Homilia O cego curado

Meus queridos irmãos,

Celebramos hoje o Domingo “Laetare”, ou seja, o domingo em que somos convidados a alegria. A própria antífona da entrada da Santa Missa dá o tom que celebramos: “Alegra-te, Jerusalém!”. O sacerdote pode usar, por concessão litúrgica, a estola ou a casula rosácea.  Assim a liturgia nos coloca na companhia dos que jubilosos sobem a Jerusalém. Somos nós, também, convidados a subir a Jerusalém. Subir a Jerusalém, nesta Quaresma, para contemplarmos as maravilhas que Deus vem operando em nossas vidas, neste caminho de penitência, de jejum e de oração para Ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida.

Meus irmãos,

O tema da alegria vai permear toda a Liturgia, desde a oração da coleta até a oração sobre as oferendas. A Segunda Leitura(cf. Ef 5,8-14) nos ensina que Cristo vai iluminar as nossas trajetórias. Cristo, iluminando a nossa vida, para relembrar o Batismo, tema que iniciamos a nossa reflexão no domingo passado, que entendemos, melhor, no Evangelho, aonde Cristo é colocado como a luz do mundo, que abre os olhos ao cego pelo banho no “Siloé, que significa: Enviado”(Cf. Jo 9,7). Carregado de simbolismo batismal, o Santo Evangelho de João(cf. Jo 4,5-42, ou mais breve Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42), é também uma profunda e rica lição de fé: os diálogos revelam sempre mais firme e decidida a fé do ex-cego, enquanto cresce a má vontade em aceitar Jesus e os seus sinais pelos fariseus. Por fim, o homem é excluído da sinagoga pelos hebreus  – sorte de muitos judeu-cristãos no fim do século I – mas, ao reencontrar Jesus, chega a professar sua fé e a adorar Jesus, fazendo jus ao sinal que recebera – a abertura dos olhos, sinal do Batismo.

Mas, devemos nos perguntar: Como estamos vivendo o nosso Batismo? Depois que fomos batizados estamos vivendo a coerência de filhos e filhas de Deus?  Por isso os batizados devem ser alegres, porque receberam a Luz de Cristo, que iluminará a nossa vida, como iluminou o dia santo em que recebemos a luz de Cristo representada pela vela acessa.

Caros irmãos,

A segunda leitura(cf. Ef 5,8-14) fala imagem da “luz” e das “trevas”, que é uma imagem que aparecia frequentemente na catequese primitiva, como sugere o seu uso nos textos neo-testamentários, sobretudo em João e Paulo (cf. Jo 1,4-5; 3,19.21; 8,12; 1 Jo 1,5-7; 2,9-11; Rom 2,19; 2 Cor 4,6; 1 Tess 5,4-7). O símbolo “luz/trevas” aparece, também, nos escritos de Qûmran para definir o mundo de Deus (luz) e o mundo que se opõe a Deus (trevas). Para São Paulo, viver nas “trevas” é viver à margem de Deus, recusar as suas propostas, viver prisioneiro das paixões e dos falsos valores, no egoísmo e na auto-suficiência. Ao contrário, viver na “luz” é acolher o dom da salvação que Deus oferece, aceitar a vida nova que Ele propõe, escolher a liberdade, tornar-se “filho de Deus”.

Os cristãos são aqueles que escolheram viver na “luz”. São Paulo, dirigindo-se aos cristãos da parte ocidental da Ásia Menor, exorta-os a viverem na órbita de Deus, como Homens Novos, e a praticarem as obras correspondentes à opção que fizeram pela “luz”. Em concreto, Paulo pede-lhes que as suas vidas sejam marcadas pela bondade, pela justiça e pela verdade. A propósito, São Paulo cita um velho hino cristão batismal, que convoca os crentes para viverem na “luz” (vers. 14). Mais ainda: o cristão não é só chamado a viver na “luz”; mas deve desmascarar as “trevas” e denunciar as obras e os comportamentos daqueles que escolhem viver nas “trevas” do egoísmo, da mentira, da escravidão e do pecado. O cristão não deve só escolher a luz, mas deve também desmascarar as obras das “trevas”, de forma aberta e decidida.

“Luz” e “trevas” são, nesta passagem, duas esferas de poder capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua vida, as suas opções, os seus valores e comportamentos. O cristão, no entanto, é aquele que optou por “viver na luz”. Para São Paulo, não chega “viver na luz” e dar testemunho da “luz”. É preciso, também, denunciar – de forma aberta e decidida – as “trevas” que desfeiam o mundo e que mantêm os homens escravos. A expressão “desperta tu que dormes”, citada por Paulo, convida-nos à vigilância. O cristão não pode ficar de braços cruzados diante da maldade, do egoísmo, da injustiça, da exploração, dos contra-valores que enegrecem a vida dos homens e do mundo. O cristão tem de manter uma atitude de vigilância atenta e de denúncia ousada e corajosa.

Estimados irmãos,

As trevas são a solidão, a dor, a noite, a escuridão. A Luz é o dia, a claridade, a vida, a presença de Deus. O cego vivia nas trevas e, pela ação e graça de Cristo, viu a luz. Mas que luz o cego viu? A luz que é o Cristo em sua pessoa divina e humana; e como tal, se torna a salvação para o homem, tal qual viu o cego do Evangelho hodierno.

Viver no mundo das trevas é não reconhecer Jesus, Deus e Homem, como o Salvador e Redentor. E aqui está o maior de todos os pecados que se pode cometer.

Os fariseus de hoje, ao contrário dos habitantes de Sicar do domingo passado, tinham um coração fechado, repleto de auto-suficiência, de homens velhos que não queriam abrir-se a graça de Deus.

Jesus hoje se apresenta como a Luz. Luz da razão e do coração. Luz que é capaz de fazer ver o rosto de Deus, reconhecê-lo, proclamá-lo e nele encontrar a sua segurança, o seu refúgio, o seu único repouso. A cegueira curada hoje ilumina as obras de Deus, especialmente, a maior, que é a criação e a encarnação de Seu Filho Jesus.

Amados irmãos,

Os cegos eram tidos como pecadores pelos hebreus. Isso por duas razões: primeiro, porque se fossem pessoas boas, Deus não os teria castigado com a cegueira. Segundo, porque, como cegos, não tinham possibilidade de cumprir todos os mandamentos, e por conseguinte, se não eram, se tornavam pecadores. Mentalidade curta, legalista, ritualista que não liberta o homem. Aí vem o Cristo, a curar o cego, a nos advertir que a sua Luz, a adesão ao seu seguimento, ilumina todos os homens e mulheres que querem experimentar a salvação.

Do Messias era esperado restituir a vista aos cegos. Esperança doce dos hebreus que se realizou no Cristo. Realizou-se de maneira plena, principalmente, quando o cego curado exclama com fé: “Eu Creio, Senhor!”, se ajoelhando diante de Jesus.

Várias são as cegueiras, além da cegueira física: a cegueira do coração, a cegueira do egoísmo, a cegueira da auto-suficiência, a cegueira da falta de caridade, a cegueira do ódio, a cegueira da violência, a cegueira da inveja; a cegueira da maldade de coração, a cegueira da língua, a cegueira dos ouvidos. Jesus veio curar de todas estas enfermidades, que teimamos em não querer a cura, ao não aceitar Jesus.

Devemos reaquecer, reavivar a piedade em Cristo, para que a sua obra salvadora se instale na terra, seja vivida e seguida por muitos que estão nas trevas dos erros e dos vícios. E vivendo a Luz a partir do mandamento sempre novo, que nunca se envelhece, o amor gratuito, generoso, paciente, que acolhe sempre o diferente.

Queridos irmãos,

Somos convidados hoje a vivenciarmos o nosso Batismo. Os sacramentos são sinais visíveis e eficazes da graça de Deus, já nos ensina a antiga escolástica canônica. De nada nos cura as águas do batismo se o Cristo não conseguir nos tocar primeiro. Os dois sentidos da cegueira, o espiritual e o físico, bem acentuados hodiernamente, quando Jesus usa o “cuspir” no chão, fazer lodo, para, por conseguinte, pôr no olho do cego, mandando que o mesmo lave a sua impureza tem um grande significado como sinal. O cego faz uma atitude que poucos de nós faz: ele não questiona a ordem de Jesus, ele a obedece com fé. O ceguinho teve uma atitude de humildade, confiança e esperança, sem a qual não há caminho de acesso ao Senhor.  Depois o ceguinho pensa que Jesus é um profeta, ou uma pessoa boa. Por fim, o cego pensa que Jesus tem poderes especiais oferecidos por Deus. Só, a partir daí, que ele reconhece que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, o escolhido, o santo dos Santos, o Senhor, a quem ele vai se prostrar para adorar em espírito e em Verdade.

Já os fariseus percorreram, de sua vez, o caminho contrário. Sabiam tudo a respeito de Jesus, de sua missão e de seu poder, mas se julgaram auto-suficientes, não precisando de nada.

Qual deve ser o nosso caminho? Ter a atitude confiante do ceguinho? Ou anunciar aos quatro ventos que somos quase-deuses, e de nada precisamos de Jesus? Ter a cegueira curada, como o ex-cego, e a graça de reconhecer a divindade de Jesus é uma atitude que todos nós devemos ter no dia a dia. A nossa fé começa a partir do momento em que acreditamos naquilo que não vemos, mas sentimos no irmão e na irmã, no Cristo que se fez comunidade conosco e que vem ao nosso auxílio sob as espécies do Pão e do Vinho da Salvação.

Caros irmãos,

Nós, os batizados, não podemos fechar-nos num pessimismo estéril, decidir que o mundo “está perdido” e que à nossa volta só há escuridão. No entanto, também não podemos esconder a cabeça na areia e dizer que tudo está bem. Há, objetivamente, situações, instituições, valores e esquemas que mantêm o homem encerrado no seu egoísmo, fechado a Deus e aos outros, incapaz de se realizar plenamente. A catequese que São João nos propõe hoje garante-nos: a realização plena do homem continua a ser a prioridade de Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio ao encontro dos homens e mostrou-lhes a luz libertadora: convidou-os a renunciar ao egoísmo e auto-suficiência que geram “trevas”, sofrimento, escravidão e a fazerem da vida um dom, por amor.  Receber a “luz” que Cristo oferece é, também, acender a “luz” da esperança no mundo.

Estimados Irmãos,

David foi lembrado na Primeira Leitura(1Sm 16,1b.6-7,10-13a) pela sua unção. Destacando a dignidade de rei e sacerdote, nos lembra o Cristo-Ungido-Mestre e, ao mesmo tempo, nossa unção batismal em Cristo.

A primeira leitura fala, claramente, sobre o tema da eleição. A lógica de Deus é bem diferente, neste capítulo, da lógica dos homens. Antes de mais, David é apresentado como o eleito de Jahwéh. É sempre Jahwéh que escolhe aqueles a quem quer confiar uma missão. Nem a Samuel – o seu enviado – Jahwéh dá qualquer explicação. A eleição não resulta da iniciativa do homem, mas sim da iniciativa e da vontade livre de Deus. Em segundo lugar, impressiona a lógica da escolha de Deus. Samuel raciocina com a lógica dos homens e pretende ungir como rei o filho mais velho de Jessé de Belém, impressionado pelo seu belo aspecto e pela sua estatura; mas não é essa a escolha de Deus. Samuel percebe, finalmente, que a escolha de Deus recai sobre David – o filho mais novo de Jessé – um jovem anônimo e desconhecido que andava a guardar o rebanho do pai. A história da eleição de David quer sublinhar a lógica de Deus, que escolhe sem ter em conta os méritos, o aspecto ou as qualidades humanas que costumam impressionar os homens. Pelo contrário, Deus escolhe e chama, com frequência, os pequenos, os mais fracos, aqueles que o mundo marginaliza e considera insignificantes; e é através deles que age no mundo. Fica, assim, claro que quem leva a cabo a obra da salvação é Deus; os homens são apenas instrumentos, através dos quais Deus realiza a sua obra no mundo.

Se olharmos para o mundo com olhos de esperança, vemos muitas pessoas que realizam coisas bonitas, que lutam contra a miséria, o sofrimento, a injustiça, a doença, o analfabetismo, a violência. Não há mal nenhum em admirarmos a sua disponibilidade e em aprendermos com o seu empenho e compromisso. No entanto, nós os crentes somos convidados a olhar mais além e a ver Deus por detrás de cada gesto de amor, de bondade, de coragem, de compromisso com a construção de um mundo melhor. O nosso Deus continua a construir, dia a dia, a história da salvação; e chama homens e mulheres para colaborarem com Ele na salvação do mundo. A primeira leitura mostra, mais uma vez, que Deus tem critérios diferentes dos critérios humanos e que a sua lógica nem sempre coincide com a nossa. “Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração” – diz o texto. É preciso entrar na lógica de Deus e aprender a ver, para além da aparência, da roupa que a pessoa veste, do “curriculum” profissional ou acadêmico; é preciso aprender a ver com o coração e a descobrir a riqueza que se esconde por detrás daqueles que parecem insignificantes e sem pretensões. É preciso, sobretudo, aprender a respeitar a dignidade de cada homem e de cada mulher, mesmo quando não parecem pessoas importantes ou influentes.

A Quaresma deve ser vista como o tempo propício à proclamação renovada de nossa fé batismal. A partir daí Cristo nos iluminará. Que possamos viver a intensidade deste tempo, renovando o nosso batismo, assumindo-o conscientemente anunciando a todos Jesus, A Luz do Mundo!

Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal