Homilia dominical

Irmãos e Irmãs,

A liturgia deste domingo nos convida a refletir sobre a família e o matrimônio cristão. Celebramos, com júbilo, o Deus da aliança e o dom da união matrimonial dos casais que também procuram viver a missionariedade. Vamos refletir sobre o discipulado – ser discípulo: o matrimônio segundo o projeto de Deus, para que enquanto família cristã sejamos todos discípulos-missionários.

O tema, portanto, é o matrimônio sob a vontade de Deus. Jesus veio trazer presente o Reino de Deus, também quanto ao sacramento do matrimônio: é preciso que seja o matrimônio restaurado no sentido que Deus mesmo lhe concebeu, desde o início. Este sentido se encontra descrito na primeira Leitura que hoje lemos retirada de Gn 2, 18-24. Preocupado com a felicidade e Adão, “o Homem”, Deus lhe procura uma companhia, uma companheira, mas como entre os outros seres vivos não a encontra, faz a mulher, da “metade” do homem.

Este episódio significa a complementaridade de homem e mulher, que se transforma numa unidade de vida, numa única carne, quando o homem opta por uma mulher e, por causa desta opção, deixa sua família de origem e a segurança que seus pais lhe oferecia. Sai de casa para casar sendo um risco e um compromisso.

A Sagrada Escritura coloca o matrimônio não como um contrato que pode ser dissolvido. Ao contrário o matrimônio é uma comunhão de amor e uma comunhão de vida entre o homem e a mulher, com vínculos indissolúveis, para toda a vida, tendo por fim a edificação de uma família, com a concepção de filhos que enriqueça o lar e adorne de filhos a família abençoada.

Meus queridos Irmãos,

Dois grandes momentos são vividos no Evangelho de hoje(Mc. 10,2-16). O primeiro momento é a fidelidade do ser humano a Deus. Naturalmente cada criatura humana deve ser fiel ao Deus que lhe concede, com misericórdia e amor, o dom da vida. Ser fiel é condição primeira para ser discípulo.

Fidelidade que se manifesta nas pequenas e nas grandes coisas e, obras que constroem o Reino de Deus entre nós. Fidelidade a Deus, fidelidade aos Santos Evangelhos, fidelidade ao projeto de salvação, fidelidade ao Reino de Deus que acontece e realiza aqui na terra tendo a sua plenitude no céu. O segundo momento é muito nítido: a fidelidade matrimonial como uma expressão de fidelidade ao Senhor Deus. Fidelidade matrimonial, que é casamento para toda a vida, casamento indissolúvel.

01Em tempos em que as pessoas experimentam o verbo “ficar”, sem nenhum compromisso de vida a dois, de cumplicidade, de amassar um caminhão de cimento, para solidificar a casa chamada Igreja doméstica, é necessário subir aos telhados das Igrejas, dos Templos, dos Edifícios, dos shopping centers, de nossos canais de televisão, de nossas rádios, da rede mundial de computadores e anunciar a verdade sempre nova e sempre atual: o matrimônio católico e cristão, querido por Nosso Senhor Jesus Cristo e por Ele instituído, elevado à condição de Sacramento, é o matrimônio entre o homem e a mulher, que tem por finalidade a comunhão de amor e a comunhão de vida, tendo por escopo a bênção de Deus com a edificação de uma família que tem duas graças importantes: a bênção do lar e a perenidade da humanidade por Deus edificada.

O relacionamento abençoado entre um homem e uma mulher é a sede propícia para se exercer a renúncia a si mesmo e aos próprios interesses(cf. Mc 8,34), bem como operacionalizar a disponibilidade ao serviço(cf. Mc 9,35) e a dedicação fiel e sem restrições(cf. Mc 9,43-48).

Por isso, é necessário refletirmos sobre algumas realidades. O que é ser fiel? A fidelidade começa com nossa ação de graças a Deus pelo batismo que recebemos, pela nossa vida, pela nossa fé católica e apostólica. Fidelidade que é exteriorizada por uma autêntica vida de fé em que, fé e vida pessoal, sejam uma única realidade, dando testemunho das verdades eternas. O projeto de Deus para cada um de nós exige reciprocidade e fidelidade, fidelidade a Deus, fidelidade ao Reino, fidelidade ao Evangelho. Por isso cantemos com Jesus: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai”(cf Jo 4,34).

O ponto que a liturgia hoje coloca como central é o matrimônio como símbolo da nossa fidelidade a Deus. Deus celebra uma aliança com a criatura humana, isto é, um pacto como no casamento, ao qual se espera fidelidade de ambos os lados, repito de ambos os lados, do homem e da mulher. Fidelidade que requer sacrifícios, renúncias, sofrimento, mas, também, alegrias, esperanças, felicidades. A alma da fidelidade e, portanto, o amor fraterno, tornando-se, por si só, prova suprema de amor.

Estimados Irmãos e Estimadas Irmãs,

É possível um divórcio para os católicos? Evidentemente que o divórcio não pode ser admitido entre os católicos. É da essência do casamento católico a constituição de uma união indissolúvel, constituindo-se comunidade de vida e comunidade de amor.

O divórcio no tempo de Jesus era uma questão recorrente. Herodes vivia em adultério com a sua cunhada Herodíades. Jesus não entrou diretamente na questão do divórcio. Entretanto, Jesus falou de Moisés e reafirma a indissolubilidade, para não entrar em briga e disputa, nem com Herodes e nem com os escribas. Jesus reafirma: “desde o começo da criação Deus os fez homem e mulher”.

Assim Jesus ensinou que o homem se casa com a mulher uma única vez. Por que isso? Para que o homem e a mulher sejam capazes de um compromisso mútuo e de uma comunhão plena, em pé de igualdade, com direitos e obrigações iguais. Formam uma só carne, muito mais do que a junção de dois corpos. Trata-se da união das pessoas como um todo, como uma só família, uma só pessoa, formando uma comunhão de amor e uma comunhão de vida.

O MANDATO DE JESUS SOBRE O MATRIMÔNIO É EXPLÍCITO: “AOS CASADOS ORDENO, NÃO EU, MAS O SENHOR, QUE A MULHER NÃO SE SEPARE DO MARIDO E O MARIDO NÃO REPUDIE SUA MULHER”(cf. 1Cor 7,10-11).

O homem moderno, utilitarista e imediatista, perdeu o senso da durabilidade do matrimônio. Mas a Igreja, depositária das verdades evangélicas, não se curva ao hedonismo e ao sexo livre, sem compromisso e bênção de Deus.

Que a “dureza do coração” que indica fechamento do coração da criatura humana para Deus nos renove o compromisso de nos abrirmos à reconciliação e a graça de Deus nos tornando como crianças em que Cristo as abraça com carinho, simbolizando o discípulo perfeito que é liberto de seus egoísmos, de seus interesses, de suas pretensões, ganâncias, duplicidade de coração e de mente.

Vamos ser como as crianças e aceitar a vontade de Deus que nos pede uma volta ao Evangelho: senso de retorno ao compromisso com Jesus e com a nossa salvação, a fidelidade e o amor.

Meus irmãos,

A segunda leitura(Hb 2,9-11) nos fala que Jesus é o sacerdote, o santificador, por excelência, por serem sua humanidade e o despojamento os instrumentos pelos quais ele santifica toda a condição humana. Santificou-nos por sua fraternidade conosco. Jesus aceitou despojar-se das suas prerrogativas divinas e fazer-se “por um pouco, inferior aos anjos” a fim de que, pelo dom da sua vida até à morte, se cumprisse o projeto salvador do Pai para os homens (vers. 9).

Depois desta afirmação de princípio, o autor da Carta aos Hebreus vai aprofundar a sua reflexão e explicar porque é que Jesus teve que passar pela humilhação da cruz (a explicação é bem mais longa do que a leitura que nos é proposta e vai do versículo 10 ao versículo 18).

A questão da paixão e morte de Cristo era uma “conveniência” do projeto de salvação que Deus tinha para o homem (“convinha” – vers. 10). O que é que isso significa? O objetivo de Deus é que o homem cresça até chegar à vida plena. Ora, para fazer com que a humanidade atinja esse fim, Deus deu-lhe um guia – Jesus Cristo. Ele devia mostrar, com a sua vida e o seu exemplo, que se chega à plenitude da vida cumprindo integralmente a vontade do Pai e fazendo da existência um dom de amor aos irmãos.

A cruz foi a expressão máxima e total dessa vida de entrega aos desígnios de Deus e de doação aos irmãos. Morrendo por amor, Jesus ensinou aos homens como é que eles devem viver, qual o caminho que eles devem percorrer, a fim de chegarem à plenitude da vida, à felicidade sem fim; morrendo por amor e ressuscitando logo a seguir para a vida plena, Jesus libertou os homens do medo paralisante da morte e mostrou-lhes que a morte não é o fim da linha para quem vive na entrega a Deus e na doação aos irmãos.
Ao assumir a natureza humana, ao fazer-Se solidário com os homens, ao fazer-Se irmão dos homens, Cristo (Aquele que santifica) inseriu os homens (os que são santificados) na órbita de Deus e mostrou-lhes o caminho a seguir para integrar a família de Deus (vers. 11).

Meus caros irmãos,

 

O Papa Bento XVI assim se expressou sobre o matrimônio, no discurso aos Bispos do Regional Nordeste 1 e 4 da CNBB, no dia 25 de setembro de 2009: “a família assentada no matrimônio, como «aliança conjugal na qual o homem e a mulher se dão e se recebem» (cf. Gaudium et spes, 48). Instituição natural confirmada pela lei divina, está ordenada ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, que constitui a sua coroa (cf. ibid., 48). Pondo em questão tudo isto, há forças e vozes na sociedade atual que parecem apostadas em demolir o berço natural da vida humana”.

Continua o Santo Padre: “A Igreja não pode ficar indiferente diante da separação dos cônjuges e do divórcio, diante da ruína dos lares e das conseqüências criadas pelo divórcio nos filhos. Estes, para ser instruídos e educados, precisam de referências extremamente precisas e concretas, isto é, de pais determinados e certos que de modo diverso concorrem para a sua educação. Ora, este princípio que a prática do divórcio está minando e comprometendo com a chamada família alargada e móvel, que multiplica os «pais» e as «mães» e faz com que hoje a maioria dos que se sentem «órfãos» não sejam filhos sem pais, mas filhos que os têm em excesso. Esta situação, com as inevitáveis interferências e cruzamento de relações, não pode deixar de gerar conflitos e confusões internas contribuindo para criar e gravar nos filhos uma tipologia alterada de família, assimilável de algum modo à própria convivência por causa da sua precariedade.”

Portanto, Deus deseja tocar o ser humano que nasce através do amor dos pais. Desta forma, Deus está acolhendo, tocando e abençoando os filhos. Os pais representam o próprio Deus para o filho que nasce. A imagem de Deus que os esposos transmitem deve ser uma imagem de Deus-amor, Deus-bondade, Deus-vida. Tudo isso é dom, é graça, que a comunidade deseja agradecer, pedir que conserve nos casados e desejar, pedindo a graça a Deus, para os jovens, que, um dia, hão de seguir a Cristo no estado de vida do Matrimônio, indissolúvel e para toda a vida. Assim seja!

 

Homilia Dominical por: Padre Wagner Augusto Portugal.