Festa de Santa Maria, Mãe de Deus

A solenidade da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa, é a primeira festa Mariana que apareceu na Santa Igreja do Ocidente, a nossa Igreja, a única de Jesus Cristo.  É a linda celebração da vida. A vida que nasce do ventre abençoado da mulher. Por isso celebramos a Mãe de todos os homens e mulheres, a Virgem Maria.

Iniciamos o ano civil, dentro das festividades de Natal, da chamada oitava de Natal, para relembrar o nascimento de Jesus, o Filho de Deus. Assim, esta festa faz parte de todo o ciclo do nascimento do Redentor do Gênero humano, em que Jesus nasceu de Maria e ela começou a fazer parte de um povo e constituiu o centro da história. Maria nos une a Deus e às pessoas, os homens e mulheres, de boa vontade. Uma religião como a nossa se ufana da festa de hoje, porque tudo que pedimos ao Filho por intermédio de sua piíssima Mãe Cristo nos atende. É o “SIM” de Maria que ecoou durante os dias natalinos, misturado à alegria incontida do Magnificat pelo fato de Deus “ter feitos grandes coisas”em Maria, criatura humana, que recebera, em previsão à maternidade divina, todas as graças disponíveis desde sua conceição imaculada.

Meus irmãos,

Cantamos na festa de hoje a antiguíssima antífona que entoa: “Salve Sancta Parens”. Trata-se da participação da Virgem Maria no Mistério da Encarnação.

A liturgia da circuncisão de Jesus, ocorrida no oitavo dia do nascimento, conforme a lei judaica está em relevo no dia de hoje. Lucas ensina, no Santo Evangelho, a perfeita sintonia entre a maternidade de Maria e a festa de hoje, confirmando o amor de Mãe para com seu povo em seu filho Jesus. Junto com José, Maria cuida do filho e com carinho vive o mistério que se vai manifestando paulatinamente nos acontecimentos da vida.

Maria guardava no seu coração as maravilhas do amor de Deus e daqueles que viram seu Filho. Todos são testemunhas da graça de Deus porque é a revelação do amor e compaixão para com seu povo. Basta acreditar como a Mãe de Deus acreditou e viveu o mistério da encarnação.

Irmãos,

A primeira leitura(cf. Nm 6,22-27) é uma fórmula de bênção: o povo do Antigo Testamento gostava muito de receber bênçãos: “Que Deus te abençoe”, que o “Senhor vos acompanhe”(Cf. Cf. Números 6,24-25). O rosto de Deus exprime a presença divina e o seu desejo de instaurar uma aliança, uma comunhão com as criaturas. Tantas vezes Deus tentou fazer esta aliança. Mas a criatura humana sempre a frustou. Agora fará uma aliança certa e definitiva, tendo como garante o seu próprio filho, nascido de Maria de Nazaré. O rosto de Deus assume face humana e um nome: Jesus.  São pedidos a Deus para que ele nos conceda algo de que precisamos. E neste início de ano é muito atual esta petição, para que possamos pedir um novo tempo para o sofrido povo brasileiro, um tempo de união nacional, para que seja construída e edificada uma política pública de superação da miséria e da fome, com projetos que não dêem apenas comida ao povo, mas dêem oportunidade de construir uma vida com dignidade e com trabalho sério, bem remunerado e com acesso a todos os benefícios da vida moderna, como saúde, educação, lazer e segurança pública. Que tenhamos um tempo renovado de investimento nas áreas sociais, nas áreas de infraestrutura, com a reconstrução das autopistas e com melhores condições e emprego, renda e lazer ao povo brasileiro.

Pronunciar três vezes o nome do Deus da aliança é dar uma nova atualidade à aliança, às suas promessas e às suas exigências; é lembrar aos israelitas que é do Deus da aliança que recebem a vida nas suas múltiplas manifestações e que tudo é um dom de Deus.
A cada uma das invocações, correspondem dois pedidos de bênção: “que Deus te abençoe (isto é, que te comunique a sua vida) e te proteja”; “que Deus faça brilhar sobre ti a sua face (hebraísmo que se pode traduzir como ‘que te mostre um rosto sorridente e favorável’) e te conceda a sua graça”; que Deus dirija para ti o seu olhar (hebraísmo que significa ‘olhar para ti com benevolência’, ‘acolher-te’) e te conceda a paz” (em hebraico: ‘shalom’ – no sentido de bem-estar, harmonia, felicidade plena). Este texto lembra ao israelita que tudo é um dom do amor de Deus e que o Deus da aliança está ao lado do seu Povo em cada dia do ano, oferecendo-lhe a vida plena e a felicidade em abundância.

Caros irmãos,

Na Segunda leitura(cf. Gl 4,4-7) São Paulo recorda aos gálatas algo de fundamental: Cristo veio a este mundo para libertá-los, definitivamente, do jugo da Lei; a consequência da ação redentora de Cristo é que os homens deixaram de ser escravos e passaram a ser “filhos” que partilham a vida de Deus.

A palavra-chave da segunda leitura é, a palavra “filho”, aplicada tanto a Cristo como aos cristãos. Cristo, o “Filho”, foi enviado ao mundo pelo Pai com uma missão concreta: libertar os homens de uma religião de ritos estéreis e inúteis, que não potenciava o encontro entre Deus e os homens; e Cristo, identificando os homens com Ele, levou-os a um novo tipo de relacionamento com Deus e fê-los “filhos” de Deus. Por ação de Cristo, os homens deixaram de ser escravos (que cumprem obrigatoriamente regras e leis) e passaram a relacionar-se com Deus como “filhos” livres e amados, herdeiros com Cristo da vida eterna. Depois desta “promoção”, fará algum sentido querer voltar a ser escravo da religião das leis e dos ritos?

A nova situação dos homens dá-lhes o direito de chamar a Deus “abbá” (“papá”). São Paulo utiliza esta palavra aqui (bem como na Carta aos Romanos), apesar de os judeus nunca designarem Deus desta forma. Ela expressa uma relação muito próxima, muito íntima, do género daquela que uma criança tem com o seu pai: exprime a confiança absoluta, a entrega total, o amor sem limites. A insistência de Paulo nesta palavra deve ter a ver com o Jesus histórico: Jesus adotou-a para expressar a sua confiança filial em Deus e a sua entrega total à sua causa. Ora, é este tipo de relação que os cristãos, identificados com Cristo, são convidados a estabelecer com Deus. Gal 4,4 é o único lugar em que São Paulo se refere à mãe de Jesus (“Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher”); no entanto, Paulo não parece interessado, aqui, em falar de Nossa Senhora, mas em sublinhar a solidariedade de Cristo com o género humano.

Caros irmãos,

O Evangelho(cf. Lc 2,16-21) chegada de Jesus, atingimos o centro do tempo salvífico. Em Jesus, a proposta libertadora que Deus tinha para nos oferecer veio ao nosso encontro e materializou-se no meio dos homens; o próprio nome (“Jesus” significa “Deus salva”) que foi dado ao menino por indicação do anjo que anunciou o seu nascimento aponta nesse sentido.

Por outro lado, o fato de essa “boa notícia” ser dada, em primeiro lugar, aos pastores (classe marginalizada, considerada impura, pecadora e muito longe de Deus e da salvação) significa que a proposta de Jesus se destina, de forma especial, aos pobres e marginalizados, àqueles que a teologia oficial excluía e condenava. Diz-lhes que Deus os ama, que conta com eles e que os convoca para fazer parte da sua família.

Definida a questão essencial, atentemos nas atitudes dos intervenientes e na forma como eles respondem à chegada de Jesus.

Em primeiro lugar, repare-se como os pastores, depois de escutarem a “boa nova” do nascimento do libertador, se dirigem “apressadamente” ao encontro do menino. A palavra “apressadamente” sublinha a ânsia com que os pobres e os marginalizados esperam a ação libertadora de Deus em seu favor. Aqueles que vivem numa situação intolerável de sofrimento e de opressão reconhecem Jesus como o único salvador e apressam-se a ir ao seu encontro.

É d’Ele e de mais ninguém que brota a libertação por que os oprimidos anseiam. A disponibilidade de coração para acolher a sua proposta é a primeira coisa que Deus pede.
Em segundo lugar, repare-se como os pastores reagem ao encontro com Jesus. Começam por glorificar e louvar a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido: é a alegria pela libertação que se converte em ação de graças ao Deus libertador. Depois, esse louvor torna-se testemunho: quem faz a experiência do encontro com Deus libertador tem obrigatoriamente de dar testemunho, a fim de que os outros homens possam participar da mesma experiência gratificante.

Finalmente, atentemos na atitude de Maria: ela “conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração”. É a atitude de quem é capaz de abismar-se com as ações do Deus libertador, com o amor que Ele manifesta nos seus gestos em favor dos homens. “Observar”, “conservar” e “meditar” significa ter a sensibilidade para entender os sinais de Deus e ter a sabedoria da fé para saber lê-los à luz do plano de Deus. É precisamente isso que faziam os profetas.

A atitude meditativa de Maria, que interioriza e aprofunda os acontecimentos, complementa a atitude “missionária” dos pastores, que proclamam a ação salvadora de Deus, manifestada no nascimento de Jesus. Estas duas atitudes definem duas coordenadas essenciais daquilo que deve ser a existência do batizado.

Irmãos,

A liturgia de hoje nos conclama a construirmos aqui e agora nas palavras de Paulo VI “A civilização do amor”. Só temos amor se construímos a paz. Cada um dos que participam do Mistério da Eucaristia devem ascender em seus corações a paz, “shalom”, para que seja, nas famílias, na paróquia, na cidade e na Arquidiocese-Diocese edificada uma vida de conforto e bem querer em nosso Senhor e Salvador, Deus Menino, que encarnou para que a redenção seja anunciada a todos os povos.

Por isso, meus amigos, os pastores foram até Belém e encontrar Jesus do modo em que lhes fora revelado em sonho: “deitado numa manjedoura”, ou seja, o rei dos reis, nasceu pobre, como os pobres, se fez um de nós. O Salvador veio humilde para o mundo, com uma específica missão de anunciar a paz e sedimentar à justiça que abraça a realização das promessas das bem-aventuranças aqui e agora.

Assim se pode entoar o cântico que encanta nossos corações: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade”. Aqui reside a mensagem de paz, de construção da paz entre todos nós.

Do encontro da passagem bíblica vem o nosso encantamento: tanto os pastores, como os pais do Deus Menino, se abrem ao sorriso, a alegria, ao sono tranqüilo e a esperança que todos são contaminados e que deve contaminar a cada um de nós.

O nosso encontro com Jesus transforma as pessoas, ou deveria transformar nossos corações. O encontro gera a alegria e o encantamento, impulsionado para o anúncio porque essa alegria enche os nossos corações, porque “O novo nome da Paz é Justiça” nas palavras de Paulo VI, de perene memória.

Amigos,

Resumindo, o Mistério da Celebração de hoje, é o seguinte: Maria deu Jesus a humanidade, como um presente precioso de Deus, de um modo muito concreto, através do nascimento de uma mulher no seio de um povo com seus costumes e as suas leis, povo sobre o qual Deus deixa brilhar a sua face, povo-testemunha de um Deus que dá sua bênção para toda a humanidade através de Jesus, nascido de mulher.

Por isso todos nós somos convidados a entender a dimensão humana e divina de Jesus que veio nos dar vida nova. Dizer que Maria é Mãe de Deus é uma afirmação que exalta e engrandece a nossa Mãe querida, sobretudo por colocar Deus ao nosso alcance. Ele está próximo de nós, mas é preciso que emprestemos alegre e esforçadamente nossas mãos, nossa mente e o nosso coração, como fez Maria.

Assim, o centro da Missa da hoje é a Paz que vêm de Deus. A paz que é a plenitude de todos os dons do Senhor, a realização do mistério da salvação. Jesus, nascido de Maria Virgem, é a plenitude de todos os dons. Por isso mesmo é chamado de “nossa paz”(Cf. Ef 2,14). Os anjos cantaram o nascimento de Jesus e o anunciaram aos pastores, proclamando, por conseguinte, um tempo de Paz: “Paz na terra aos homens amados por Deus”(Cf. Lc 2,14). Paz que gera amor, como o amor de Deus por nós que mandou o seu Filho, unicamente por amor, para que nós pudéssemos ser associados à vida eterna.

Paz, amor, encarnação, redenção, eventos todos estes íntimos. Se a missão da Igreja de Cristo é testemunhar o Senhor Jesus, ao testemunhá-lo ao mundo, a Igreja proclama solenemente o Evangelho da Paz, porque Cristo é o principal arauto da paz eterna, da paz que é amor, acolhida do diferente e persistente misericórdia. Ao celebrarmos, portanto, Maria Santíssima, a Rainha da PAZ, mãe da Paz, celebramos a paz que Cristo nos deixou(Cf. Jo 14,27) e devemos anunciar ao mundo que a Paz somente será possível na cultura da vida que é buscada no Senhor. A presteza em buscar o Senhor, à vontade de servi-lo faz parte da amizade. Vimos que “buscar o rosto do Senhor” tem o sentido de querer participar do círculo de seus amigos íntimos, como Maria e José participaram. Todos somos chamados à amizade com Deus(Cf. Jo 15,15), mas ela somente é possível, se apressarmos nossos passos para encontrá-Lo e, encontrando-o, abrirmos nosso coração no sentido de receber a sua graça e doar a nossa fidelidade. Em tudo o que celebramos, neste dia da Paz, busquemos em Maria o alento para glorificar as Maravilhas de Deus, porque para quem tem paz, podemos cantar com a Virgem: “A minha alma engrandece ao Senhor e exulta o meu Espírito em Deus meu Salvador”.

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal