Homilia sal da terra e a luz do mundo

Meus queridos Irmãos,

O Evangelho deste domingo (Mt 5,13-16) é uma continuação do Sermão da Montanha, conforme Mateus, declarando que os que escutam e aceitam a Palavra de Jesus Cristo são sal da terra e a luz do mundo. Os autênticos e verdadeiros discípulos dão cor e sabor a este mundo. Mas quando perdem estas qualidades, também não prestam para mais nada.

A Primeira Leitura (Is 58,7-10) oferece um exemplo daquilo que os ouvintes de Jesus, acostumados aos textos do Antigo Testamento, ouviam ressoar nos seus ouvidos ao escutarem tais explicações: “Quando repartes teu pão com o faminto e concedes hospedagem ao pobre, então, tua luz surge como a aurora, tua justiça caminha diante de ti… Se expulsas de tua casa a opressão e sacias o oprimido, então surge tua luz nas trevas e tua escuridão resplandece como o pleno dia”(Cf. Is 58, 6a.7-10).

Assim poderíamos perguntar o que dá sabor e cor à vida? Não é, de maneira alguma, como muitos pensam, o prazer, a ostentação, o luxo; nem mesmo o progresso ou a erudição intelectual; nem mesmo a arte, a música e, muito menos a filosofia. O que oferece cor à vida é ocupar-se dos pobres, dos pequenos, dos lascados, daqueles que “vivem nas periferias existenciais”, como nos dá testemunho o Bispo de Roma, o Santo Padre Francisco. Para os sábios deste mundo, Jesus tem um grande mau gosto! Para Jesus, dar cor e sabor a vida é ocupar-se com o fraco, o impotente, que aos olhos de Deus vale tanto e mais do que o forte. O pequeno, que merece atenção maior, porque não sabe se defender. Uma boa mãe não dedica atenção especial aos filhos mais fracos e desvalidos? Dar cor e sabor a vida não é eliminar o que é fraco, mas abrir espaço para todos os seres queridos por Deus.

O tema do “jejum” é um tema fundamental para a vivência judaica da fé e da relação com Deus (cf. Ex 34,28; Lv 16,29.31; Jz 20,26; 2 Sm 12,16-17; 1 Re 21,27; Jon 3,7; Dn 9,3; Esd 8,21; Est 4,16). No Antigo Testamento, é um gesto religioso utilizado muito frequentemente para traduzir a humildade diante de Deus, a dependência, o abandono, o amor. Implica a renúncia a si próprio, ao próprio egoísmo e auto-suficiência, para se voltar para o Senhor, para manifestar a entrega confiada nas mãos de Deus, para mostrar que se está disposto a acolher a ação e o dom de Jahwéh.

A primeira leitura deste domingo sugere que o Povo pratica certas formas de piedade sem ter em conta as suas exigências profundas. No que diz respeito ao jejum, o fato é que o Povo pratica esta forma de piedade de forma interesseira: para pôr Deus do seu lado, para Lhe agradar, para provocar em Deus uma resposta à medida dos desejos do homem. O jejum, visto dessa forma, não é um traduzir num gesto a humildade, a dependência, a entrega do homem face a Deus; mas é uma tentativa de pôr Deus do seu lado, de captar a sua benevolência, a fim de que Ele realize os interesses e os desejos egoístas do homem.

Deus desmascara a falsidade das atitudes do homem, que manifesta em gestos (jejum) a sua humildade, dependência e entrega mas depois não confirma (com a vida) essa atitude (provocam “rixas e contendas, dando murros sem piedade” – Is 58,4).
Para Deus, a atitude de dependência, de humildade, de entrega, tem de se traduzir numa vida consentânea com as propostas de Deus. O culto tem de ter tradução em atitudes concretas. Assim, o “jejum” autêntico (que manifesta a entrega do homem a Deus e a sua vontade de viver em relação com Ele, a sua aceitação e acolhimento de Deus) é aquele que se traduz em partilha com os pobres (vers. 7.10), na eliminação da opressão, da injustiça, da violência, dos gestos de ameaça (vers. 9). Para Deus, não é um culto formalista, rico de gestos estrondosos e de ritos solenes mas estéril e vazio quanto aos sentimentos, que faz do Povo de Deus a “luz” do mundo; o Povo de Judá será uma luz que anuncia Deus no mundo, se testemunhar o amor e a misericórdia em gestos concretos de libertação, de partilha, de amor e de paz. A relação com Deus (expressa nos gestos cultuais) só é verdadeira se se traduz em gestos que anunciem e testemunhem a misericórdia e o amor de Deus no meio dos outros homens.

A questão essencial é esta: como é que podemos ser uma luz que acende a esperança no mundo e aponta no sentido de uma nova terra, mais cheia de paz, de esperança, de felicidade? Esta leitura responde: não é com liturgias solenes ou com ritos litúrgicos espampanantes, muitas vezes estéreis e vazios; mas é com uma vida onde o amor a Deus se traduz no amor ao irmão e se manifesta em gestos de partilha, de fraternidade, de libertação. A primeira leitura diz é que os ritos em si nada significam, se não correspondem a uma vivência interior que se traduz em gestos concretos de compromisso com Deus e com os seus valores. A multiplicidade de ritos, de orações solenes, de celebrações, por si só nada vale, se não tem a devida correspondência na vida de relação com os irmãos.

Amados Irmãos,

As bem-aventuranças são a estrada a caminhar, ou o campo a cultivar. O ser sal, luz, sinal – as três imagens do Evangelho de hoje – são as conseqüências quase diria, são a colheita de quem plantou no campo das bem-aventuranças. Para ser sal ou um sinal é preciso antes termos assimilado, encarnado as bem-aventuranças.

Três imagens permeam a liturgia de hoje: O SER SAL, LUZ E SINAL. Não são símbolos novos para a vida do judeu. O sal era usado no culto(Cf. Lv 2,13). A Luz perpassa a Sagrada Escritura como “vestimenta de Deus” e era o símbolo da presença do Senhor. Com os três sinais, Deus mostra uma bela pintura em que esta colocada o retrato da pessoa perfeita como o Pai do Céu.

O sal nos recorda três qualidades essenciais para a vida do cristão: A primeira qualidade é a pureza. O sal como que nasce do mar e do sol, dois elementos puros, que se impõem por si mesmos. O tema da pureza esta em toda a Sagrada Escritura: pureza de intenções, pureza de ações, pureza de culto. A criatura perfeita tem uma palavra só: a sinceridade amanhece e anoitece no seu pensamento; a lealdade se espelha em todas as decisões; a honestidade lhe esta tão pegada como a carne aos ossos. A segunda qualidade do sal é o preservar. Preserva tudo quanto envolve. A criatura bem-aventurada devera ser como o sal: dentro da sociedade será quem conservará sempre intactas as qualidades próprias do cidadão do Reino, entre as quais a piedade genuína, a bondade de coração, a compreensão para com todos, o perdão sem condições, o amor fraterno e o espírito da paz. A terceira qualidade do sal é o dar gosto. Como o sal tempera as coisas, a criatura bem-aventurada dará a sociedade o gosto pelas coisas de Deus, que a Sagrada Escritura chama de “SABEDORIA”. O gosto pela presença de Deus implica necessariamente o gosto pela vida, pela verdadeira vida, que é sempre divina na origem, humana no tempo presente, e divino-humana em seu destino.

Estimados Irmãos,

A segunda imagem da liturgia de hoje é a LUZ DO MUNDO. Repete o sinal do sal e engrandece o mesmo sinal sobremaneira. A luz que clareia. A luz que ilumina. A luz que é necessária para a nossa sobrevivência. Nada vive ou cresce no escuro. E Cristo sabe disso porque Ele disse: “Eu sou a luz do mundo” (Cf. Jo 8,12).

A luz que iluminou os hebreus no exílio e na volta para a terra prometida, demonstra a presença de Deus na humanidade, o Deus vivo, dador da vida, que indica o caminho correto a trilhar. A pessoa bem-aventurada é luz para a humanidade. Mostrar a beleza das criaturas, fecunda e vivifica tudo, e é salvação para a humanidade. O bem aventurado é chamado de “filho da luz” por São Paulo(Cf. 1 Ts 5,5). Jesus é a luz do mundo. Mas pede a cada um de nós que sejamos na nossa casa, no trabalho, na sociedade e na Igreja o sinal desta luz admirável e santificadora.

Meus caros irmãos,

A terceira imagem é a da cidade sobre o monte. Garantia de segurança sempre foi o motivo de se construir sobre o monte. O Bem-Aventurado está protegido como uma cidade sobre o monte. Podem vir às tribulações, tempestades, atentados, sofrimentos, e até a morte e morte de Cruz num calvário. Nada o perturba. Ninguém o aprisiona. Goza da verdadeira liberdade. Ele esta em Deus, a segurança absoluta e o santo refugio. E estando em Deus e com Deus, o homem bem-aventurado se torna segurança para os seus, para os que convivem com ele.

Caros irmãos,

A questão essencial que este trecho do Evangelho nos apresenta é esta: Deus propôs-nos um projeto de libertação e de salvação que conduzirá à inauguração de um mundo novo, de felicidade e de paz sem fim; e aqueles que aderiram a essa proposta têm de testemunhá-la diante do mundo e dos homens com palavras e com gestos concretos, a fim de que o “Reino” se torne uma realidade. Eu sou, dia a dia, o sal que dá o sabor, que traz uma mais valia de amor e de esperança à vida daqueles que caminham ao meu lado? Ser cristão é também ser uma luz acesa na noite do mundo, apontando os caminhos da vida, da liberdade, do amor, da fraternidade.

Queridos irmãos,

São Paulo é apresentado, pela segunda leitura de hoje(cf. 1Cor 2,1-5) como modelo perfeito de discípulo, que vivendo o Evangelho, se torna “sal e luz” no mundo.

O povo de Corinto brilhava pela sua sabedoria e eloquência. Mais era um projeto meramente humano, tendo em vista que a sabedoria divina se revela nos que se deixam conduzir por ele, como é o caso do Apóstolo das gentes.

Paulo, prega pela força santificante do Divino Espírito Santo, que o introduz no mistério, no divino, no itinerário de Deus.

O caminho que Paulo prega para se chegar a Jesus não é o caminho do poder, nem do prestígio e nem muito menos da sabedoria humana. O caminho de Paulo é o do abandonar-se, profundamente, em Deus.

Um dos grandes problemas que a comunidade cristã de Corinto enfrentava tinha a ver com a propensão dos coríntios para a busca de uma sabedoria puramente humana, que os levava a apostar em pessoas (Pedro, Paulo, Cefas), em mestres humanos capazes de transportar os discípulos ao encontro da sua realização; mas, dessa forma, acabavam por esquecer Jesus Cristo e por passar ao lado da “sabedoria da cruz”. São Paulo, neste contexto, recorda aos coríntios que a “sabedoria humana” não salva nem realiza plenamente o homem. A realização plena do homem está em Jesus Cristo e na “loucura da cruz”. Como é que a salvação e a realização plena do homem podem, no entanto, manifestar-se nesse facto paradoxal de um Deus condenado à fragilidade, que morre na cruz como um bandido? Para que as coisas se tornem perfeitamente claras, São Paulo apresenta dois exemplos. No primeiro (a segunda leitura do passado domingo), Paulo refere o caso da própria comunidade de Corinto: apesar da pobreza, debilidade e fragilidade dos membros da comunidade, Deus chamou-os a serem testemunhas da sua salvação no mundo. No segundo (e que é a leitura que nos é aqui proposta), Paulo apresenta com humildade o seu próprio caso.

São Paulo apresenta-se na dupla condição de evangelizador e de homem.
Como evangelizador (vers. 1-2), Paulo não se apresentou com palavras grandiosas, com discursos sublimes, com filosofias elaboradas e coerentes; mas apresentou-se com toda a simplicidade para anunciar esse paradoxo de um Deus fraco, que morreu numa cruz rejeitado por todos. Apesar de tudo, em Corinto nasceu uma comunidade cristã cheia de força e de fé. Como homem (vers. 3-5), Paulo apresentou-se em Corinto consciente da sua fraqueza, assustado e cheio de temor. Não foi, portanto, pela sedução da sua personalidade arrebatadora, pelas suas “brilhantes” qualidade do pregador, nem pelo brilho e coerência da sua exposição que os coríntios se sentiram atraídos por Jesus e pelo Evangelho. Qual foi, então, a razão pela qual os coríntios aderiram à proposta de Jesus, apresentada humildemente por Paulo? Porque a força de Deus se impõe, muito para além dos limites do homem que apresenta a proposta ou do ouvinte que a escuta. O Espírito de Deus está sempre presente e age no coração dos crentes, de forma a que eles não se fiquem pelos esquemas da sabedoria humana, mas se deixem tocar pela sabedoria de Deus.

Após dois mil anos de Evangelho, a nossa civilização “cristã” ainda age como se a salvação do mundo e dos homens estivesse no poder das armas, na estabilidade da economia, no desenvolvimento sustentado, no controle do buraco do ozono, no pleno emprego, na paz social, na eliminação do terrorismo, na defesa da floresta amazônica, nas declarações de boas intenções feitas pelos senhores do mundo nos grandes areópagos internacionais, como a ONU, a OTAM, etc. Mas São Paulo diz, muito simplesmente, que a salvação está na “loucura da cruz” e que a vida em plenitude está no amor que se dá completamente.  A força e a “sabedoria de Deus” manifestam-se, tantas vezes, na fragilidade, na pequenez, na obscuridade, na pobreza (como o exemplo de Paulo o comprova). Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem recordar sempre que a eficácia da Palavra que anunciam não depende deles e que o êxito da missão não resulta das suas qualidades pessoais ou das técnicas sofisticadas postas ao serviço da evangelização: somos todos instrumentos humildes, através dos quais Deus concretiza o seu projeto de salvação para o mundo. Para além do nosso esforço, da nossa entrega, da nossa doação, das nossas técnicas, está o Espírito de Deus que potencia e torna eficaz a Palavra que anunciamos.

Amados Irmãos,

Procuremos viver as bem-aventuranças com autenticidade porque se abrem, assim os portais da terra e do universo, alargando os horizontes do céu. A criatura humana que, no máximo, podia-se imaginar uma candeia, toma as dimensões de sol, que nasce por sobre a montanha e ilumina encostas e planícies: a luz do mundo. Desejemos, pois, a cidade sobre o monte, a Jerusalém Celeste, extasiante, santa e inesquecível. Assim todos desejarão conhecê-la, amá-la e vivê-la plenamente.

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal