Homilia do dia de finados
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Logo depois da comemoração de todos os santos e santas de Deus, que ontem comemoramos, lembrando daqueles que nos precederam na visão beatífica, entramos hoje no mistério da vida eterna. Lendo o livro “Há um outro mundo” do judeu-católico convertido André Frossard encontramos uma perfeita profissão de fé na vida eterna e na transitoriedade da vida humana com luzes na eternidade da vida em Deus: “Os cemitérios não passam de vestíbulos da ressurreição. A morte é um abrir e fechar os olhos, o intervalo praticamente inexistente que separa a sombra da luz nas bem-aventuranças do Evangelho: Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; apenas terminado o prelúdio que se passa nesta terra, realiza-se a promessa”. 

Meus queridos irmãos,

Celebramos hoje a festa da esperança cristã: a esperança na vida eterna, na vida em Deus. A morte não é a última palavra, mas é a primeira palavra na constância do Criador, no teatro em que monta com a presença querida da Trindade Santíssima, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A vitória sobre a morte é o critério da esperança de todos os cristãos. Se Cristo morreu na Cruz por nossa salvação Ele pavimentou nosso acesso ao Reino dos Céus. Basta que cada um de nós faça a sua parte, colaborando no mistério da vida eterna que se inicia aqui e agora neste vale de lágrimas.

Muitos incréus pensam que a morte é o fim. Pelo contrário, para o cristão a morte é o inicio da vida eterna: “a vida não é tirada, mas a vida é transformada”, conforme nos ensina o prefácio da liturgia de hoje: “Nele (Jesus) brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola!”.(Cf. Prefácio 75 do Missal Romano).

Irmãos e Irmãs,

Ser justo é estar na palma da mão de Deus. E o homem que foi justo em vida está preparando a sua entrada na vida em Deus. Conforme gosta sempre de lembrar o Cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo: “quem pratica a justiça está na palma da mão de Deus”. Quem, em vida, mesmo no último minuto, teve um gesto de arrependimento e começou a conduzir a sua vida pela justiça é digno de entrar no reino dos Justos, no reino dos Céus.

Estar unido em Cristo é configurar a sua paixão, morte e ressurreição. Caminhar com Cristo pelo teatro da paixão, da morte e da ressurreição é preparar-se para ir para o céu, para estar junto daquele que irrompeu a morte anunciando a vida, não a vida transitória, mas a vida eterna.

Não podemos viver com a perspectiva de sermos assumidos pelo Espírito de Deus, para ressuscitar com um corpo não carnal, mas espiritual (Cf. 1 Cor 15,44ss), se não nos acostumarmos ao Espírito desde já. O corpo espiritual de que Paulo exorta é a presença “ao modo de Deus”. Este é o nosso destino.

Irmãos e Irmãs,

A morte deve ser para o cristão a pedra de toque de sua vida. Dá seriedade à sua vida. Valoriza, na vida, o que ultrapassa os limites da matéria, que é só para esta vida. No Evangelho da primeira Missa de finados, Jo 11,17-27, o episódio da morte de Lázaro é muito significativo para a nossa caminhada de fé, de fé na vida eterna. Marta disse categoricamente: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o filho de Deus, que devia vir ao mundo”(Cf. Jo 11,27). Trocando em miúdos a declaração de Marta nada mais é do que afirmar categoricamente que Jesus é a vida eterna, Ele é o caminho para a nossa salvação, Ele é a vida que não se acaba jamais. Quem vê Jesus vê a Deus. Quem aceita a fé de Jesus, não precisa esperar a vida do além para ver Deus, já vê Deus aqui e agora na sua vida comunitária, no seu irmão excluído, nas pequenas e belas coisas do cotidiano. Deus está presente em tudo e em todos, porque “Deus é bom, é misericordioso, é a paz!”.

Meus queridos irmãos,

Festa de finados é festa de todos os que morreram em Deus, daqueles que foram testemunhas da fé cristã. Eles nos precederam na fé. Aparecem como luzes a indicar o caminho, como exemplos de fé, de amor e de fidelidade. Brota, então, o desejo de imita-los, de segui-los no mesmo caminho. A comunidade eclesial, portanto, intercede a Deus para que manifeste a sua bondade e misericórdia para com os que já terminaram a sua carreira nesta terra. A Santa Igreja vive, então, a realidade do Corpo místico de Cristo, manifestado na Igreja peregrina, na Igreja padecente e na Igreja Triunfante. A Igreja Santa reza pelos falecidos, pedindo que Deus lhes conceda o repouso eterno, a participação do convívio eterno com Ele.

Não peçamos a vida terrena. Peçamos a Deus o dom de aceitar e viver a realidade da morte como a vida em Deus, para que superando a mortalidade desta vida e contemplando eternamente a Cristo Redentor de todos possamos cantar: “Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim!” Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal.