Homilia A cura do cego

Meus irmãos e minhas irmãs,

Vamos caminhando para o fim do tempo comum. Mas é exatamente no tempo comum que a sagrada liturgia nos coloca diante de temas que fazem parte do chamado tempo cotidiano, do tempo das coisas comuns e das coisas simples da vida dos homens e das mulheres.

A Primeira Leitura(cf. Jr. 31,7-9) nos fala da restauração da vista dos cegos, no tempo messiânico. Trata-se da profecia de salvação para Israel e Samaria, deportados em 721aC, interpretada, mais tarde, como válida também para Judá, em exílio desde 586 aC(cf. Jr. 3,18). Deus reunirá as tribos dispersas e as consolará. Portanto, a cura dos cegos e coxos é uma imagem significativamente preferida para descrever o tempo messiânico: uma cidade onde não mais haverá cegos e coxos mendigando é uma verdadeira utopia(cf. Is 35). O povo responde à comiseração de Deus cantando: “Javé salva”(cf. Jr. 31,7). Atualizando a Primeira Leitura constatamos que o Deus em quem acreditamos não é um Deus insensível e alheio das dores e dificuldades dos homens; mas é um Deus sensível e atento, que cuida dos seus filhos com cuidados de pai. Ao longo do percurso que vamos percorrendo pela história, também nós fazemos, como os antigos israelitas, a experiência da escravidão, da dependência, do medo, do desespero, da decepção. Por isso, hoje, a Palavra de Deus garante-nos: não estamos sozinhos frente aos nossos dramas e sofrimentos; Deus vai ao nosso lado e, com amor de pai, cuida de nós, dá-nos a mão, conduz-nos ao encontro da vida eterna e verdadeira. A nós resta-nos reconhecer a sua presença (às vezes tão discreta que nem a notamos) e, com humildade e simplicidade, aceitar o seu amor.

Neste tempo de mudança de época, de tantas violências e agressões recíprocas, a primeira leitura é um impressionante apelo à esperança, à confiança em Deus. Por vezes, somos tentados a olhar para a nossa vida e para a história do nosso mundo, com os óculos do pessimismo, do medo e do desespero. O terrorismo, os crimes ambientais, as dificuldades econômicas, as doenças incuráveis, a fome, a miséria, os valores efêmeros, parecem pintar de negro o nosso futuro e o futuro da terra. Contudo, a Palavra de Deus que hoje nos é proposta garante-nos: não tenhais medo, pois Deus caminha conosco pela história e, como um pai cheio de bondade que ensina o filho a caminhar, há-de conduzir-nos pela mão ao encontro da vida verdadeira. Há, certamente, um futuro para nós, pois Deus ama-nos e caminha conosco.

Meus caros irmãos,

Na liturgia deste domingo somos convidados, uma vez mais, a refletir sobre a nossa salvação individual e a salvação da humanidade. O episódio do Evangelho de hoje(cf. Mc. 10,46-52) é a cura do cego, mais que fato acontecido, é um grande símbolo que salta aos nossos sentidos. O teatro da salvação é a cidade de Jericó, a cidade mais velha do mundo, representa a humanidade que caminha para a salvação, que aspira a salvação, que necessita da salvação. Bartimeu, o cego, representa cada ser vivente, cada um de nós, homens e mulheres. Bartimeu é cada humano que não consegue caminhar sozinho. A cegueira o impede de alcançar uma meta, porque precisa de uma pessoa para se apoiar para se locomover. Bartimeu não representa somente os cegos físicos, mas, sobretudo, a cegueira espiritual. Bartimeu representa aqueles que, na antevéspera da paixão, não poderão caminhar com Jesus para a paixão em Jerusalém. Jesus, precisamente, veio para salvar esta categoria de pessoas, os cegos físicos e os cegos espirituais, a grande maioria da população que não abre sua visão para a salvação que é o próprio Redentor da humanidade.

Meus queridos irmãos,

Jesus hoje está na cidade de Jericó, bem perto de Jerusalém. A palavra Jesus significa “Deus é salvação”. Jesus tem a missão de introduzir o povo na Terra Prometida. Jesus assume o comando do povo para dar-lhes uma pátria eterna, a Terra Prometida definitiva. A subida de Jerusalém é decisiva para Jesus e para a humanidade. Jericó representa a velha humanidade, o velho mundo. O cego se chama Bartimeu. Porque Bartimeu? Porque a salvação ela é para todos, mas cada pessoa, cada fiel tem que cuidar da sua própria salvação.

Bartimeu nos ensinou três virtudes básicas para se conseguir a salvação: Em primeiro lugar a HUMILDADE. Ao exclamar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”(cf. Mc 10, 47) Até e principalmente para nos salvarmos é necessário ter humildade, fazer-se pequeno, fazer-se pobre, fazer-se servo simples, fazer-se desprendido. Junto da piedade requerida pelo cego Bartimeu ele teve a grandeza de anunciar a realeza de Cristo chamando-o de “meu mestre”. Humildade absoluta de reconhecer o Salvador como mestre como aquele que abre caminhos e nos coloca nos rumos do céu, da vida eterna. Em segundo lugar temos que ressaltar a FÉ EM JESUS, o REDENTOR. Bartimeu reconheceu em Jesus o Redentor, aquele que nos leva para Deus, que morreu na Cruz pela salvação de nossos pecados. Bartimeu reconheceu em Jesus sua missão de Messias. Em terceiro lugar curado da cegueira Bartimeu deu um pulo e ABANDONOU O MANTO, ou seja, deixou tudo que era velho e foi na nova vida dar testemunho de Jesus e colocar em Jesus a sua única segurança. Tudo para que nós tenhamos consciência de que é necessário abandonar o homem velho, abandonar os bens temporais que oprimem e nos escraviza.

Caros irmãos,

O cego Bartimeu evoca, de maneira eloquente, a condição do homem escravo, prisioneiro do egoísmo, do orgulho, dos bens materiais, da preguiça, da vaidade, do êxito. O cego Bartimeu, ainda, evoca a condição daquele que está acomodado na sua situação de miséria, instalado nos seus preconceitos e projetos pessoais, conformado com uma vida de horizontes limitados. Por fim, o cego Bartimeu evoca a condição daquele que se sente refém dos seus vícios, hábitos e paixões e que sente a sua incapacidade em romper, por si só, as cadeias que o impedem de ser livre… Esta situação será uma situação insuperável, a que o homem está condenado de forma permanente? A Palavra de Deus que nos é proposta nos garante que a situação do homem cego, prisioneiro da escuridão, não é uma situação incontornável, obrigatória, sem remédio. Jesus veio ao mundo, enviado pelo Pai, com uma proposta de libertação destinada a todos aqueles que procuram a luz e a vida verdadeira. Esse Jesus de Nazaré que Se cruzou com o cego à saída de Jericó continua a cruzar-Se hoje, de forma continuada, com cada homem e com cada mulher nos caminhos da vida e oferece-lhes, sem cessar, a proposta libertadora de Deus. É preciso, no entanto, que não nos fechemos no nosso egoísmo e na nossa auto-suficiência, surdos e cegos aos apelos de Deus; é preciso que as nossas preocupações com os valores efêmeros não nos distraiam do essencial; é preciso que aprendamos a reconhecer os desafios de Deus nesses acontecimentos banais com que, tantas vezes, Deus nos interpela e questiona.

Na história do encontro de Bartimeu com Cristo, aparecem outros personagens, com papéis vários. Uns constituem obstáculos à adesão de Bartimeu a Cristo; outros apresentam-se como intermediários entre Cristo e Bartimeu e transmitem ao cego as palavras de Jesus. Este fato serve para nos tornar conscientes do papel daqueles que nos rodeiam no nosso caminho da fé. Ao longo da nossa caminhada, encontraremos sempre pessoas que nos ajudam a ir ao encontro de Cristo e pessoas que (muitas vezes com ótimas intenções) tentam impedir-nos de encontrar Cristo. Precisamos de aprender a discernir entre as várias opiniões que nos são propostas e a dar a devida importância a quem nos ajuda a descobrir o caminho para a verdadeira vida.

Quem encontra Cristo e aceita o desafio para viver como discípulo deverá abandonar a vida cômoda e instalada em que vivia e enfrentar uma nova realidade, num desafio permanente, num questionamento constante; tem de aprender a enfrentar as críticas, as incompreensões, os confrontos com aqueles que não compreendem a sua opção; tem de percorrer, dia a dia, o difícil caminho do amor, do serviço, da entrega, do dom da vida.

Meus irmãos caríssimos,

A segunda leitura(cf. Hb 5,1-6) situa o ser sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua solidariedade com os homens e com Deus ao mesmo tempo. Participando de nossa condição, santifica-a. Jesus é o pontífice por excelência. Não Jesus mesmo, mas também nenhuma instituição humana, lhe conferiu este poder. Ele pertence a uma linhagem sacerdotal que supera até a de Aarão, por ser primeira e de origem desconhecida, misteriosa: a linhagem de Melquisedec. Ao apresentar Jesus como o sumo-sacerdote, chamado pelo Pai e enviado ao mundo para libertar os homens do egoísmo e do pecado e para os conduzir à comunhão com Deus, a Carta aos Hebreus propõe a cada um de nós a contemplar a grandeza do amor que Deus nos dedica. A contemplação da encarnação de Jesus e de tudo o que Ele realizou enquanto percorreu os caminhos e aldeias da Palestina fala-nos de um amor sem limites, expresso em gestos concretos e que culmina na entrega total, na cruz. A nós resta-nos olhar para Jesus, escutá-I’O, aceitar a sua proposta, banir da nossa vida o egoísmo e o pecado, segui-l’O nesse caminho do dom e da entrega que irá levar-nos a integrar a família de Deus e a possuir a vida verdadeira.

Jesus, ao assumir a nossa humanidade, experimentou a nossa fragilidade, a nossa debilidade, a nossa dependência. Jesus tornou-Se capaz de compreender os nossos erros e dificuldades. Jesus olhou para as nossas debilidades e insuficiências com olhar paterno, com bondade, amor, misericórdia e compaixão. Por isso sejamos confiantes em Deus e esperançosos em Deus, somente Deus é a nossa confiança e a nossa esperança. Jesus intercede ao Pai do céu por todas as nossas dificuldades. O nosso segundo compromisso é com os irmãos e as irmãs, solidários que somos, como Cristo foi solidário conosco, tenhamos solidariedade e partilha com os pequenos, os últimos, os que vivem nas periferias existenciais, com aqueles que o mundo rejeita e marginaliza; identificando-nos com os seus sofrimentos, angústias, dores e tristezas, levando-lhes a alegria e a esperança cristã, promovendo os que são humilhados.

Queridos fiéis,

Dentro do contexto da secularização e da cegueira generalizada pela paixão desordenada pelo ter, ser, poder e prazer devemos nos conscientizar de que não há, no mundo secularizado como o nosso, espaço para uma fé anônima, formalista e hereditária, uma fé oriunda de uma pastoral de manutenção.

Urge uma fé fundada no aprofundamento da Palavra de Deus, na opção pelo que professamos no símbolo de nossa fé católica e apostólica e uma fé abraçada conscientemente, inserida como discípulos-missionários.

Nesse sentido é salutar olharmos para os sacramentos da iniciação cristã, de um novo modo de considerar a evangelização e os sacramentos, não apenas como numéricos, sem vivência eclesial.

É tempo de uma renovada opção catequética, formativa, de introduzir nossos batizados nos mistérios da nossa fé, com um catecumenato renovado, buscando um verdadeiro itinerário de uma fé viva.

Irmãos e irmãs,

Aprendamos com Jesus! Jesus escuta o pobre, o cego à beira do caminho. Para curá-lo pede a colaboração de seus discípulos. Encontra os que o animam: “Coragem! Ele te chama. Levanta-te”.(cf. Mc 10, 49) Mas para aproximar-se de Jesus é sempre necessário deixar algo, nem que seja somente o manto. Importante ainda que se queira ver novamente. Então, basta confiar e corresponder: segui-lo pelo caminho, deixando tudo para trás. Nós cristãos já fomos o cego Bartimeu à beira do caminho. Cristo nos chamou e nos fez ver. Com alegria, pois, o seguiremos no seu caminho, que nos leva para o Céu. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal