Feliz Páscoa

Meus queridos Irmãos,

“Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!”(cf. Sl 117).

Com grande alegria, as alegrias eternais, celebramos neste dia santo a Ressurreição do Divino Salvador. Hoje a terra celebra o evento mais importante de ontem, de hoje e de sempre, a Ressurreição do Senhor.

Dizia anteontem no Sermão do Descendimento da Cruz que nós não devemos limitar a nossa fé carregando o esquife com um Jesus inerte, que nada questiona. O que nós precisamos fazer é remover a pedra do Sepulcro e enxergar o Cristo luminoso e ressuscitado que irrompeu o império da morte e anunciou a vida eterna, a vida em Deus.

Jesus, o autor da vida, nos dá uma nova e eterna vida; a vida do céu. A morte verdadeira de Jesus continua para todos nós uma doce lição de encantamento e de amor e não é difícil de entender. Sua ressurreição confirma todas as suas palavras e ensinamentos, e será sempre um doce mistério, isto é, um fato que ultrapassa toda a compreensão racional e é apenas apreendido pela fé.

A ressurreição deve ser entendida como ponto fundamental de nossa fé cristã. Fundamental no sentido estrito da palavra: é fundamento sobre o qual se levantou e levanta-se o edifício de nossa fé católica e apostólica. Tirado este fundamento, todo o edifício ruiria. Um Cristianismo não construído sobre a ressurreição seria impossível. A ressurreição é o único milagre que garante a divindade de Jesus de Nazaré. É a única prova indestrutível de sua messianidade redentora.

Irmãos caríssimos,

Hoje é Páscoa, que significa passagem! Para nós passagem do pecado para a vida da graça, passagem da morte eterna para a vida em Deus, a vida plena.

O túmulo está vazio! O corpo de um homem pregado numa cruz não está lá mais. Jesus Ressuscitou para nos salvar ao terceiro dia.

Aqueles que procuravam Jesus entre os mortos não o encontraram, porque Ele havia ressuscitado. Vamos encontrá-Lo falando com os Apóstolos incrédulos, comendo com eles e mostrando-lhes as mãos e os pés perfurados pelos cravos. Encontramo-Lo, consolando Maria Madalena angustiada desde o Calvário. Encontramo-Lo ressuscitado, explicando aos discípulos entristecidos de Emaús o significado das profecias e de suas próprias palavras.

Todos nós hoje devemos repetir a seqüência da santa Missa que encantou a minha infância e permeia toda a minha vida: “Cantai, cristãos, afinal: Salve ó vítima pascal! Cordeiro inocente, o Cristo, abriu-nos do Pai o aprisco!”.

Sim, aleluia, hoje e sempre! Porque Jesus é maior do que a morte e a venceu e, por sua vitória, todos nós viveremos. Aleluia, porque a Páscoa de hoje é certeza de páscoa eterna!

Caros irmãos,

Nos Atos dos Apóstolos, que é a primeira leitura de hoje(At 10,34a.37-43), São Lucas nos propõe o testemunho e a catequese de São Pedro em Cesareia, em casa do centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (cf. At 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a sua família (cf. At 10,23b-48). O episódio é importante, porque Cornélio é o primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze (o etíope de que se fala em At 8,26-40 já era “prosélito”, isto é, simpatizante do judaísmo). Significa que a vida nova que nasce de Jesus é para todos os homens. A ressurreição de Jesus é a consequência de uma vida gasta a “fazer o bem e a libertar os oprimidos”. Isso significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se esforça por vencer o egoísmo, a mentira, a injustiça e por fazer triunfar o amor, está a ressuscitar; significa que sempre que alguém – na linha de Jesus – se dá aos outros e manifesta em gestos concretos a sua entrega aos irmãos, está a ressuscitar. A ressurreição de Jesus significa, também, que o medo, a morte, o sofrimento, a injustiça deixam de ter poder sobre o homem que ama, que se dá, que partilha a vida. Ele tem assegurado a vida plena, essa vida que os poderes deste mundo não podem atingir nem restringir. Ele pode, assim, enfrentar o mundo com a serenidade que lhe vem da fé.

Caros irmãos,

Na segunda leitura(Cl 3,1-4) São Paulo apresenta como ponto de partida e base da vida cristã a união com Cristo ressuscitado, na qual o cristão é introduzido pelo Batismo. Ao ser batizado, o fiel católico morreu para o pecado e renasceu para uma vida nova, que terá a sua manifestação gloriosa quando ultrapassarmos, pela morte, as fronteiras da nossa finitude. Enquanto caminhamos ao encontro desse objetivo último, a nossa vida tem que tender para Cristo. Em concreto, isso implica despojarmo-nos do “homem velho” por uma conversão nunca acabada e revestirmo-nos cada dia mais profundamente da imagem de Cristo, de forma que nos identifiquemos com Ele pelo amor e pela entrega.

Irmãos caríssimos,

Na primeira parte do Quarto Evangelho (cf. Jo 4,1-19,42), João descreve a atividade criadora e vivificadora do Messias (o último passo dessa atividade destinada a fazer surgir o homem novo é, precisamente, a morte na cruz: aí, Jesus apresenta a última e definitiva lição – a lição do amor total, que não guarda nada para Si, mas faz da sua vida um dom radical); na segunda parte (cf. Jo 20,1-31), João apresenta o resultado da ação de Jesus: a comunidade de Homens Novos, recriados e vivificados por Jesus, que com Ele aprenderam a amar com radicalidade. Trata-se dessa comunidade de homens e mulheres que se converteram e aderiram a Jesus e que, em cada dia – mesmo diante do sepulcro vazio – são convidados a manifestar a sua fé n’Ele. A lógica humana vai na linha da figura representada por Pedro: o amor partilhado até à morte, o serviço simples e sem pretensões, a entrega da vida só conduzem ao fracasso e não são um caminho sólido e consistente para chegar ao êxito, ao triunfo, à glória; da cruz, do amor radical, da doação de si, não pode resultar vida plena. A ressurreição de Jesus prova precisamente que a vida plena, a vida total, a libertação plena, a transfiguração total da nossa realidade e das nossas capacidades passam pelo amor que se dá, com radicalidade, até às últimas consequências.

Meus amados Irmãos,

A Páscoa é festa de libertação, desde os tempos de Moisés.  Na páscoa moisaca se celebrava a passagem do povo da escravidão para a liberdade e a sua caminhada para a Terra Prometida.

Agora Jesus veio reescrever a velha aliança nos dando uma nova e eterna aliança: a passagem do pecado para a graça. A passagem da morte para a vida eterna. Jesus arrancou com a sua morte a maldade dos homens e nos transformou em criaturas novas. Ao ressuscitar, Jesus não voltou atrás, como aconteceu com Lázaro, mas foi além da morte, assumindo uma condição que escapa à nossa compreensão e à nossa experiência. Esse destino nos espera depois de nossa morte.

A Eucaristia é a celebração plena da morte e ressurreição de Jesus. Doce e grandioso mistério que nos pavimenta a vida eterna.

Assim, todos nós somos convidados a fazermos a passagem, relembrando Santo Agostinho: “Passar é preciso!” Passar de onde e para onde? De onde estamos, envoltos em trevas, para a luz da ressurreição; de onde estamos, amarrados pelo egoísmo, para o amor partilhado; de onde estamos, cercados de erros que dividem, para o campo da verdade, que acolhe e unifica. Passar de onde estamos, gananciosos e armados de medo, para a pureza do desapego e da fraternidade; de onde estamos, abrindo fossos de autoproteção, para as pontes de paz, que facilitam o encontro; de onde estamos, marcados pelo pecado, para a graça, que é a marca dos filhos de Deus.

Meus irmãos,

A memória de Jesus, na Palavra e na Eucaristia, ensina-nos que ele vive conosco. Ele é o centro de nossa vida. Temos que relacionar tudo com ele, enxergar tudo à sua luz, que venceu as trevas, a vida que venceu a morte. Isso é vivenciar a ressurreição de Cristo em nossa própria vida, procurar as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita do Pai, conforme nos ensina a segunda leitura de hoje. A nossa vida velha e abatida morreu, temos uma vida nova escondida lá com ele. Isso transforma nosso modo de viver. Mesmo se exteriormente andamos envolvidos com as lidas e as lutas desta sociedade injusta, interiormente já não nos deixamos vencer por ela. Após uns pequenos três dias, experimentamos a presença daquele que venceu a morte. Por isso, vamos viver de cabeça erguida, os olhos fixos em nossa verdadeira vida, que está nele. Se o pecado nos abate, vamos abrir-nos na comunidade, no sacramento. Se a injustiça nos faz morrer, vamos unir-nos em comunidade em torno a Cristo. Isto é Páscoa, nossa ressurreição em Cristo.

Queridos irmãos,

O homem novo não é “outro” homem, alienado da condição terrestre para ser posto num paraíso qualquer. A oposição se acha entre o pecado e a graça; o homem velho vive na ilusão de poder realizar o seu destino recorrendo unicamente a seus recursos. O homem novo realiza perfeitamente a vontade de Deus, único que pode admití-lo à condição filial; sabe que o conteúdo da sua fidelidade à vocação recebida reside na obediência à condição terrena até a morte; sabe que este “sim” da criatura constitui o suporte necessário do “sim” do filho adotivo de Deus.

Irmãos amados,

O Senhor Jesus, cujo túmulo hoje foi encontrado vazio, vida que venceu a morte e os infernos, está vivo aqui conosco. Ele está presente de modo invisível, na Palavra que ouvimos e meditamos, na pessoa de cada um de nós, na nossa comunidade orante reunida e no pão consagrado.

Refletimos, pois, sobre o sepulcro vazio, os gestos de amor de Cristo e o testemunho do Cristo ressuscitado. Portanto, Jesus se fez Páscoa, surge a vida, onde as pedras são retiradas dos sepulcros, onde se vive a caridade no serviço ao próximo. Estes são os sinais de que Jesus cristo continua ressuscitando hoje. Eles anunciam a sua ressurreição e suscitam nova vida, pois retiram todas as barreiras que atentam contra vida.

Jesus ressuscitou verdadeiramente, Aleluia! Aleluia! Aleluia.

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal.