Homilia Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Meus queridos irmãos,

O Brasil está unido, de norte a sul, de leste a oeste, para a grande festa de nossa excelsa padroeira: a Virgem da Conceição, Aparecida das águas do Rio Paraíba, no vale do mesmo nome, no ano de 1717. Estamos iniciando os trezentos anos, jubileu convocado pela Conferência Episcopal para o Ano Mariano de 2016-2017. A devoção a Virgem Maria que nos abre o caminho mais rápido para contemplarmos a Santíssima Trindade.

No majestoso Santuário Nacional de Nossa Senhora, na paulista Aparecida, ou nas Catedrais, Igrejas Matrizes, Igrejas Filiais e Capelanias de todo o imenso território nacional os fiéis precedidos de seus Pastores, louvam a Deus, por intermédio de sua Mãe que nos legou o mais simples e profundo modo de seguir a Jesus Cristo, o Redentor: “Fazei tudo o que Ele vos Disser!”.(cf. Jo 2, 5)

Irmãos e Irmãs,

Maria deve ser colocada, dentro de um bom entendimento da liturgia de hoje, como a intercessora do povo, como principal padroeira do povo Brasileiro. A Primeira Leitura(cf. Est 5,1b-2; 7,2b-3) nos ensina que a intervenção da Rainha Éster junto ao Rei Assuero em favor do povo judeu, ao qual ela mesma pertencia. Ao mesmo tempo, menciona-se a graciosa beleza desta “flor do seu povo”.

A Rainha Ester, judia, que conseguiu a proteção de seu povo dominado, graças às suas qualidades reais e à presença de Deus na sua vida. Ester é um símbolo do amor que Deus dedica a qualquer nação que expressa a sua confiança nele reconhecendo a sua obra em Maria, a “rainha”, mas também acolhendo a sua vontade e justiça como rumo de seu caminho. Pois não adianta implorar a intercessão da rainha, se se rejeita a justa vontade do rei.

No Antigo Testamento, a consciência da encarnação do amor de Deus praticamente não ultrapassava as fronteiras de Israel. Um dos momentos em que se notificou esse amor encarnado na proteção da nação foi a atuação da rainha Ester, judia que, graças às suas reais qualidades e à presença de Deus em sua vida, conseguiu proteção para o povo dominado. Esse tema pode ser interpretado como um símbolo do amor que Deus dedica a qualquer povo que expressa sua confiança nele e toma sua vontade e justiça como rumo de seu caminho. Neste dia santo, para a liturgia hodierna, a “rainha” por excelência é Maria, mediadora junto a Jesus e a Deus, e solidária com o povo. Como Ester, ela reza: “Salva meu povo”.

Veneramos a Virgem Maria, que nos trouxe a salvação, quando todos somos chamados a amar a Virgem com o coração de filhos, tendo em vista que em Jesus, tornamo-nos todos irmãos pelo batismo.

A Virgem Aparecida nos traz recordações importantes na vida cristã: como a ternura maternal da Virgem, sua dedicação a Jesus como mulher de fé, seu serviço prestado a toda a humanidade. Em Maria temos o mais perfeito exemplo do discípulo e da discípula de Jesus, que sabe cumprir os mandamentos e fazer realizar a única vontade do Pai, que se concretiza na salvação do povo de Deus.

Meus amigos,

A Virgem Maria deve ser apresentada como o Modelo acabado de fidelidade do ser humano a Deus. Maria da fraternidade. Maria da acolhida. Maria da graça. Maria da partilha. Maria da misericórdia. Maria da graça santificante. Maria da generosidade. Maria do serviço!

Relembramos assim, a visita do Conde de Assumar, em 1717, em Guaratinguetá, quando os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso foram escalados para pescar peixes para a refeição da visita ilustre, sendo este dia uma sexta-feira, dia de abstinência de carne. Os homens simples do Vale do Paraíba nada pescaram. Quando já estavam quase desanimando jogaram a rede e retiram uma imagem pequena de Nossa Senhora da Conceição, um pouco enegreada pela água, sem a cabeça. Outro arremesso. Veio a cabeça da imagem. Assim prosseguiu mais um arremesso e veio a pesca abundante. Deus abençoava, naquele momento, os três pescadores.

A imagem da Virgem da Conceição, feita de barro cozido, enegrecida pelas águas e pelo tempo, medindo 36 cm, foi levada para o culto divino. Em 1745 foi construída uma Capela no alto do Morro dos Coqueiros. Nascia, assim, a devoção a Virgem Aparecida, Mãe do Povo Brasileiro. Em 1888 foi substituída a primitiva capela por uma Igreja. Em 1894 a Igreja e a devoção a Nossa Senhora foi enriquecida pela presença dos Missionários Redentoristas que passaram a gerir o Santuário Nacional.

Desde 1953, a festa de Nossa Senhora Aparecida, tem como dia de celebração o dia 12 de outubro. Desde 1930 Nossa Senhora Aparecida abençoa o povo brasileiro como sua Padroeira Nacional. Em 4 de Julho de 1980 o Sumo Pontífice João Paulo II, de venerável memória, consagrou o novo Santuário Nacional. Em 13 de maio de 2007, o Sumo Pontífice, Papa Bento XVI, abriu a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e caribenho nos fazendo o doce convite para “sermos discípulos e missionários de Jesus Cristo para que todos tenham vida e vida plenamente”. Na véspera deste memorável encontro, no interior da majestosa Basílica, o Santo Padre rezara o terço com os ministros sagrados e o povo de Deus, na mais cândida homenagem a Maria que abençoa o povo brasileiro. No dia 24 de julho de 2013, o Santo Padre Francisco, antes de iniciar a JMJRio 2013, se fez peregrino de Nossa Senhora, quando pela primeira vez rezou, como Pontífice, a nova consagração a Virgem Aparecida, toda ela agora com viés cristológico:”Ó Maria Santíssima, pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, em vossa querida imagem de Aparecida, espalhais inúmeros benefícios sobre todo o Brasil. Eu, embora indigno de pertencer ao número de vossos filhos e filhas, mas cheio do desejo de participar dos benefícios de vossa misericórdia, prostrado a vossos pés, consagro-vos a minha língua para que sempre vos louve e propague sua devoção; consagro-vos o meu coração; para que, depois de Deus, vos ame sobre todas as coisas. Recebei-me, ó Rainha incomparável, vós que o Cristo crucificado deu-nos por Mãe, no ditoso número de vossos filhos e filhas; acolhei-me debaixo de vossa proteção; socorrei-me em todas as minhas necessidades, espirituais e temporais, sobretudo na hora de minha morte. Abençoai-me, ó celestial cooperadora, e com vossa poderosa intercessão, fortalecei-me em minha fraqueza, a fim de que, servindo-vos fielmente nesta vida, possa louvar-vos, amar-vos e dar-vos graças no céu, por toda a eternidade. Assim seja!”

Meus queridos amigos,

O Evangelho de hoje(cf. Jo 2,1-11), o das Bodas de Caná, tem como ambiente uma família. Nossa Senhora deve ser lembrada como a padroeira das famílias. Assim a nossa família, toda ela Mariana, deve buscar em Maria a protetora para as suas necessidades e a sua intercessora privilegiada junto de Deus, porque o que se pede a Mãe o Filho atende. Maria intercede junto a Jesus. Da mesma maneira ela haverá de interceder pelo povo brasileiro em suas múltiplas necessidades. Maria, nossa Mãe, mãe da misericórdia, cuja ternura toca o nosso coração, recebe e atende nossos pedidos, dos mais simples aos mais complexos e difíceis.

Maria deposita toda a sua confiança em Jesus, no seu poder salvador, na sua misericórdia e na largueza de seu imenso coração misericordioso. Faltava o vinho e Maria intercede pedindo aos funcionários que eles “fizessem tudo o que Ele dissesse”. Houve abundância do vinho que era água. A riqueza desta graça que Maria distribui, também ela com abundância, aos filhos que a ela recorrem. Dela podemos dizer o mesmo que a carta aos Hebreus aconselhava a respeito do Sumo Sacerdócio de Jesus: “Aproximemo-nos confiantemente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia” (cf. Hb 4, 16).

Maria Santíssima é apresentada aí como a “senhora mãe” (é o que significa, na linguagem bíblica, o termo de tratamento “mulher”). Ela se sente responsável pelo que diz respeito à sua família: a presença de seu filho Jesus e de seus amigos faz com que se preocupe com a falta de vinho na festa. Conhecendo seu filho, intercede junto a Ele para apontar essa situação. Quando Jesus, então, pergunta pelo sentido dessa situação (“Que significa para ti e para mim, mulher?”) e observa que “ainda não chegou sua hora” (para sua grande obra) (Jo 2,4), Maria confia os serventes à providência dele (“Fazei tudo o que ele vos disser”, cf. Gn 41,55, a respeito de José do Egito). Talvez às cegas, mas confiante no projeto de Deus e no filho que Deus lhe deu, Maria assume sua missão de confiar o mundo a ele.A partir daí, Jesus vai realizar não um simples “milagre”, mas um “sinal”, como São João gosta de dizer – um sinal de sua missão, sinal de que Deus está com ele, sinal-símbolo do dom que ele mesmo é. Pois a história que São João conta, como todo seu Evangelho, não é propriamente mariológico, mas cristológico. Mostra Jesus dando início (2,11) aos sinais da sua grande obra, antes que se realize a sua “hora” (2,4), que á a hora da cruz (cf. 12,23.27; 13,1; 17,1). Nessa hora aparecerá na cena, pela segunda e última vez no evangelho de João, a “mãe de Jesus”, sendo chamada com o mesmo título de 2,4: “Mulher” (19,26). A “mulher, mãe de Jesus” emoldura, assim, toda a “obra” dele, desde o “início dos sinais”(2,11) até a obra “consumada” (19,30). Alguns Santos Padres interpretaram isso no sentido de que, em Maria, o povo do Antigo Testamento, representado pela imagem da mulher, passa para a comunidade do Novo Testamento, quando a “Mulher-Mãe” é amparada pelo Discípulo por excelência, que “a acolheu no que era seu” (Jo 19,27).

A abundância de vinho é um sinal de que Jesus vem cumprir a missão messiânica (cf. a abundância de vinho no tempo messiânico, Am 9,13-14 etc.), mas esta missão só é levada a termo na “hora” da morte e glorificação (cf. Jo 13,1ss; 17,5 etc.).

Irmãos,

A segunda leitura(cf. Ap 12,1.5.13a.15-16a) que hoje lemos nos remete a liturgia da Assunção. Maria que protege a humanidade e a Igreja – exerce a missão de Mãe e Mestra. Maria gerou e levou o Salvador ao mundo, e presenciou a sua vitória, eis o que une Maria e a Igreja, que tem a missão de levar o Salvador ao Mundo e presenciar a Vitória de Cristo sobre o mundo, como Rei da Humanidade. Que fazem de Maria e da Igreja uníssonas na obra da salvação.         

A segunda leitura apresenta esta sugestiva cena a Mulher-Povo de Deus. Maria Santíssima dá à luz o Messias e é perseguida pelo Dragão, que representa o anti-Reino. Da alegoria da Mulher-Povo de Deus (Ap 12) utilizam-se, na interpretação litúrgica, aqueles versículos que sublinham a grandeza e a realeza da Mulher-Maria (Mãe do Messias), como também a solidariedade da “terra” com sua luta (12,16a). Destaca-se o papel protetor que a Mulher exerce com relação ao Filho messiânico. Se, no sentido primeiro, a Mulher é a Igreja-povo de Deus, a intuição da fé, aplicando essa leitura a Maria, percebe-se a analogia entre o papel da Igreja e o de Maria. Gerar e levar o Salvador ao mundo, e presenciar sua vitória, eis o que Maria e a Igreja têm em comum. Destacando a figura de Maria, a Igreja assume, até certo grau, o que foi a obra de Maria. Isso vale também com relação à proteção do povo, que não é algo mágico, mas algo que se realiza mediante as nossas mãos: nosso empenho por uma sociedade melhor, mas justa, mais conforme à vontade de Deus.

Caros irmãos,

Neste dia santo em que iniciamos o ano santo jubilar mariano no Brasil queremos pedir a proteção constante de Maria, a Aparecida em favor do povo brasileiro, que tenhamos a abundância da Palavra de Deus e da Santíssima Eucaristia em nossas comunidades para que sejamos autênticos discípulos do Seu Filho, “Fazendo tudo o que Ele vos disser!”. Assim neste dia santo para nós católicos queremos reafirmar a nossa sã doutrina que o aprovado culto Mariano está sempre em relação ao seu Filho Jesus. A salvação do homem consiste na comunhão com o Deus trino, comunhão que lhe é concedida através do encontro existencial com Jesus Cristo: quem o vê, vê também o Pai(cf. Jo 14,9). Por isso, a salvação é sempre a salvação em Cristo: ela tem um lugar quando alguém se insere nele, cabeça do corpo, videira para os sacramentos. A salvação consiste neste “estar em”.  Nossa Senhora Aparecida constituiu importante ponto de referência neste empreendimento. Esta Maria unida a Jesus de maneira única não só no plano biológico, mas também – e sobretudo – no plano espiritual, religioso e existencial. Aquele que em seu espírito, em sua espiritualidade e conduta prática se aproxima o mais possível de Maria, também se encontra numa estreita relação com Cristo e se coloca realmente na sua caminhada, que conduz ao Deus uno e trino, nossa vida. Maria não é a meta da existência cristã, mas o seu perfeito modelo e, neste sentido é insubstituível.

Como bem asseverou São João Paulo II: “Ajudem, pois, os fiéis a viverem sua devoção mariana como um claro e corajoso testemunho de amor a Cristo, que manifeste a identidade pessoal e comunitária dos católicos, contra o perigo do secularismo e do consumismo, e ao mesmo tempo favoreça nas famílias a prática das virtudes cristãs. De igual modo, esta devoção ajudará a consolidar os vínculos de comunhão com os Pastores da Igreja de Cristo, enfrentando a desagregação da fé, fomentada tantas vezes pelo proselitismo das seitas. A história ensina que Maria é a verdadeira salvaguarda da fé; em cada crise, a Igreja reúne-se à volta d’Ela. Só assim os discípulos do Senhor poderão ser para os outros sal da terra a luz do mundo (cf. Mt 5, 13.14). “Feliz do povo, cujo Senhor é Deus, cuja Rainha é a Mãe de Deus!” Assim proclamava o Papa Pio XII e assim poderá exclamar essa dileta arquidiocese de Aparecida, se devidamente souber voltar os olhos para Aquela que gerou, por obra do Espírito Santo, o Verbo feito carne. É que a missão essencial da Igreja consiste precisamente em fazer nascer Cristo no coração dos fiéis (cf. Lumen gentium, 65) pela ação do mesmo Espírito Santo, através da evangelização.

Salvos das águas pela fé e pelo Batismo, os cristãos podem atingir algo daquilo que contemplam na Virgem Aparecida, a Imaculada, se seguirem o seu conselho: Fazei tudo o que Ele vos disser!”. Esta parte fica como a nossa missão na festa da Virgem Maria Aparecida. Amém!Padre Wagner Augusto Portugal