Pescadores de homens

Novamente estamos diante da figura do Batista(cf. Mc 1,14-20). João Batista é realçado no Evangelho de Marcos como aquele que fala da conversão. Marcos apresenta o Batista como o profeta escatológico, dando ênfase para a chegada do Reino de Deus.

A liturgia deste domingo nos permite fazer uma ligação entre as três leituras que acabamos de ouvir. Jonas nos exorta sobre a conversão de Nínive, uma cidade que vivia no pecado e na luxúria, tendo o contexto presente das coisas que passam rapidamente, como as coisas do mundo, o prazer, o sexo, o dinheiro, a pornografia, o ter, o poder, tudo aquilo que vai na contra-mão da história do Reino de Deus(cf. Jn 3,1-5.10). Jesus assimilou este mundo maravilhoso anunciando o primordial: a comunhão com a Trindade Santíssima, que ao contrário das coisas do mundo, tem uma beleza perene e eterna.

Aqueles que consideramos “maus” estão, às vezes, mais disponíveis para acolher os desafios de Deus e para escutar o seu chamamento, do que os “bons”. Os “bons” estão, tantas vezes, aferrados aos seus esquemas de vida, aos seus preconceitos, às suas certezas, que não escutam as propostas de Deus… Para Deus, o que é decisivo não é o passado de cada homem ou mulher, mas a capacidade de cada um em deixar-se interpelar e questionar por ele.

Caros irmãos,

Na primeira leitura(cf. Jn 3,1-5.10) Jonas recebe o segundo mandato de Deus para ir a Nínive. Jonas aceita, desta vez, a missão, vai a Nínive e anuncia aos ninivitas a destruição da sua cidade. Contra todas as expectativas, os ninivitas escutam-no, fazem penitência e manifestam a sua vontade de conversão. Finalmente, Deus desiste do castigo. A primeira lição da “parábola” é a da universalidade do amor de Deus. Deus ama todos os homens, sem exceção, e sobre todos quer derramar a sua bondade e a sua misericórdia

Deus ama mesmo os maus, os injustos e opressores e até a esses oferece a possibilidade de salvação. Deus não ama o pecado, mas ama os pecadores. Ele não quer a morte do pecador, mas que este se converta e viva.

A segunda lição brota da resposta dada pelos ninivitas ao desafio de Deus. Ao descrever a forma imediata e radical como os ninivitas “acreditaram em Deus” e se converteram “do seu mau caminho” (ao contrário do que, tantas vezes, acontecia com o próprio Povo de Deus), o escritor sagrado sugere, com alguma ironia, que esses pagãos, considerados como maus, prepotentes, injustos e opressores são capazes de estar mais atentos aos desafios de Deus do que o próprio Povo eleito.

Desta forma, o texto denuncia uma certa visão nacionalista, particularista, exclusivista, xenófoba, que estava em moda na sua época entre os seus contemporâneos. Desafia o seu Povo a aceitar que Deus seja um Deus misericordioso, que oferece o seu amor e a sua salvação a todos os homens, até aos maus. Desafia, ainda, os habitantes de Judá a assumirem a mesma lógica de Deus – lógica de bondade, de misericórdia, de perdão, de amor sem limites – e a não verem nos outros homens inimigos que merecem ser destruídos, mas irmãos que é preciso amar.

Jonas nos convida a apreciar a profundidade da misericórdia e da bondade de Deus. Deus ama todos os homens e mulheres, sem exceção e de forma incondicional. Deus ama até os maus e os opressores. Esta lógica exclui, naturalmente, a eliminação do pecador: Deus não quer a morte de nenhum dos seus filhos; o que quer é que eles se convertam e percorram, com Ele, o caminho que conduz à vida plena, à felicidade sem fim. É este Deus, tornado frágil pelo amor, que somos chamados a descobrir, a aceitar e a amar.

No entanto todos nós temos, por vezes, alguma dificuldade em aceitar esta lógica de Deus. Em certas circunstâncias, preferíamos um Deus mais duro e exigente, que se impusesse decisivamente aos maus, que frustrasse os seus projetos de violência e de injustiça, que castigasse aqueles que não cumprem as regras, que não desse hipóteses àqueles que destroem o nosso bem-estar e a nossa segurança.

Meus irmãos,

O Evangelho de hoje nos apresenta o Reino de Deus: aqui está o mistério central da Encarnação do Senhor. O Reino de Deus não é somente aquele que viveremos depois da morte. O Reino de Deus começa aqui e agora. A plenitude do Reino de Deus fica para a vida eterna. “Kairós” é o tempo que temos neste momento e na situação peculiar em que nos encontramos, que é rico de graça, porque impregnado da presença de Deus. A nossa vida pessoal para tornar-se “kairós” e abrir-nos a porta do Reino de Deus exige de cada um duas condições básicas: conversão e crença nos santos Evangelhos. Todos nós somos convidados, com insistência pela Santa Igreja, a nos convertermos e a crer em Cristo. Crendo em Cristo, aderindo ao seu projeto de Salvação, todos nós poderemos ter acesso a maior beleza da vida deste e do outro mundo: a vida em Deus – sentir-se na palma da mão de Deus, sentir-se amado e querido por Deus, sentir-se na presença de Deus.

O eixo de toda a vida de Jesus é a instauração do Reino de Deus, que é o eixo de todo o Evangelho. Os próprios discípulos são escolhidos em função do Reino de Deus. Por isso Jesus começou a sua pregação na Galiléia, a marginal de todas as cidades de então, para demonstrar que o seu Reino é para os pequenos, para os pobres, para os excluídos da sociedade. Jesus usa do pequeno para que a grandeza do seu Reino infunde a vida dos homens e das mulheres com grande entusiasmo e revigorada vida de fé e esperança.

Marcos anuncia a missão universal de Jesus à beira de um lago, o lago da Galiléia, à parte norte da Palestina, onde, aliás, em torno do lago de Genesaré, Jesus passou a maior parte de sua vida pública.

Contemplaram-se os tempos, tanto para Jesus, como para a criatura humana. Jesus é a plenitude dos tempos. Deus se fez igual a nós tem tudo, menos no pecado, elevando a criatura humana à dignidade de filho e o transformando em parceiro da história. Simão e André, Tiago e João, chamados por Jesus, somos todos nós. Todos somos chamados. No Evangelho Jesus escolheu quatro pescadores, profissão malvista naquele tempo e considerada imprópria para pessoas boas e tementes a Deus.  Nenhum pecador, nenhum pobre, nenhuma criatura é excluída. As condições continuam as mesmas duas: converter-se e crer no Evangelho, na pessoa de Jesus, nos seus ensinamentos e na sua missão. Uma fé comunitária e dialogal, desapegando-se de tudo, tanto dos bens materiais, quanto dos bens pessoais e dos bens sentimentais. O desapego provavelmente é a condição mais difícil do discipulado no Novo Testamento, mesmo porque, a piedade do Antigo Testamento estava muito ligada a posse de bens materiais e sociais. No desapego Jesus é o grande mestre: nada teve de próprio, nem onde reclinar a cabeça.

O Reino de Deus exige também o “acreditar” no Evangelho. “Acreditar” não é, na linguagem neo-testamentária, a aceitação de certas afirmações teóricas ou a concordância com um conjunto de definições a propósito de Deus, de Jesus ou da Igreja; mas é, sobretudo, uma adesão total à pessoa de Jesus e ao seu projeto de vida. Com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e atitudes, Jesus propôs aos homens – a todos os homens – uma vida de amor total, de doação incondicional, de serviço simples e humilde, de perdão sem limites. O “discípulo” é alguém que está disposto a escutar o chamamento de Jesus, a acolher esse chamamento no coração e a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida.

Meus irmãos,

A segunda leitura(1Cor 7,29-31) nos relata o matrimônio e o celibato. Paulo esboça uma visão global referente à questão do estado de vida. O estado de vida não é o mais importante, acha ele, pois é uma realidade provisória, perdendo sua importância diante do definitivo, que se aproxima depressa. Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento próprio da vida, o esquema como diz o texto grego. Este esquema desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade completamente nova, e esta é que importa. Assim Paulo evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas esta dialética deve ser formulada novamente por cada geração e cada pessoa.

São Paulo adverte aos cristãos que não devem esquecer que “o tempo é breve”, quando tiverem que fazer as suas opções – nomeadamente, quando tiverem que fazer a sua escolha entre o casamento ou o celibato. Em concreto, o que é que isto significa?
O cristão vive mergulhado nas realidades terrenas, mas não vive para elas. Ele sabe que as realidades terrenas são passageiras e efémeras e não devem, em nenhum caso, ser absolutizadas. Para o cristão, o que é fundamental e deve ser posto em primeiro lugar, são as realidades eternas. E o cristão, embora estimando e amando as realidades deste mundo, pode renunciar a elas em vista de um bem maior. O mais importante, para um cristão, deve ser sempre o amor a Cristo e a adesão ao Reino. Tudo o resto (mesmo que seja muito importante) deve subjugar-se a isto. Na verdade, as palavras de Paulo fazem sentido em todos os tempos e lugares; mas elas tornam-se mais lógicas se tivermos em conta o ambiente escatológico que se respirava nas primeiras comunidades. Para os batizados a quem a Primeira Carta aos Coríntios se destinava, a segunda e definitiva vinda de Jesus estava iminente; era preciso, portanto, relativizar as realidades transitórias e efémeras, entre as quais se contava o casamento.

Na sua catequese aos Coríntios, o Apóstolo Paulo aplica estes princípios à questão do casamento/celibato. Para ele, o casamento é uma realidade importante (ele considera que tanto o casamento como o celibato são dons de Deus – cf. 1 Cor 7,7); mas não deixa de ser uma realidade terrena e efémera, que não deve, por isso, ser absolutizada. São Paulo nunca diz que o casamento seja uma realidade má ou um caminho a evitar; mas é evidente, nas suas palavras, uma certa predileção pelo celibato. Na sua perspectiva, o celibato leva vantagem enquanto caminho que aponta para as realidades eternas: anuncia a vida nova de ressuscitados que nos espera, ao mesmo tempo que facilita um serviço mais eficaz a Deus e aos irmãos (cf. 1 Cor 7,32-38).

Para nós católicos devemos viver com a consciência de que “o tempo é breve”. O batizado sabe que a sua vida não encontra sentido pleno e absoluto nesta terra e que a sua passagem por este mundo é uma peregrinação ao encontro dessa vida verdadeira e definitiva que só se encontra na comunhão plena com Deus. Para chegar a atingir esse objetivo último, o cristão deve converter-se a Cristo e segui-l’O no caminho do amor, da entrega, do serviço aos irmãos. Tudo aquilo que deixa um espaço maior para essa adesão a Cristo e ao seu caminho, deve ser valorizado e potenciado. É aí que deve ser colocada a nossa aposta.

Irmãos,

Como os primeiros apóstolos somos convidados a pescar gente dentro do projeto do Reino de Deus. Não se trata só de pescar gente para vir à Igreja, mas sim de formar parceria com muita gente para construir um mundo melhor. O pescador de peixe pesca para seu próprio benefício. A Igreja não é uma organização voltada só para si mesma, preocupada apenas com seu próprio sucesso. A pesca da Igreja, que é povo de Deus em marcha, tem que ser diferente: não é estratégia para aumentar a clientela. O pescador de gente, à moda de Jesus, pesca para dar às pessoas pescadas uma tarefa empolgante, uma oportunidade maior de fazer diferença neste mundo atribulado. Nossa pesca é concreta, com problemas, angústias, conquistas e alegrias próprios da nossa região e do nosso tempo. Aqui onde estamos, o projeto do Reino está também entre o já e o ainda-não. Temos já e ainda-não no trabalho, nas escolas, nas famílias, na política, nas Igrejas, na ciência…e tendo esperança e fé que Deus está em nós, tempo de paz e de prosperidade.

Diante de tantas propostas efêmeras e falas de felicidade, o Reino de Deus é a opção mais acertada de felicidade e de compromisso de amor e de paz!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal.