homilia do quarto domingo comum

Meus queridos Irmãos,

A missa deste domingo, em questões de liturgia, é prosseguimento da missa de domingo passado. Hoje encontramos a resposta de várias perguntas que ficaram abertas no domingo anterior. Será mesmo que Jesus veio para instaurar o ano da remissão das dívidas? Jesus teria desejado realizar materialmente a utopia? Parece que São Lucas, o único evangelista que entra neste assunto, quer dizer muito mais nas entrelinhas. Na sua descrição, Lucas reúne diversos elementos. A citação de Is 61, 1-3, na boca de Jesus, tem por quadro uma combinação de Mc 1,21 – que é o ensino da sinagoga – e 6,1-6 que é a rejeição de Nazaré. Percebemos uma correspondência do teor teológico entre o v. 19: “um ano agradável da parte do Senhor” e o v. 24: “nenhum profeta é agradável em sua terra”. A citação do ano da graça não é relacionada, por Lucas, como uma mera reforma social, mas com a pessoa de Jesus mesmo. Jesus anuncia o “ano agradável da parte do Senhor”, a encarnação dos dons de Deus para seu povo, especialmente para os mais humildes, para os mais pobres. Mas o povo de Nazaré não recebe com agrado o profeta que anuncia, afinal ninguém é profeta em sua própria terra. Nazaré aplaude a mensagem do ano da remissão, mas rejeita aquilo que o profeta em pessoa representa: a salvação universal. A restauração dos empobrecidos é a porta de entrada da salvação universal, pois o que é para todos tem de começar com os últimos, com os pobres, com os excluídos.

Irmãos e Irmãs,

O Evangelho deste quarto domingo do Tempo Comum (cf. Lc. 4,21-30) começa com a palavra HOJE. O que é o hoje para Lucas? Todas as esperanças, todas as expectativas do Antigo Testamento se cumprem em Jesus de Nazaré. Jesus se apresenta como aquele em que se realizam todas as esperanças, mesmo contra todas as esperanças dos homens e das mulheres. Jesus se apresenta como o Filho de Deus, como o Enviado de Deus, o Esperado, o Messias, o Cristo, o caminho certo e a porta segura de Salvação.

E O VERBO SE FEZ CARNE. Aqui estão resumo de todas as qualidades do filho de Deus. Filho de Deus igual ao Pai. Carne que não é somente o corpo, mas toda a condição da pessoa humana, exceto o pecado, conforme o ensinamento de Hb 4,15.

Ao assumir a humanidade Jesus se fez homem em tudo, exceto no pecado original. Em nenhum momento Jesus deixou de ser Deus. Sendo “imagem do Deus invisível” (cf Cl 1,15), Jesus é o homem perfeito, que restituiu à criatura humana a semelhança divina, deformada desde o pecado primeiro, ou seja, desde o pecado original.

Nós somos convidados hoje a trilhar os caminhos da fé em Jesus Cristo, o Senhor. A nossa fé não vem pelos milagres que podem ser considerados como expressão de nossa fé. A nossa fé pela adesão amorosa ao projeto de Jesus, que é um projeto de santidade, de vida coerente e de caminho seguro para a vida eterna, para a vida em Deus.

Para se ter fé é necessário cortar a auto-suficiência. O auto-suficiente não sente a necessidade da fé e não tem condições para a graça da fé. É como a pedra dura em relação à semente. Pode tentar plantar que não vai brotar.

Ouvir a palavra de Deus é bom, mas não é tudo. É preciso colocar em prática a palavra ouvida. É preciso viver as prescrições das Sagradas Escrituras. Temos que tomar uma decisão: colocar em prática o nosso sacerdócio batismal evangelizando todas as pessoas, todas as gentes.

Como aderir a fé? O nosso SIM, o nosso FIAT, a exemplo da Virgem Maria que acreditou esperar um Filho de Deus por obra e graça do Espírito Santo, deve ser um caminho de cruz e de compromisso. Meu sim implica assumir a cruz de cada dia e seguir atrás do Senhor, em perseguir o Senhor Jesus, assumindo todas as conseqüências, e se preciso for, até a morte.

O seguimento de Jesus implica em seguir ao Redentor do Homem, ao Filho de Deus, aquele que veio trazer a Palavra de Vida Eterna e pela sua paixão redentora e ressurreição inaugurou o tempo da salvação, restabelecendo a aliança quebrada pelo pecado original.

Irmãos e Irmãs,

Quantas vezes nós que estamos participando desta missa fomos como os Nazarenos? Quantas vezes nós não falamos um NÃO PARA JESUS CATEGORICAMENTE. Mas, muitos poderiam se perguntar: Como, eu um batizado, falar um não para Jesus? Isso é bobagem! Mas ocorre muitas vezes que nós caminhamos na contra-mão de Jesus, deixando falar mais a nossa humanidade e se esquecendo que pelo batismo Jesus nos eleva a categoria não só de humanos, mas, sobretudo, de FILHOS DE DEUS.

Temos que crer neste domingo, com obsequioso e pio desejo, que Jesus, o carpinteiro de Nazaré, é realmente o Filho de Deus, o prometido que o Antigo Testamento cantava a missão controvertida do Profeta, mais do que Profeta, do Filho de Deus: “Antes que eu te formasse no ventre de tua mãe, te conheci; e, antes que tu saísses do seu seio, te santifiquei, e te estabeleci profeta entre as nações” (Cf Jr 1, 5).

Jesus já estava esperado e designado para a missão de salvador desde o início da criação.  Assim a missão de Jesus e a própria missão da Igreja, querida e instituída por Ele, não podem ser analisadas, pura e simplesmente, com os olhos humanos, mas, sobretudo, com os olhos da fé, da fé em JESUS QUE MORREU NA CRUZ PELA SALVAÇAO DO MEU PECADO, DO SEU PECADO, DOS PECADOS DA COMUNIDADE, DOS PECADOS DE TODO O MUNDO.

Jesus assumiu a nossa humanidade para que o humano, purificado por Jesus, entrasse a fazer parte do divino. A cena do Evangelho de hoje se repetiu tantas vezes na história da salvação. Hoje Jesus, rejeitado em seu lado humano, foi conduzido para fora da cidade para ser eliminado. Quantas vezes a Igreja, exatamente por seu lado humano, foi perseguida de morte. Mas a Igreja é como Jesus: tem também um lado divino e por isso, passando no meio dos perseguidores, continua seu caminho. Isso porque Jesus disse: “E nem as potências do inferno acabarão com a minha Igreja”.

Irmãos Caríssimos,

Particularmente o que me causa maior tristeza dentro da perspectiva dos homens é a inveja, a calúnia e a difamação. O povo de Nazaré não aceitou Jesus por causa do maior pecado que contamina a sociedade atual: o EGOÍSMO. Esta praga chamada egoísmo, que faz a pessoa preocupar-se exclusivamente das coisas de seu interesse, que quer um Deus a serviço de suas necessidades e não admite que todos tenham os mesmos direitos à graça de Deus. Puro legalismo! Leda religiosidade! Falsa vida de comunidade! Os nazarenos, ontem, reclamavam que Jesus havia curado doentes e efetuado milagres fora de sua parentela e vizinhança. Se tinha o dom da cura, que curasse os doentes de sua parentela e de sua terra. E os nazarenos se revoltaram contra Jesus. Jesus, em vão, havia dito que Elias e Eliseu curaram no exterior outras pessoas.  Aqui está a grandiosidade do mistério da SALVAÇAO DE JESUS: ELA VEIO PARA TODOS, SEM DISTINÇAO, SEM RETRATO FALADO, SEM FOFOCA, SEM DISTINÇAO, PARA TODOS, UNIVERSALMENTE.

Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Os habitantes de Nazaré julgam conhecer Jesus. Eles viram Jesus crescer, sabem identificar a sua família e os seus amigos, mas, na realidade, não perceberam a profundidade do seu mistério. Trata-se de um conhecimento superficial, teórico, que não leva a uma verdadeira adesão à proposta de Jesus.

O caminho do profeta é sempre um caminho onde se lida, permanentemente, com a incompreensão, com a solidão, com o risco… É, no entanto, um caminho que Deus nos chama a percorrer, na fidelidade à sua Palavra. 

Irmãos e Irmãs,

A Primeira Leitura (cf. Jr 1,4-5;17-19) fala da missão controvertida do profeta. Jeremias se torna profeta jovem ainda, não por sua vontade, mas porque Deus o quer. Experimenta quanto custa ser a “boca de Deus”. Porém, mais temível seria fugir da missão de Deus do que, com sua força, enfrentar a oposição dos homens. Muitos rejeitam a graciosa e afetuosa oferta de salvação de Deus em Jesus Cristo. Na primeira leitura encontramos o profeta rejeitado, mas firme pela força de Deus, pode ocupar o lugar da Segunda Leitura ou, então, ser simplesmente integrada na própria explicação do Evangelho, pois é para isso que ela serve. Com vistas à atualidade, se pode sublinhar que Nazaré quer fazer valer prerrogativas que nada tem a ver com o plano de Deus, que é para todos os homens; ironicamente, rejeitando “seu santo de casa”, Nazaré rejeita também o plano de Deus que ele encarna e que é: levar a Boa-Nova aos pobres. Pois tal plano é incompreensível para uma mentalidade auto-suficiente, preocupada com prerrogativas próprias e precedências pessoais. Isso vale muito para hoje!

O profeta é o homem que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo (numa mão a Bíblia, na outra o jornal diário). Vivendo em comunhão com Deus e intuindo o projeto que Ele tem para o mundo, e confrontando esse projeto com a realidade humana, o profeta percebe a distância que vai do sonho de Deus à realidade dos homens. É aí que ele intervém, em nome de Deus, para denunciar, para avisar, para corrigir. O profeta é aquele que, simultaneamente, está em comunhão com Deus e atentas às realidades que desfeiam o nosso mundo. A denúncia profética implica, ordinariamente, a perseguição, o sofrimento, a marginalização e, em tantos casos, a própria morte. 

A vida de Jeremias realizou, integralmente, o projeto de Deus. A propósito e a despropósito, Jeremias denunciou, criticou, demoliu e destruiu, edificou e plantou. Não teve muito êxito: a família, os amigos, o povo de Jerusalém, as autoridades, os sacerdotes, viraram-lhe as costas, marginalizaram-no, perseguiram-no e maltrataram-no. No entanto, Jeremias nunca renunciou: Deus invadiu-lhe de tal forma a vida, e a paixão pela Palavra de Deus “apanhou-o” de tal forma, que o profeta viveu até ao fim, com a máxima intensidade, a sua missão.

Meus irmãos,

A segunda Leitura (cf. 1 Coríntios 12,31-13,13 ou 13,4-13), a minha preferida para o sacramento do Matrimônio, é o hino do amor-caridade de 1 Cor 13. Do amor efetivo e afetivo, pois seria errado entender a caridade num sentido insípido, inumano, como frio cumprimento da personalidade toda, uma certa paixão. Amor é sempre afetuosa doação, perder-se para o bem do outro. Não há amor para a vida normal e uma caridade para fins religiosos. A gente só tem um só coração.

O amor de que São Paulo fala é o amor (em grego, “ágape”) tal como ele é entendido pelos cristãos: não é o amor egoísta, que procura o próprio bem, mas o amor gratuito, desinteressado, sincero, fraterno, que se preocupa com o outro, que sofre pelo outro, que procura o bem do outro sem esperar nada em troca. Desse tipo de relacionamento, nasce a Igreja – a comunidade dos que vivem o “ágape”. Desse amor partilhado nasce a comunidade de irmãos a que chamamos Igreja. O amor que une os vários membros da nossa comunidade cristã é esse amor generoso e desinteressado e não os deploráveis acontecimentos que muitas vezes se sucedem de virar um palco de lutas de interesses, de ciúmes, de rivalidades egoístas.

O amor deve ser a grande meta do profeta. O amor com caridade, com acolhida, o amor com misericórdia, o amor com caridade. O verdadeiro profeta deve contar com a rejeição e a perseguição. O profeta incomoda porque exige mudança de atitude, exige conversão, emenda, conversão. Por isso, normalmente, é perseguido. Jesus mesmo foi expulso e ameaçado de morte. A missão do profeta é passar, é testemunhar, seja qual for o resultado. Sua fortaleza é Deus e é essa a missão de cada batizado que participa desta missa.

O amor cristão – isto é, o amor desinteressado que leva, por pura gratuidade, a procurar o bem do outro – é, de acordo com São Paulo, a essência da experiência cristã. Desse amor partilhado nasce a comunidade de irmãos a que chamamos Igreja.

Cabe a todos estarem atentos à passagem dos profetas, colocarem-se em atitude de pobre e necessitado para perceberem e acolherem a sua mensagem. Que o Senhor nos conceda a graça de profetizar e estar atentos à mensagem dos profetas em nosso caminho, nos abrindo estradas para o horizonte da imortalidade na Trindade Santíssima. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal