1º Domingo da Quaresma

Meus queridos Irmãos,

A liturgia vive a sobriedade a o introspecto da Quaresma: tempo de penitência; tempo de conversão e tempo de mudança de vida. Grande retiro que a Igreja nos convida a caminhar na busca do combate espiritual para que, na Páscoa, possamos ressurgir do pecado e viver a vida nova em Jesus, o Ressuscitado que ilumina e dá sentido a nossa vida e a nossa caminhada.

Irmãos e Irmãs,

Entra ano e sai ano a liturgia católica inicia a Quaresma com a reflexão das tentações sofridas por Jesus vindas do demônio. As três tentações que são sofridas por Jesus e relatadas no Evangelho de hoje (cf. Lc. 4,1-13) são as três grandes tentações que sofrem os cristãos: A primeira tentação é de colocar os bens materiais na frente dos bens espirituais. Essa tentação consome todos os cristãos na sua grande maioria: o apego desvairado aos bens do mundo, ao ter sem escrúpulos e a todos os martírios da vida moderna em que o ter está no lugar do ser. Esta tentação está intimamente ligada na ausência de santidade, na falta do cultivo da santidade como meta de todos os cristãos. A segunda tentação é a do Poder. Esta tentação anda junta com a dominação o que não favorece a vida comunitária, o afeto dos irmãos e a amizade espiritual que deve a todos irmanar. A terceira e última tentação é o Orgulho: o orgulho que anula a graça de Deus e quer dominar o próprio Redentor e todo o gênero humano. O orgulhoso não se abre a Deus, se fechando a comunidade e aos irmãos.

Muitas outras tentações devem ser combatidas e eliminadas de nossa vida neste “iter” quaresmal: a gula, a ganância, a avareza, o apego aos bens materiais; a injustiça, a exploração, a violência, a insensibilidade, a prepotência, a arrogância, a inveja, a luxúria, a aparência, a soberba, a vanglória, a impiedade, a hipocrisia, a arrogância, a blasfêmia, a auto-suficiência, o desprezo da graça e a incredubilidade. Todas as tentações que o diabo nos traz e que podem servir como um bom exame de consciência no cumprimento do preceito de confissão auricular para a devida preparação para as festas da Páscoa.

As tentações de Jesus são as mesmas tentações do povo israelita na sua travessia pelo deserto. Lucas, entretanto, diz que Jesus estava repleto do Espírito Santo e por ele foi levado ao deserto, onde foi tentado pelo demônio por quarenta dias. O pano de fundo das tentações é a dialética entre o bem e o mal que se enfrentam, que preocupa todas as religiões, primitivas e recentes, e também aos que não tem fé. Para o Evangelista, o demônio é uma realidade. Jesus acreditou na existência de Satanás, como príncipe do mal e a quem chama de homicida e embusteiro. São Paulo designou o demônio de deus deste mundo. No episódio relatado pelo Evangelho hodierno, exatamente porque Jesus viera recriar o mundo e refazer a situação das criaturas humanas, o Evangelista mostra a preocupação do demônio com o que estava por acontecer. E o faz enfrentar astutamente Jesus, como enfrentara o primeiro homem.

O que queria o demônio de Jesus?: primeiro afastar Jesus de seu caminho e de sua missão que era a Paixão, Morte e Ressurreição. O demônio propõe a Jesus dar pão para todos. Numa gíria de hoje Jesus seria o “bom da bola”, ou seja, aquele bonzinho que vem como o salvador da pátria para os deserdados das misérias humanas. Nada espiritual bastaria dar pão e circo ao povo: assim ofereceu o demônio para Deus. Jesus não veio para os prazeres e as alegrias deste mundo, mas para as alegrias eternais, no reino dos céus, onde não há ódio e nem doenças, mas o encantamento infinito. Num segundo momento, por conseguinte, o demônio ofereceu a Jesus uma liderança política. Uma política a serviço do mal e da opressão, bem ao gosto das forças do inferno. Jesus não veio como um libertador político. A sua libertação é ontológica e completa: essa liberdade significa submeter Satanás ao seu reinado colocando todos, inclusive o demônio, debaixo de seus pés. Por fim, num terceiro momento, o demônio exclama que Jesus não deve confiar no Pai dos Céus. Um Cristo pairando no ar, na praça do templo de Jerusalém, teria certamente muito mais seguidores do que um Cristo pregado na cruz, fora da cidade entre os criminosos de então. Essa tentação do demônio para com Jesus é uma tentação que o espírito do mal infringe sempre nos homens: querer impor a Deus o que ele deve fazer.

O demônio se afasta de Jesus quando o Redentor olha para o Pai e exclama: “NÃO SEJA FEITA A MINHA VONTADE, MAS A SUA VONTADE! ” 

Meus queridos irmãos,

Na ânsia pela vinda do Senhor, sempre podemos crescer mais, e é ele que nos deixa crescer, para que sua chegada seja preparada do modo mais perfeito possível.

A primeira leitura(cf. Dt 26, 4-10) nos lembra essa verdade fundamental. Jerusalém, na época de Jeremias, era uma cidade em ruínas. Mas o profeta lhe anuncia um futuro melhor. A cidade chamar-se-á “Deus nossa justiça”. É Deus quem o fará. Já o apóstolo Paulo, na segunda leitura, nos deseja crescimento na justiça, para sermos encontrados irrepreensíveis, quando Jesus vier de novo. A Primeira Leitura apresenta o Credo do Israelita – Trata-se de uma oração da oferenda da safra, profissão de fé de Israel em Javé, que livrou Israel da pobreza e da opressão no Egito e o introduziu na Terra Prometida. Cada israelita entende a história de Israel com Deus como sendo sua história pessoal e sabe-se chamado a uma resposta: um cesto cheio de frutos da Terra Prometida, mas também a alegria por tudo aquilo que Deus dá.

Uma das tentações frequentes na vida do homem moderno é colocar a sua vida, a sua esperança e a sua segurança nas mãos dos falsos deuses: o dinheiro, o poder, o êxito social ou profissional, a ciência ou a técnica, os partidos, os líderes e as ideologias ocupam com frequência nas nossas vidas o lugar de Deus. O orgulho, o egoísmo, a autossuficiência também leva o homem a prescindir de Deus. Os êxitos e as realizações são atribuídos exclusivamente ao esforço e ao gênio humano, como se o homem se bastasse a si próprio… Deus chega mesmo a ser visto, não como a referência última da nossa história e da nossa vida, mas como um estorvo que impede o homem de ser livre e de seguir o seu caminho de busca de felicidade.

Meus caros irmãos,

A Segunda Leitura (cf. Rm 10, 8-13) apresenta o Credo Cristão. Se a fé de Israel se resume em “Javé libertou Israel do Egito”, a do cristão em: “Deus ressuscitou Jesus dos mortos” (Rm 10,9). E a isso corresponde a proclamação: “Jesus é o Senhor”. Esta fé não se proclama da boa para fora; deve vir do coração, do mais íntimo sentir e pensar, da totalidade da pessoa (Rm 10,9). O espaço desta fé é a comunidade, mas também o mundo inteiro, pois todos têm o mesmo Senhor. Porém, só o poderão reconhecer se a mensagem lhes for transmitida de modo fidedigno.

A Carta aos Romanos é considerada, por alguns exegetas, a “carta da reconciliação”. Estamos nos anos 57/58; a convivência entre judeu-cristãos e pagão-cristãos apresenta algumas dificuldades, dadas as diferenças sociais, culturais e religiosas subjacentes aos dois grupos. A comunidade cristã corre o risco de radicalizar as incompatibilidades e de se dividir… Nesta situação, Paulo escreve para sublinhar aquilo que a todos une. O centro da carta seria, de acordo com esta perspectiva, 15,7: “Acolhei-vos, pois, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus”. O orgulho e a autossuficiência aparecem sempre como algo que fecha aos homens o caminho para Deus. Conduzem o homem ao fechamento em si próprio e a prescindir de Deus e dos outros. Os orgulhosos e autossuficientes correspondem aos “ricos” das bem-aventuranças: são os que estão instalados nas suas certezas, no seu comodismo, no seu egoísmo e não estão disponíveis para se deixar desafiar por Deus e para acolher, em cada instante, a novidade e o amor de Deus. Por isso, são “malditos”: se não estiverem dispostos a abrir o seu coração a Deus, recusam a salvação que Deus tem para oferecer.

Meus irmãos,

A cada ano a Igreja é convidada a fazer a experiência do deserto, preparando-se assim para vivenciar a Páscoa da Ressurreição. A exemplo do povo de Israel, a exemplo de Jesus Cristo, devemos deixar nos conduzir pelo Espírito ao deserto. Aí, despojada de si mesma, terá que se confrontar com as tentações que também hoje a atingem: a garantia da vida terrena sem reconhecê-la como dom de Deus; a tentação do poder e da glória humana; a tentação de prescindir de Deus, colocando-se em seu lugar.

Assim a Igreja, que somos todos nós, poderá seguir o Cristo até Jerusalém, orando-se com Ele vitoriosa contra o pecado, contra o inimigo, contra o mal. As armas na luta contra o demônio e o espírito do mal serão a oração, que nos coloca como filhos e filhas orantes do Criador; o jejum, fazendo uso dos bens terrenos com liberdade, e a esmola, ou seja, a partilha do que recebemos generosamente da misericórdia divina. Com todas estas atitudes vamos transformar o deserto em paraíso, pois onde o ser humano se encontra peregrinando se encontra com Deus, o peregrino da paz, e nele vive, lá acontece à vida em Deus. A árvore seca, a Cruz de Cristo readquire nova vida, porque carregou o fruto da obediência, pela qual a humanidade foi salva.

Desejo, de coração, uma renovação espiritual a todos e que o espírito da Quaresma seja de libertação, não exterior, mas interior na espera de Deus que passa pela experiência do deserto, para viver a experiência do céu. Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal