cego guiar outro cego

Neste 8º Domingo do Tempo Comum, em que nós faremos uma pausa no Tempo Comum, com o início da Quaresma na próxima Quarta-Feira de Cinzas, nós iremos encerrar, a Mãe Igreja convida a Comunidade Eucarística a uma atitude de sinceridade em todo o seu modo de ser e de agir. A sinceridade consiste na transparência daquilo que é verdadeiro. E para o testemunho do cristão seja verdadeiro deve começar pela conversão pessoal. Nada mais oportuno do que falar de conversão pessoal nos dias em que se comemora, civilmente, as festas de Carnaval.

Neste domingo litúrgico chamado de oitavo domingo do Tempo Comum nós vivenciamos, na esfera civil, o domingo de Carnaval. Isso para dizer que daqui a três dias daremos início a um grande período de mudança de vida, de conversão e de seguimento mais íntimo de Jesus com a vivência da Quaresma.

Assim neste tempo em que os homens e as mulheres estão voltados para os chamados prazeres do mundo, se afastando paulatinamente de Deus, de sua Palavra, de seu Banquete Eucarístico, de seu Seguimento, de sua Missão, todos nós somos convidados a fazer uma pré-quaresma, nos colocando como imitadores da misericórdia de Deus.

A liturgia da Santa Igreja nos mostra que Jesus propôs a salvação aos pobres, como destinatários especiais, ou melhor, preferenciais. A graça e a gratuidade de Deus se manifesta aos pobres, aos pequenos, aos excluídos, aqueles que estão à margem da sociedade.

Caros irmãos,

A primeira leitura nos ensina que(cf. Eclo 27,5-8) que não devemos elogiar a ninguém, antes de ouvi-lo falar. Para se chegar a uma atitude de transparência, de simplicidade e de verdade, importa partir do conhecimento de si mesmo, conforme nos ensina o Livro do Eclesiástico. É preciso provar-se a si mesmo como o faz a peneira, separando as impurezas das sementes ou como o vaso de argila provado pelo fogo.

Recorrendo a três imagens (a do crivo que, quando agitado, coloca à vista as impurezas do trigo; a do forno, que obriga o vaso do oleiro a demonstrar a sua excelência; a do fruto, que revela a qualidade do campo), o Livro do Eclesiástico ensina que a palavra revela claramente o íntimo do coração do homem. É possível ao homem fingir, enganar, disfarçar, ser ator e encenar determinados tipos de comportamento. Mas a palavra revela-o e põe a nu os seus sentimentos mais profundos. A conclusão é, pois, cristalina: não devemos deixar-nos condicionar pela primeira impressão ou por gestos mais ou menos teatrais que nada significam: só a palavra expressa a abundância do coração.

Hoje as pessoas falam de tudo, opinam sobre tudo e falam de todos. Parece que pelas mídias sociais as pessoas dão opinião de coisas que jamais viram ou ouviram. Antes de falar, é preciso escutar, para conhecer-se a verdade. Antes de pregar aos outros, importa aplicar a mensagem do Santo Evangelho a si mesmo. Antes de querer ensinar os outros, importa viver a sabedoria. Antes de participar da obra evangelizadora de Cristo, será necessário converter-se pessoalmente, deixar-se evangelizar.

Quantas vezes temos de reformular as nossas impressões acerca de uma pessoa depois de a conhecermos bem. Não podemos, pois, deixar-nos condicionar pela primeira impressão. Um juízo apressado pode levar-nos a ser tremendamente injustos e a marginalizar pessoas muito válidas e com um grande potencial; também pode, ao contrário, levar-nos a confiar totalmente em pessoas que, investidas de cargos de responsabilidade, acabam por destruir coisas que levaram muito tempo a ser edificadas.

Prezados irmãos,

O Santo Evangelho(cf. Lc 6,39-45) mostra a fala de Jesus, que um cego não pode guiar outro cego. Não existe discípulo superior ao mestre. Para se poder dar é preciso ter. A árvore boa se conhece por seus frutos.

A grande tentação para os homens de hoje, das mídias sociais sobretudo, é a de parecer e de aparecer. Mas o que importa para o cristão é o ser. Andamos nos maquiando, gostamos de usar máscaras para parecer o que não somos. Gostamos de manifestar, infelizmente, uma falsa e superficial felicidade nas mídias, que não correspondem à realidade.

São Lucas ensina que Jesus exige a transparência, a sinceridade. Sinceridade vem da expressão latina “sine cera”, sem cera, isto é, sem maquiagem, sem máscara. Isso exige que reconheçamos a verdade, aquilo que somos de fato. É a humildade, a simplicidade. Humildade vem da palavra “húmus”, chão, barro, limo. É a nossa condição. Simplicidade vem do latim, também, significa sem dobra. O contrário de duplicidade, ou seja, com duas partes, com uma dobra, ou complicado, isto é, com dobras. As dobras escondem as coisas, impedem a transparência.

São Lucas ensina que o verdadeiro mestre será sempre um discípulo de Jesus, o mestre por excelência; e a doutrina apresentada não poderá afastar-se daquilo que Jesus disse e ensinou (cf. Lc 6, 39-40). Quando alguém apresenta a própria doutrina e não as propostas de Jesus está, muito provavelmente, a desorientar os irmãos. A comunidade deve ter isto presente, a fim de não se deixar conduzir por caminhos que a afastem do verdadeiro caminho que é Jesus.

Um segundo desenvolvimento, diz respeito ao julgamento dos irmãos (cf. Lc 6, 41-42). Há na comunidade cristã pessoas que se consideram iluminadas, que “nunca se enganam e raramente têm dúvidas”, muito exigentes para com os outros, que não reparam nos seus telhados de vidro quando criticam os irmãos.  Apresentam-se muito seguros de si, às vezes com atitudes de autoridade, de orgulho e de prepotência e são incapazes de aplicar a si próprios os mesmos critérios de exigência que aplicam aos outros. Esses são (a palavra é dura, mas não a podemos “ficar calados porque estas pessoas são”) “hipócritas”: o termo não designa só o homem dissimulado, falso, cujos atos não correspondem ao seu pensamento e às suas palavras, mas equivale ao termo aramaico “hanefa” que, no Antigo Testamento, significa, ordinariamente, “perverso”, “ímpio”.

Pode o verdadeiro discípulo de Jesus ser “perverso” e “ímpio”? Na comunidade de Jesus não há lugar para esses “juízes”, intolerantes e intransigentes, que estão sempre à procura da mais pequena falha dos outros para condenar, mas que não estão preocupados com os erros e as falhas – às vezes bem mais graves – que eles próprios cometem. Quem não está numa permanente atitude de conversão e de transformação de si próprio não tem qualquer autoridade para criticar os irmãos.

Finalmente, o Evangelista Lucas apresenta o critério para discernir quem é o verdadeiro discípulo de Jesus: é aquele que dá bons frutos (cf. Lc 6, 43-45). Neste contexto, parece dever ligar-se os “bons frutos” com a verdadeira proposta de Jesus: dá bons frutos quem tem o coração cheio da mensagem de Jesus e a anuncia fielmente; e essa mensagem não pode gerar senão união, fraternidade, partilha, amor, reconciliação. Quando as palavras de um “mestre” geram divisão, tensão, desorientação, confrontação na comunidade, elas revelam um coração cheio de egoísmo, de orgulho, de amor próprio, de autossuficiência: cuidado com esses “mestres”, pois eles não são verdadeiros.

Devemos anunciar o Evangelho de Jesus, esse é o resumo do Evangelho de hoje. Quem não vive o Evangelho perverte a sua mensagem e aí resulta, tantas vezes, opressão, medo, escravatura, em nome de Jesus. Isto tem acontecido, com frequência, ao longo da história da Igreja. É preciso, pois, um permanente confronto do nosso anúncio com o Evangelho e com o sentir da Igreja, a fim de que anunciemos Jesus e não traiamos a verdade da sua proposta libertadora.

Como homens batizados devemos ser homens humildes, humildes e cheios da graça divina. A boca deve falar do que o coração está cheio. A história da trave e do cisco convida-nos a refletir sobre a hipocrisia. É fácil reparar nas falhas dos outros e enveredar pela crítica fácil que, tantas vezes, afeta a reputação e fere a dignidade das pessoas; é difícil utilizar os mesmos critérios de exigência quando estão em causa as nossas pequenas e grandes falhas… Somos tão exigentes connosco como somos com os outros? Temos consciência da nossa necessidade permanente de conversão?

Caros irmãos,

A segunda leitura conclui a catequese que temos refletido nos quatro últimos domingos sobre a ressurreição. São Paulo consultado pelos Coríntios – preocupados com a aparente impossibilidade de o corpo, sensual e material, ter acesso à vida plena com Deus – acerca da ressurreição, o apóstolo das gentes desenvolve a sua catequese sobre essa questão polêmica.

São Paulo, na sua primeira carta aos Coríntios(cf. 1Cor 15,54-58) nos ensina que a vitória foi-nos dada por Jesus Cristo. Na medida em que “o nosso ser corruptível vai revestindo a incorruptibilidade, o nosso ser mortal vai revestindo para vencer a morte, desmascarando-a.

No final da catequese, São Paulo registra que o decisivo é que a morte tenha perdido para sempre o seu poder. Tanto em relação a Cristo, como em relação aos cristãos, não é o “como” da ressurreição que interessa, mas o fato em si. E, para Paulo, o fato em si é incontestável, está para além de toda a dúvida. É porque a ressurreição é incontestável que Paulo não pode deixar de festejar num hino – ainda que em miniatura – a vitória de Cristo e dos cristãos sobre a morte. Para isso, recorre a textos bíblicos de Isaías (cf. Is 25, 8) e Oseias (cf. Os 13, 14), ainda que evocados com bastante liberdade: “a morte foi absorvida na vitória. Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão?” (1 Cor 15 ,54-55).

O pecado, a escravidão, o egoísmo, a violência, o ódio, aliados da morte não terão, a partir de agora, qualquer poder sobre o homem: a ressurreição de Cristo libertou todos os batizados do medo da morte, pois demonstrou que não há morte para quem luta por um mundo de justiça, de amor e de paz.

O cântico de triunfo leva como acompanhamento obrigatório uma ação de graças a Deus pois é Ele, o Senhor da vida, “que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Cor 15, 57).

A última palavra de Paulo é para convidar os Coríntios – e os batizados de todas as épocas – a permanecer “firmes e inabaláveis, cada vez mais diligentes na obra do Senhor” (1 Cor 15, 58). É um convite a não projetarmos a ressurreição apenas num mundo futuro, mas a trabalharmos cada dia para que a ressurreição (como libertação do pecado, do egoísmo, da exploração e da morte) se vá tornando uma realidade viva na história da nossa existência. Isto implica, evidentemente, não cruzar os braços numa passividade que aliena, mas empenharmo-nos verdadeiramente numa efetiva transformação que traga vida nova ao homem e ao mundo.

A ressurreição de Cristo garante-nos que o nosso Deus é o Senhor da vida. Assim, percorremos o nosso caminho neste mundo com total serenidade e confiança: sabemos que Deus está ao nosso lado sempre, vigiando – como uma mãe que cuida do seu bebê; e que, quando chegar a última fronteira, o nosso último fechar de olhos, a nossa saída deste mundo ou entrada no outro, também então podemos estar tranquilos, porque o nosso Deus/mãe continua vigilante. Ele é o Deus da vida, que nos garante a plenitude da vida.

Acreditar na ressurreição é, assim, empenhar-se na construção de um mundo mais humano e mais fraterno, procurando eliminar as forças do egoísmo, do pecado e da morte que impedem, já nesta terra, a vida em plenitude. Por isso o Concílio Ecumênico Vaticano II diz: “a Igreja ensina que a importância das tarefas terrenas não é diminuída pela esperança escatológica, mas que esta antes reforça com novos motivos a sua execução” (Gaudium et Spes, 21).

Caros irmãos,

Rendamos graças a Deus que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo. Vale a pena, como diz São Paulo, ser firmes, inabaláveis, fazer incessantes progressos na obra do Senhor, cientes de que a nossa fadiga não é vã no Senhor.

Esta obra do Senhor há de permanecer porque é verdadeira, faz-nos transparentes diante de Deus e diante do próximo; é construída na sinceridade. Que o Senhor nos dê a graça de agirmos sempre de coração sincero, Amém!Padre Wagner Augusto Portugal.