Imaculada Conceição da Virgem Maria – B

Meus irmãos,

No tempo do Advento, que é tempo de vigilância, de expectativa, reflexão e de aguardo, na doce espera do Nascimento do Redentor do gênero humano celebramos hoje uma festa muito importante e muito cara a todo o povo brasileiro: a festa de Maria, comprometida com o projeto salvífico de Deus. Só para lembrarmos que a imagem aparecida das águas do Rio Paraíba, em São Paulo, é da Imaculada Conceição, enegrecida pelos anos que esteve submersa naquele rio abençoado.

A festa de hoje celebra a fé da Santa Igreja Católica de que Maria não experimentou o pecado original, para que fosse digna de ser a Mãe do Filho de Deus. A ação salvífica de Deus origina-se na graça e não no pecado. Deus nos convoca, “antes da fundação do mundo, a sermos santos e irrepreensíveis, sob o seu olhar”. A festa de hoje exprime a grandeza da graça de Deus que, ao nos purificar do pecado, em Cristo, torna-se participantes da vida divina. Trata-se de uma visão da Igreja em matéria de eclesiologia – da vida da Igreja – e de escatologia – do tratado das coisas futuras.

Maria Santíssima é a única exceção da participação universal do pecado, que reina desde o pecado original, conhecido como o pecado do Homem e da Mulher. Em Maria Virgem e em sua prole, a Igreja viu a plenitude daquilo que está prefigurado na primeira leitura retirada do livro de Gênesis: a mulher e a sua descendência, pisando aos pés e a cabeça da serpente, encarnação da tentação pecaminosa. Portanto, Maria é a nova Eva, conforme o estudo dos antigos padres da Igreja: “Ave, Eva”.

Caríssimos Irmãos,

A primeira leitura(cf. Gn 3,9-15.20) de hoje nos fala da existência do pecado na vida dos homens e da mulher. Mostra o drama do homem e da mulher diante do Criador, ao se sentirem culpados por algo que lhes roubou a paz, já que caíram no real que não foram capazes de cumprir o que Deus lhes havia determinado. O que é bom ter presente é a capacidade dos homens e das mulheres de caminharem na contramão do projeto de salvação do Deus da vida, de realizar a vontade do Senhor Deus, cedendo ao pecado, aos caprichos pessoais, aos projetos que nunca foram e nunca serão de Deus. É querer ter a tentação de ser o próprio Deus. A leitura primeira é uma constatação do que é a vida humana e a liberdade que o homem tem em escolher entre o bem e o mal.

Um dos mistérios que mais questiona os homens e mulheres dos dias de hoje é o mistério do mal. Esse mal que vemos, todos os dias, tornar sombria e deprimente essa “casa” que é o mundo, vem de Deus, ou vem do homem? A Palavra de Deus responde: o mal nunca vem de Deus… Deus nos criou para a vida e para a felicidade e deu-nos todas as condições para imprimirmos à nossa existência uma dinâmica de vida, de felicidade, de realização plena. O mal resulta das nossas escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso egoísmo e autossuficiência. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de sofrimento, de pecado… Quais os caminhos que eu escolho? As propostas de Deus fazem sentido e são, para mim, indicações seguras para a felicidade, ou prefiro ser eu próprio a fazer as minhas escolhas, à margem das propostas de Deus?

Não podemos prescindir de Deus e caminhar longe d’Ele, por esse comportamento errado leva o homem ao confronto e à hostilidade com os outros homens e mulheres. Nasce, então, a injustiça, a exploração, a violência. Os outros homens e mulheres deixam de ser irmãos, para passarem a ser ameaças ao próprio bem-estar, à própria segurança, aos próprios interesses. A primeira leitura ensina, ainda, que prescindir de Deus e dos seus caminhos significa construir uma história de inimizade com o resto da criação. A natureza deixa de ser, então, a casa comum que Deus ofereceu a todos os homens como espaço de vida e de felicidade, para se tornar algo que eu uso e exploro em meu proveito próprio, sem considerar a sua dignidade, beleza e grandeza.

Irmãos e Irmãs,

Em vista disso todos nós, em contra-partida, somos convocados a cooperar com Deus na realização do seu projeto, comprometendo-se com Deus. No Evangelho desta solenidade(cf. Lc 1,26-38) Maria é apresentada como a mais fiel da humanidade que se comprometeu com a realização do projeto do Pai. Em Gênesis temos a humanidade pecadora que é redimida pela humanidade fiel, cheia de graça, do Evangelho que descreve as maravilhas do Magnificat, entoado diariamente nas Igrejas de todo o mundo com a récita das Vésperas.

Deus projeta em Maria a sua própria imagem e semelhança que não via mais desde o primeiro pecado da história da humanidade. Deus dialoga com as suas criaturas, à partir da Virgem Maria, porque Maria é a representante do povo sofrido. Maria pobre, sem genealogia, sem passado importante, gente simples do povo judeu, buscada na escuridão de uma vida simples, mas digna, é a representante do povo sofrido que foi escolhida para receber em seu seio virginal o Salvador, o Divino Infante.

Maria simples, resignada em cumprir a vontade do Pai, foi a protagonista privilegiada do teatro da salvação, encarnando os anseios do povo de Deus, espoliado e sofrido, exilado e maltratado, trazendo em seu ventre “o ramo de Jessé” que salvará a humanidade, rompendo o tempo de dignidade e de acolhida.

Profundamente comprometida com o povo, com a libertação de todas as amarras que impedem o projeto de salvação, Maria não é sinônimo de amuleto, mas Maria é a consciência critica da vida cristã, a mulher que nos questiona, nos incomoda, que nos convida a conversão e a mudança de vida. Maria é a mulher comprometida com o projeto do seu Filho Jesus.

Celebramos esta Festa da Imaculada Conceição no tempo do Advento, para que todos nós tenhamos consciência do papel que Maria exerce na economia da salvação, apontando uma mulher que assumiu o projeto de Deus em sua vida. Maria cumpriu sua missão oferecendo ao mundo o Filho de Deus, nosso Salvador. Aqui reside o ponto central da missa de hoje: o mistério da Imaculada Conceição é o mistério da perfeita pertença à santidade de Deus, que é o núcleo também da santidade da Igreja e o futuro ao qual todos nós somos chamados. Em Maria, este futuro já é o passado. Por isso o prefácio desta Liturgia proclama “as primícias da Igreja”.

Devemos estar conscientes dos instrumentos de que Deus Se serve para realizar os seus planos… Maria era uma jovem mulher de uma aldeia obscura dessa “Galileia dos pagãos” de onde não podia “vir nada de bom”. Não consta que tivesse uma significativa preparação intelectual, extraordinários conhecimentos teológicos, ou amigos poderosos nos círculos de poder e de influência da Palestina de então… Apesar disso, foi escolhida por Deus para desempenhar um papel primordial na etapa mais significativa na história da salvação. A história vocacional de Maria deixa claro que, na perspectiva de Deus, não são o poder, a riqueza, a importância ou a visibilidade social que determinam a capacidade para levar a cabo uma missão. Deus age através de homens e mulheres, independentemente das suas qualidades humanas. O que é decisivo é a disponibilidade e o amor com que se acolhem e testemunham as propostas de Deus.

Caros amigos,

Devemos ter consciência de que São Paulo fala aos Efésios(cf. Ef 1,3-6.11-12) que Deus tem um projeto de vida plena e total para os homens, um projeto que desde sempre esteve na mente de Deus. Não somos um acidente de percurso na evolução inexorável do cosmos, mas somos atores principais de uma história de amor que o nosso Deus sempre sonhou e que Ele quis escrever e viver conosco. No meio das nossas desilusões e dos nossos sofrimentos, da nossa finitude e do nosso pecado, dos nossos medos e dos nossos dramas, não esqueçamos que somos filhos amados de Deus, a quem Ele oferece continuamente a vida definitiva, a verdadeira felicidade. Deus “elegeu-nos… para sermos santos e irrepreensíveis”. Já vimos que “ser santo” significa ser consagrado para o serviço de Deus. O que é que isto implica em termos concretos? Entre outras coisas, implica tentar descobrir o plano de Deus, o projeto que Ele tem para cada um de nós e concretizá-lo dia a dia com verdade, fidelidade e radicalidade. No meio das solicitações do mundo e das exigências da nossa vida profissional, social e familiar, temos tempo para Deus, para dialogar com Ele e para tentar perceber os seus projetos e propostas?

 Amigos,

Não podemos separar os dois mistérios: a encarnação de Jesus e a Imaculada Conceição de Maria em vista da maternidade divina. Maria foi concebida sem pecado em previsão de ser a escolhida de Deus para a Mãe de Jesus Cristo que, ao mesmo tempo, seria Deus e criatura humana. Como também não se pode separar o mistério da encarnação do mistério da salvação humana. Todos somos hoje co-envoltos na graça. São Paulo nos adverte: “Vos tornastes filhos de Deus em Cristo Jesus, fostes revestidos de Cristo(Cf. Gl 3,27). Tornamo-nos, igualmente, participantes da graça divina na pessoa de Jesus. A festa de hoje, portanto, celebra os planos e os meios de Deus em Maria por causa de Jesus; e, em Jesus, por causa da redenção do mundo. A força-motriz de tudo é o imenso amor e a incontida misericórdia de Deus.

A santidade é o maior convite e o maior apelo da Igreja, conforme nos ensinou São João Paulo II. Ser santo é ser audacioso e ser simples na busca das bem-aventuranças. Se Maria foi preservada do pecado, contando com o seu patrocínio, todos nós poderemos atingir a meta de vida que é ser santos. Em tudo isso MARIA foi e sempre será o exemplo completo. Por isso a Virgem Maria é a representante da humanidade enfim cheia de graça, redimida, escolhida, chamada a ser parceira de Deus na obra da salvação. Parceria que nasce da santidade na “busca do rosto sereno e radioso do Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Homilia: Padre Wagner Augusto Portugal.