Homilia da Epifania do Senhor

Meus queridos Irmãos,

Estamos caminhando para o encerramento do encantamento do tempo de Natal: tempo em que o Senhor Jesus se encarnou no seio da Virgem Maria, Mãe de Deus, Mãe da Igreja e Mãe dos seres humanos, para voltarmos ao cotidiano do tempo comum. A festa que hoje celebramos, conhecida como Solenidade, ou seja, como tempo forte dentro da vida de fé e de comunidade, é considerada, pela Liturgia da Igreja, a “manifestação do Deus”. Assim, por esta celebração, somos convocados a rezar pela unidade de todos os seres humanos. Nosso Senhor Jesus Cristo superou, pela sua encarnação, todas as dificuldades e diferenças para demonstrar ao mundo que formamos uma só família, um só povo, um só rebanho, e que, assim, somos herdeiros do Trono da Graça Divina, que somos herdeiros do Reino de Deus. Com esta pia certeza, queremos caminhar juntos na mesma direção para construirmos um mundo mais fraterno, mais igualitário, com paz, solidariedade e harmonia entre as gentes.

Irmãos e Irmãs,

Aqui em Minas a festa da Epifania é conhecida como a festa dos Santos Reis Magos. É muito comum desde o tempo da Natal até a oitava da Epifania as companhias de Reis percorrerem as ruas e as vielas de nossas cidades e os trilhos e as estradas de terra de nossos campos cantando as alegrias do Natal e dançando a felicidade que não tem fim do Nascimento do Redentor da Humanidade. É o próprio Senhor Jesus que como luz dos povos quer interpelar os cristãos e os não crentes para a grande evangelização que deve ser feita pela sua manifestação ao orbe, cristão ou não, em que o seu Nascimento e a sua manifestação, pela visita dos Reis Magos, e hoje pela nossa adesão ao seu projeto de vida e de salvação, realizam na humanidade, que clama pelo Pai, Abbá, ó Pai.

Epifania é manifestação. Manifestação de que e para quem? Manifestação que a Igreja Santa e Católica anuncia e acentua da revelação de Jesus, Filho de Deus, como único Salvador de todos os povos e de todas as gentes.

Os sinais da manifestação do Menino-Deus estão hoje com profundidade acentuados pela liturgia que celebramos: a estrela, os milagres, o ouro, o incenso, a mirra, as Sagradas Escrituras, os astros, os sacerdotes, os escribas, tudo tem um significado e uma manifestação que bem demonstra que Jesus veio romper com o rigorismo dos judeus e anunciar a salvação para todos os povos, para todas as gentes, sem distinção alguma.

Epifania é a festa dos peregrinos, daqueles que caminham não errantes, mas com um norte que é o próprio Cristo Salvador. Quem se colocar fiel no caminho de Deus, fiel e persistente, unindo razão e fé, terá pelo próprio Cristo, luz dos povos e das Nações, um caminho e um porto seguro, ou seja, a vida eterna, a vida na Trindade.

Caros Irmãos,

A Primeira Leitura(cf. Is. 60,1-6) relata a Adoração universal em Jerusalém. Em Is 9,1 anunciou-se a nova luz para a região da Galiléia, despovoada pelas deportações(732 aC). Duzentos anos depois, um profeta da escola de Isaías repete a mesma imagem, aplicando-a a Sião, ao povo de Judá que, de volta do exílio, se meteu a reconstruir a cidade e o templo(cf. Is. 60,1). “Torna-te luz”, esquece a fadiga e o desânimo, Deus está perto. As nações devolvem a Israel seus filhos e filhas que ainda vivem no estrangeiro, e oferecem suas riquezas ao Deus que realmente salva o seu povo. No Novo Testamento, os magos que vêm do Oriente realizam esta profecia; a eles, o Cristo apareceu como a misteriosa “luz”.

O profeta sonha com uma Jerusalém muito diferente daquela que os retornados do Exílio conhecem. Essa nova Jerusalém levantar-se-á quando chegar a luz salvadora de Deus, que dará à cidade um novo rosto. Nesse dia, Jerusalém vai atrair os olhares de todos os que esperam a salvação. Como consequência, a cidade será abundantemente repovoada (com o regresso de muitos “filhos” e “filhas” que, até agora, assustados pelas condições de pobreza e de instabilidade ainda não se decidiram a regressar); além disso, povos de toda a terra – atraídos pela promessa do encontro com a salvação de Deus – convergirão para Jerusalém, inundando-a de riquezas (nomeadamente incenso, para o serviço do Templo) e cantando os louvores de Deus.

Na catequese cristã dos primeiros tempos, esta Jerusalém nova, que já “não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a comunidade dos que aderiram a Jesus e acolheram a luz salvadora que Ele veio trazer (cf. Ap 21,10-14.23-25).

Prezados irmãos,

A Segunda Leitura(cf. Ef. 4,2-3.5-6) ensina que os gentios participam, também, das promessas divinas em Cristo. As promessas do Antigo Testamento se dirigem a Israel. Mas Deus vê mais longe. Isso, já os antigos profetas o sabiam, mas o judaísmo o esqueceu. Até Paulo o aprendeu com surpresa: a revelação do grande mistério, de que também os gentios são chamados à paz messiânica; e a revelação de sua missão pessoal, de levar esta Boa Nova aos pagãos.

A Carta aos Efésios apresenta-se como uma “carta de cativeiro”, escrita por São Paulo da prisão. É, de qualquer forma, uma apresentação sólida de uma catequese bem elaborada e amadurecida. A carta parece apresentar uma espécie de síntese do pensamento paulino.

O tema mais importante da Carta aos Efésios é aquilo que o autor chama “o mistério”: trata-se do projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, escondido durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja.

Na parte dogmática da carta (cf. Ef 1,3-3,19), Paulo apresenta a sua catequese sobre “o mistério”: depois de um hino que põe em relevo a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo na obra da salvação (cf. Ef 1,3-14), o autor fala da soberania de Cristo sobre os poderes angélicos e do seu papel de cabeça da Igreja (cf. Ef 1,15-23); depois, reflete sobre a situação universal do homem, mergulhado no pecado, e afirma a iniciativa salvadora e gratuita de Deus em favor do homem (cf. Ef 2,1-10); expõe, ainda, como é que Cristo – realizando “o mistério” – levou a cabo a reconciliação de judeus e pagãos num só corpo, que é a Igreja (cf. 2,11-22)…

O texto que nos é proposto vem nesta sequência: nele, Paulo apresenta-se como testemunha do “mistério” diante dos judeus e diante dos pagãos (cf. Ef 3,1-13). São Paulo insiste que, em Cristo, chegou a salvação definitiva para os homens; e essa salvação não se destina exclusivamente aos judeus, mas destina-se a todos os povos da terra, sem exceção.

Paulo é, por chamamento divino, o arauto desta novidade… Percebemos, assim, porque é que Paulo se fez o grande arauto da “boa nova” de Jesus entre os pagãos… Agora, judeus e gentios são membros de um mesmo e único “corpo” (o “corpo de Cristo” ou Igreja), partilham o mesmo projeto salvador que os faz, em igualdade de circunstâncias com os judeus, “filhos de Deus” e todos participam da promessa feita por Deus a Abraão (cf. Gn 12,3) – promessa cuja realização Cristo levou a cabo.

A Igreja, “corpo de Cristo”, é a comunidade daqueles que acolheram “o mistério”. Nela, brancos e negros, pobres e ricos, ucranianos ou moldavos – beneficiários todos da ação salvadora e libertadora de Deus – têm lugar em igualdade de circunstâncias.

Meus queridos Irmãos,

O Evangelho de hoje(cf. Mt. 2,1-12) proclama que em Cristo se realizam todas as profecias, porque Jesus é a plenitude de todos os tempos. Todas as criaturas existem para servir o Senhor e anunciá-lo, cada uma a sua maneira. O Menino-Deus nascido numa gruta de Belém é ele, em pessoa, a “estrela da manhã”, na expressão do Ap 22,16, e estrela que se levanta não no firmamento, mas, como acentua o Primeiro Pontífice se levanta no coração dos fiéis (cf 2Pd 1,19).

Isaías anuncia a luz que chega de Jerusalém na primeira Leitura: a Luz do Senhor Jesus. Luz que inundou e inunda todas as nações. Luz que é o próprio Cristo Senhor. Luz que é próprio Cristo porque o Cristo é aquele que dá a salvação ao mundo, que dá a salvação aos homens.

A estrela dos Magos tem uma simbologia sintomática na vida dos cristãos: a estrela dos Magos que levaram os Magos até Jesus é o próprio Jesus que como uma estrela está continuamente nos guiando para os prados do Senhor, para os prados da Vida Eterna.

Epifania que significa a universalização da salvação. Salvação que vem para os bons e para os maus, cada qual na proporção da sua opção de vida. Deus deixa o bem e o mal coexistirem no mundo. A presença do mal é um mistério. A ação do maligno é uma desgraça. Temos a experiência do mal e ninguém ate hoje conseguiu explicá-la.

Assim, no Evangelho de hoje o Rei Herodes encarna as pessoas do mal, ativa e militantemente más, que, por terem medo e receio do bem, procuram destruir Jesus. Os Magos personificam o lado de Deus, o lado do bem da humanidade à procura do Sumo Bem, encarnado pela manifestação do próprio Senhor Jesus. Assim Jesus veio tanto para Herodes – que personifica o mal – como para os Magos – que anunciam a salvação e vivem o bem e a vida em Deus. Todos mesmo o mais cruel pecador merecem a compaixão e a misericórdia de Deus. A salvação que vem sempre de Jesus depende da disposição, da procura, do combate espiritual de cada humano que deve abrir o seu coração para a misericórdia de Deus.

Caros irmãos,

Diante de Jesus, o libertador enviado por Deus, estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Além de uma catequese sobre Jesus, o Evangelho recolhe, de forma paradigmática, duas atitudes que se vão repetir ao longo de todo o Evangelho: o Povo de Israel rejeita Jesus, enquanto que os “magos” do oriente (que são pagãos) O adoram; Herodes e Jerusalém “ficam perturbados” diante da notícia do nascimento do menino e planeiam a sua morte, enquanto que os pagãos sentem uma grande alegria e reconhecem em Jesus o seu salvador.

Meus amigos,

Os presentes que magos apresentaram a Jesus foram à mirra, o incenso e o ouro. A mirra é uma resina cheirosa, tirada de algumas coníferas, usada em pó ou líquida para perfumar ambientes, preparar óleos sagrados ou defuntos para o velório. A mirra simboliza a humanidade de Jesus, os sofrimentos pelos quais padeceria em sua vida. O incenso simboliza a divindade de Jesus, que os Magos foram adorar. E o ouro realça a dignidade de Rei do Senhor Jesus.

E nós, quais os presentes que hoje levaremos para o Menino Deus? Num mundo em que tantas pessoas estão afastadas de Deus e não levando a sério o Nascimento de Jesus e a salvação que Ele nos oferece vamos nos mantermos firmes na nossa fé. Não vamos oferecer os presentes reais, humanos ou divinos. Vamos oferecer o maior presente que recebemos de nossos pais, a nossa fé católica e apostólica, saindo de nosso comodismo e anunciando Jesus para que todos vivam com intensidade a manifestação do Senhor, vivendo com o amor o mistério que professamos em nossa vida. Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal.