Ascenção do Senhor

Meus queridos Irmãos

A primeira leitura e o Evangelho(cf. Lc 24,46-53) nos contam como os apóstolos viveram as últimas aparições de Jesus ressuscitado: como despedida provisória e como promessa. Jesus não voltaria até a consumação do mundo, mas deixou nas mãos deles a missão de levar a salvação e o perdão dos pecados a todos que quisessem converter-se, no mundo inteiro. E prometeu-lhes o Espírito Santo, a força de Deus, que os ajudaria a cumprir sua missão.

A vitalidade a juventude da Santa Igreja, até hoje, tem a sua raiz nesta bendita herança que Deus lhe deixou: “É bom para vocês que eu me vá – diz Jesus no evangelho de João – porque, senão, não recebereis o Paráclito, o Espírito da Verdade.”(cf. Jo 16, 7) Jesus salvou o mundo movido pelo Espírito e dando a sua vida pelos homens. Agora, nós devemos dar continuidade a esta salvadora obra, geração após geração. O Espírito de Jesus e do Pai deve animar em nós, e através de nós, um testemunho igual ao de Jesus: deve fazer reviver Jesus em nós. O que salva o mundo não é a presença física de Jesus para todas as gerações, mas sim o Espírito que ele gerou em nós pela morte por amor – o Espírito do Pai e dele mesmo.

Meus caros irmãos,

A Primeira Leitura(cf. At. 1,-11) apresenta a Ascensão de Jesus e a missão dos apóstolos. Os dias entre a Páscoa e a Ascensão formam “o retiro de preparação”(40 dias) para o desabrochamento da Igreja. Foram as últimas instruções de Jesus aos seus: promessa e missão. Os apóstolos deverão levar a mensagem de Jesus ao mundo inteiro, e para isso receberão a força renovadora do Espírito Santo. Até o Senhor voltar, sua Igreja será missionária.

O livro dos Atos dos Apóstolos dirige-se às comunidades que vivem num certo contexto de crise. Estamos na década de 80, cerca de cinquenta anos após a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada.

O Apóstolo São Lucas avisa que o projeto de salvação e libertação que Jesus veio apresentar passou (após a ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito Santo. A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.

A ressurreição e ascensão de Nosso Senhor Jesus nos garante que uma vida vivida na fidelidade aos projetos do Pai é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo caminho de Jesus subirá, como Ele, à vida plena. A ascensão de Jesus nos recorda, sobretudo, que Ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projeto libertador no meio dos homens nossos irmãos.

Caros irmãos,

A Segunda Leitura(cf. Ef. 1,17-23) nos fala da força de Deus, revelando-se na exaltação do Cristo. A oração do autor se transforma em proclamação dos “magnalia Dei” em Cristo. Deus o ressuscitou e o fez cabeça da Igreja e do universo. A Igreja é o seu “corpo”, ela o torna presente no mundo, ela é a presença atuante de Cristo no mundo, como nos apresentou o Salmo Responsorial quando exulta a presença de Deus diante dos povos de toda a terra.

A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia, numa altura em que São Paulo está na prisão (em Roma?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60. Alguns vêem nesta carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está praticamente terminada na Ásia. Em concreto, o texto que nos é proposto aparece na primeira parte da carta e faz parte de uma ação de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam com todos os irmãos na fé.

Dizer que Cristo é a “cabeça” da Igreja significa, antes de mais, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino. Significa, também, que Cristo é o centro à volta do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direção ao qual o “corpo” cresce, se orienta e constrói, a origem e o fim desse “corpo”; significa, ainda, que a Igreja/“corpo” está submetida à obediência a Cristo/“cabeça”: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência.

Na nossa peregrinação pelo mundo, convém termos sempre presente “a esperança a que fomos chamados”. A ressurreição de Cristo é a garantia da nossa própria ressurreição. Formamos com Ele um “corpo”, destinados à vida plena. Esta perspectiva tem de dar-nos a força de enfrentar a história e de avançar – apesar das dificuldades – nesse caminho do amor e da entrega total que Cristo percorreu.

Dizer que fazemos parte do “corpo de Cristo” significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que nessa comunhão recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos, membros do mesmo corpo, alimentados pela mesma vida.

Irmãos e Irmãs,

A Festa da Ascensão do Senhor está intimamente ligada à Páscoa e a Pentecostes. São Lucas, de propósito, relembra hoje a Ressurreição e volta a mencionar o envio do Espírito Santo. Diante do Cristo ressuscitado e glorioso e na esperança da força do alto, os Apóstolos adoram o Senhor, isto é, fazem uma confissão pública de sua divindade e, tomados de alegria, começam a dar o doce testemunho do Senhor, através dos louvores a Deus.

Vivenciamos hoje uma verdade de fé: a Ascensão do Senhor. Assim, em todos os domingos rezamos com fé na Profissão dos cristãos: “Subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”.

Não que Jesus subiu a um lugar geográfico. A ascensão não celebra a separação de Jesus dos Apóstolos. Pelo contrário, o próprio Senhor vaticinou: “Estarei convosco todos os dias, até a consumação dos tempos”(cf. Mt 28,20).

A Ascensão é para Jesus o coroamento de sua missão neste vale de lágrimas que peregrinamos e se constitui num reassumir da plenitude do poder divino, que ele ocultara nos anos de sua vida terrena. Sentar-se à “direita do Pai” significa ser o Senhor do céu e da terra, e, por conseqüência, de nossas vidas e caminhadas.

Pela Ascensão se une o céu e a terra e a terra e o céu. O elo inquebrantável desta união é a natureza humana e divina de Jesus de Nazaré, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Com a Ascensão de Jesus abrem-se as portas do céu e estende-se o caminho de salvação para toda a carne humana. A Ascensão de Jesus garante para as criaturas um destino eterno, um verniz de salvação.

Meus queridos Irmãos,

Lucas situa a Ascensão perto de Betânia, no Monte das Oliveiras. Vale mais pelo simbólico do que pela indicação geográfica. Para Lucas é uma subida para Jerusalém, onde Jesus se torna o novo templo, é no Monte das Oliveiras, onde começara a Paixão, que ele termina glorioso a sua missão e passa aos Apóstolos a responsabilidade do Reino dos Céus.

Ascensão, festa de alegria, de grande alegria. Em Belém os Anjos anunciaram uma presença física do Senhor. Agora os Apóstolos devem anunciar uma vida nova, plena e definitiva presença do Senhor Ressuscitado no meio da comunidade. É a presença do Senhor a razão da nossa grande e inolvidável alegria.

O Apóstolo, como os anjos e arcanjos, tem uma grande missão que é anunciar e levar a mensagem do enviado, o Cristo que ascendeu de corpo e alma ao céu, levando a sua boa nova, que é de salvação e de vida em Deus.

Meus queridos Irmãos,

Os apóstolos tiveram a experiência de três presenças de Jesus: A primeira presença, assim chamada de ordinária: aquela presença do Jesus histórico, a quem viam com os olhos do corpo, ouviam com os ouvidos, tocavam com as mãos e com quem comeram na mesa. A segunda, uma presença excepcional: a experiência do Jesus Ressuscitado, que aparecia e desaparecia, entrava na sala estando as portas fechadas por medo dos judeus, dando sempre provas de que era Ele mesmo e não outro. E a terceira presença: a presença invisível – experiência da comunidade depois da Ascensão. Jesus continua presente e operante, mas já não mais alcançável pelos sentidos, somente pela fé e pela confiança.

Assim, meus caros irmãos, também nós vivemos as três experiências de Jesus de maneira simultânea. A presença ordinária a temos no rosto de nossos irmãos, a quem amamos e a quem transmitimos a alegre boa-nova da salvação. A presença excepcional a temos nos sacramentos, particularmente, na Eucaristia, em que a fé nos declara que Jesus Deus e homem está verdadeira e realmente presente. A presença invisível a temos na comunhão dos Santos, essa verdade de fé que nos ensina que formamos todos uma só e única comunidade entre nós e nós com Deus.

Assim, Ascensão é uma festa bonita em que, nem mesmo o afastamento provisório e temporário de Jesus, nos entristece, porque pela Ascensão Jesus está em nosso meio pleno de comunhão, comunhão do céu com a terra e da terra com o céu. Festa magna que inicia um novo tempo para a Igreja em que é anunciada a universalidade da salvação e da redenção.

Todos os povos, todas as gentes podem encontrar a santidade no nome de Jesus. Começa, assim, o tempo da Igreja. Cristo parte, mas permanece. A Igreja é o seu corpo e sua plenitude. Os Cristãos são as testemunhas vigilantes da morte, ressurreição e glória do senhor. Começa do tempo do despertar e crescer as sementes do Reino. Todos somos convidados e enviados para a missão de sermos testemunhas do Ressuscitado.

Prezados irmãos,

A tristeza torna o rosto sombrio e as lágrimas estorvam a vista. Os discípulos conheceram a tristeza e a decepção, não podem reconhecer o Ressuscitado que caminhava ao seu lado. Serão necessários os olhos da fé para nomear Aquele que está vivo, para se alegrar n’Ele, para O anunciar. A fé, assim, não mergulha na nostalgia. Se ela se volta para o passado, é para fazer memória. Orienta-se, sobretudo, para um futuro que já não será mais como antes. Qual é, então, o segredo dos discípulos para que estejam alegres depois da partida do seu Mestre? Muito simplesmente a sua presença, mas “de outro modo”. Doravante, Ele está sempre com eles; receberam a força do Espírito Santo, atualizam a sua mensagem, fazem memória dos seus gestos, tornando-O realmente presente no meio deles. Eles vivem na alegria porque sabem que Ele está com eles até ao fim dos tempos e que sem Ele nada podem fazer. Ele prometeu, Ele manterá as suas promessas!

Caros irmãos,

A ascensão de Jesus e, sobretudo, as palavras finais de Jesus, que convocam os discípulos para a missão, sugerem a nossa responsabilidade na construção desse mundo novo onde habita a justiça e a paz; sugerem que a proposta libertadora que Jesus fez a todos os homens está agora nas nossas mãos e que é nossa responsabilidade torná-la realidade; sugerem que nós, os seguidores de Jesus, temos de construir, com o esforço de todos os dias, o novo céu e a nova terra. A alegria que brilha nos olhos e nos corações desses discípulos que testemunham a entrada definitiva de Jesus na vida de Deus tem de ser uma realidade que transparece na nossa vida. Os seguidores de Jesus, iluminados pela fé, têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que os espera, no final do caminho, a vida em plenitude; e têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que o projeto salvador e libertador de Deus está a atuar no mundo, está a transformar os corações e as mentes, está a fazer nascer, dia a dia, o Homem Novo.

Que todos nós, nesta festa que é de Benção e de Missão, possamos nos transformar em fonte de benção para o irmão, para o próximo, especialmente para o excluído. Isso é explicitado no rito final da Missa. Dá-se a benção e realiza-se o envio: “Ide em Paz e o Senhor vos acompanhe! Graças a Deus!”. Também minha vida será uma ação de graças.

Padre Wagner Augusto Portugal