Homilia da Vigília de Natal - A

A glória de Deus se manifesta nesta noite Santa pelo nascimento do Salvador: “Magno cum gaudio Christum natum adoremus. Salvator noster, dilectissimi, natus est: gaudeamus”. Com Júbilo no coração adoremos Cristo nascido, com um novo cântico. Caríssimos, alegrai-vos pois, o nosso Salvador é Nascido!

Assim nesta noite Santa nos preparamos com grande alegria para esta notícia jubilosa: Jesus nasceu para nos salvar! Vamos nos centrar no principal do Natal: não as festas exteriores, mais a interioridade, a luminosidade que vem do Menino que é nos é dado, homem e Deus, em tudo igual a nós, exceto no pecado, com uma missão muito específica: apagar a mancha do antigo inimigo, o pecado original, e nos conceder a salvação eterna.

Meus irmãos,

A liturgia desta noite santa transcorre com a santa lembrança da preparação da vinda do Cristo na história da Salvação. A Primeira Leitura(cf.  Is. 62,1-5) retoma o nascimento de um príncipe, no tempo de Isaías, setecentos anos antes do nascimento de Cristo, que significa esperança para o povo abalado pelas invasões assírias. Deus volta a seu povo. A leitura situa-se no tempo pós-exílico. O profeta desempenha o papel de intercessor e consolador. Deus parece calar-se. Por isso, o profeta fala, lembra a Deus a necessidade de seu povo. Deus o atenderá, pois a Cidade Santa é sua jóia. Ele a reconstruirá, fará novas núpcias com ela.

Depois do edito de Ciro, que autoriza a volta do exílio e a reconstrução de Jerusalém, por volta de 538 ou 537 a.C., o profeta vê de novo a cidade protagonista da história da Salvação envolvida pelo amor de Deus. Este amor é descrito com termos extraídos de uma festa de núpcias, aos quais, porém, se acrescenta uma terminologia que evidencia o conteúdo salvífico da mensagem. O encontro de Deus com Jerusalém, encontro que se dá com a humanidade, no Natal, é justiça, isto é, sinal da ação salvífica de Deus, isto é, glória, isto é, sinal de que Deus ainda está no meio do povo; é salvação, enquanto Deus resgatou aquela que era desamparada e abandonada, povo no exílio ou humanidade afastada de Deus, e a desposou, lembrando-lhe o seu amor por ela.

O salmo responsorial comenta que tais fatos são a prova de que Deus governa o mundo com justiça e os povos segundo sua fidelidade.

Caros irmãos,

A Segunda leitura(cf. At 13,16-17.22-25) anuncia o tempo de Cristo como o tempo em que se manifesta sua graça e a amizade de Deus, transformando a nossa noite em dia e em luz. A pregação de Paulo; testemunho a respeito do “Filho de Davi”. Paulo, na sua primeira viagem, é convidado a falar na sinagoga de Antioquia da Psídia. Resume a História da Salvação, chegada à plenitude em Jesus Cristo, Filho de Davi, anunciado por João Batista, que convocara o povo para a conversão.

São Paulo dirigindo-se aos judeus da sinagoga de Antioquia da Psídia, Paulo lembra das grandes etapas da história da Salvação: os patriarcas – libertação do Egito – deserto – conquista da terra – juízes e rei Davi (At 13,16-22). Nesta linha, Jesus é aquele que dá cumprimento à salvação, por isso é o Salvador e à promessa feita a Davi (At 13,23). É, pois, o messias; por isso, segundo a pregação de João (Lc 1,76ç 3,3-17), a sua vinda exige do povo mudança de mentalidade.

Estimados Irmãos,

Jesus é colocado hoje como o Sol invencível, o sol da justiça, o sol sempre nascente, o sol sem ocaso, a luz que apareceu nas trevas para iluminar os povos. Isaías relembra que o povo caminhava nas trevas e viu a luz, uma grande luz que hoje podemos afirmar que é o Senhor Jesus (cf. Mt 1,1-25 ou 1,18-25).

As trevas sempre representaram nas sagradas Escrituras a desgraça, a dor, a opressão em todas as suas facetas, a escravidão e a própria morte. E a luz indica prosperidade, felicidade, vida plena, fecundidade, bem-estar, presença de Deus. No meio da noite de Natal, Deus se faz presente na carne humana. Troca-se o próprio destino do homem, que caminhava pela estrada da morte e a partir de hoje caminhará com Jesus, pela estrada da vida. Jesus vem nos trazer, com seu nascimento, a graça e a vida plena, a vida eterna, as alegrias celestiais.

Essa genealogia (Mt 1,1-17) deve ser explicada à luz da segunda leitura. Jesus é aquele que dá cumprimento às três grandes etapas da história da salvação(Mt 1,17) e, como descendente de Abraão e de Davi(Mt 1,1), na linha jurídica de José(Mt 1,16.20), é o que dá cumprimento às promessas e é aquele que salva o povo dos seus pecados(Mt 1,21). Citando, literalmente, o texto de Is 7,14 (Mt 1,23), o evangelista declara que Jesus está na linha das promessas feitas a Davi e é, portanto, filho de Davi segundo a carne(Rm 1,3), embora seu nascimento virginal exclua a cooperação do homem(Mt 1,16.18)e é juridicamente filho de Davi só através de José, que fisicamente não seu pai(Mt 1,20). José que é justo – não porque procura separar-se de Maria(Mt 1,19), mas porque, como exige o termo, procura em todas as coisas o cumprimento da vontade de Deus – reconhece Jesus como seu filho e lhe transmite, dando-lhe o nome, todos os direitos de um descente de Davi(Mt 1,21-24). O fato demonstra como é Deus que opera a salvação, mas também como esta não se concretiza na terra sem a cooperação do homem.

Queridos amigos,

Contemplando a riqueza desta noite Santa nós temos a certeza de que todos nós éramos protagonistas da salvação. Lá estava, no teatro da salvação, os homens e as mulheres de todos os tempos: na simplicidade de um curral estava Maria e José, dois homens simples do povo, a quem coube realizar, por desígnio de Deus, o sonho do humano e do divino: o nascimento do Salvador. Bem no meio da natureza, num ambiente rural como o nosso santo ambiente das Minas, chamadas de Gerais e de Católica, para contemplar o teatro da salvação. Tudo estava representado para o Nascimento do Redentor: as pedras, as plantas, os animais, os homens. O mundo racional e o mundo irracional se ajoelha, reverentemente, diante do Deus Nascido, do Divino Infante.

A humanidade está representada por JOSÉ E MARIA. José, o homem justo, descendente da casa real de Davi, tornado pai adotivo de Jesus, por vontade de Deus, dá ao Menino o estado legal de descendente davídico, como previam os profetas e como esperava o povo eleito. Jesus se torna o “rebento do tronco de Jessé, cheio do Espírito Santo do Senhor”. Maria, a Mãe, pelos mistérios de Cristo, preservada de todo o pecado, a “cheia de graça”, a bendita entre todas as mulheres. Assumindo a carne humana em Maria, Jesus assumiu nossa condição, para que nós entrássemos na condição dEle. Foi na carne de Maria que nós, na expressão de São Pedro: “nos tornamos participantes da natureza divina”. E o sonho de Deus, de todas estas verdades, se realizou nesta noite Santa.

Estimados irmãos,

O Menino que nasce nesta noite veio fazer a maior de todas as revoluções: uma revolução silenciosa, amorosa em favor da humanidade. Jesus vem como o Príncipe da Paz, conforme anuncia Isaias em 9,5. Seu Reino se construirá com muito trabalho e empenho, em meio a muitas dificuldades e perseguições, mas Jesus “se estabelecerá, firmando no direito e na justiça, para sempre”(cf. Is 9,6). A partir desta Noite Santa, a paz é possível, porque o Filho de Deus passa a morar entre nós, como fermento na massa.

Firme, sólido e eterno se coloca a missão que Jesus nos convida a viver: o seu Reino. Reino estabelecido neste mundo por Jesus que nem o furacão mais violento nem as portas do inferno prevalecerão sobre ele. Jesus é a pedra angular que dá equilíbrio a Igreja e a humanidade. Sobre Jesus se constituirá o novo destino da humanidade. São Paulo chama Jesus Cristo de Pedra da qual jorram as águas da espiritualidade, isto é, a água que pode saciar a sede de Deus. O Menino nascido esta noite é a única ligação existente entre o céu e a terra, entre Deus e o homem. E é o único que pode dar ao homem toda a divindade e a eterna juventude, sempre desejada pelo homem. Cristo é, à partir de agora e sempre, a nossa segurança e refúgio, nossa liberdade e garantia.

Jesus é o primogênito de todas as criaturas animadas e inanimadas, porque nEle foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e invisíveis. (cf. Cl. 1,15)

Com Jesus, nesta noite Santa, nos veio a adoção divina, com Ele nos veio a pacificação e a graça, com Ele e por Ele formamos uma definitiva comunhão com Deus.

Meus amigos,

Jesus nos dá nesta noite uma demonstração do espírito que deve reinar nos cristãos: tudo em comum, tudo para que Deus seja manifestado em nosso meio como o Deus da partilha e da misericórdia. O nascimento de Jesus no meio dos pobres é o sinal de que Deus dá aos pastores – gente bem pobre – para mostrar que o Messias veio ao mundo. No meio das trevas, eles se encontram envolvidos em luz… a luz que é o Cristo que nos dá a salvação.

Feliz Natal a todos! O centro desta noite e de nossa vida deve ser o Cristo nascido, luz da humanidade e centro de nossa santidade. Amém, Aleluia!

Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal