Homilia de todos os santos

 

A Festa de Todos os Santos abrange os três momentos do tempo, além da dimensão universal do espaço. De fato, celebramos os justos do passado, celebramos a vocação à santidade futura – o “céu” – e celebramos a santidade como dom  – graça – presente.

Como esta dimensão presente é a em que menos se pensa quando se fala de santidade, achamos que ela merece uma atenção especial: é a mensagem das Bem-Aventuranças, no Evangelho que hoje refletimos.

As Bem-Aventuranças devem ser entendidas como uma proclamação da chegada do Reino de Deus para as pessoas que vão ficar felizes como isso. São, ao mesmo tempo, a proclamação da amizade de Deus para aqueles que participam do espírito que é evocado por oito exemplificações, e um programa de vida para todos os que escutam a palavra de Cristo. Este programa de vida já entra em ação desde que alguém se torna discípulo de Jesus: os que estão realizando este programa já são “santos”.

Por isso, este evangelho foi escolhido para a festa de hoje. Jesus proclama a bem-aventurança – a felicidade, o bom encaminhamento, a boa venturança dos pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus, ele não quer dizer o além da morte – uma recompensa futura pela carência na terra – mas a realidade presente. Reino dos Céus é uma maneira semítica de dizer Reino de Deus.

E o Reino de Deus começa onde se faz à vontade de Deus, como aprendemos do Pai-Nosso, que Jesus ensina em seguida. Se entendêssemos as Bem-Aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Mas o contrário é pura realidade: elas são um verdadeiro incentivo para realizar, aqui e agora, o novo espírito, que traz presente o Reino de Deus entre nós, na nossa comunidade de fiéis.

Caros irmãos,

“Ser santo significa ser de Deus.”

Somos filhos de Deus. Somos criados à imagem e semelhança de Deus. Assim somos hoje chamados a contemplar à cidade santa do céu, habitada por milhões e milhões de homens e mulheres, de todas as raças, línguas e tempos, que glorificam a Santíssima Trindade e gozam da mais perfeita e íntima comunhão de amor e vida divina como Senhor: aqui está o conceito mais perfeito e exato da Festa de todos os santos canonizados e anônimos que hoje celebramos.

É uma festa de louvor perene e de doce esperança. De louvor a Deus que, aceitando-nos como filhos e filhas, nos tornou herdeiros do céu, da bem-aventurança eterna. De esperança, porque, apesar das tentações, dos pecados da vida terrena, temos um destino, um viés de eternidade.

Celebramos os nossos santos, os que nos precederam rumo ao céu. Mas celebramos, sobretudo, o caminho de santidade dos santos e santos e o nosso caminho para esta santidade de vida e de estado.

Celebramos a santidade em dois caminhos. O primeiro caminho é a santidade aqui e agora. Porque já agora somos filhos de Deus, como nos ensina a segunda Leitura retirada da 1 Carta de João 3,1-3: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é!”. (cf. 1 Jo 3,2). Sim, veremos Jesus tal como ele é. Por isso neste mundo nós devemos ser como Jesus é: pobres de espírito, pacíficos, aberto aos aflitos, àqueles que procuram a justiça, porque assim seremos santos aqui e agora.

O segundo caminho é o caminho que coincide com a nossa irmã Morte: vamos caminhando ao encontro do Cristo Misericordioso. A morte é o aguilhão da vida plena. Não é castigo ou muito menos motivo de desespero, é o encontro definitivo como Cristo. Por isso é necessário estarmos preparados. É o Momento do Encontro com o Cristo Juiz Misericordioso e Compassivo.

Os santos passaram por essa porta estreita. Por isso vêem a Deus tal como ele é e são nele transfigurados (cf. 1Jo 3,2). Também nós o veremos como ele é e seremos nele transfigurados, quando, pela morte biológica, nasceremos para a eternidade. Por isso a vida não é tirada, mas sim transformada.

Nesta mensagem de esperança ela responde às nossas interrogações sobre o destino dos defuntos. Que vieram a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que viremos a ser? A resposta é uma dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já a que futuro nos conduz a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele.

Caros irmãos,

Na primeira leitura(cf. Ap 7,204.9-14), entre as visões das catástrofes do fim do mundo, surge a visão da glória dos eleitos, fruto da salvação que vem “de nosso Deus… e do Cordeiro”(cf. Ap 7,10). Por seu sacrifício, o Cordeiro venceu a morte. Desta vitória participam os que, especialmente no sacrifício do martírio, “branquearam suas vestes no sangue do cordeiro”.

Não o número dos eleitos é o que esta leitura quer  mostrar, mas a vitória sobre as forças do mau que se opõem a Cristo e a sua comunidade. As visões do profeta cristão trazem uma mensagem de esperança nesta provação. É uma linguagem codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear diretamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilônia. A revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro. Que paradoxo! O próprio Cordeiro foi imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado. Ele transformou o caminho de morte em caminho de vida para todos aqueles que O seguem, em particular pelo martírio, e eles são numerosos; participam doravante ao seu triunfo, numa festa eterna.

Queridos irmãos,

Hoje o Santo Evangelho(cf. Mt. 5,1-12) propõe as Bem-Aventuranças do Sermão da Montanha. Este Sermão é o Retrato do Senhor Ressuscitado. Um ideal ao nosso alcance, não a ser alcançado pelos critérios humanos, mas pela graça santificante, pelo auxílio do Cristo, pela abertura de nosso coração e de nossa alma ao Salvador. Assim, os santos foram capazes de se enamoraram pelas bem-aventuranças e de crerem que seriam capazes de medir a sua vida por elas, ora ressaltando uma, ora se penitenciando para alcançar outra bem-aventurança.

A felicidade de Jesus é bem diferente da felicidade passageira deste mundo. O mundo nos reserva o ser, o poder e o prazer que são transitórios. A felicidade que Jesus prega envolve o passado, porque se enraíza na doutrina que ele deixou; o presente, porque é dinâmica e exigente; e o futuro, porque é à base do Reino dos Céus, que começa aqui e plenifica-se na eternidade.

As criaturas, ou seja, todos nós seus filhos, fomos criados para a eternidade, não para a desgraça. O desejo de felicidade é para todos. A plenitude da felicidade depende da vivência feliz nesse mundo, porque o Reino dos Céus começa e se constrói na vida presente. Jesus de Nazaré é o modelo de quem viveu na terra a plenitude das bem-aventuranças. Por isso é ele também o modelo da felicidade eterna.

As bem-aventuranças são o espelho daquilo que o verdadeiro discípulo deve ser. O discípulo é construtor do Reino, mas, antes de agir, ele precisa se caracterizar e qualificar. Daí Jesus exigir qualidades. Elas serão condição e roteiro ao mesmo tempo. Ponto de partida e ponto de chegada. No mesmo sentido de quando dizemos que caminhamos para Deus. Só caminha para Deus quem parte de Deus.

As três primeiras bem-aventuranças propõem a libertação da criatura humana de três grandes empecilhos: o apego ao dinheiro, a soberba da auto-suficiência e o preconceito de que só é feliz quem não sofre dificuldades. Aos três obstáculos, o Senhor contrapõe o espírito de pobreza, a mansidão e serenidade nas lágrimas.

Se as três primeiras bem-aventuranças asseguram-nos independência, desapegando-nos das coisas, libertando-nos da soberba que gera violência, e pondo-nos dentro da realidade conflituosa de cada dia, as outras cinco estão voltadas para a ação e, no seu conjunto, perfazem a grandeza do homem novo: justiça, misericórdia, pureza de intenção, paz, paciência. Não há misericórdia sem justiça. Não há paz para quem lavra na falsidade. A paciência é a força histórica do povo de Deus que espera a realização do Reino, não de braços cruzados, mas na atividade da construção da paz e da justiça.

Meus irmãos,

Vivamos sempre, no cotidiano desta preparação para o ano da misericórdia, o Evangelho desta festa, ao anúncio das Bem-Aventuranças, que há pouco ouvimos ressoar neste dia santo em nossos corações. Jesus diz: Bem-aventurados os pobres de espírito, bem-aventurados os aflitos, os mansos, quem tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, bem-aventurados os puros de coração, os pacificadores, os que sofrem perseguição por causa da justiça (cf. Mt 5, 3-10).

Na realidade, o Bem-Aventurado por excelência é somente Ele, Jesus. No seu conjunto, as “bem-aventuranças” deixam uma mensagem de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse “Reino” onde vão encontrar a felicidade e a vida plena.

O Reino de Deus identifica-se na pessoa de Jesus e com a pessoa Dele. E Jesus continua presente no meio de nós(cf. Mt 28,20), como confessamos em todas as missas. Esta é a festa em que unimos as três dimensões da Igreja: a Igreja militante, padecente e triunfante.

A Santidade é participar da vida de Deus, que é “o Santo”. E sendo nós pecadores, supõe um processo de conversão permanente. Para ser santo, Cristo nos deixou alguns meios: como Os Sacramentos, a Igreja, a Oração, a Palavra de Deus. Acolhamos o Apelo de Deus à Santidade e que os Santos sejam nossos modelos e intercessores. Amém!

Homilia escrita por: Padre Wagner Augusto Portugal.