Homilia Pescadores de homens a anunciar o Reino de Deus

Meus queridos amigos,

A novidade do tempo comum é o encantamento da liturgia que nos coloca em contacto com a generosidade do Deus da Vida, a Vida que veio, na palavra de Isaías como “O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz”, (cf. Is 8, 9.a) E esta grande Luz é o Cristo Senhor. Assim, o Evangelho de Mateus é o Evangelho do cumprimento das Sagradas Escrituras. Jesus cumpre a vontade do Pai que já estava determinada pelos antigos Profetas. Quando Jesus muda de Nazaré para Cafarnaum, Mateus vê aí a realização última e definitiva daquilo que já acontecera uma vez no tempo de Isaías: “O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz”, que é o Cristo presente junto ao povo de Cafarnaum. A presença de Jesus em Cafarnaum e Neftali, atormentadas terras pelas deportações assírias era a manifestação de que Deus estava socorrendo aquela gente: “O povo que ficara nas trevas veria uma nova luz”. Segundo Mateus, a mudança de Jesus para esta região significava o cumprimento da vontade do Pai, por isso era necessário ascender ao convite do próprio Jesus: “Convertei-vos, o Reino de Deus chegou!” (cf. Mt 4,17).

 Meus irmãos,

A Primeira Leitura(cf. Is 8,23b-9,3) nos apresenta esta luz que surge sobre os que estão nas trevas – no ano de 732 houve a deportação das tribos galiléias – Zabulão e Neftali – para a Assíria. Mas nas trevas desta situação brilha uma luz de esperança: o nascimento de um filho real, cujo nome simbólico é Emanuel, ou seja, Deus Conosco.

A perícope da primeira leitura pertence à fase final da vida do profeta Isaías. Estamos no final do séc. VIII a.C.. Os assírios (que em 721 a.C. conquistaram Samaria, a antiga capital do reino de Israel) oprimem e humilham as tribos do Povo de Deus instaladas na região norte do país (Zabulão e Neftali); as trevas da desolação e da morte cobrem toda a região setentrional da Palestina. No sul, em Jerusalém, reina Ezequias. O rei, desdenhando as indicações do profeta (para quem as alianças políticas com os povos estrangeiros são sintoma de grave infidelidade para com Jahwéh, pois significam colocar a confiança e a esperança nos homens), envia embaixadas ao Egito, à Fenícia e à Babilônia, procurando consolidar uma frente contra a maior e mais ameaçadora potência da época – a Assíria. A resposta de Senaquerib, rei da Assíria, não se faz esperar: tendo vencido sucessivamente os membros da coligação, volta-se contra Judá, devasta o país e põe cerco a Jerusalém (701 a.C.). Ezequias tem de submeter-se e fica a pagar um pesado tributo aos assírios. Por essa época, desiludido com os reis e com a política, o profeta teria começado a sonhar com uma intervenção de Deus para oferecer ao seu Povo um mundo novo, de liberdade e de paz sem fim.

O profeta fala de “uma luz” que irá começar a brilhar por cima dos montes da Galileia e que irá iluminar toda a terra. Essa luz eliminará “as trevas” que mantinham o Povo oprimido e sem esperança e inaugurará o dia novo da alegria e da paz sem fim. O jugo da opressão que pesava sobre o Povo será, então, quebrado e a paz deixará de ser uma miragem para se tornar uma realidade. Para descrever a alegria que, nesse novo quadro, encherá o coração do Povo, o profeta utiliza duas imagens extremamente sugestivas: é como quando, no fim das colheitas, toda a gente dança feliz, celebrando a abundância dos alimentos; é como quando, após a caçada, os caçadores dividem a presa abundante.

Qual a origem dessa luz libertadora e recriadora? O sujeito dos verbos do versículo 3 é, indubitavelmente, Deus: será Deus quem quebrará a vara do opressor, quem levantará o jugo que oprime o Povo de Deus, quem triturará o bastão de comando que gera escravidão e humilhação. O mundo novo de alegria e de paz sem fim é um dom de Deus. O nosso texto fica por aqui; mas, na sequência, o oráculo de Isaías ainda fala num “menino”, enviado por Deus para restaurar o trono de David e para reinar no direito e na justiça (cf. Is 9,5-6). É a promessa messiânica em todo o seu esplendor.

É Jesus, a luz que ilumina o mundo com uma aurora de esperança, que dá sentido pleno a esta profecia messiânica de Isaías. Ele é “Aquele que veio de Deus” para vencer as trevas e as sombras da morte que ocultavam a esperança e instaurar o mundo novo da justiça, da paz, da felicidade. Acolher Jesus é aceitar esse projeto de justiça e de paz que Ele veio propor aos homens.

Caros irmãos,

A Segunda Leitura(cf. 1Cor 1,10-13.17) nos apresenta o apóstolo que é mandado para evangelizar, não para criar partidos sectários. São Paulo iniciou esta carta com o tema da unidade, para agora censurar as divisões ou panelinhas. Há torcedores de Paulo, outros de Apolo, outros de Cefas. A isso, São Paulo faz três perguntas que significam que pouco importa o carisma pessoal do missionário; o centro é Jesus Cristo.

Após ter abandonado a cidade de Corinto, São Paulo continuou em contato com a comunidade cristã. Mesmo distante, continuava a acompanhar a vida da comunidade e inteirava-se regularmente das dificuldades e problemas que os seus queridos filhos de Corinto tinham de enfrentar. Quando escreveu a primeira carta aos Coríntios, Paulo estava em Éfeso. De Corinto haviam chegado, entretanto, notícias alarmantes. Após a partida de Paulo, tinha aparecido na cidade um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Antioquia, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polêmica com os judeus. Era mais brilhante do que Paulo – conhecido pela sua falta de eloquência (cf. 2 Cor 10,10). Formaram-se partidos na comunidade (embora Apolo não favorecesse essa divisão, segundo parece): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1 Cor 1,12). Formaram-se “partidos”, à imagem do que acontecia nas escolas filosóficas da cidade, que tinham os seus mestres, à volta dos quais circulavam os adeptos ou simpatizantes: o cristianismo tornava-se, dessa forma, mais uma escola de sabedoria, na qual era possível optar por mestres distintos.

Para São Paulo, contudo, o cristianismo não era a escolha de uma determinada filosofia de vida, defendida mais ou menos brilhantemente por um mestre qualquer; mas era a adesão a Jesus Cristo, o único e verdadeiro mestre. São Paulo não mede as palavras: a Cristo e unicamente a Cristo os cristãos, todos, foram consagrados pelo baptismo. É Cristo e só Cristo a única fonte de salvação. Ser batizado é entrar a fazer parte do corpo de Cristo e participar no acontecimento salvador do qual Cristo é o único mediador. Dizer que se é de Paulo, ou de Cefas, ou de Pedro é, portanto, desvirtuar gravemente a essência da fé cristã.

Deve ficar bem claro que o importante não é quem batizou ou quem anunciou o Evangelho: o importante é Cristo, do qual Paulo, Cefas e Apolo são simples e humanos instrumentos. Os coríntios são, portanto, intimados a não fixar a sua atenção em mestres humanos e a redescobrir Cristo, morto na cruz para dar vida a todos, como a essência da sua fé e do seu compromisso. Dessa forma, a comunidade será uma verdadeira família de irmãos, que recebe vida de Cristo, que vive em unidade e comunhão.

A situação preocupou enormemente Paulo: além dos conflitos e rivalidades que a divisão provocava, estava em causa a essência da fé. O cristianismo corria, dessa forma, o perigo de se tornar mais uma escola de sabedoria, cuja validade dependia do brilho dos mestres que apresentavam a ideologia e do seu poder de convicção.

A experiência cristã é, fundamentalmente, um encontro com Cristo; é d’Ele e só d’Ele que brota a salvação. A vivência da nossa fé não pode, portanto, depender do carisma da pessoa tal, ou estar ligada à personalidade brilhante deste ou daquele indivíduo que preside à comunidade. Para além da forma mais ou menos brilhante, mais ou menos coerente como tal pessoa anuncia ou testemunha o Evangelho, tem de estar a nossa aposta em Cristo; é n’Ele e só n’Ele que bebemos a salvação; é a Ele e só a Ele que o nosso compromisso batismal nos liga.

Estimados irmãos,

Pela conversão somos introduzidos na família de Deus. Jesus, na alegoria de São Mateus(cf. Mt 4,1-12-23 ou Mt 4,12-17), ao recordar Isaías, é a plenitude dos tempos e de todas as promessas. Mateus demonstra que a pregação de Jesus é salvadora e religa o homem à vida imortal de Deus. Mateus nos introduz na pedagogia de Jesus que nos pede um novo modo de viver, sem distinção de raça e culturas, com a condição única de uma conversão sincera, autêntica, evangelizadora e santificadora. Por isso hoje somos convidados a nos converter com sincera vontade e desejo.

A graça de Deus está presente no mundo e é uma verdade inexorável. Entretanto, também está presente no mundo a maldição para os que rejeitam o Cristo e preferem continuar cegos no meio da luz salvadora. O destino reservado a Cafarnaum será o destino dos que preferem permanecer na treva. O tema da luz, como motor da salvação, está presente em toda a liturgia de hoje.

Dentro do programa de salvação de Jesus, Ele começa a falar da salvação anunciando que João Batista está preso. Preso inocente, por fidelidade a Deus, ao anunciar que alguém mais importante do que ele viria batizar com o Espírito Santo. É à vontade de Deus que acompanha Jesus, a partir deste Evangelho, no início de sua vida pública. E tudo o que acontecer com o Senhor é a mais genuína vontade de Deus.

Jesus, no Evangelho de hoje, volta para a Galiléia. A Galiléia é o campo da missão, do trabalho missionário de Jesus. A profecia de hoje coloca o tempo e o espaço, enaltecendo o lado humano de Jesus, e a missão salvadora, ou seja, a luz, o lado divino de Jesus, distinguindo as suas duas naturezas.

Meus caros irmãos,

Cafarnaum não aceitou a pregação de Jesus e será comparada a Sodoma – cidade que simboliza o pecado – e condenada com rigor, conforme Mateus 11,23ss. Mateus insinua a sorte dos que, apesar de receberem a graça da salvação, não a aceitam, desprezam-na e assim se autocondenam. Mateus chegou a chamar Cafarnaum “sua cidade”, isto é, cidade de Jesus, e apesar de tanta honra concedida, Cafarnaum não quis a luz da graça salvadora (cf Mt 9,1). Em Cafarnaum habitavam pessoas de várias raças, desde gentios a hebreus. Por isso, ao falar de Cafarnaum, Cristo nos anuncia que vem para todos, e não só para os hebreus. Cristo vem como luz para desfazer trevas, vem para vivificar a morte. Luz significa vida e salvação. O centro da pregação de Jesus é a vida e a salvação. A pessoa de Jesus, em si mesma, é vida e salvação. Ao homem cabe deixar-se iluminar por essa luz. Por isso, mas para frente, Jesus vai dizer: “Eu sou a luz do mundo”(Cf.  Jo 8.,12), completando para o povo ao exclamar: “E vós sois a luz do mundo”(Mt 5,14).

Ao começar, no dia de hoje, a sua vida pública Jesus escolhe os primeiros apóstolos. Não os escolhe entre os doutores, os estudados, os letrados, os poderosos, os sabidos, mas os elege dentre os que são pecadores, gente muito mal vista pelos maiorais, porque, como pecadores, não podiam observar todas as leis e, por isso mesmo, eram considerados “pecadores”. Mas, era sobretudo para os pecadores que Jesus começava a vida pública, era sobretudo ao coração e à mente dos simples e “pecadores”que pedia para se voltarem – se converterem – para Deus, porque era sobre eles que o Pai do Céu queria derramar toda a sua misericórdia.

Estimados amigos,

O Evangelho de hoje nos ilumina para duas reflexões: a conversão e o Reino de Deus. Implantar na terra o Reino de Deus é a razão pela qual Jesus se encarnou, morreu e ressuscitou. E pertencer a esse Reino é a razão pela qual o homem aceita a pessoa e a doutrina de Jesus. No esforço de afastar tudo o que impede essa aceitação está a conversão.

A salvação foi trazida por Jesus. A escolha dos homens e mulheres é livre! Os discípulos aceitaram o vinde e Vede e seguiram a Jesus e passaram a ouvir a sua pregação. Depois da audição é necessário a vivência, a abertura a esta pregação, programa de vida, de conversão e, por conseguinte, de santidade. Esse esforço de conversão é de cada um, sendo até um “combate espiritual”.

Por isso ao falar da proximidade do Reino de Deus Jesus nos anuncia que a conversão deve ser urgente, deve ser rápida, para que o Cristo passe a viver e dominar com a sua graça a nossa vida. Por isso a conversão é o primeiro passo para o seguimento, ou seja, refazer os mesmos passos de Jesus, querer a mesma vontade de Deus Pai e santificar a vida de todos.

Caros irmãos,

Jesus é o Deus que vem ao nosso encontro para realizar os nossos sonhos de felicidade sem limites e de paz sem fim. N’Ele e através d’Ele (das suas palavras, dos seus gestos), o “Reino” aproximou-se dos homens e deixou de ser uma quimera, para se tornar numa realidade em construção no mundo. Contemplar o anúncio de Jesus é abismar-se na contemplação de uma incrível história de amor, protagonizada por um Deus que não cessa de nos oferecer oportunidades de realização e de vida plena. Sobretudo, o anúncio de Jesus toca e enche de júbilo o coração dos pobres e humilhados, daqueles cuja voz não chega ao trono dos poderosos, nem encontram lugar à mesa farta do consumismo, nem protagonizam as histórias balofas das colunas sociais. Para eles, ouvir dizer que “o Reino chegou” significa que Deus quer oferecer-lhes essa vida plena e feliz que os grandes e poderosos insistem em negar-lhes. Para que o “Reino” seja possível, Jesus pede a “conversão”. Ela é, antes de mais, um refazer a existência, de forma a que só Deus ocupe o primeiro lugar na vida do homem. Implica, portanto, despir-se do egoísmo que impede de estar atento às necessidades dos irmãos; implica a renúncia ao comodismo, que impede o compromisso com os valores do Evangelho; implica o sair do isolamento e da auto-suficiência, para estabelecer relação e para fazer da vida um dom e um serviço aos outros.

A história do compromisso de Pedro e André, Tiago e João com Jesus e com o “Reino” é uma história que define os traços essenciais da caminhada de qualquer discípulo. Em primeiro lugar, é preciso ter consciência de que é Jesus que chama e que propõe o Reino; em segundo lugar, é preciso ter a coragem de aceitar o chamamento e fazer do “Reino” a prioridade essencial (o que pode implicar, até, deixar para segundo plano os afetos, as seguranças, os valores humanos); em terceiro lugar, é preciso acolher a missão que Jesus confia e comprometer-se corajosamente na construção do “Reino” no mundo.

Como Cristo, também a Igreja deve, hoje como sempre, empenhar-se em libertar o homem do pecado, pois o anúncio da conversão é o fim primário que justifica a sua própria existência. Nela deve manifestar-se constantemente a liberdade do Espírito no serviço recíproco, no reconhecimento e na coordenação dos dons que Deus faz a cada um dos fiéis, e assim deveria ser, diante do mundo, o sinal visível do reino de Deus na terra. Por isso, a Igreja como instituição também é continuamente interpelada e julgada pela palavra de Deus. Também a Igreja está em estado de conversão permanente. O cristão que, movido pelo Espírito, está aberto e dócil à Palavra de Deus, segue um itinerário de conversão para ele… que pode comportar, ao mesmo tempo, a alegria do encontro e a contínua exigência de ulterior busca; o arrependimento pela infelicidade e a coragem de recomeçar; a paz da descoberta e a ânsia de novos conhecimentos; a certeza da verdade e a constante necessidade de nova luz.

À Luz do Evangelho procuremos ver a Deus, numa conversão sincera, em que o Cristo seja a luz santa de nossas vidas, Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal