Meus queridos Irmãos,

A Semana Maior, da Paixão e Morte do Senhor Jesus, começa neste domingo, chamado Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, que une ao mesmo tempo o anúncio da Paixão e da Vitória de Cristo pela sua Morte e Ressurreição.

Somos convidados a caminhar com Jesus: a procissão que comemora a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém tem um caráter eminentemente festivo e, mais do que isso, popular. A participação na procissão é importante neste domingo. Os ramos devem ser conservados como vivo sinal e doce testemunho da fé em Cristo e esperança na sua vitória pascal aniquilando a morte e anunciando a vida eterna.

Domingo de Ramos é dia de aclamar Jesus como Messias que vem realizar as promessas dos profetas e instaurar definitivamente o Reino do Deus da Vida Eterna: justiça para os marginalizados e pobres, bem como, excluídos. Somos chamados a sermos participantes de todos os bens e na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. A paz que tanta falta ao mundo deve ser permeada pela esperança feliz da vitória da morte, pela vida eterna.

Vamos aclamar aquele que vem! Bendito o que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!

Irmãos e Irmãs,

Todos nós somos convidados a enxergar nos mistérios da paixão o sentido salvador que trazem. Por isso mesmo, a narração da paixão e morte não basta ser lida ou escutada. O relato da paixão deve ser rezado e meditado.

Vamos buscar no exemplo de Maria, que escutou e guardou no seu coração, estes fatos. Vamos guardar a paixão em nosso coração e procurar uma conversão absoluta de nossas existências, configurando nossos corações ao Coração de Jesus e ao Coração de Maria.

Jesus hoje entra triunfalmente em Jerusalém: é acolhido pelos Judeus como Senhor e como Rei. É acolhido e chamado de Rabi, que significa Mestre. Jesus é aclamado como o rei pacífico e libertador da humanidade. Num segundo momento somos, pelo relato da paixão, chamados a refletir sobre os sofrimentos de Jesus que foram sofrimentos em nosso doce benefício. Paixão de Jesus que é paixão de todos nós! Jesus morreu na cruz pela nossa salvação. Jesus se doou por todos nós. Doação extremada. Cruz bendita que inaugurou, pela ressurreição, a nossa doce esperançosa ressurreição(cf. Lc 19,28-40).

Caros irmãos,

A primeira leitura da missa de hoje nos apresenta o Livro de Isaías(Cf. Is 50, 4-7). No livro do Deutero-Isaías (Is 40-55), encontramos quatro poemas que se destacam do resto do texto (cf. Is 42,1-9;49,1-13;50,4-11;52,13-53,12). Apresentam-nos uma figura enigmática de um “servo de Jahwéh”, que recebeu de Deus uma missão. Essa missão tem a ver com a Palavra de Deus e tem caráter universal; concretiza-se no sofrimento, na dor e no abandono incondicional à Palavra e aos projetos de Deus. Apesar de a missão terminar num aparente insucesso, a dor do profeta não foi em vão: ela tem um valor expiatório e redentor; do seu sofrimento resulta o perdão para o pecado do povo. Deus aprecia o sacrifício do profeta e recompensá-lo-á, elevando-o à vista de todos, fazendo-o triunfar dos seus detratores e adversários. Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura coletiva que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a ser um testemunho de Deus no meio do sofrimento em que vive? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.

O texto que nos é proposto é parte do terceiro cântico do “servo de Jahwéh”. A primeira leitura dá a palavra a um personagem anônimo, que fala do seu chamamento por Deus para a missão. Ele não se intitula “profeta”; porém, narra a sua vocação, com os elementos típicos dos relatos proféticos de vocação. Em primeiro lugar, a missão que este “profeta” recebe de Deus tem claramente a ver com o anúncio da Palavra. O profeta é o homem da Palavra, através de quem Deus fala; a proposta de redenção que Deus faz a todos aqueles que necessitam de salvação/libertação ecoa na palavra profética. O profeta é inteiramente modelado por Deus e não opõe resistência nem ao chamamento, nem à Palavra que Deus lhe confia; mas tem de estar, continuamente, numa atitude de escuta de Deus, para que possa depois apresentar – com fidelidade – essa Palavra de Deus para os homens. Em segundo lugar, a missão profética realiza-se no sofrimento e na dor. É um tema sobejamente conhecido da literatura profética: o anúncio das propostas de Deus provoca resistências que, para o profeta, se consubstanciam quase sempre em dor e perseguição. No entanto, o profeta não se demite: a paixão pela Palavra sobrepõe-se ao sofrimento. Em terceiro lugar, vem a expressão de confiança no Senhor, que não abandona aqueles a quem chama. A certeza de que não está só, mas que tem a força de Deus, torna o profeta mais forte do que a dor e o sofrimento. Por isso, o profeta “não será confundido”.

Não sabemos, efetivamente, quem é este “servo de Jahwéh”; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para trazer a libertação/salvação aos homens… A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e de entrega da vida em favor de todos; e a sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova. Jesus, o “servo” sofredor que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido.

Prezados irmãos,

A segunda leitura desta celebração nos apresenta a Carta de São Paulo aos Filipenses(cf. Fl 2,6-11). A cidade de Filipos era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia diretamente do imperador; por isso gozava, dos mesmos privilégios das cidades da Itália. A comunidade cristã, fundada por São Paulo, era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da coleta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5), por quem Paulo nutria um afeto especial. Apesar destes sinais positivos, não era, no entanto, uma comunidade perfeita… O desprendimento, a humildade e a simplicidade não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios que compunham a comunidade. É neste contexto que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. São Paulo convida os Filipenses a encarnar os valores que marcaram a trajetória existencial de Cristo; para isso, utiliza um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs: nesse hino, ele expõe aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo.

Este hino da segunda leitura de hoje define o “despojamento” (“kenosis”) de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse “abaixamento” assumiu mesmo foros de escândalo: Ele aceitou uma morte infamante – a morte de cruz – para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida. No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projetos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d’Ele o “Kyrios” (“Senhor” – nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”) reconhece Jesus como “o senhor” que reina sobre toda a terra e que preside à história.

Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados em muitos dos nossos ambientes contemporâneos. De acordo com os critérios que presidem ao nosso mundo, os grandes “ganhadores” não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. São Paulo tem consciência de nos lembrar o que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido, nestes últimos dias antes da Páscoa, um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor.

Queridos Irmãos,

Celebramos hoje o mistério pascal. Doce Esperança da ressurreição inaugurada pelo evento paixão, morte e ressurreição do Senhor Jesus. É o centro de nossa fé e da vida de Jesus. Evangelho que nasce da Paixão Redentora e do Túmulo Vazio pela Ressurreição.

A paixão, a morte e a ressurreição são três eventos distintos que se unem, porque são inseparáveis.

Jesus não acabou com a sua morte no calvário. Jesus venceu os infernos e a morte e anunciou a vida eterna, a esperança que se tornou realidade com a sua ressurreição.

Lucas, unicamente, é o evangelista que no relato da paixão nos informa o episódio do bom ladrão – Lc 23,40-43 – e do envio de Jesus a Herodes – Lc 23,6-12. A São Lucas não interessa apenas o fato, mas também o sentido eclesial que o fato carrega. O fato, então, toma força de um símbolo dentro da história da salvação. Herodes, por exemplo, torna-se a imagem dos que se interessam falsamente por Jesus. Não se interessam pela salvação que ele traz com sua doutrina, mas pela sua curiosidade dos milagres ou pelas vantagens da promoção social.

No bom ladrão estamos todos nós incluídos. É na morte de Jesus que encontramos o perdão e a doce salvação. É a morte de Jesus que abre as portas do céu. Ninguém merece a salvação. A salvação nos vem pela misericórdia divina.

Irmãos e Irmãs,

Quem foi Pilatos? Nas províncias conquistadas pela opressão do Império Romano eram nomeados procuradores para governá-las. Pôncio Pilatos foi governador da Judéia e da Samaria entre os anos 26 e 36. Enquanto os Evangelhos nos fornecem uma imagem relativamente boa de Pilatos, apesar de haver condenado Jesus à morte, os escritores profanos do tempo pintam-no como um homem violento, corrupto, intolerante, cruel e assassino. Nada se sabe o que aconteceu com Pilatos depois de seu tempo de procurador Romano na Judéia e na Samaria. Não se sabe se ele se suicidou ou se ele foi assassinado, ou se mesmo tornou-se cristão.

Quem foi Herodes? O Herodes da Paixão é Herodes Antipas, filho mais novo de Herodes Magno aquele que mandou matar as crianças. Herodes Antipas governava a Galiléia e a Peréia. O povo o chamava de rei, embora também ele estivesse sujeito a Roma. Enquanto Pilatos hostilizava os hebreus, Herodes procurava ser amigo deles. Por isso Pilatos e Herodes não se davam, porque Pilatos não gostava dos hebreus.

Quem eram os Anciãos do Povo?  Eram os chamados notáveis da cidade. Eram membros do Sinédrio, uma espécie de senado.  Ao Sinédrio cabia os poderes religiosos e alguns poderes civis. Algumas deliberações, como mandar matar alguém, deveria ter a autorização do procurador romano, no caso, Pôncio Pilatos.

Irmãos e Irmãs,

Para Lucas a Paixão de Jesus é considerada um Martírio, ou seja, uma vontade de Deus, segundo o qual o Filho de Deus estava determinado para morrer.

Lucas acentua o silêncio e a paciência de Jesus perante o seu sofrimento, as acusações e os insultos.

Lucas relata o perdão dado a Pedro pela negativa de três vezes e o mesmo perdão que o Senhor deu a quem o crucificou.

Lucas relata que Jesus nos ensinou a lição de Dimas, o bom ladrão, que pediu para entrar no Reino dos Céus. Esta deve ser a nossa atitude: humildade orante.

Lucas acentua, ainda, a inocência de Jesus: Pilatos não encontrou nenhum crime em Jesus.

Lucas, também, narra as três acusações em que Jesus foi levado a Pilatos: subversão do povo, sonegação de impostos e afirmação de ser Rei.

Pilatos pergunta a Jesus: “tu és o Rei dos Judeus?” Jesus era e não era. Não era rei em sentido político e nunca havia pretendido sê-lo. Mas era, por ser senhor e rei de todos os povos. Por três vezes o Procurador Pôncio Pilatos o declara inocente. O mesmo o faz Herodes. Também as mulheres que choram ao longo do caminho do calvário são sinal da inocência de Jesus. Repete-o o ladrão arrependido. Mas a grande declaração vem do centurião aos pés da Cruz: “Verdadeiramente, esse homem era um justo”(cf 23,47). Isso quer dizer que o centurião declarava que Jesus era inocente.

Lucas ressaltou a paixão com sentido de oração conforme foi toda a vida de Jesus. Mas é na Cruz redentora que ouvimos a mais bela oração que deve permear toda a semana maior e toda a nossa vida: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!” e, em seguida grita: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!”

Meus queridos Irmãos,

Diante da cruz do justo que morre, temos que optar: ou pelo lado dos que dão sua vida para viver e fazer viver o amor de Deus, ou pelo lado dos que dão as mãos para suprimir a justiça: lado de quem carrega a cruz ou de quem a impõe.

Esta paixão não é buscada pelo prazer de sofrer, mas para testemunhar a verdade em relação a Deus e em relação à pessoa humana. Foi isso que Jesus fez através de sua paixão.

É isso que se espera de cada discípulo seu: testemunhar a Deus, testemunhar a Jesus Cristo, testemunhar o valor da pessoa humana. Ele o realizará pela palavra, pela ação e, se necessário, pela paixão. Sempre somos chamados a sermos mártires, seja pelo derramamento do sangue, seja pelo transbordamento do amor.

Celebrar a paixão e morte de Jesus é colocar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil. Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir conosco “até ao fim dos tempos”: esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos crentes. 

Por isso nesta Semana Maior somos convidados a contemplar a cruz onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade… Significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias. Significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens. Significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor. Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de um dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.

Irmãos e Irmãs

Somos convidados hoje a fazer o gesto concreto e a coleta da campanha da fraternidade que nos alerta sobre a fraternidade e as políticas públicas. Jesus entregou a sua vida para salvar a humanidade e instaurar o Reino de Deus. E nós também ofereceremos a nossa contribuição material para fazer deste mundo mais fraterno e ajudar na organização da sociedade mais justa.

Participar, como dizem os Bispos, da Coleta da Campanha da Fraternidade é “associar-se ao gesto e à atitude de Jesus e com Ele, imbuídos pelo Espírito do Ressuscitado e confiantes na sua vitória sobre a injustiça e a morte, ir ao encontro dos pequenos, pobres e excluídos”.

Vivamos as notas da quaresma que nos fortifica para cantar o Aleluia da Ressurreição: a esmola, o jejum e a penitência. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal