Solenidade da Santíssima Trindade

Entender a Santíssima Trindade é mergulhar no mistério do amor do DEUS TRINO pela nossa humanidade

Meus irmãos e minhas irmãs,

Com a Solenidade da Santíssima Trindade, reiniciamos o Tempo Comum na vida litúrgica da Santa Igreja. Inicia-se um tempo de refletirmos sobre as coisas cotidianas de nossa vida eclesial, de nossa vida de fé. Tempo propício, ordinário, para que deixemos Deus agir em nossa história, em nossa caminhada, de fé individual e de fé coletiva.

A celebração da Santíssima Trindade é uma oportunidade para a reflexão sobre a nossa vida de batizados. Fomos batizados “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, conforme a missão confiada por Jesus aos seus apóstolos: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). É a festa do Batismo, do sacramento da iniciação cristã.

Pelo Batismo, todos nos tornamos herdeiros do trono da graça divina. Pelo Batismo, tornamo-nos filhos e filhas de Deus. Pelo Batismo, é lavado o pecado original e, concomitantemente, recebemos a graça santificante de Deus. Pelo Batismo, tornamo-nos cidadãos do céu. Pelo Batismo, somos credores de direitos e devedores de obrigações para cumprir dentro da única e santa Igreja de Jesus Cristo.

Por isso, enfatiza o Evangelho de hoje(cf Mt 28,16-20): “…e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei”. É um desafio para os batizados, além de cumprir a vida de fé contida pelos Evangelhos, pela Tradição da Igreja e pelos Mandamentos. A primeira obrigação do batizado é evangelizar. Evangelizar com renovado ardor missionário, não tendo medo de “lançar as redes nas águas mais profundas”, conforme a convocação de nosso São João Paulo II, remetendo-se a bela passagem do Evangelho.

Irmãos queridos,

No Antigo Testamento(cf. Dt 4,32-34.39-40), Moisés explicou ao povo hebreu que Deus é próximo da gente, não um Deus inacessível. Ele fala com seu povo, acompanha sua caminhada e, muito mais, conta com a amizade de seu povo. Não é um Deus diferente, ou mais, indiferente, é um Deus amoroso e misericordioso.

Nesta catequese do livro do Deuteronômio, Deus revela-Se como o Deus da relação, empenhado em estabelecer comunhão e familiaridade com o seu Povo. É um Deus que vem ao encontro dos homens, que lhes fala, que lhes indica caminhos seguros de liberdade e de vida, que está permanentemente atento aos problemas dos homens, que intervém no mundo para nos libertar de tudo aquilo que nos oprime e para nos oferecer perspectivas de vida plena e verdadeira. Por vezes, ao longo da nossa caminhada pela vida, sentimo-nos sós e perdidos, afogados nas nossas dúvidas, misérias e dramas, assustados e inquietos face ao rumo que a história segue. Mas a certeza da presença amorosa, salvadora e reconfortante de Deus deve ser uma luz de esperança que ilumina o nosso caminho e que nos permite encarar cada passo da nossa existência com alegria e serenidade.

Celebramos hoje a Santíssima Trindade. Por isso quero lembrar a velha lição de um pároco didático que assim ensina: “Santíssima Trindade são três pessoas distintas em único DEUS”. Em miúdos, é o Pai, o Filho (Jesus) e o Espírito Santo que distintos, formam um único DEUS. Deus Trindade, que é DEUS COMUNIDADE. São três pessoas em um único DEUS. Assim nos ensina sobre o centro de nossa fé o Catecismo da Igreja Católica: “O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo. É, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé, é a luz que os ilumina”. (Catecismo nº 234).

A Santíssima Trindade ocupa o centro de nossa fé. Todas as vezes que fazemos o sinal da Cruz, estamos relembrando e fazendo memória, a fé que professamos: a fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

Explicar a grandiosidade do mistério da Santíssima Trindade é uma missão muito difícil. Santo Agostinho ensina que seria melhor entender a Santíssima Trindade como um mistério de amor. Como o amor de Deus por nós, devemos partir deste amor para que se manifeste o amor de três pessoas distintas em um único DEUS, o DEUS AMOR (1Jo 4,16).

Meus irmãos,

Entender a Santíssima Trindade é mergulhar no mistério do amor do DEUS TRINO pela nossa humanidade. Todas as orações da Santa Missa são trinitárias: são sempre feitas a Deus Pai, por meio do Cristo, no Espírito Santo. O Credo é professado em uma estrutura eminentemente trinitária.

Os apóstolos se prostraram diante de Jesus no Evangelho de hoje: bonita atitude de adoração, de respeito pela grandeza do Senhor da Vida, o novo legislador, o novo Moisés, aquele que lavou nossos pecados e nos deu a graça salvadora e redentora. A atitude de prostração deve ser a atitude dos cristãos diante de Deus. O sentimento de adoração reconhece o senhorio absoluto de Deus, que pode fazer com as criaturas em adoração o que lhe aprouver.

A festa da Santíssima Trindade é a festa da COMUNIDADE UNIVERSAL. É das grandes solenidades na Igreja, porque a Santíssima Trindade é a mais perfeita comunidade de fé, de amor, de generosa doação. Baseados na adoração ao único Deus Verdadeiro e Trino, estamos nos colocando em comunicação com a pavimentação da auto-estrada de nossa salvação.

O verdadeiro cristão está sempre pronto, ajoelhado diante de Deus, donde se levanta para partir para a missão, levando aos outros o bem e a paz que a bondade de Deus lhe dará para distribuir.

No Evangelho desta solenidade Jesus assegura: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Nós não estamos sozinhos na adoração e no apostolado. Cristo está conosco, caminha conosco, interpela-nos e nos envia em missão. Ele sempre caminha conosco e nos anima, esta certeza é como o maior tesouro que podemos carregar na algibeira. E o testemunho de nossa adoração e de nossa missão evangelizadora serão os dois únicos passaportes para adentrar no reino das Bem-Aventuranças.

Caros irmãos,

A primeira leitura – Dt 4,32-34.39-40, nos apresenta uma pergunta: Como é que Israel se deve situar diante deste Deus? Como é que o Povo deve responder aos apelos de Deus? Na perspectiva do teólogo deuteronomista, Israel deve, em primeiro lugar, reconhecer que “só o Senhor é Deus e que não há outro”. D’Ele e só d’Ele brotam a vida, a salvação, a felicidade, a liberdade. Esta constatação convida o Povo a não colocar a sua esperança e a sua realização noutros deuses, noutras propostas ilusórias e enganadoras. Israel deve, em segundo lugar, cumprir as leis e os mandamentos de Deus, pois essas leis e mandamentos são o caminho seguro para a felicidade.

Este “caminho” não é um caminho de dependência e de servidão; mas é um caminho de felicidade. Deus não se imiscui na vida dos homens para os tornar dependentes, mas para os libertar e para os levar à vida verdadeira, à felicidade plena.

Por esta leitura o Povo é exortado a cumprir as leis e os mandamentos que Deus propõe; e garante que as propostas de Deus são o caminho seguro para a felicidade e para a realização plena do homem. Os mandamentos não são propostas destinadas a limitar a nossa liberdade e a prender-nos a um deus ciumento e castrador; mas são sugestões de um Deus que nos ama, que quer a nossa felicidade e realização plena e que, no respeito absoluto pela nossa liberdade, não desiste de nos indicar o caminho para a verdadeira vida.

Prezados irmãos,

Na segunda leitura – Rm 8,14-17, Paulo diz que “Recebestes um espírito de filhos, no qual todos nós clamamos: Abbá, ó Pai!”. Mais uma vez a Palavra que nos é proposta reafirma esta realidade: o Deus em quem acreditamos não é um Deus distante e inacessível, que Se demitiu do seu papel de criador e que assiste com indiferença e impassibilidade aos dramas dos homens; mas é um Deus que acompanha com paixão a caminhada da humanidade e que não desiste de oferecer aos homens a vida plena e verdadeira. Há, ao longo da nossa caminhada pela vida, momentos de solidão e de desespero, em que procuramos Deus e não conseguimos descortinar a sua presença; mas, sobretudo nesses momentos dramáticos, é preciso não esquecer que Deus nunca desiste dos seus filhos e que nenhum de nós Lhe é indiferente. À oferta de vida que Deus faz, o homem pode responder positiva ou negativamente. Se o homem preferir recusar a vida que Deus oferece e trilhar caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência, está a rejeitar a possibilidade de aceder à vida plena e verdadeira; se o homem estiver disponível para acolher a salvação que Deus oferece em Jesus, torna-se herdeiro da vida eterna.

O batizado que acolhe a proposta de salvação que Deus faz em Jesus vive “no Espírito”. Aceitar essa proposta de vida é aceitar uma vida de relação e de comunhão com Deus. Nessa relação, o batizado é alimentado com a vida de Deus. Os que aceitam receber a vida de Deus e vivem “no Espírito” são “filhos de Deus”: Deus é, para eles, um Pai que continuamente os cria e lhes dá vida. A partir de então, os batizados integram a “família de Deus”. Não são escravos que vivem no medo de um patrão ciumento e exigente (como era a Lei de Moisés); mas são “filhos” queridos, que Deus ama com amor infinito. Ao dirigirem-se a Deus, os batizados podem usar, com propriedade, a palavra “abba” (a palavra com que, familiarmente, as crianças se dirigem ao pai e que pode traduzir-se como “papá”) – expressão de intimidade filial, que define uma relação marcada pelo amor, pela familiaridade, pela confiança, pela ternura. A condição de “filhos” equipara os batizados com Cristo. Eles tornam-se, assim, “herdeiros de Deus e herdeiros com Cristo”. Qual é essa “herança” que lhes está reservada? É a vida plena e definitiva, que Deus oferece àqueles que aceitaram a proposta de Cristo e percorreram com Ele o caminho do amor, da doação, da entrega da vida. O nosso Deus é, de acordo com a catequese de Paulo, o Deus da relação, apostado em vir ao encontro dos homens, em oferecer-lhes vida, em integrá-los na sua família, em amá-los com amor de Pai, em torná-los herdeiros da vida plena e definitiva.

Meus irmãos,

O Espírito que recebemos é o mesmo Espírito que Cristo recebeu em seu batismo e com o qual Ele nos batiza. A segunda leitura explica isso de modo comovente. Paulo parte da realidade batismal: o ser impelido pelo Espírito de Deus. Isso não é apenas um Espírito de filhos adotivos. O ESPÍRITO DE CRISTO clama em nosso espírito. Nada nos é imposto contra nossa vontade. Assumimos livremente, porque amamos, como filhos que amam a seu Pai.

Todos nós somos convidados a tomar consciência de nosso Batismo.

O que o Pai, o Filho e o Espírito Santo representam em nossa vida?

Vamos mergulhar no mistério da Trindade. As pessoas divinas se comunicam. Uma ajuda à outra a realizar a sua missão. Assim, entendendo três pessoas distintas em um único Deus, o Deus amor, poderemos viver em nossa comunidade um novo relacionamento. Partindo da acolhida da Trindade e da consciência da relação com as três pessoas divinas, tornaremos nossa vida cristã menos abstrata, conferindo-lhe uma conotação mais versátil, mais concreta. Mas é preciso cultivar a contemplação da Santíssima Trindade em nossa vida.

Por isso, vivemos nossa vocação de batizados dentro de uma comunidade, a Santa Igreja, Corpo Místico de Cristo, que se empenha na construção de um mundo mais humano e solidário, onde a justiça e a paz se abraçarão, e o primado da justiça e da solidariedade façam o amor reinar. Unidos em Cristo pelo Espírito Santo, damos todo louvor e glória ao Pai, fim último de nossa peregrinação neste vale de lágrimas. Amém!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal