Meus prezados Irmãos,

Chegamos na última semana da Quaresma. Caminhamos nestas cinco semanas volvendo nossos olhares e nossos corações para o apelo do Senhor que nos pede a conversão, o jejum e a esmola como aprimoramento de nosso seguimento de Jesus Cristo, o Redentor.

Domingo passado presenciamos a volta do filho pródigo e a sua acolhida pelo Pai Misericordioso. Hoje, por conseguinte, aparece com mais força ainda o quanto Deus está acima do pecado. Eis a base que se chama “conversão”. Mas, quando se fala em conversão, os céticos objetam: “que adianta querer ser melhor do que sou?” E, ainda, os acomodados: “Melhorar a sociedade, para quê?”.

Nas três leituras de hoje, encontramos a libertação perpassando toda a reflexão dominical. “Não mais penseis nas coisas anteriores, não mais olheis o passado. Eis que faço nova todas as coisas; já está brotando. Não o enxergais?” (cf. Is 43, 18). Na visão do profeta acontecem um novo paraíso e um novo êxodo ao mesmo tempo, um caminho no deserto e os animais cantando o louvor de Deus: Israel volta do Exílio (cf. Is 43,19-20). O povo proclama o que Deus fez (cf. Is 43, 20): “Quando o Senhor reconduziu os exilados de Sião, parecia um sonho” (cf. Sl 126).

“Eu esqueço o que fica atrás de mim e me estico para acatar o que tenho diante de mim” (cf. Fl 3,13): reflexão de Paulo, sempre mais próximo da morte – porque ao escrever esta Epístola está no cárcere – e de seu porto desejado. Pois diante dele está Cristo, que o salvou. Atrás dele fica uma vida de fariseu, que ele considera como esterco, porque o afastou da verdadeira justificação em Cristo Jesus. De fato, enquanto era fariseu, Paulo pretendia justificar-se a si mesmo pelas obras da Lei. Só depois que Cristo o “alcançou”, descobriu que a justiça vem de Deus, que, em Cristo, concede sua graça aos que crêem. Para São Paulo conversão é bem outra coisa que voltar a viver decentemente – o bom propósito da Quaresma! É, por conseguinte, deixar Deus estabelecer em sua vida uma nova escala de valores, tendo por centro um crucificado.

Queridos Irmãos,

Neste domingo (cf. Jo 8,1-11) seguimos firmes na nossa reflexão sobre o tema da misericórdia divina. A misericórdia de Deus encontra seu ponto alto logo mais na crucificação e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, no mistério da paixão. Jesus acentua a paternidade divina. Deus nos ama com amor de Pai. E faz dessa revelação do rosto misericordioso do Pai um dos principais temas de sua pregação. Jesus sempre foi misericordioso em suas palavras, em suas atitudes e em sua vida toda. E pediu isso de seus discípulos; que fossem profundamente misericordiosos e complacentes. A misericórdia de Jesus é infinita, ou seja, é igual à misericórdia do Pai que é profunda e absoluta.

Observamos que o Evangelho de hoje fala da mulher adúltera que nos remete a Dn 13: “os anciãos” querem julgar a virtude de uma mulher, enquanto eles mesmos estão cheios de pecado. Porém, a mulher de Dn 13 era justa. A mulher do Evangelho de hoje, João 8, não era uma mulher justa. Deus não só proteger os justos, mas salva também os pecadores, abrindo-lhes o caminho, para que não voltem a pecar. O contraste, nesta cena, é entre a farsa da “justiça” dos anciãos e a misericórdia de Deus que não condenou a adultera, mas pediu que ela seguisse o seu caminho e “não pecasse mais”.

O mandamento maior da salvação é o mandamento do amor. Amar a Deus sob todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Assim a misericórdia nos leva a seguir Jesus de perto e a imitá-lo, porque “Bem-Aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (cf. Mt 5,7).

Jesus ensinava com misericórdia e firmeza. Na última semana antes da Paixão Jesus passou as noites no Monte das Oliveiras e os dias no átrio do templo. Jesus ensinava no átrio do Templo. Era de manhã, a hora em que muitos iam ao templo fazer o que hoje chamaríamos da Oração da Manhã. Pouco adiante, o Evangelista diz que ele ensinava com “autoridade”.

Um dia antes, entretanto, os fariseus haviam mandado os guardas do templo prender Jesus, mas os guardas tiveram medo da reação do povo. Deve ter havido grande discussão entre os escribas e os fariseus. Nicodemos tomou a defesa de Jesus, achando que não se podia prender ninguém sem antes ouvir a sua doutrina e conhecer o que esta pessoa fazia. E no episódio de hoje os fariseus tentaram confundir a Jesus com o episódio da mulher pega em adultério. A lei determinava que a mulher deveria ser morta. Mas, se Jesus consentisse na morte por apedrejamento, teria problemas com os romanos, que haviam proibido aos judeus de aplicar, baseado em leis religiosas, a pena capital de Lv.  20,10. Se Jesus mandasse ficar livre, quebraria, à vista de todos, a Lei de Moisés e isso seria suficiente para montar-lhe um processo.

Mas o Messias, o Salvador, agiu com a unção daqueles que são enviados por Deus: Jesus viera trazer não a condenação, mas a misericórdia; não o perdão jurídico, mas o perdão da consciência; não viera para destruir, mas trazer a vida e a vida plena.  Os fariseus e os escribas assemelham-se hoje ao filho mais velho da parábola do filho pródigo. Jesus assemelha-se ao pai misericordioso, que recebe de volta aquele que estava morto e voltou a viver, está nas trevas e viu a luz. Os legalistas queriam aplicar a lei pela lei. Jesus ao contrário veio dar uma nova teleologia para a lei: que é a misericórdia, que encontra em Deus a acolhida e o perdão.

Antes de castigar ou de oprimir as pessoas temos que ter consciência de que somos pecadores. Temos que ter a atitude misericordiosa do Pai misericordioso, rezando e acolhendo com carinho e humildade.

Jesus acolheu a prostituta. Não aprovou a sua atitude de pecadora pública. Mas a acolheu com misericórdia. Apenas não a condenou, porque sua misericórdia era maior que o pecado dela. Observe-se que, de imediato, Jesus acrescenta: “Eu sou a luz do mundo!”

Caros irmãos,

Jesus é posto face à Lei e, ao mesmo tempo, face a uma mulher. A Lei é clara: esta mulher, apanhada em flagrante delito de adultério, deve ser delapidada. Jesus não rejeita a Lei, pede somente aos escribas e fariseus para a colocar em prática, com a condição de começarem a ter um olhar sobre a própria vida antes de olhar a mulher e de a condenar. Os detractores acabam por se condenar a si mesmos e retiram-se, reconhecendo-se pecadores, a começar pelos mais velhos. Quanto a Jesus, que não tem pecado, podia lançar a pedra. Não o faz. Ele veio para salvar, não para condenar. Pedindo à mulher para não voltar a pecar, dá-lhe nova oportunidade. Para Jesus, ela não é apenas uma mulher adúltera, ela é capaz de outra coisa. Oferecendo-lhe a sua graça, agraciou também os escribas e os fariseus, colocando-os num caminho de conversão, eles que tinham aberto os olhos não somente sobre a mulher, mas sobre si próprios.

A lógica de Deus não é uma lógica de morte, mas uma lógica de vida; a proposta que Deus faz aos homens através de Jesus não passa pela eliminação dos que erram, mas por um convite à vida nova, à conversão, à transformação, à libertação de tudo o que oprime e escraviza; e destruir ou matar em nome de Deus ou em nome de uma qualquer moral é uma ofensa inqualificável a esse Deus da vida e do amor, que apenas quer a realização plena do homem. O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar… os outros. Jesus denuncia, aqui, a lógica daqueles que se sentem perfeitos e autossuficientes, sem reconhecerem que estamos todos a caminho e que, enquanto caminhamos, somos imperfeitos e limitados. É preciso reconhecer, com humildade e simplicidade, que necessitamos todos da ajuda do amor e da misericórdia de Deus para chegar à vida plena do Homem Novo. A única atitude que faz sentido, neste esquema, é assumir para com os nossos irmãos a tolerância e a misericórdia que Deus tem para com todos os homens.

Meus irmãos,

Na primeira Leitura (cf. Is. 43,16-21) nos é apresentado que Deus realizará uma nova salvação. Este oráculo de salvação começa por recordar a “mãe de todas as libertações” (a libertação da escravidão do Egito. A lembrança do passado é válida quando alimenta a esperança e prepara para um futuro novo. Na ação libertadora de Deus em favor do Povo oprimido pelo faraó, o judeu crente descobre um padrão: o Deus que assim agiu é o Deus que não tolera a opressão e que está do lado dos oprimidos; por isso, não deixará de Se manifestar em circunstâncias análogas, operando a salvação do Povo escravizado.
De fato – diz o profeta – o Deus libertador em quem acreditamos e em quem esperamos não demorará a atuar. Aproxima-se o dia de um novo êxodo, de uma nova libertação. No entanto, esse novo êxodo será algo de grandioso, que eclipsará o antigo êxodo: o Povo libertado percorrerá um caminho fácil no regresso à sua Terra e não conhecerá o desespero da sede e da falta de comida porque Jahwéh vai fazer brotar rios na paisagem desolada do deserto. A atuação de Deus manifestará, de forma clara, o amor e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Diante da ação de Deus, o Povo tomará consciência de que é o Povo eleito e dará a resposta adequada: louvará o seu Deus pelos dons recebidos.

Deus não obrou só no passado diz o profeta. Como antigamente ele abriu um caminho para o povo que voltava do Egito, assim também abrirá um caminho para os exilados voltarem da Babilônia. Fará um novo início; esqueçam o passado. Até a natureza se colocará a serviço da nova obra de Deus, e o povo o transmitirá às gerações futuras. O nosso Deus é o Deus libertador, que não Se conforma com qualquer escravidão que roube a vida e a dignidade do homem e que está, permanentemente, a nos pedir que lutemos contra todas as formas de sujeição. A vida cristã é uma caminhada permanente, rumo à Páscoa, rumo à ressurreição. Neste tempo de Quaresma, somos convidados a deixar definitivamente para trás o passado e a aderir à vida nova que Deus nos propõe. Cada Quaresma é um abalo que nos desinstala, que põe em causa o nosso comodismo, que nos convida a olhar para o futuro e a ir além de nós mesmos, na busca do Homem Novo.

Meus caros irmãos,

Na segunda Leitura (cf. Fl 3,8-14) somos convidados a nos convertermos e deixarmos levar pela força de Cristo. Na sua conversão, São Paulo abandonou muita coisa, sobretudo a pretensão de se justificar a si mesmo (pelas obras da Lei) E que recebeu São Paulo em troca? O conhecimento, a experiência do Cristo crucificado e ressuscitado. Mesmo assim, sabe que ainda não alcançou a meta. Importa ser constantemente arrebatado pela força de Cristo.

Os Filipenses – e, claro, os batizados de todas as épocas – farão bem em imitar Paulo e esquecer tudo o resto (a circuncisão, os ritos da Lei, os títulos de glória são apenas “prejuízo” ou “lixo” – vers. 8). Só a identificação com Cristo, a comunhão de vida e de destino com Cristo é importante; só uma vida vivida na entrega, no dom, no amor que se faz serviço aos outros, ao jeito de Cristo, conduz à ressurreição, à vida nova. São Paulo está consciente que partilhar a vida e o destino de Cristo implica um esforço diário, nunca terminado; é, até possível o fracasso, pois o nosso orgulho e egoísmo estão sempre à espreita e o caminho da entrega e do dom da vida é exigente. Mas é o único caminho possível, o único que faz sentido, para quem descobre a novidade de Cristo se apaixona por ela. Quem quer chegar à vida nova, à ressurreição, tem de seguir esse caminho. Neste tempo favorável à conversão, é importante revermos aquilo que dá sentido à nossa vida. É possível que detectemos no centro dos nossos interesses algum desse “lixo” de que Paulo fala (interesses materiais e egoístas, preocupações com honras ou com títulos humanos, apostas incondicionais em pessoas ou ideologias); mas Paulo convida a dar prioridade ao que é importante – a uma vida de comunhão com Cristo, que nos leve a uma identificação com o seu amor, o seu serviço, a sua entrega.

 Meus irmãos,

Deus não é limitado que fique imobilizado por nosso pecado. Ele passa por cima, escreve-o na areia, como Jesus, no episódio da mulher adultera. A magnanimidade de Deus, que se manifesta em Jesus, está em forte contraste com a mesquinhez dos justiceiros que queriam apedrejar a mulher. Estes, sim, estavam presos no seu pecado: por isso, nenhum deles ousou jogar a primeira pedra. Decerto, importa combater o pecado; mas é preciso estar com Deus para salvar o pecador.

A justiça considera uma pessoa pelo seu passado, ao passo que o amor a considera pelo seu futuro. E manifestava sua admiração por esta atitude entre os cristãos.

A mera justiça fecha as possibilidades da pessoa, ao passo que o amor, a misericórdia, lhe abrem novos horizontes, a fazer reviver. É isso que Deus faz com toda a humanidade. Não quero a morte do pecador mais sim que ele se converta e viva. O gesto de Jesus passar por cima do pecado da adúltera aconteceu com todos os cristãos pelo batismo e se renova tantas vezes, quando dele obtemos o perdão dos pecados.

Aceite, meu caro irmão, um convite que façamos na semana derradeira bastante jejum, penitência e esmola para entrarmos radiosos na semana da Paixão, morte e ressurreição. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal.