Festa do Natal – Missa do Dia

Com Santo Agostinho sintetizamos a festa que hoje, com júbilo e contentamento, celebramos: “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus”. Ser deus é um sonho permanente da criatura humana, desde o paraíso terrestre. Todos nascemos com permanente saudade do céu. Hoje o sonho se torna realidade. Neste dia santo se satisfaz a saudade. Neste dia não somente Deus “desceu” à terra, mas também o homem “subiu” aos céus. Divindade e humanidade se encontram num abraço verdadeiro, feliz, eterno.

Natal é a festa que une a humanidade e a divindade. É a grande festa da manifestação da divindade. É a festa da união, para sempre da humanidade com Deus. Natal uma verdade que nos alegra e nos dá a certeza da vida eterna.

Os anjos na noite santa cantaram: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados”. A terra tornou-se céu, os homens, maravilhados, se põem a caminho, como os pastores, para ver o céu ao alcance de sua mão, na pobreza linda de uma manjedoura.

Prezados irmãos,

A Primeira Leitura(cf. Is 52,7-10) desta solenidade nos apresenta a alegria da boa-nova, salvação universal. Os reis de Israel não trouxeram a salvação para o seu povo, mas o abandonaram. Deus, ao contrário, não o abandona. Ele o reconduz e reconstrói a cidade destruída. Ressoa agora a boa-nova: “Deus é rei”, e não só de Israel e de Judá, mas de todos os povos. Ele os outorgará liberdade e paz, se eles quiserem reconhecer e aceitar a sua oferta.

À Jerusalém desolada e em ruínas, chega um mensageiro com uma “boa notícia”. Qual é essa “boa notícia” que o mensageiro traz? Ele anuncia “a paz” (“shalom”: paz, bem-estar, harmonia, felicidade), proclama a “salvação” e promete o “reinado de Deus”. A questão é, portanto, esta: Deus assume-se como “rei” de Judá.  Ele não reinará à maneira desses reis que conduziram o Povo por caminhos de egoísmo e de morte, de desgraça em desgraça até à catástrofe final do Exílio; mas Jahwéh exercerá a realeza de forma a proporcionar a “salvação” ao seu Povo – isto é, inaugurando uma era de paz, de bem-estar, de felicidade sem fim.

Num desenvolvimento muito bonito, o profeta/poeta põe as sentinelas da cidade (alertadas pelo anúncio do “mensageiro”) a olhar na direção em que deve chegar o Senhor. De repente, soa o grito das sentinelas. Não é, no entanto, um grito de alarme, mas de alegria contagiante: elas vêem o próprio Jahwéh regressar ao encontro da sua cidade. Com Deus, Jerusalém voltará a ser uma cidade bela e harmoniosa, cheia de alegria e de festa. O profeta/poeta convida as próprias pedras da cidade em ruínas a cantar em coro, porque a libertação chegou. E a salvação que Deus oferece à sua cidade e ao seu Povo será testemunhada por toda a terra, como se o mundo estivesse de olhos postos na ação vitoriosa de Deus em favor de Judá.

A alegria contagiante das sentinelas e os brados de contentamento das próprias pedras da cidade convidam-nos a acolher com alegria e em festa o Deus que veio nos libertar. Se temos consciência da opressão que, dia a dia, nos rouba a vida e nos impede de ser livres e felizes, certamente sentiremos um grande contentamento ao deparar com essa proposta de liberdade que Jesus veio trazer. As sentinelas atentas que, nas montanhas em redor de Jerusalém, identificam a chegada do Deus libertador são um modelo para nós: nos convidam a ler, atentamente, os sinais da presença libertadora de Deus no mundo e a anunciar a todos os homens que Deus aí está, para reinar sobre nós e para nos dar a salvação e a paz.

O salmo responsorial nos leva a cantar a bondade e a fidelidade de Deus para com o seu povo.

Meus caros irmãos,

A Segunda Leitura(cf Hb 1,1-6) nos apresenta as palavras provisórias e a Palavra definitiva de Deus. Em Cristo, plenificaram-se todas as manifestações de Deus. Ele venceu a morte e o pecado: a glória de Deus se manifestou nEle. A fé na sua obra redentora e glorificação junto ao Pai é a base da esperança de nossa própria arrematação.

Na segunda leitura temos as coordenadas fundamentais da história da salvação. Deus é o protagonista dessa história. O texto alude ao projeto salvador de Deus. Esse projeto manifestou-se, numa primeira fase, através dos porta-vozes de Deus – os profetas; eles transmitiram aos homens a proposta salvadora e libertadora de Deus.
Veio, depois, uma segunda etapa da história da salvação: “nestes dias que são os últimos”, Deus manifestou-se através do próprio “Filho” – Jesus Cristo, o “menino de Belém”, a Palavra plena, definitiva, perfeita, através da qual Deus vem ao nosso encontro para nos “dizer” o caminho da salvação e da vida nova. O nosso texto reflete então – sem contudo desenvolver uma lógica muito ordenada – sobre a relação de Jesus com o Pai, com os homens e com os anjos (o que nos situa no ambiente de uma comunidade que dava importância excessiva ao culto dos “anjos” e que lhes concedia um papel preponderante na salvação do homem). Como é que se define a relação de Jesus com o Pai? Para o autor da Carta aos Hebreus, Jesus, o “Filho”, identifica-Se plenamente com o Pai. Ele é o esplendor da glória do Pai, a imagem do ser do Pai, a reprodução exata e perfeita da substância do Pai: desta forma, o autor da carta afirma que Jesus procede do Pai e é igual ao Pai. N’Ele manifesta-se o Pai; quem olha para Ele, encontra o Pai. Definida a relação de Jesus com Deus, o autor reflete sobre a relação de Jesus com o mundo. O Filho está na origem do universo (e, portanto, também do homem); por isso, Ele tem um senhorio pleno sobre toda a criação. Essa soberania expressa-se, inclusive, na encarnação e redenção: Ele veio ao encontro do homem e purificou-o do pecado: dessa forma, Ele completou a obra começada pela Palavra criadora, no início. É como “o Senhor” – que possui soberania sobre os homens e sobre o mundo, que cria e que salva – que os homens o devem ver e acolher.
A igualdade fundamental do “Filho” com o Pai fá-lo muito superior aos anjos: os anjos não são “filhos”; mas Jesus é “o Filho” e o próprio Deus proclamou essa relação de filiação plena, real, perfeita. Não são os anjos que salvam, mas sim “o Filho”.
Sendo a Palavra última e definitiva de Deus, Ele deve ser escutado pelos homens como o caminho mais seguro para chegar a essa vida nova que o Pai nos quer propor. É tendo consciência desse facto que devemos acolher o “menino de Belém”.

Celebrar o nascimento de Jesus é, em primeiro lugar, contemplar o amor de um Deus que nunca abandonou os homens à sua sorte; por isso, rompeu as distâncias, encontrou forma de dialogar com o homem e enviou o próprio Filho para conduzir o homem ao encontro da vida definitiva, da salvação plena. No dia de Natal, nunca será demais insistir nisto: o Deus em quem acreditamos é o Deus do amor e da relação, que continua a nascer no mundo, a apostar nos homens, a querer dialogar com eles, e que não desiste de propor aos homens – apesar da indiferença com que as suas propostas são, às vezes, acolhidas – um caminho para chegar à felicidade plena.

Meus irmãos,

No Evangelho da Vigília de Natal lemos que “José subiu da Galiléia para a Judéia”(cf. Lc 2, 4). A Palestina estava dividida naquele tempo em três províncias políticas: Judéia(onde se situava Jerusalém, Belém e Jericó); Galiléia(onde ficava Nazaré, Cafarnaum, Caná e o Lago de Genesaré) e a Samaria, entre a Galiléia e a Judéia(com a cidade de Samaria e o famoso Poço de Jacó, em Sicar). De Nazaré a Jerusalém são, mais ou menos, 170km. Primeiro, se desce até Jericó, atravessando a Samaria e acompanhando o vale do Rio Jordão. Depois, se sobe a quase mil metros, para alcançar Jerusalém. De Jerusalém a Belém são uns 15 km. Maria teria feito a viagem no lombo de um burrinho.

Como sabemos “não havia lugar na hospedaria”(cf. Lc 2, 7): não devemos pensar a hospedaria de Belém como um hotel hoje. A hospedaria era um terreiro cercado de muros de pedra, ao relento. Num dos cantos, pernoitavam os camelos e os burros; noutro, os homens; noutro as mulheres, noutro eram depositadas as mercadorias. Compreende-se que José não tenha querido expor Maria a um parto público. E saiu à procura de uma das muitas grutas existentes na região. E foi assim, na maior das simplicidades, numa gruta sem dono, no meio da noite, abrigado pela dureza da pedra, aquecido pelo carinho de José, envolto na ternura de uma jovem mãe, que nasceu Jesus, o Filho de Deus entre os homens.

Amados amigos,

Quando Jesus nasceu Otaviano era o Imperador. Jesus nasceu em Belém da Judéia, longe de Nazaré, onde fora concebido e onde era a casa de Maria e José, e nasceu dentro da história dos homens, dentro de um ambiente, dentro de uma família hebréia pobre que devia obedecer, à risca, as leis civis e os decretos das autoridades. Toda a história de Jesus acontece dentro da história da humanidade. Jesus não é um mito, é uma realidade histórica. É Deus em carne e osso humanos. Se a nossos olhos, a  grandeza de Deus se apequena, a pequenez do homem se agiganta, tornando-se “participante da natureza divina”(cf. 2Pd 1,4).

Caros irmãos,

A missa do dia de Natal ressalta a eterna grandeza de Jesus. Poderemos cantar a glória, o Senhorio de Cristo. A Palavra de Deus se tornou existência humana(cf. Jo 1,1-18 ou 1,1-5,9-14). Jesus é tudo o que é manifestação, “palavra” de Deus para nós, desde a palavra da criação, e mesmo antes! Ora, esta manifestação de Deus, sua Palavra é “carne”, existência humana mortal, morando no nosso meio – mas, nesta moradia carnal, nesta existência humana vivida até a morte, se nos revela a glória de Deus, como no seu Templo. E para nós, isto significa decisão: adesão ou rejeição.

Caros irmãos,

O prólogo ao Quarto Evangelho começa com a expressão “no princípio”: dessa forma, João enlaça o seu Evangelho com o relato da criação (cf. Gn 1,1), oferecendo-nos assim, desde logo, uma chave de interpretação para o seu escrito. Aquilo que ele vai narrar sobre Jesus está em relação com a obra criadora de Deus: em Jesus vai acontecer a definitiva intervenção criadora de Deus no sentido de dar vida ao homem e ao mundo… A atividade de Jesus, enviado do Pai, consiste em fazer nascer um homem novo; a sua ação coroa a obra criadora iniciada por Deus “no princípio”.

João apresenta, logo a seguir, a “Palavra” (“Lógos”). A “Palavra” é – de acordo com o autor do Quarto Evangelho – uma realidade anterior ao céu e à terra, implicada já na primeira criação. Esta “Palavra” apresenta-se com as características que o “Livro dos Provérbios” atribuía à “sabedoria”: pré-existência (cf. Prov 8,22-24) e colaboração com Deus na obra da criação (cf. Prov 8,24-30). No entanto, essa “Palavra” não só estava junto de Deus e colaborava com Deus, mas “era Deus”. Identifica-se totalmente com Deus, com o ser de Deus, com a obra criadora de Deus. É como que o projeto íntimo de Deus, que se expressa e se comunica como “Palavra”. Deus faz-Se inteligível através da “Palavra”. Essa “Palavra” é geradora de vida para o homem e para o mundo, concretizando o projeto de Deus. Essa “Palavra” veio ao encontro dos homens e fez-se “carne” (pessoa). João identifica claramente a “Palavra” com Jesus, o “Filho único cheio de amor e de verdade”, que veio ao encontro do homem. Nessa pessoa (Jesus), podemos contemplar o projeto ideal de homem, o homem que nos é proposto como modelo, a meta final da criação de Deus. Essa “Palavra” “montou a sua tenda no meio de nós”. O verbo “skênéô” (“montar a tenda”) aqui utilizado alude à “tenda do encontro” que, na caminhada pelo deserto, os israelitas montavam no meio ou ao lado do acampamento e que era o local onde Deus residia no meio do seu Povo (cf. Ex 27,21; 28,43; 29,4…). Agora, a “tenda de Deus”, o local onde Ele habita no meio dos homens, é o Homem/Jesus. Quem quiser encontrar Deus e receber d’Ele vida em plenitude (“salvação”), é para Jesus que se tem de voltar.

A transformação da “Palavra” em “carne” (em menino do presépio de Belém) é a espantosa aventura de um Deus que ama até ao inimaginável e que, por amor, aceita revestir-Se da nossa fragilidade, a fim de nos dar vida em plenitude. Neste dia, somos convidados a contemplar, numa atitude de serena adoração, esse incrível passo de Deus, expressão extrema de um amor sem limites.

Estimados Irmãos,

Natal é festa dos homens e das mulheres. Festa da alegria porque Deus nasceu para nos salvar. Jesus nos fez, por seus méritos, partícipes da vida eterna. Hoje é um dia muito especial, com festas, com confraternizações, com ternura, com amizade, com perdão, com misericórdia, com acolhida do diferente, com abraço fraterno. Mas não vamos fazer do NATAL uma festa profana, pura e simplesmente, só de troca de presentes. Vamos deixar Jesus nascer na nossa vida, com uma conversão sincera, e uma adesão a este Menino que mudou os Rumos da humanidade, nos trazendo a paz e a salvação eterna, porque “Nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado(cf. Lc 2, 11)”.

Todos nós devemos nos deixar possuir por Deus, como a sala é possuída de ar e pela luz. Não nos fechemos a Jesus. Contemplando a simplicidade da manjedoura, todos somos chamados a sermos pobres e santos fazendo com QUE JESUS MORE EM NOSSAS VIDAS PORQUE O SENHOR ESTEJA CONVOSCO: ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS!

Jesus veio ao nosso encontro, morar conosco: “Ele armou sua tenda entre nós”(cf. Jo 1,14)

Natal é festa da comunidade, é festa da família: a união da família divina a família humana. Assim, vivamos com intensidade este dia santo na busca do rosto de Deus: um rosto de amor em nosso favor.

Feliz Natal!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal