Meus queridos Irmãos,

Vamos caminhando adentro do tempo chamado comum ou cotidiano: Deus se realiza na história e nos convida a avançar para as águas mais profundas. Neste quinto domingo do Tempo Comum nós somos convidados a refletir sobre a nossa vocação cristã, a vocação que Jesus nos convida a sermos pescadores de homens. Isso sim, mesmo sendo tempo de Carnaval, não podemos deixar de participar da missa de preceito no domingo. Isso alimenta a nossa pertença cristã.

Caros irmãos,

A Primeira Leitura (cf. Is. 6,1-2a.3-8) nos apresenta a vocação de Isaías, resumida em uma palavra – PRONTIDÃO. Ao adorar no Templo, Isaías experimenta a presença do Deus inacessível (6,1-4) e toma consciência de sua impureza diante do Sagrado (6,5). Mas Deus o purifica (6,6-7), para lhe conferir sua missão, que Isaías prontamente aceita (6,8). Por amor de Deus, terá que dirigir palavras duras ao povo do meio do qual ele é chamado.

A “purificação” sugere que a indignidade e a limitação não são impeditivas para a missão: a eleição divina dá ao profeta autoridade, apesar dos seus limites bem humanos. Temos a aceitação da missão pelo profeta. Convém, a propósito, notar o seguinte: Isaías oferece-se sem saber ainda qual a missão que lhe vai ser confiada; manifesta, dessa forma, a sua disponibilidade absoluta para o serviço de Deus.

Da primeira leitura nós podemos concluir que cada um de nós, como batizados, temos um itinerário de vocação: de muitas formas Deus entra na nossa vida, nos desafia para a missão, pede uma resposta positiva à sua proposta. A missão que Deus propõe está, frequentemente, associada a dificuldades, a sofrimentos, a conflitos, a confrontos… Por isso, é um caminho de cruz que, às vezes, procuramos evitar. Nesse sentido é preciso ter consciência, também, que as minhas limitações e indignidades muito humanas não podem servir de desculpa para realizar a missão que Deus quer me confiar: se Ele me pede um serviço, dar-me-á a força para superar os meus limites e para cumprir o que Ele me pede. O Profeta Isaías aceita o envio, ainda antes de saber, em concreto, qual é a missão. É o exemplo de quem arrisca tudo e se dispõe, de forma absoluta, para o serviço de Deus.

Irmãos e Irmãs,

Jesus hoje não está na sinagoga. Seu afastamento da sinagoga não significa rompimento, mas alargamento. A sinagoga era sectária, isto é, reservada aos observantes da lei de Moisés. Para o Evangelista São Lucas, Jesus viera trazer uma mentalidade e uma espiritualidade universalista. Assim Lucas coloca Jesus fora da sinagoga pregando em praças, em estradas, nas praias, etc.

Todos os elementos estão presentes no Evangelho de hoje(cf. Lc. 5,1-11): a terra, o mar, o céu aberto, a multidão, os indivíduos com seus nomes, a pregação, o trabalho, o fracasso, a confiança, a abundância, a presença do Senhor, a presença de um homem pecador, o medo, a admiração, o tempo presente, o tempo futuro, a partilha do trabalho apostólico e a derrota de Satanás. Jesus não só prega sobre as ondas, isto é, sentado com poder sobre os demônios, mas faz a pesca milagrosa, mostrando poder também nas profundezas, aonde apenas chegava a fantasia popular.

Irmãos e Irmãs,

Lucas coloca Jesus escolhendo Pedro para a pregação. Neste episódio Lucas relembra o doce convite de Jesus: “Vamos lançar as redes para as águas mais profundas”(cf. Lc.5,5).  O que significa isso, lançar as redes para as águas mais profundas? Significa que todos nós somos convidados a evangelizar, a evangelizar com renovado ardor missionário em que todos os homens e mulheres devem deixar o seu comodismo e dar testemunho do Senhor Ressuscitado.

Jesus pregou a multidão a PALAVRA DE DEUS. A Palavra é o próprio Jesus. Jesus, por iniciativa própria, escolhe alguns para participarem de sua missão. Ninguém é presbítero por vontade própria, mas por chamado e mandato de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim acontece com os religiosos, com as religiosas, com os consagrados e com todos aqueles que se dedicam ao seguimento de Jesus. Jesus escolhe seus discípulos e os envia para “pescadores de homens”. Os escolhidos para a missão eram pescadores. Porão sua experiência humana a serviço de uma missão divina, como Jesus pusera sua divindade a serviço de uma missão humana, na peregrinação neste vale de lágrimas.

O que é ser pescadores de homens? Precisa de santidade? Precisa de ciência? Isso, evidentemente, ajuda e vem com o tempo. Mas as condições para ser pescadores de homens são duas: 1. Uma confiança inabalável em Jesus. Uma confiança como aquela de Pedro, que exausto da pesca, da falta de peixe, confiou em Jesus e a barca transbordou de pesca depois da confiança no Redentor. Confiança que todos nós devemos ter sempre e em todas as circunstâncias, é uma qualidade do apóstolo do Senhor. 2. A segunda condição vem do reconhecimento da divindade de Cristo. Quando Pedro se ajoelha e reconhece a sua pequenez, a sua nulidade, o seu estado de pecador você adere e se abre para a graça santificante de Deus. O discípulo de Jesus não pode ser orgulhoso, ao contrário, deve ser humilde, generoso e amigo. Irmão no meio dos irmãos a serviço da comunidade de fiéis. O apóstolo tem que ter consciência de que a seara não lhe pertence, mas que nela é um trabalhador vocacionado, um servidor. Essa humildade de reconhecer-se, apesar da inteligência, do jeito e da experiência, mero cooperador de Deus, é também condição fundamental para o verdadeiro apostolado. O apóstolo é um prolongamento de Jesus. A palavra pertence a Jesus, mesmo quando pronunciada pelo apóstolo. As mãos eram de Pedro, as redes eram de Pedro, a barca era de Pedro, o trabalho foi de Pedro, mas o milagre foi e é de Jesus. Junto a isso temos que ter na vida de comunidade e de trabalho apostólico a edificação da comunidade, do trabalho coletivo, do trabalho em benefício da comunidade.

Devemos tomar consciência de que nosso caminho é feito no barco de Jesus, ou, às vezes, embarcamos em outros projetos onde Jesus não está e fazemos deles o objetivo da nossa vida.

Por isso somos instados a deixar que Jesus viaje conosco. Por isso ao longo da viagem, devemos ser sensíveis às palavras e propostas de Jesus. Com segurança da fé as suas indicações são para nós sinais obrigatórios a seguir, quando reconhecemos que Jesus é “o Senhor” que preside à nossa história e a nossa vida, em que o centro do qual constituímos nossa existência está no Senhor. Chamados a ser “pescadores de homens”, temos por missão combater o mal, a injustiça, o egoísmo, a miséria, tudo o que impede os homens nossos irmãos de viver com dignidade e de ser felizes.

O Evangelho põe em paralelo o “caminho cristão”, tal como Lucas o descreve no Evangelho de hoje, com esse caminho – às vezes não tão cristão como isso – que vamos percorrendo todos os dias. Considerar as seguintes questões: O nosso caminho é feito no barco de Jesus, ou, às vezes, embarcamos noutros projectos onde Jesus não está e fazemos deles o objectivo da nossa vida? Por outro lado, deixamos que Jesus viaje connosco ou, às vezes, obrigamo-l’O a desembarcar e continuamos viagem sem Ele? Ao longo da viagem, somos sensíveis às palavras e propostas de Jesus? As suas indicações são para nós sinais obrigatórios a seguir, ou fazem mais sentido para nós os valores e a lógica do mundo? Reconhecemos, de fato, que Jesus é o “Senhor” que preside à nossa história e à nossa vida? Ele é o centro à volta do qual constituímos a nossa existência, ou deixamos que outros “senhores” nos manipulem e dominem? Chamados a ser “pescadores de homens”, temos por missão combater o mal, a injustiça, o egoísmo, a miséria, tudo o que impede os homens nossos irmãos de viver com dignidade e de ser felizes. É essa a nossa luta? Sentimos que continuamos, dessa forma, o projeto libertador de Jesus?

Meus irmãos,

A Segunda Leitura(cf. 1Cor 15,1-11 ou 15,3-8.11) apresenta o Evangelho de Paulo: a Ressurreição de Cristo. Este trecho paulino é a fórmula mais antiga do querigma cristão, o anúncio de Cristo morto e ressuscitado. Paulo inclui-se na lista das testemunhas, pois ele também viu o Senhor glorioso, no caminho de Damasco. Na fé da ressurreição baseia-se toda a esperança da vida cristã. A Segunda Leitura é ligada ao Evangelho na transformação da vocação, ou melhor, o encontro com Cristo opera nas pessoas. Pode-se propor esta idéia para a aplicação pessoal na vida de cada um. Pois não é preciso fazer parte da hierarquia para receber tal vocação transformadora. Transformadora, não só da gente, mas também do mundo em que a gente vive. A ressurreição de Cristo garante-nos que não há morte para quem aceita fazer da sua vida uma luta pela justiça, pela verdade, pelo projeto de Deus.

A ressurreição de Cristo é um fato real, mas ao mesmo tempo sobrenatural e meta-histórico, algo que ultrapassa completamente as categorias humanas de espaço e de tempo, a fim de entrar na órbita da fé. É algo que a ciência histórica não pode demonstrar, porque corresponde a uma experiência de fé. O que, historicamente, podemos comprovar, é a incrível transformação dos discípulos que, de homens cheios de medo, de frustração e de covardia, se converteram em arautos destemidos de Jesus, vivo e ressuscitado.

Além do mais, a ressurreição é um fato que ocorreu, mas que continua a ocorrer; continua a ter a eficácia primitiva, continua a ser capaz de converter em homens novos, a quantos aceitam Jesus pela fé. A comunidade cristã é convidada a fazer esta descoberta, a partir das Escrituras, do Espírito e da própria vida nova que continuamente vai nascendo nos cristãos.

Será um dado adquirido, para qualquer cristão, a ressurreição de Jesus. No entanto, essa ressurreição é, para nós, uma verdade abstrata que afirmamos no credo, ou algo vivo e dinâmico, que todos os dias continua a acontecer na nossa vida e na nossa história, gerando vida nova, libertação, amor, numa contínua manifestação de Primavera para nós e para o mundo?

A ressurreição de Cristo garante-nos que não há morte para quem aceita fazer da sua vida uma luta pela justiça, pela verdade, pelo projecto de Deus. Será que temos consciência disso? A certeza da ressurreição encoraja-nos a lutar, sem a paralisia que vem do medo, por um mundo mais justo, mais fraterno, mais humano?

Devemos ter a consciência de que a ressurreição de Cristo, fulcro de nossa fé, é totalmente contrária a teoria mundana da reencarnação. São antagônicas. Não é possível ser cristão e professar ao espiritismo ao mesmo tempo, porque são antagônicos. Os padres devem ter coragem de ensinar o povo, falar a verdade e educar os cristãos nos valores do Evangelho.

Caros irmãos,

Qual é o conteúdo da missão dos apóstolos? A segunda leitura explicita a nossa indagação: o anúncio de Cristo morto e ressuscitado. Olhem só como Paulo, o apostolo dos gentios, assume essa missão com toda a força. Para pescar na empresa de Jesus precisamos de transmitir o que recebemos a seu respeito, a mensagem de sua vida, morte e ressurreição. Esta é o núcleo central do apóstolo, da missão, da pastoral. Mas, para sermos escutados, talvez devamos abordar o assunto por um outro lado, mais próprio da situação das pessoas. De todas as maneiras devemos chegar a comunicar que Jesus por sua vida e morte nos mostrou quem é Deus e qual é o sentido de nossa vida e da nossa história: amou até o fim, dom de vida. Transmitir isso é o que se chama “tradição” cristã, a memória de Cristo que devemos manter viva na história e na comunidade.

Rezemos, pois, para que em cada missa a comunidade crista se sinta convidada a realizar uma intensa experiência de Deus para que, em seguida, participe da missão libertadora de Cristo, Jesus. Daí os momentos de profunda adoração em forma de doxologia, como os pórticos de entrada nas diversas partes da Missa. Assim Jesus nos dirá; “Não tenhais medo. Ide também vós e preparai os corações das pessoas para a minha chegada. Amém!”.

Padre Wagner Augusto Portugal