somos todos membros de um único corpo, com diversidade de funções e de ministérios. A diversidade de “dons” não pode ser um fator de divisão ou de conflito, mas de riqueza para todos.

Irmãos e Irmãs,

Está inaugurado o tempo comum depois da celebração do Batismo do Senhor e o encerramento do tempo do Natal. O tempo comum é inaugurado pela reflexão do Evangelho (cf. Jo. 2,1-11) que nos apresenta a narrativa das Bodas de Caná. Ali Jesus iniciou a sua vida pública de maneira festiva, de maneira solene, num casamento, na celebração de bodas de amigos. O gesto de Caná demonstrado por São João quer significar que Jesus é o Verbo de Deus que contraiu com a natureza humana um casamento, um pacto nupcial.

Entre Deus e o povo do Antigo Testamento, o povo israelita, existia um pacto, uma aliança, como se fosse um casamento. Mas Israel foi infiel e traiu a confiança de Deus. Por causa de presumidas vantagens materiais, correu atrás de Deuses dos povos pagãos. Este acontecimento é conhecido como prostituição. O resultado foi que Israel caiu nas mãos dos povos estrangeiros narrado pela primeira leitura e conhecido como Exílio. Os israelitas foram levados para o cativeiro na Babilônia, daí o Exílio da Babilônia. Entretanto, agora, o profeta anuncia, em nome de Deus, a salvação. Deus vai acolher de novo sua esposa fiel, proclama e ensina a primeira leitura (cf. Is. 62,1-5).

O amor de Deus pela humanidade ao amor ao esposo, e a aliança entre Deus e as criaturas humanas como um amor esponsalício, amor dialogante, repleto de alegria de ambas as partes.

Meus caros Irmãos,

O Evangelho de hoje(Jo 2,1-11) anuncia a origem divina e missão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Houve o casamento. Estiverem testemunhando este casamento Jesus, os discípulos e a Virgem Maria. Faltou vinho. Houve a transformação de água em vinho. Por detrás desses fatos há muito mais do que a realidade que eles contam. O vinho era considerado uma bebida de imortalidade, a bebida do amor divino, a expressão da força de Deus que penetra e inebria o coração dos viventes.

A água sempre representou a matéria-prima da vida. Água que dá vida e que embala a vida de todos os homens. Vinho que significa a vida divina e água que significa a vida humana, a humanidade. Jesus ao transformar a água em vinho anuncia que dará ao homem a eternidade. Assim, depois que Jesus desposou a humanidade, introduziu-a no lugar de Cristo, porque “quem está em Cristo, é criatura nova” e “Cristo será tudo em todos” e todos formamos “um só Corpo em Cristo”.

Irmãos e Irmãs,

A água transformada em vinho encontrava-se em seis talhas de pedra, porque era a água reservada para as purificações legais, e os hebreus preferiam as de pedra às de terracota, porque essas nem sempre correspondiam às exigências legais da pureza. Jesus transformou 500 litros de água em vinho. Abundância para que? O tempo que Jesus inaugura é um tempo de abundância. Aquele que nasceu pobre numa gruta à beira da estrada e morreu nu pregado numa cruz trouxe para a humanidade graça sobre graça. Deus é sempre abundantemente; o homem é que estabelece limites, exatamente como acontece na vida prática. Deus cria os campos sem horizontes e o homem súbito lhes põe uma cerca.

Jesus fala de hora e de glória no Evangelho de hoje. A hora de Jesus é a sua glorificação. E essa hora lhe foi fixada pelo Pai do Céu: será o momento de sua morte na Cruz. Assim João já prefigura que com a inauguração da vida pública de Jesus, manifestando o seu poder e a sua glória em Cana, Jesus tem ciência de que sua existência e sua missão era um caminho que ultimaria na paixão e na morte. Paixão e morte que se transformarão em ressurreição, em vida eterna, em salvação do mundo, em vitória da morte e anúncio da vida plena, da vida em abundância, em Glória eternal.

Caros irmãos,

Para São João, os “milagres” são sempre “sinais” que nos reenviam para além da materialidade dos fatos. Será bom olhar com mais atenção esta água mudada em vinho. A água é um elemento vital. Mas é, antes de mais, um elemento ordinário e bruto. A água encontra-se na natureza, não precisa de ser fabricada. O vinho é fruto da vinha, mas também do trabalho do homem, como rezamos na Eucaristia. Jesus manda encher as talhas de água, a água que é símbolo da nossa vida ordinária, de todos os dias. Jesus toma esta água ordinária para a transformar. Não com uma varinha mágica, mas com a força do Espírito Santo, com a força do amor. É porque este vinho é melhor que o vinho dos homens… Por este “sinal”, Jesus quer vir ter conosco na nossa vida cotidiana, para aí colocar a sua presença de amor, o amor do Pai, o Espírito Santo. Toma a nossa vida, com as nossas alegrias, os nossos amores, as nossas conquistas humanas, importantes, mas tantas vezes efêmeras, com os nossos tédios, os nossos dias sem gosto e sem cor, os nossos fracassos e mesmo os nossos pecados, também eles cotidianos.

Irmãos e Irmãs,

Junto de Jesus está a sua Mãe que dá uma esplêndida manifestação do Poder e do Senhorio do Redentor: “Fazei tudo que Ele vos Disser!”. João estabelece um paralelo entre Eva e Maria, querendo dizer que, a partir do nascimento de Jesus, Eva foi substituída por Maria. Eva significa a mãe dos viventes. A cena da entrega de Maria a João como Mãe, quando do alto do Madeiro da Cruz, prestes a expiar o pecado de Adão e de Eva, o pecado original, Jesus recria o universo, para entregá-lo purificado ao Pai numa aliança eterna e definitiva. Na nova e eterna aliança anunciada por Jesus, Maria é a nova mãe de todos os que viverão pelo Cristo.

A fé é virtude, atitude habitual da alma, inclinação permanente a julgar e agir segundo o pensamento do Cristo, com espontaneidade e vigor, como convém aos homens justificados. Com a graça do Espírito Santo, cresce a virtude da fé, se a mensagem cristã é entendida e assimilada como boa nova, no sentido salvífico que tem para a vida cotidiana do homem.

Todos nós devemos contribuir de maneira diversa para formar o Corpo de Cristo. Todos agirão a partir da fé em Jesus Cristo, a exemplo de Maria, que disse aos serventes: “FAZEI TUDO O QUE ELE VOS DISSER! ”

Em cada Missa somos convidados a participar do banquete das bodas que Deus celebra com a humanidade, onde Jesus Cristo é ao mesmo tempo esposo e alimento e a Comunidade cristã, esposa alimentada pela vida e o amor de Deus, onde todos nós queremos ascender ao apelo do episcopado brasileiro: QUEREMOS VER JESUS, CAMINHO, VERDADE E VIDA.

Padre Wagner Augusto Portugal.