Acompanhar Nossa Senhora em todas as  fases de sua vida terrestre, admirar os altos desígnios de Deus na pessoa sacrossanta de sua Mãe é sempre uma delícia para um coração devoto à Santíssima Virgem Dolorosa, padroeira de Boa Esperança – MG e de todos os que, neste dia, fazemo-nos romeiros da Virgem Maria que nos aponta Jesus Cristo “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6), que nos quer a todos fazer “discípulos e missionários de seu Filho, para que n’Ele tenham vida e vida em plenitude”. Nesse sentido, queremos comemorar a sua festa no dia 15 de setembro.

Nesta festividade mariana, não poderíamos deixar de contemplar o Calvário, o sofrimento do Cristo, que continua sendo o nosso sofrimento, porque a Paixão de Cristo prossegue pela história da humanidade pecadora. Por isso, a nossa meditação acerca de Nossa de Nossa Senhora percorre as suas sete dores, lembrando-nos dos sete dolorosos lances de sua existência terrena, ou propriamente “as sete dores”.

1.ºA profecia de Simeão

“Eis aqui está posto este Menino para ruína e para ressurreição de muitos de Israel, e como alvo a que atirará a contradição. E uma espada traspassará a tua alma” (Lc 2,34).  A esta palavra, a Santíssima Virgem vê de uma maneira clara e distinta no futuro as contradições a que Jesus Cristo será exposto: contradições na doutrina, contradições no conceito público, contradições nos seus santíssimos afetos, na alma e no corpo.

Esta previsão dolorosa ficou na alma de Maria durante trinta e três anos, marcando a caminhada pública de seu Filho Jesus. À medida que Jesus crescia em idade, em sabedoria e em graça, no dulcíssimo coração de Maria aumentava a angústia de perder um filho tão caro, pela aproximação da inexorável Paixão e Morte.

Assegura-nos Santo Afonso Maria de Ligório, místico dos mistérios da Paixão, que “o Senhor usa de compaixão para conosco, em não nos fazer ver as cruzes que nos esperavam, e se temos de sofrer,  é só uma vez. Com Maria Santíssima assim não procedeu, porque a queria Rainha das dores e toda semelhante ao Filho;  por isso ela via sempre diante de  si todas as  pelas que havia de sofrer”.

2.ºA fuga para o Egito

A profecia de Simeão começou a cumprir-se logo. Jesus, apenas nascido, já é cercado pela morte. Para salvá-lo, Maria deve ir para um exílio longínquo, por caminhos desconhecidos, cheios de perigos. No Egito, a Sagrada Família viveu perto de sete longos anos como estranha, desconhecida, sem recursos, sem parentes. “A viagem de volta para a Terra Santa apresentou-se mais penosa ainda, porque o Menino Jesus já era tão crescido que, levá-lo ao colo, difícil tarefa devia ser, e fazer a pé o grande trajeto parecia acima de suas forças” (São Boaventura).

Devemos nos lembrar das grandes dificuldades que cercam o nosso cotidiano, como a seca, a ausência de comida, a falta de sensibilidade para viver uma vida digna. Essas dificuldades, no entanto, cessam quando nos apoiamos na fé na Virgem Maria e em Jesus Cristo. Mas, como Maria, não podemos perder os olhos fitos no Deus da Vida, com a esperança em um Deus que se compadece dos que sofrem e são fiéis na fé recebida pelo Batismo.

3.ºJesus encontrado no templo

“Há quem diga que toda esta dor não só foi maior de todas que Maria sofreu na sua vida, mas que foi também de todas a mais acerba”.  Nos outros seus sofrimentos tinha ela Jesus em sua companhia; mas agora via-se longe dele, sem saber onde ele se achava. Das outras dores Maria conhecia perfeitamente a razão e o fim, isto é, a redenção do mundo, a vontade divina; mas nesta dor não podia ela atinar com o motivo de Jesus estar longe de sua Mãe. Quem sabe se sua mente não se torturava com pensamentos como este:  não o servi como devia, cometi alguma falta, alguma negligência, que motivasse dele se  retirar de mim?  Certo é que não pode haver pena maior para uma alma que tem amor a Deus, senão o temor de o ter desgostado.

Realmente, em nenhuma outra dor, que nós saibamos, Maria se lamentou, queixando-se  amorosamente com Jesus, depois de o ter achado: “Filho, porque fizeste assim conosco? Olha que teu pai e eu te buscávamos aflitos” (Santo Afonso).

4.ºMaria se encontra com Jesus na via dolorosa

Pilatos tinha sentimento humano para com Jesus. Tivesse ele  vencido sua covardia, talvez o teria salvo do furor da multidão, ainda mais se, à súplica de sua mulher, se tivesse unido um pedido da Mãe de Jesus. Maria, porém, não se move naquela hora tremenda, que decide da vida ou da morte de seu Filho, porque sabe que o Filho podia por si, sem auxílio alheio, livrar-se dos seus inimigos, e se se deixa como um cordeiro levar ao suplício, então é porque o faz espontaneamente, cumprindo a vontade de Deus.

Maria ainda não se move, quando a sentença já é irrevogavelmente pronunciada. Vai ao encontro de Jesus que, carregado do peso da cruz, se encaminha para o Calvário. Vê-o todo desfigurado e entregue, coberto de mil feridas e horrivelmente ensangüentado. Seus olhares se  cruzam.  Nenhuma queixa sai da sua boca, porque as maiores dores Deus lhe reservou para a salvação do mundo. Aquelas  duas almas, heroicamente generosas, continuam juntas no seu caminho do sofrimento, até o lugar do suplício.

5.ºJesus morre na cruz

Chegam, enfim, ao Calvário. Os algozes despojam Jesus das suas vestes, pregam-no na cruz, levantam o madeiro e  sobre ele deixam-no morrer. Maria agora se aproxima da cruz e ali fica. Ela assiste à horrível agonia de três horas.  “Que espetáculo ver-se o Filho agonizante sobre a cruz, e ver-se ao pé da mesma agonizar a Mãe, que todas as penas sofria com seu Filho!”  (Santo Afonso).  “O que os cravos eram para o corpo de Jesus, para o coração de Maria era o amor” (São Bernardo). “No mesmo tempo que Jesus sacrificava o corpo, a Mãe imolava a alma” (São Bernardo). E não pode dar ao Filho o menor alívio; ainda saber que o maior tormento para o Filho era ver presente sua Mãe, que dor, que sofrimento! O único alívio para a Mãe e  para o filho era saber, que das suas dores resultava para nós a vida eterna.

6.ºMaria recebe o Filho morto em seus braços

Jesus morrendo, exclamou: “Consummatum est” – Tudo está consumado. Estava  completa a série dos sofrimentos para o Filho; não, porém, para a Mãe. Quando ela está chorando a morte do filho, um soldado vibra a lança contra o peito de Jesus, abrindo-o, e sai sangue e água. O corpo morto de Jesus não sente mais a lançada;  mas sentiu-a a Mãe no íntimo do coração.

Tiram o corpo do Filho da cruz. O Filho é entregue  à Mãe, mas em que estado!  Antes o mais belo entre os filhos dos homens, agora está todo desfigurado. Antes, era um prazer olhar para ele;  agora,  seu aspecto é horroroso. Quando morre  um filho, trata-se de afastar do cadáver a mãe. Maria, pelo contrário,  não deixa que lho tirem dos seus braços, senão quando é para sepultá-lo.

7.ºJesus é colocado no sepulcro

“Eis que já o levam para sepultá-lo. Já se põe em movimento o doloroso préstito. Os discípulos levam o corpo de Jesus  sobre os ombros. Os Anjos do céu o acompanham. As santas mulheres seguem e, no meio delas, a Mãe. Querem que ela mesma acomode o corpo sacrossanto de Jesus no sepulcro, precisando por a pedra  para fechar o sepulcro, os discípulos precisam dirigir-se à Santíssima Virgem e lhe dizer: ‘Agora é hora de vos despedir, Senhora; deixai que fechemos o sepulcro. Muni-vos de paciência! Olhai-o pela última vez e despedi-vos de vosso filho’. Moveram a pedra e colocaram-na no seu lugar, fechando com ela o santo sepulcro. Maria, dando um último adeus ao Filho e à sepultura, volta para casa” (Santo Afonso). “Voltou tão triste e aflita a pobre Mãe, que todos a viam, dela se compadeciam e choravam” (São Bernardo).

Só no nosso coração não haverá lágrimas para Maria? Não choramos nós, que somos a causa de tantas dores? Ah! Se nos faltam lágrimas de sentimento dos nossos olhos sensíveis, choremos pelo menos lágrimas de penitência, expressão ainda do firme propósito, de não mais cometermos pecado algum. Foram os nossos pecados que levaram à morte o nosso irmão primogênito e transpassaram o coração dulcíssimo de Maria, Mãe de Jesus e  nossa Mãe.

Meus caros irmãos,

Se a nós Deus mandar uma cruz em forma de sofrimentos físicos ou morais, acusações injustas ou de contínuas contrariedades, recorramos a Nossa Senhora e não nos entreguemos à tristeza e ao desânimo. Sofrimento que vem mandado por um Pai que nos tem tanto amor, não pode visar outro fim, senão o nosso bem temporal e eterno. O sofrimento, um dia, converter-se-á em  alegria;  as lágrimas derramadas hoje darão lugar a uma felicidade que não terá fim.

Uma cruz é diferente da outra e a duração de tempo do nosso padecimento pertence a Deus. São momentos tristes, mas que devemos aceitar alegremente, como uma graça divina. Afinal, lembremo-nos de quanto sofrimento Cristo padeceu no Calvário!  E quanto sofreu a Mãe, diante da agonia do Filho!

Se seu ombro já parece não suportar o peso da cruz, se a extrema dor o abala os sentidos, não desperdice esse tempo com lamentações, muitas vezes inevitáveis. Oferece, pois, essas dádivas às almas que padecem no Purgatório, em desagravo dos pecados cometidos contra o Santíssimo Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria, pela conversão de todos nós, pobres pecadores, pela paz no mundo, pelo Papa, pelo nosso Bispo Diocesano, pelo clero, ou por tantas outras causas urgentes que clamam por nossas orações e sacrifícios.

Coloquemo-nos confiantemente no colo amoroso de Nossa Senhora das Dores, que experimentou o sofrimento na sua máxima intensidade.

Caríssimos irmãos,

A Sagrada Liturgia proposta pela Mãe Igreja para a nossa reflexão hoje nos leva a pensar na transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a antecipação da nossa própria transfiguração (Hb 5,7-9, primeira leitura; Salmo 30(31), Jo 19,25-27). Por isso, os místicos têm cantado o sofrimento, colaborador luminoso da redenção. Mas importa saber crer.

A fé deve tomar consigo o coração, iluminar a alma e alimentar a consciência, como o vento faz às árvores quando não se limita a acariciar as folhas mas investe contra o tronco, sacode as raízes e lança a copa para o céu. Devemos ter consciência de que a dor é o batismo heróico de todos nós, que o sofrimento constitui a certeza resplandecente de todas as almas, as tribulações florescem em todas as veredas e todas as penas escondem uma pérola preciosa.

A dor é um espanto que defende e pode tomar mais belas as flores das nossas virtudes. O Senhor Jesus ensina-nos: “Bem-aventurados os que choram porque serão consolados”. Nesse sentido, o sofrimento unido à Cruz é a força mais poderosa para salvar a humanidade. As tribulações de certa duração acordam energias latentes em cada um de nós, tornando-as cooperadoras valiosas do nosso progresso moral. O sofrimento pesa o nosso coração e mede os nossos passos, incendeia a alma e ilumina a consciência.

Assim, vamos contemplar a Cruz. Somos convidados a olhar a cruz, pensar nas dores da Virgem Mãe, contemplar a Senhora das Dores, cerrar os olhos e meditra as trevas, a ausência de luz, vai ao campo das doloridas ausências, descobrindo os lugares vazios, os lares onde medram os lutos, tantos jovens corações sem o calor da presença da protecção materna; e verás que as lágrimas chegam, molham lenços e deslizam nas faces. Daí Santo Agostinho nos dizer que a Cruz mais terrível é a pretensão de alguém querer viver sem Cruz; ou tirar a dor à vida ser como tirar o sal aos alimentos – lá se vai o sabor. Só depois de haver chorado é que os olhos aprendem a ver melhor e mais longe. “Se ainda não choraste as tuas faltas, se nunca derramaste uma lágrima por alguém, se nunca sentiste uma dor silenciosa, a tua vida é vã”.

Meus irmãos,

Na escola dos antigos Padres, a Igreja apresenta ao mundo a Cruz como “árvore da vida”, da qual se pode colher o sentido último e pleno de cada existência e de toda a história humana. A partir do momento em que Jesus fez dela o instrumento da salvação universal, a Cruz já não é sinônimo de maldição; ao contrário, de bênção. Ao homem atormentado pela dúvida e pelo pecado, ela revela que “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Numa palavra, a Cruz é o símbolo supremo do amor.

João Paulo II nos ensinou que “a Virgem Maria, aos pés da Cruz, perfeitamente unida ao Filho, pôde partilhar de maneira singular a profundidade de sofrimento e de amor do seu sacrifício. Ninguém melhor do que ela pode ensinar a amar a Cruz. Confiamos à Virgem das Dores os jovens e as famílias, as nações e toda a humanidade. De modo especial invocamo-la em favor dos doentes e os que sofrem, para as vítimas inocentes da injustiça e da violência, dos cristãos perseguidos devido à sua fé. A Cruz gloriosa de Cristo seja para todos penhor de esperança, de resgate e de paz”.

Caros irmãos,

Contemplar a Mãe de Jesus, contemplar este sinal de contradição, porque Jesus é o vencedor, mas sobre a Cruz, sobre a Cruz. É uma contradição, não se compreende. É preciso fé profunda para entender, pelo menos para se aproximar deste mistério. Nossa Senhora das Dores sabia disso e toda a vida viveu com a alma transpassada. Seguia Jesus e ouvia os comentários das pessoas, às vezes a favor, às vezes contra, mas sempre esteve atrás de seu Filho. E por isso dizemos que é a primeira discípula, a primeira servidora. Maria tinha a inquietação que fazia nascer no seu coração este sinal de contradição. No final, ficava ali, em silêncio, sob a Cruz olhando o Filho.

Vamos mergulhar na contemplação, em silêncio, neste mistério. Naquele momento, Ela deu à luz a todos nós: deu à luz a Igreja. “Mulher” – Lhe diz o Filho – “eis os teus filhos”. Não diz “mãe”: diz “mulher”. Mulher forte, corajosa; mulher que estava ali para dizer: “Este é meu Filho: não O renego”. Portanto, o trecho do Evangelho é mais para contemplar do que para refletir. “Que seja o Espírito Santo – conclui – a dizer a cada um de nós aquilo de que precisamos”.

Irmãos,

Celebrar a Senhora das Dores é viver para Jesus e encarar o sofrimento, como alegria e fé no amor de Deus. Por isso rezemos:

Inclinai o coração dos vossos filhos

ao Coração suavissímo (de Jesus)

àquele coração muito manso.

Pedimos a paz

ouvi-nos com clemência

Ajudai-nos com eficácia,

Vos suplicamos, ó Rainha!

Padre Wagner Augusto Portugal