Jesus expulsa os vendilhões do templo

Meus irmãos,

Neste terceiro domingo de nosso grande retiro quaresmal, rumo às grandiosas celebrações da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, encontramos o Divino Mestre no Templo de Jerusalém. E na meditação do Evangelho deste dia, testemunhamos seu gesto profético e cheio de indignação contra os vendilhões e sua insistência numa prática religiosa baseada na JUSTIÇA. Recebemos de Jesus o anúncio e a proposta de um verdadeiro culto ao templo de seu corpo martirizado e glorificado. Hoje, este templo é a comunidade de irmãos e irmãs, a comunidade de fé, a comunidade eclesial, o corpo místico de Cristo.

Por isso, o tema central da liturgia deste domingo é a adoração de Deus. É o que o Antigo Testamento entende por “temor de Deus”. Este termo não aponta um medo infantil diante de um Deus policial, mas todo o sentimento de submissão e receptividade diante do Mistério. Israel e seu povo não podem “temer” outros deuses. Só a amizade de Javé vale a pena temer perdê-la.

Esse temor de Deus se expressa, antes de tudo, na Lei do Sinai, cujo resumo são os Dez Mandamentos. Inicia-se com o mandamento do temor a Javé: só a Ele se deve adorar, pois é um Deus que age: tirou Israel do Egito. Mas esse temor não diz respeito tão-somente à atitude diante de Deus, mas também ao relacionamento com o próximo, com os irmãos e irmãs. Ora, Javé não estaria bem servido com um povo cujos membros se devorassem mutuamente. Daí o culto implicar imediatamente num “etos”, ou seja, num critério de comportamento.

No entendimento dos antigos israelitas, o Decálogo, refletido na primeira Leitura de hoje(Ex 20,1-3.7-8.12-17), era algo como um pacto feudal. Javé era o suserano, que fornecia força e proteção, mas esperava da parte do vassalo, Israel, colaboração e temor; e este consistiria na adoração de Javé e no relacionamento fraterno no seio do próprio povo. Sem estas duas condições, Israel não valeria nada como povo de Javé. Em termos de hoje: para servir a Deus, não basta ser piedoso; é preciso ser gente, também, no relacionamento com os irmãos.

O “decálogo” abarca os dois aspectos fundamentais da existência humana: a relação do homem com Deus e a relação que cada homem estabelece com o seu próximo. Os primeiros quatro mandamentos dizem respeito à relação que Israel deve estabelecer com Deus (vers. 3-11). Dois, sobretudo, são de uma tremenda originalidade (o mandamento que obriga Israel a não ter outro Deus, outro Senhor, outra referência; e o mandamento que proíbe construir imagens de Deus), pois não encontram paralelo em nenhuma das religiões antigas que conhecemos. A questão essencial que sobressai, nestes quatro mandamentos, é esta: Deus deve ser a referência fundamental da vida do Povo, o centro à volta do qual se constrói toda a existência de Israel. Nada nem ninguém deve ocupar, no coração do Povo, o lugar que só a Deus pertence. É preciso que Israel reconheça que só em Deus está a vida e a salvação (vers. 3: “não terás nenhum deus além de mim”); é necessário que Israel reconheça a absoluta transcendência de Deus – que não pode ser reproduzida em qualquer criatura feita pelo homem – e não se prostre perante obras criadas pela mão do homem (vers. 4: não farás para ti qualquer imagem esculpida… não hás-de prostrar-te diante delas, nem prestar-lhes culto”); é preciso que Israel reconheça que não deve manipular Deus e usá-Lo em apoio de projetos e interesses puramente humanos (vers. 7: “não hás-de invocar o nome do Senhor teu Deus em apoio do que não tem fundamento”); é preciso que Israel reconheça que só o Senhor é o dono do tempo e que reserve espaço para o encontro e o louvor do Senhor (vers. 8: “hás-de lembrar-te do dia de sábado, a fim de o santificares”). Os outros seis mandamentos dizem respeito às relações comunitárias (vers. 12-17). Procuram inculcar o respeito absoluto pelo próximo – a sua vida, os seus direitos na comunidade, os seus bens. São “a magna carta da liberdade, da justiça, do respeito pela pessoa e pela sua dignidade”. Recomendam que cada membro da comunidade reconheça a sua dependência dos outros e aceite a sua vinculação a uma família e a uma cultura (vers. 12: “honra teu pai e tua mãe”); pedem que cada membro do Povo de Deus respeite a vida do irmão (vers. 13: “não matarás”); recomendam que seja defendida a família e respeitadas as relações familiares (vers. 14: “não cometerás adultério”); exigem que se respeite absolutamente quer os bens, quer a própria liberdade dos outros membros da comunidade (vers. 15: “não tomarás para ti” – o que pode referir-se a pessoas ou a coisas. Pode traduzir-se por “não roubarás”, mas também por “não privarás de liberdade o teu irmão, não o reduzirás à escravidão”); pedem o respeito pelo bom nome e pela fama do irmão, nomeadamente dando sempre um testemunho verdadeiro diante do tribunal e garantindo a fiabilidade de uma justiça que é a base da correta ordem social (vers. 16: “não levantarás falso testemunho contra o teu próximo”); exigem o respeito pelos “bens básicos” que asseguram ao irmão a sua subsistência e procuram evitar que o coração dos membros da comunidade do Povo de Deus seja dominado pela cobiça e pelos instintos egoístas (vers. 17: “não cobiçarás a casa do teu próximo, não desejarás a mulher dele, nem o criado ou a criada, o boi ou o jumento, nem coisa alguma que lhe pertença”).

Deus fala: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito, da casa da servidão” (vers. 2). O Pai do céu, o Deus libertador, está interessado em que Israel se liberte definitivamente da escravidão e se torne um Povo livre e feliz. Os “mandamentos” são, precisamente, um contributo de Deus para isso. Ao colocar estes “sinais” no percurso do seu Povo, Deus não está a limitar a liberdade de Israel, mas está a propor ao Povo um caminho de liberdade e de vida plena. Os mandamentos pretendem ajudar Israel a deixar a escravidão do egoísmo, da auto-suficiência, da injustiça, do comodismo, das paixões, da cobiça, de exploração.

Os mandamentos nascem do amor de Deus Pai a Israel e procuram indicar ao Povo o caminho para ser feliz. A resposta do Povo a essa preocupação de Deus será aceitar as indicações e viver de acordo com esses preceitos. Israel responderá, assim, ao amor de Deus e será feliz. É essa Aliança que Deus Pai quer fazer com o seu Povo, é esse o “interesse” de Deus.

Irmãos e Irmãs,

Podemos dividir o Evangelho de hoje(Jo 2,13-25) em três partes: primeiro, a purificação do Templo, expulsando os que haviam transformado seus átrios em lugar de comércio para a compra e venda de animais, que serviam ao formalismo ritual. Os peregrinos, tantas vezes vindos de longe, deviam encontrar e pagar no lugar os animais para o sacrifício. Muitas vezes, os peregrinos dispunham só de dinheiro romano, não admitido no Templo, por serem moedas cunhadas com imagens de imperadores estrangeiros ou com figuras pagãs do mundo opressor; daí a presença de cambistas no Templo. Segundo o Evangelista João, o episódio acontece no recinto sacro, mas externo ao Templo propriamente dito, que era um lugar de acesso também a estrangeiros e pagãos.  Por isso, pode parecer excessivo o rigor de Jesus. Mas ao Evangelista interessa o simbolismo do episódio.

Jesus conheceu o mesmo Templo que foi restaurado por Herodes, aquele que mandou massacrar os meninos de Belém. Aquele local se tornara o centro do culto ao Deus único e centro do judaísmo. Nele Jesus foi consagrado a Deus por Maria e José, nele “se perdeu” aos doze anos e a ele terá “subido” por ocasião das solenidades próprias do judaísmo.

Meus irmãos,

A segunda parte começa com a citação do Salmo 69: “O zelo por tua casa me devora” (Jo 2,17b). E ligando à perícope vem a profecia: “Destruí este templo e eu o reconstruirei em três dias” (Jo 12,19b), que será citada como acusação diante de Caifás na condenação e será usada como escárnio no Calvário. Destruir e reconstruir, dois verbos fortes no Evangelho de hoje: aqui está o resumo da missão dos profetas.

Desde o início de seu Evangelho, São João anuncia a missão profética de Jesus: tirar o pecado do mundo, arrancar a criatura humana das trevas, destruir o velho homem e recriar o universo, fazer renascer a criatura pela força do Espírito Santo, transformar a água em vinho e, coisa inédita, destruir a morte e redar a vida, como tão bem aparece em tantas passagens dos Santos Evangelhos e, de forma muito visível, na ressurreição de Lázaro e sobretudo em sua própria ressurreição. Gestos profundamente proféticos, mas que ultrapassam os feitos de todos os profetas.

Mas do que o Templo-edifício o Evangelho nos fala, do templo espiritual, mas agradável a Deus, onde os sacrifícios não são animais, mas boas obras, obras de caridade, acolhida ao pobre, ao excluído, ao necessitado, acolhida aos marginalizados, aos injustiçados, disposição para a construção constante de uma sociedade mais justa e fraternidade, pois a “paz é fruto da justiça”.

Deixemos os holocaustos e tudo o que lhe seja afim e vivamos a construção de um novo templo, o templo espiritual, com obras de caridade e obras de evangelização. Aprendamos a fazer o bem, procurando o que é justo e agradável a Deus. Corrijamos o opressor e defendamos a viúva, bem como o ancião. A resposta de Jesus à Samaritana é o dever de casa da liturgia de hoje: “Nem em Jerusalém, nem no Garizim, mas chegou a hora de adorar o Pai em espírito e verdade”. (Jo 4,31-23).

Meus irmãos,

Jesus foi deixando claro em sua caminhada que o Templo de Jerusalém tinha perdido o seu sentido e que ele mesmo, seu corpo, seria o novo lugar da presença salvadora de Deus. A novidade de hoje e que os dois templos se misturam e João observa: “O templo de que Jesus falava era o seu corpo” (in vers. 21). Não mais um templo de pedra, por mais precioso que seja, mas um templo vivo, aberto para todos. Nós cristãos, como prolongamento do Corpo do Cristo glorioso, somos a casa de Deus, o templo espiritual, cuja cabeça e fundamento é Jesus.

Enfim, a terceira parte do Evangelho. No capítulo 2º versículos 23 a 25, temos a exortação, inúmeras vezes repetidas nos Evangelhos: não basta a admiração diante dos milagres, da coragem, ou da novidade trazida por Jesus. É preciso a convicção de Marta: “Creio que és o Cristo, o Filho de Deus, que veio a este mundo” (Jo 11,27).

Caros irmãos,

Como é que podemos encontrar Deus e chegar até Ele? Como podemos perceber as propostas de Deus e descobrir os seus caminhos? O Evangelho deste domingo responde: é olhando para Jesus. Nas palavras e nos gestos de Jesus, Deus revela-Se aos homens e manifesta-lhes o seu amor, oferece aos homens a vida plena, faz-Se companheiro de caminhada dos homens e aponta-lhes caminhos de salvação. Neste tempo de Quaresma – tempo de caminhada para a vida nova do Homem Novo – somos convidados a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar.

Os cristãos são aqueles que aderiram a Cristo, que aceitaram integrar a sua comunidade, que comeram a sua carne e beberam o seu sangue, que se identificaram com Ele. Membros do Corpo de Cristo, os cristãos são pedras vivas desse novo Templo onde Deus Se manifesta ao mundo e vem ao encontro dos homens para lhes oferecer a vida e a salvação. Esta realidade supõe naturalmente, para os batizados, uma grande responsabilidade. Os homens do nosso tempo têm de ver no rosto dos cristãos o rosto bondoso e terno de Deus; têm de experimentar, nos gestos de partilha, de solidariedade, de serviço, de perdão dos cristãos, a vida nova de Deus; têm de encontrar, na preocupação dos cristãos com a justiça e com a paz, o anúncio desse mundo novo que Deus quer oferecer a todos os homens. Talvez o facto de Deus parecer tão ausente da vida, das preocupações e dos valores dos homens do nosso tempo tenha a ver com o fato de os discípulos de Jesus se demitirem da sua missão e da sua responsabilidade.

Irmãos e Irmãs,

São Paulo anuncia a cruz de Cristo na segunda leitura(1Cor 1,22-25). Escândalo para os judeus, porque a cruz é um instrumento indigno para a morte de um judeu. Loucura para os pagãos, com sua filosofia elitista ou hedonista. Mas para os chamados de todas as nações e de todos os povos é a revelação da força de Deus e de sua sabedoria. Nós sabemos o porquê: Deus quer conquistar corações que se convertem diante da conseqüência de seu próprio orgulho. Por isso, o acesso a Deus acontece doravante no Cristo rejeitado, pois é nele que encontramos o gesto de reconciliação de Deus para conosco.

Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem anunciar a mensagem com verdade e radicalidade, renunciando à tentação de a suavizar, de a tornar mais “politicamente correta, de a tornar menos radical e interpelativa. Às vezes, o invólucro “brilhante” com que envolvemos a Palavra torna-a mais atrativa, mas menos questionante e, portanto, menos transformadora.

Judeus e gregos, cada um à sua maneira, buscam seguranças. Os judeus procuram milagres que garantam a veracidade da mensagem anunciada; os gregos procuram as belas palavras, a coerência do discurso, a lógica dos argumentos. Na verdade, Jesus não Se apresentou como um Deus espetacular, a exibir o seu poder e as suas qualidades divinas através de gestos estrondosos e milagrosos, como os judeus estavam à espera; nem Se apresentou como o “mestre” iluminado de uma filosofia capaz de se impor pelo brilho das suas premissas e pela sua lógica inatacável, como os gregos gostariam.

A essência da mensagem cristã está na “loucura da cruz” – isto é, na lógica ilógica de um Deus que veio ao encontro da humanidade, que fez da sua vida um dom de amor e que aceitou uma morte maldita para ensinar aos homens que a verdadeira vida é aquela que se coloca integralmente ao serviço dos irmãos, até à morte. No entanto, foi precisamente dessa forma que Deus apresentou aos homens o seu projeto de salvação e de vida definitiva. Na cruz de Jesus manifestou-se, de forma plena, o poder salvador de Deus. Decididamente, considera Paulo, a lógica de Deus não é exatamente igual à lógica dos homens. O caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. Nele manifesta-se de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus.

Vamos, à partir da advertência de São Paulo Apóstolo, descobrir e a interiorizar a lógica de Deus, que é bem diferente da lógica dos homens. Os homens sentem-se mais seguros e confortáveis diante de líderes vencedores, que se impõem pela força e que exibem o seu poder através de gestos espetaculares; e Deus aparece-lhes na figura de um obscuro carpinteiro galileu, condenado pelas autoridades constituídas, abandonado por amigos e discípulos, escarnecido pelas multidões, e morto numa cruz fora dos muros da cidade. Os homens gostam de ser convencidos por projetos intelectualmente brilhantes, que apresentem argumentos fortes e uma lógica inquestionável; e Deus oferece-lhes um projeto de salvação que passa pela morte na cruz, em plena e radical contradição com todos os esquemas mentais e toda a lógica humana. O apóstolo Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus. É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.

Meus irmãos,

Hoje em dia, muita gente sente dificuldade em falar e aceitar os dez mandamentos. Esta lei, aparentemente tão negativa na sua expressão, não foi substituída pelo novo mandamento de Jesus, que é o amor? Por isso, buscando no amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, estaremos vivendo uma antecipação das glórias do Céu pela celebração da Páscoa. E mais, o batizado sempre deve se comprometer a promover a vida e lutar contra tudo o que a ameaça.

Todos os seres humanos são chamados a serem templos de Deus em Cristo Jesus. Importa não profanar o templo que carregamos em nós mesmo. Importa fazer com que tudo o que nele se realiza seja agradável a Deus. Há de sê-lo se vivermos a sabedoria e ou a loucura da cruz, isto é, se soubermos viver o amor que nos foi ensinado por Cristo, que deu sua vida para que tivéssemos vida. Essa é a nova Aliança selada por Cristo com toda a humanidade.

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal.