Quarta-feira de cinzas

Meus queridos Irmãos,

Iniciamos com a imposição das cinzas o grande retiro da Quaresma. A Quaresma é o tempo de Deus em que os homens e as mulheres são convidados a refletir acerca da nossa experiência cristã. Fazemos nossa parte na construção de uma sociedade justa e fraterna, com auxílio aos irmãos excluídos? Quaresma é tempo de mudança, de maior comprometimento, de suprema fidelidade a Deus e de serviço generoso aos irmãos, a comunidade de fiéis.  A conversão é a primeira atitude que cada cristão deve se propor neste tempo de mudança de vida. A conversão séria vem do reconhecimento da pobreza e fragilidade humana, e de que só Deus pode capacitar-nos a fazer algo, inclusive reconhecer-se pecador e necessitado da sua infinita misericórdia.

A Quaresma nos conduz a Jerusalém. Não a cidade de Jerusalém, mas ao evento histórico da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nas mãos de Jesus nós iremos trilhar o itinerário da eternidade. Quaresma que significa quarenta dias de profunda reflexão sobre os mistérios de nossa fé, sobre a vida, a paixão, a morte e a ressurreição do Senhor Jesus.

Nosso encontro neste tempo será com Deus, na pessoa do Cristo sofredor, morto e ressuscitado. Jesus caminha na quaresma conosco. Caminhada que envolve o nosso corpo inteiro e, especialmente, o nosso coração. Caminhada de fé. Caminhada de oração. Caminhada de penitência. Caminhada de conversão.

Amigos e Amigas,

Recebemos hoje as cinzas. Converter-se significa voltar-se para o regaço de Deus, para a amizade com o Criador. Conversão é um caminho muito árduo que precisa e requer penitência e mudança de vida. Quaresma é tempo de doce oração, de grande mudança de vida e de penitência para que Deus estenda a sua mão aos pecadores para que possam ver a Deus. Simboliza a fragilidade humana as cinzas que são impostas aos fiéis para assinalar o início da Quaresma. Cinzas que simbolizam a nossa pobreza, ou melhor, a nossa nulidade, é a cinza que recebemos hoje sobre a nossa fronte. As cinzas nos recordam de imediato a origem e o destino de nosso corpo humano, ou seja, que tudo foi criado do pó e ao pó voltará.

Este pó que acompanhará a nossa caminhada quaresmal, que lembrará a nossa contingência de pecadores, de homens contingentes, que nos acompanha para crer e vivenciar a ressurreição do Senhor Jesus. É a Ressurreição de Jesus que nos diz e nos ensina que, embora nosso corpo seja destinado ao pó, nossa pessoa tem um destino eterno, tem um destino em Deus, o autor e dador da Vida eterna.

Irmãos e Irmãs,

Deus é a razão e o primeiro motor de nossa conversão. A conversão é um ato de acolhimento daquilo que o Senhor nos diz e pede de cada um de nós. O voltar-se para Deus implica uma radical mudança no modo de pensar e no modo de agir dos homens e mulheres. Temos que nos comportar, agir e fazer conforme a vontade de Jesus Cristo.

Qual é à vontade de Deus? É à vontade que nos deixou legada por Jesus Cristo. Converter-se implica decentrar-nos de nós mesmos e centralizar a nossa vida e nossas metas em Jesus. Temos que ter a atitude do Evangelho de domingo passado: sermos misericordiosos e aplicar a misericórdia, o perdão, à acolhida dos inimigos como meta de nosso seguimento cristão. Amor gratuito! Amor generoso! Acolhida sincera, sem reservas.

Prezados Irmãos,

Todos nós somos convidados a três atitudes neste tempo forte de conversão e de mudança de vida. Ainda paira sobre mim a advertência de meu austero Vigário de infância: Na quaresma nada de orgias e nem de bebedeiras! É tempo de Deus, para Deus voltado para cada um de nós, para a nossa intimidade com o Criador!

As três atitudes deste tempo forte são: a esmola, o jejum e a oração intensa. A esmola como significado de nosso desapego dos bens deste mundo, que nos leva a extinguir a avareza. A esmola que mexe em nosso bolso e nos faz sermos mais abertos ao outro, ensinando a repartir. O Jejum como abstinência de alimentos e bebidas, ou mesmo do vício como o cigarro. Jejum tão importante lembrando a advertência de Jesus: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (cf Mt 4,4).  A oração coroa a esmola e o jejum: oração com o coração. Nossa oração deve partir do coração e ser participada o tempo todo pelo coração, ou seja, pelo nosso ser inteiro.

Caríssimos irmãos,

A Primeira Leitura (cf. Jl 2,12-18) nos convida a “Rasgar nossos corações, não somente as vestes”. Este trecho é uma exortação à penitência, ao jejum e à súplica. Logicamente que este apelo sempre dará resultado quando nós nos abrirmos a este triple motivador do tempo quaresmal. Penitência, etimologicamente significa voltar. O Jejum é tão geral que mesmo os recém-casados não são excluídos de sua pia observância. Os sacerdotes articulam este ritmo comunitário ao povo de Israel, e Deus, cioso para “salvar sua boa reputação” junto às nações, teve a compaixão de seu povo.

Joel é um sacerdote-profeta, que vive no Templo, depois do exílio. Fiel ao serviço da Casa de Deus, exorta o povo, que passa por uma grave carestia provocada por uma invasão de gafanhotos (cf. Jl 1, 2-2, 10), à oração e à conversão. O próprio culto, no templo, tinha cessado (cf. Jl 1, 13.16). O profeta, que sabe ler os sinais dos tempos, anuncia a proximidade do “dia do Senhor”, e convida o povo ao jejum, à súplica e à penitência (cf. Jl 2, 12.15-17). “Convertei-vos”, grita o profeta. O termo hebraico subjacente é schOb que significa arrepiar caminho, regressar. O povo que virara costas a Deus, devia voltar novamente o coração para Ele, e retomar o culto no templo, um culto autêntico, que manifestasse a conversão interior. O povo pode voltar novamente para Deus, porque Ele é misericordioso (cf. Jl 2, 13), e, também, pode mudar de ideia e voltar atrás (cf. Jl 2, 14).

Um amor sincero a Deus, uma fé consistente, e uma esperança que se torna oração coral e penitente, darão ao profeta e aos sacerdotes as devidas condições para implorarem a compaixão de Deus para com o seu povo.

Prezados irmãos,

A Segunda Leitura (cf. 2 Cor 5,20-6,2) fala que o tempo da quaresma é “o tempo propício” de conversão e de mudança de vida. Apaixonado pelo “ministério apostólico da reconciliação”, Paulo exorta os coríntios a aproveitar a reconciliação oferecida por Cristo, que assumiu nosso pecado, e a não deixar passar a oportunidade, já que agora é o tempo oportuno de conversão.

“Reconciliai-vos com Deus”, é o apelo de São Paulo. A reconciliação é possível, porque essa é a vontade do Pai, manifestada na obra redentora do Filho e no poder do Espírito que apoia o serviço dos apóstolos. O v. 21 é o ponto alto do texto, pois proclama o juízo de Deus sobre o pecado e o seu incomensurável amor pelos pecadores, pelos quais não poupou o seu próprio Filho (cf. Rm 5, 8; 8, 32). Cristo carregou sobre si o pecado do mundo e expiou-o na sua própria carne. Assim, podemos apropriar-nos da sua justiça-santidade. O Inocente tornou-se pecado para que nós pudéssemos tornar justiça de Deus. E, agora, o tempo favorável para aproveitar essa graça: deixemo-nos reconciliar (katallássein) com Deus. O termo grego indica a transformação da nossa relação com Deus e, por consequência, da nossa relação com os outros homens. Acolhendo o amor de Deus, que nos leva a vivermos, não já para nós mesmos, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por nós (w. 14s.), podemos tornar-nos nova criação em Cristo (5, 18).

Caros irmãos,

O Evangelho (Mt 6,1-6.16-18) fala da Esmola, do Jejum e da oração no oculto. São Mateus, neste trecho, apresenta três reflexões de Jesus em relação às boas obras judaicas: a esmola, a oração e o jejum. Mateus mostra que estas três obras boas devem ser feitas por seu valor intrínseco, que só Deus vê, e não para serem vistas pelos homens.

Jesus pede aos seus discípulos uma justiça superior à dos escribas e fariseus, mesmo quando praticam as mesmas obras que eles.: “Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles”. Agora aplica esse princípio a algumas práticas religiosas do seu tempo: a esmola, o jejum e a oração. Há que estar atentos às motivações que nos levam a dar esmola, a orar, a jejuar, porque o Pai vê o que está oculto, os sentimentos profundos do coração. Se buscamos o aplauso dos homens, a vanglória, Deus nada tem para nos dar. Mas se buscamos a relação íntima e pessoal com Ele, a comunhão com Ele, seremos recompensados. Se não fizermos as boas obras com reta intenção somos hypokritoi, isto é, comediantes, e mesmos ímpios, de acordo com o uso hebraico do termo.

Jesus, no Evangelho, mostra-nos qual deve ser a nossa atitude quando praticamos obras de penitência (tais como a esmola, a oração, o jejum), e insiste na retidão interior, garantida pela intimidade com o Pai. Eram essas a atitude e a orientação do próprio Jesus em todas as suas palavras e obras. Nada fazia para ser admirado pelos homens. Nós podemos ser tentados a fazer o bem para obtermos a admiração dos outros. Mas essa atitude, por um lado, fecha-nos em nós mesmos, por outro lado projeta-nos para fora de nós, tornando-nos dependentes da opinião dos outros.

Há, pois, que fazer o bem porque é bem, e porque Deus é Deus, e nos dá oportunidade de vivermos em intimidade e solidariedade com Ele, para bem dos nossos irmãos. Estar cheios de Deus, viver na sua presença, é a máxima alegria neste mundo, e garante-nos essa mesma situação, levada à perfeição, no outro.

Irmãos e Irmãs,

O cristão ao apresentar-se diante de Deus seja na comunidade reunida em assembléia, seja no silêncio de seu coração, recorda uma outra libertação: a que libertou Jesus da morte e o fez passar para a glória, a passagem não do anjo exterminador, mas do Cristo, que significa também nossa passagem da morte para a vida. Jesus é o Senhor… Deus o ressuscitou dos mortos, conforme nos adverte a segunda leitura. Para poder proclamar esta fé, na noite do novo dia, ou seja, na Páscoa, o cristão passa por um tempo de quarentena, para sair completamente renovado. Esse é o significado da Quaresma.

Precisamos do treinamento em nossa opção por Deus. A partir da esmola, do jejum e da oração vamos fazendo de nossa vida o que nos pede a oração da coleta de hoje: tornar nossa vida conforme à do Cristo.

Certamente não é fácil aceitar ser cinza. Contudo, a fé em Jesus Cristo ressuscitado faz com que a vida renasça das cinzas. Jesus Cristo faz brotar a vida, onde o ser humano reconhece sua condição de pecadores. É entrar em atitude pascal. A imposição das cinzas não constitui um mero rito a ser repetido anualmente. É celebração da vocação do ser humano, chamado a imortalidade feliz, contanto que realize o mistério pascal da morte e vida em sua vida terrena.

Junto com a Quaresma, no Brasil, abriremos a Campanha da Fraternidade 2019, que tem como Tema: “Fraternidade e Políticas Públicas” e como Lema: “Serás libertado pelo direito e pela Justiça”(cf. Is 1, 27).

A Campanha da Fraternidade desperta a consciência e incentiva a participação de todo cidadão na construção de Políticas Públicas em âmbito nacional, estadual e municipal. O texto-base além de contextualizar o que é o poder público, os tipos de poder e os condicionantes nas políticas públicas, fala sobre o papel dos atores sociais nas Políticas Públicas. A participação da sociedade no controle social das Políticas Públicas é outro tema de destaque no texto-base. Política Pública não é somente a ação do governo, mas também a relação entre as instituições e os diversos atores, sejam individuais ou coletivos, envolvidos na solução de determinados problemas. Devem ser utilizados princípios, critérios e procedimentos que podem resultar em ações, projetos ou programas que garantam aos povos os direitos e deveres previstos na Constituição Federal e em outras leis. Por isso, segundo ele, a temática se fez necessária para a CF de 2019. Políticas Públicas são as ações discutidas, aprovadas e programadas para que todos os cidadãos possam ter vida digna. Que Deus nos assista para que possamos ao fim dos exercícios quaresmais, com o auxilio da esmola, do jejum vivenciar bem a oração, bem como de uma reflexão apaixonada do tema e do lema da Campanha da Fraternidade caminhar para viver intensamente a ressurreição de Cristo que ilumina a nossas práxis cristã. Amém!Padre Wagner Augusto Portugal.