Homilia Santa Maria Mãe de Deus - A

 Meus queridos irmãos,

No dia de hoje iniciamos mais um ano civil. E, reverentemente, vamos agradecer a mãe de Deus, a Bem Aventurada Virgem Maria por nos ter dado um imenso presente que é o Salvador: “Hoje surgiu a luz para o mundo!”.

Toda a liturgia de hoje canta a chamada “cidadania” de Jesus: seu nome, a sua identidade, o seu lugar na sociedade humana. O essencial em qualquer carteira de identidade é o nome. Identifica a pessoa no meio da massa, e diz também como se pode “chamar” ou “nomear”, bem como, interpelar, pedir a contribuição desta pessoa, e por aí adiante. O nome individualiza a pessoa, as também a socializa.

Assim, na Segunda Leitura da Carta de São Paulo aos cristãos de Gálatas(cf. Gl 4,4-7), contemplamos os dois cenários de inserção de Jesus na sociedade humana: nasceu de mulher, membro da família humana; e nasceu sujeito à lei, cidadão de uma comunidade política e religiosa. E, concretamente, assumindo a lei de uma comunidade Jesus é o verdadeiro representante da humanidade. São Paulo diz aos gálatas que o cristianismo é liberdade e que a ação de Cristo libertou os homens da escravidão da Lei.

Os gálatas devem, portanto, fazer a sua escolha: pela escravidão, ou pela liberdade; no entanto – não deixa de observar São Paulo – é uma estupidez ter experimentado a liberdade e querer voltar à escravidão. No texto que nos é proposto, São Paulo recorda aos gálatas a encarnação de Cristo e o objetivo da sua vinda ao mundo: fazer dos que a Ele aderem “filhos de Deus” livres.

São Paulo recorda aqui aos gálatas algo de fundamental: Cristo veio a este mundo para libertá-los, definitivamente, do jugo da Lei; a consequência da ação redentora de Cristo é que os homens deixaram de ser escravos e passaram a ser “filhos” que partilham a vida de Deus. A palavra-chave é, aqui, a palavra “filho”, aplicada tanto a Cristo como aos cristãos.

Cristo, o “Filho”, foi enviado ao mundo pelo Pai com uma missão concreta: libertar os homens de uma religião de ritos estéreis e inúteis, que não potenciava o encontro entre Deus e os homens; e Cristo, identificando os homens com Ele, levou-os a um novo tipo de relacionamento com Deus e fê-los “filhos” de Deus. Por ação de Cristo, os homens deixaram de ser escravos (que cumprem obrigatoriamente regras e leis) e passaram a relacionar-se com Deus como “filhos” livres e amados, herdeiros com Cristo da vida eterna. Depois desta “promoção”, fará algum sentido querer voltar a ser escravo da religião das leis e dos ritos?

A nova situação dos homens dá-lhes o direito de chamar a Deus “abbá” (“papá”). Paulo utiliza esta palavra aqui (bem como na Carta aos Romanos), apesar de os judeus nunca designarem Deus desta forma. Ela expressa uma relação muito próxima, muito íntima, do gênero daquela que uma criança tem com o seu pai: exprime a confiança absoluta, a entrega total, o amor sem limites.

A insistência de Paulo nesta palavra deve ter a ver com o Jesus histórico: Jesus adotou-a para expressar a sua confiança filial em Deus e a sua entrega total à sua causa. Ora, é este tipo de relação que os cristãos, identificados com Cristo, são convidados a estabelecer com Deus. Na Carta dos Gálatas 4,4 é o único lugar em que Paulo se refere à mãe de Jesus (“Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher”); no entanto, Paulo não parece interessado, aqui, em falar de Nossa Senhora, mas em sublinhar a solidariedade de Cristo com o género humano.

Estimados Irmãos,

Hoje somos convidados, uma vez mais, a olharmos para a Bem Aventurada Virgem Maria, encerrando a semana do Natal. E contemplamos a maternidade de Nossa Senhora no início do novo ano civil, para assinalar a grande novidade que Maria, por obra e graça do Espírito Santo, nos trouxe: ela fora o instrumento de Deus para dar ao mundo o Salvador e Redentor Jesus.

A humanidade está toda representada no Evangelho de hoje pelos Pastores(Cf. Lc 2, 16-21), criaturas pecadores, pobres e necessitadas, a quem, em primeiro lugar, veio Nosso Senhor Jesus. Os pastores vão ver a quem na gruta? O Filho de Maria, Maria sem o Filho seria apenas mais uma das mil Marias. Com o Filho, é a bendita entre todas as mulheres, a sem mancha. A mulher que mais agradou aos olhos do Pai do Céu e a quem o Pai, na sua imensa misericórdia, bondade e mansidão, mais enriqueceu de qualidades, conforme cantou o Anjo Gabriel: “Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo”(Cf. Lc 1,28).

Estimados amigos,

Maria guardava as maravilhas do Menino Deus. Maria transformava estas maravilhas em comportamento de vida, em fé prática, orante. Maria vivenciava a grandeza do mistério que estava diante de seus olhos. Maria, ao dar o seu FIAT, o seu SIM, assimilou tudo de tal maneira que caminhou até a cruz com o Filho, em total sintonia com a grande vontade do PAI, que era cumprir a missão de a todos salvar do pecado.

O Evangelho de hoje nos fala da “circuncisão”(Cf. Lc 2,21) do Menino. Isso vem simbolizar não a aliança humana, mas a aliança para a vida eterna que Jesus vem fazer com a humanidade pela sua encarnação e redenção. Jesus foi circuncidado para demonstrar que era um menino como os muitos meninos de seu tempo. Circuncisão que demonstrava a pertença ao povo hebreu. Circuncisão que demonstrava que o menino era um aliado de Deus.

O texto do Evangelho de hoje é a continuação daquele que foi lido na noite de Natal: após o anúncio do “anjo do Senhor”, os pastores (destinatários desse anúncio) dirigiram-se a Belém e encontraram o menino, deitado numa manjedoura de uma gruta de animais. Mais uma vez, São Lucas não está interessado em fazer a reportagem do nascimento de Jesus, ou a crónica social das “visitas” que, então, o menino de Belém recebeu; mas está, sobretudo, interessado em apresentar uma catequese que dê a entender (aos cristãos a quem o texto se destina) quem é esse menino e qual a missão de que ele foi investido por Deus. Nesta catequese fica bem claro que Jesus é o Messias libertador, enviado a trazer a paz; e há, também, uma reflexão sobre a resposta que Deus espera do homem.

Jesus, o Deus que Salva, fez a aliança com Deus e com a humanidade, uma nova e eterna aliança, para a eternidade.  Maria não foi, assim, somente a Mãe do Redentor. Mas ela transformou-se na protagonista, na predestinada desde a eternidade, Mãe do próprio Redentor, a generosa companheira, a humilde serva do Senhor, a mãe, na ordem da graça, de todos os seres humanos. Enfim, Maria é a Mãe de Deus, a Mãe da Igreja e a Mãe de todos os viventes.

Estimados Irmãos,

Junto com esta solenidade comemoramos o dia da Paz. Por isso rezamos com entusiasmo a benção que a primeira leitura(cf. Nm 6,22-27) nos ensina retirada do livro dos Números: “Que Deus te abençõe e te guarde! Que Deus lhe mostre o seu rosto e tenha piedade de vós! Que Deus lhe mostre a sua face e se compadeça de vós!”(Cf. Nm 6,22-26). É esta benção que queremos para toda a família humana, especialmente aos cristãos e aos homens e mulheres de boa vontade.

Somos convidados a tomar consciência da generosidade do nosso Deus, que nunca nos abandona, mas que continua a sua tarefa criadora derramando sobre nós, continuamente, a vida em plenitude. É de Deus que tudo recebemos: vida, saúde, força, amor e aquelas mil e uma pequeninas coisas que enchem a nossa vida e que nos dão instantes plenos. É preciso ter consciência de que a “bênção” de Deus não cai do céu como uma chuva mágica que nos molha, quer queiramos, quer não (magia e Deus não combinam); mas a vida de Deus, derramada sobre nós continuamente, tem de ser acolhida com amor e gratidão e, depois, transformada em gestos concretos de amor e de paz. É preciso que o nosso coração diga “sim”, para que a vida de Deus nos atinja e nos transforme.

Caros irmãos,

Se Maria é a Mãe de todos os redimidos nos recorda a nossa condição de irmãos. Nesse sentido o Sumo Pontífice Francisco, na sua primeira mensagem pelo dia da Paz, que tem como tema: “Vence a indiferença e conquista a Paz!”.

Ensina o Bispo de Roma que: Jesus ensina-nos a ser misericordiosos como o Pai (cf. Lc 6, 36). Na parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 29-37), denuncia a omissão de ajuda numa necessidade urgente dos seus semelhantes: «ao vê-lo, passou adiante» (Lc 10, 32). Ao mesmo tempo, com este exemplo, convida os seus ouvintes, e particularmente os seus discípulos, a aprenderem a parar junto dos sofrimentos deste mundo para os aliviar, junto das feridas dos outros para as tratar com os recursos de que disponham, a começar pelo próprio tempo apesar das muitas ocupações.

Na realidade, muitas vezes a indiferença procura pretextos: na observância dos preceitos rituais, na quantidade de coisas que é preciso fazer, nos antagonismos que nos mantêm longe uns dos outros, nos preconceitos de todo o gênero que impedem de nos fazermos próximo. A misericórdia é o coração de Deus. Por isso deve ser também o coração de todos aqueles que se reconhecem membros da única grande família dos seus filhos; um coração que bate forte onde quer que esteja em jogo a dignidade humana, reflexo do rosto de Deus nas suas criaturas.

Jesus adverte-nos: o amor aos outros – estrangeiros, doentes, encarcerados, pessoas sem-abrigo, até inimigos – é a unidade de medida de Deus para julgar as nossas ações. Disso depende o nosso destino eterno. Não é de admirar que o apóstolo Paulo convide os cristãos de Roma a alegrar-se com os que se alegram e a chorar com os que choram (cf. Rm 12, 15), ou recomende aos de Corinto que organizem coletas em sinal de solidariedade com os membros sofredores da Igreja (cf. 1 Cor 16, 2-3).

E São João escreve: «Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?» (1 Jo 3, 17; cf. Tg 2, 15-16). É por isso que «é determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia. A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo. E, deste amor que vai até ao perdão e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia”.

Assim, queridos amigos, a paz trazida por Cristo, mas sempre de novo buscada e desejada pelos homens e mulheres só poderá ser encontrada somente quando a humanidade se reconciliar com Deus com o próximo e com toda a criação por Cristo e em Cristo. E tudo isso deve passar pela ternura e pela presença terna e amorosa da Virgem da Boa Esperança, Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal