Quarta-feira de Cinzas – B

Iniciamos com a Quarta-Feira de Cinzas um tempo muito especial na vida da Igreja Católica. A Igreja quer santificar o tempo e neste sentido nos convida a viver um momento de retiro espiritual: a SANTA QUARESMA.

Na Santa Quaresma tudo nos leva a pensar no tripé de conduta de vida: a penitência, percorrendo estes quarenta dias preparando-nos para a Páscoa, quando então celebraremos o mistério da morte e ressurreição de Nosso Senhor, centro da nossa fé, dedicando maior atenção para a ORAÇÃO, AO JEJUM e à RECONCILIAÇÃO com Deus e com os nossos semelhantes.

Meus irmãos,

As cinzas que serão impostas no dia de hoje são o principal símbolo litúrgico do início da Santa Quaresma, tanto que dão o nome ao dia e ao sagrado ofício litúrgico. As cinzas representam a pequenez do homem. Abraão ao falar com o Senhor, no Antigo Testamento, intercedendo por Sodoma, considera-se uma nulidade diante de Deus e, por isso mesmo, considera uma ousadia fazer um pedido: “Sou bem atrevido em falar a meu Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gn 18,27). Por isso, ao recebermos as cinzas na Liturgia hodierna vamos pensar em duas atitudes fundamentais da vida cristã: ARREPENDIMENTO e PENITÊNCIA, PURIFICAÇÃO e RESSURREIÇÃO.

A origem das cinzas usadas tem um significado muito especial: elas são preparadas pela queima das palmas usadas na procissão de Ramos do ano anterior. As cinzas, portanto, lembram o Cristo vitorioso sobre a morte. A palma é o símbolo da vitória e do triunfo de Cristo Ressuscitado. Se os cristãos aceitam reconhecer a sua condição de criaturas mortais, e transforma-se em pó, ou seja, passar pela experiência da morte, a exemplo de Cristo, pela renúncia de si mesmos, participarão, também, da vida que ressurge das cinzas. As palmas são símbolos da ressurreição de Cristo e dos que aceitam viver na atitude de Cristo.

Receber as cinzas é um compromisso de conversão: o abandono do pecado, de penitência pública, pedindo perdão a Deus pelos nossos pecados, purificando de nossas faltas e ressurgindo para uma vida nova, a vida da graça e da amizade com Deus, para viver nos quarenta dias do tempo quaresmal uma permanente e contínua vontade de retorno à vida da graça e mudança de vida, atendendo a própria oração de imposição de cinzas: “Convertei-vos e credes no Evangelho”.

Irmãos caríssimos,

Quaresma é tempo de oração, de penitência, de jejum e de abstinência de carne, tudo isso em função de ser a morte e a ressurreição de Jesus o centro da celebração de nossa fé. Por isso, para fazer penitência e se converter, é preciso muita humildade, muita disposição de mudança e muita persistência.

A penitência começa conosco mesmos, dentro de nossas pequenas e grandes limitações, procurando corrigir nossos desvios e pecados e buscando lucrar a graça santificante de Deus. O orgulhoso é incapaz de fazer penitência, pois ela pressupõe humildade, o reconhecimento da pequenez de nossa natureza humana diante do Criador, diante do próprio mistério da criação.

Irmãos e Irmãs,

A Sagrada Liturgia insiste na autenticidade da penitência: rasgar o coração, não apenas as vestes. “Agora – diz o Senhor -, voltai para mim com todo o vosso coração com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes, e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar do castigo” (Joel 2,12-13). Além disso, a Liturgia insiste no caráter interior do jejum, juntamente com as outras “boas obras”, a esmola e a oração. A calamidade que no tempo de Joel se abateu sobre a terra de Judá (Joel 1,4) dá ao profeta ocasião de exortar o povo à conversão. Está próximo o dia de Javé, do qual a invasão de gafanhotos é um presságio (Joel 2,1). Não basta, porém, preparar-se para o juízo de Deus com um rito penitencial. É necessário que todo o homem, desde o mais íntimo de seu ser, se volte para Deus. Confiando em sua misericórdia, pode o pecador estar certo do perdão. Nenhum título a isso teria o homem. A oração proferida pelo sacerdote só pode apelar para o vínculo com que o próprio Senhor quis unir-se a seu povo. Para que também as outras nações possam reconhecer o único verdadeiro Deus, não pode deixar perecer sua “herança” (cf. Dt 9,26-29).

Na grave situação política e social, o Senhor chama à penitência: conversão do coração, jejum, lágrimas, e não apenas gestos exteriores. Esta grande resposta comunitária de penitência reporta-se ao rito renovado do sacramento da Penitência, proposto pela Igreja. A celebração comunitária “manifesta com mais clareza o caráter eclesial da penitência. Os fiéis ouvem juntos a palavra de Deus, que proclama sua misericórdia e os convida à conversão, confrontam sua vida com a palavra mesma e se ajudam mutuamente com a oração… e todos conjuntamente louvam a Deus pelas maravilhas realizadas por ele em favor do povo” (Rito da penitência, 22). Muitas vezes nos condicionamos ao mal; na celebração comunitária nos influenciamos para o bem com a prece e com o exemplo penitente. Sobre o penitente não age só a graça do sacramento, mas também a minha atitude, a do sacerdote e da comunidade que reza comigo e comigo se arrepende.

Caros irmãos,

Na Segunda carta de São Paulo aos Coríntios (2Cor 5,20-6,2), o Apóstolo proclama o novo tempo de reconciliação com Deus, com vistas à iminência da Paresia: “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus. Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus” (2Cor 5, 20b-21).

São Paulo apresenta o ministério eclesial como sacramento da reconciliação dos pecadores no tempo atual. A pregação é exortação e súplica para acolher na própria vida o dom divino da reconciliação. Não é, porém, só palavra sobre a reconciliação, mas nela ressoa a palavra-força divina reconciliadora, que se faz presente como sacramento. Junto de Deus, verdadeiro agente de reconciliação, e na palavra da Igreja, sinal sacramental, Cristo se coloca como mediador na obra da justificação dos pecadores. Na sua morte, sacrifício expiatório do pecado exerce ele sua função mediadora de salvação.

Cada cristão, membro da Igreja, é exposto à tentação e muitas vezes cai; com o pecado ofende a Deus e cria divisão e desagregação em si próprio e na sociedade. Também a comunidade eclesial pode pecar por pouca fé, pouca esperança, pouco amor, e chegar a um estado de ruptura, injustiça e discórdia. A Igreja, por ordem de Cristo, prega e pratica a penitência na vida e na liturgia, para que os cristãos se convertam e todos no mundo sejam um sinal de como converter-se a Deus. Este sinal da comunidade eclesial, a volta do pecador ao Pai e à comunidade. Este novo caminho de conversão exige uma atitude renovada de repulsa ao pecado e de orientação para Deus.

Caros irmãos,

No Evangelho (Mt. 6,1-6.16-18) combate o verme da vaidade. A vaidade que leva à ostentação e à hipocrisia, rouba à justiça cristã sua gratuidade, sua pureza “virginal”, que busca só a Deus. O olhar do homem estraga tudo o que toca: é uma ardileza sutil e fatal; pode ser um impulso a fazer justiça unicamente para ser visto pelos homens. Podemos, assim, usar a máscara da justiça, fazer apenas o papel daqueles que dão esmolas, dos que rezam, dos que jejuam, o palco de nossa ilimitada vaidade, e secretamente não procuramos a justiça, mas só a nós mesmos. O conselho de Jesus a seus discípulos é que só o Pai veja e conheça o bem que eles fazem. Eis o castigo dos vaidosos: terão aquilo que procuraram, a saber, unicamente a si próprios.

Meus Irmãos,

A celebração de hoje tem outro significado muito importante: louvar e agradecer ao Senhor pela sua abundante misericórdia: “Lembra-te de que és pó e ao pó tornarás”. Perante a grandiosidade de Deus nós somos um “verme”, o menor, o mais ínfimo de todos os servidores. Por isso, Deus nos ama com profundidade e derrama sobre nós a sua misericórdia e a sua paz. Mesmo sendo pó, Deus sempre se lembrará de nós e cumprirá a Sua promessa de conceder o Reino das Bem-aventuranças.

Fazer penitência não é ficar triste, mas, pelo contrário, é ficar alegre e feliz. “Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos” (Sl 50), rezamos no Salmo Responsorial desta celebração. É o canto da humildade clamando a misericórdia do Deus da Vida, sempre pronto a nos acolher, santos pela sua graça e pobres pecadores pelas nossas misérias, e nos coloca dentro da economia de sua Salvação. Nesse contexto de penitência e conversão, devemos perceber a misericórdia de Deus que confia com abundância na capacidade do homem de assimilar o Reino de Deus.

Converter-se “ao Evangelho”! O Evangelho para nós, mais do que um livro, é uma pessoa, Jesus Cristo. É necessária a “conversão” ao verdadeiro conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não um conhecimento intelectual, como aquele que se obtém nas aulas de teologia. É preciso um conhecimento de fé, uma experiência viva, como aquela de fala São Paulo: “Na verdade, em tudo isso só vejo dano, comparado com o supremo conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Põe Ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo. Assim poderei conhecê-Lo, a Ele, à força da Sua Ressurreição e à comunhão nos seus sofrimentos, configurando-me à Sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição. Não que eu já tenha alcançado a meta, ou que já seja perfeito, mas prossigo a minha carreira para ver se de algum modo a poderei alcançar, visto que já fui alcançado por Jesus Cristo” (Fil 3, 8.10-13).

Desta forma, a Liturgia de hoje nos ensina que penitência é um reflexo de reparação depois de uma falta. Sentimos a insuficiência do homem natural que somos. Tratamos de reparar isso, mas sabemos que o único que pode reparar mesmo é Deus. Por isso, a melhor penitência é: abrir espaço para Deus.

Abrindo espaço para Deus, caminharemos quarenta dias, para vê-lo em toda a sua majestade, o SENHOR RESSUSCITADO QUE NA CRUZ MORREU PARA QUE RESSUSCITEMOS COM ELE. AMÉM!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal