Seguir Jesus

Meus queridos Irmãos,

No domingo passado Jesus anunciou de que modo ele seria o Messias, o “líder”; e convocou a todos para assumirem sua cruz no dia-a-dia do Seu Seguimento. Hoje, por conseguinte, vemos Jesus dirigir seus passos em direção de Jerusalém, pois, “completaram-se os dias para ser arrebatado”(cf. Lc 9, 51).

Jesus costumava subir todos os anos a Jerusalém. O Evangelho de hoje(cf. Lc 9,51-62) é o início da grande viagem. Nesta viagem vai aparecendo e se revelando o mistério da pessoa e da missão de Jesus e as qualidades que o Ministro deve ter.

Como “estava para completar-se o tempo da consumação”(Lc 9, 51), ou seja, indicando o sofrimento e a glória ao mesmo tempo em que Jerusalém é apontada, deixando de ser pensada apenas como cidade, torna-se sinônimo de paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus. Na Cruz, o Senhor Jesus dirá: “Tudo está consumado”(cf. Jo 19,20). Em Jerusalém será elevado à Cruz e elevado aos céus. (cf. Lc 24,50). Em Jerusalém começara a Igreja, corpo vivo do Senhor! (cf. 1 Cor 12,24).

Caros irmãos,

A Primeira Leitura deste domingo(cf. 1Rs 19,16b.19-21) demonstra a radicalidade do seguimento do profeta. Com vistas ao tema do Evangelho, narra-se a vocação de Eliseu para seguir Elias. A indicação de Josué, por Moisés(cf. Nm 28,18-19), acontece pela imposição das mãos; de modo semelhante, Elias estende seu manto sobre Eliseu para o indicar como seu sucessor. A resposta de Eliseu é radical: despede-se logo de sua família e sacrifica sua junta de bois, para seguir, completamente livre, a Elias. A exigência de Jesus será mais radical ainda, conforme veremos no Evangelho de hoje, já antecipado no Salmo Responsorial: “Ó Senhor, sois minha herança para sempre”.(cf. Sl. 15).

A história da salvação é uma história de um Deus que, discretamente, sem se impor nem dar espetáculo, age no mundo e concretiza os seus planos de salvação através dos homens que Ele chama. É como se Ele nos dissesse como fazer as coisas, mas respeitasse o nosso caminho e Se escondesse por detrás de nós. É necessário ter em conta que somos os instrumentos de Deus para construir a história, até que o nosso mundo chegue a ser esse “mundo bom” que Deus sonhou.

A história de Eliseu é a história de cada um de nós e dos apelos que Deus nos faz, no sentido de nos disponibilizarmos para a missão que Ele nos quer confiar, quer no mundo, quer na nossa comunidade cristã.

Hoje nós somos chamados a contemplar a disponibilidade de Eliseu e a forma radical como ele acolheu o desafio de Deus. A referência à morte dos bois, ao desmantelamento do arado (cuja madeira serviu para assar a carne dos animais) e ao banquete de despedida oferecido à família significa que o profeta resolveu “cortar todas as amarras”, pois queria oferecer-se, radicalmente, ao projeto de Deus. É esse corte radical com o passado e essa entrega definitiva à missão que nos questiona e interpela.

Caros irmãos,

A Segunda Leitura(cf. Gl. 5,1.13-18) nos coloca diante da liberdade cristã. Na época em que viveu São Paulo, as tradições do judaísmo colocavam a liberdade cristã em perigo. Hoje são outras forças que fazem isso. Mas todas essas ameaças são “carne”, o contrário do Espírito. Jesus nos convida à liberdade que se revela nele mesmo: sendo livre, pode dar a sua vida por nós.

Os Gálatas estão profundamente perturbados por esses “judaizantes” para quem os rituais da Lei de Moisés também são necessários para chegar à vida em plenitude (“salvação”); e São Paulo – para quem “Cristo basta” e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que os Gálatas não se sujeitem mais à escravidão, nomeadamente à escravidão dos ritos e das leis. O texto que nos é proposto aparece na parte final da Carta. É o início de uma reflexão sobre a verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito.

Os homens e mulheres de hoje tem um grande apreço pela liberdade. Mais uma liberdade que se define erroneamente a partir do “eu”, de fazer o que “eu quero”, por isso esta falsa liberdade gera o egoísmo, o individualismo, o isolamento, o orgulho, a autossuficiência e, portanto, a escravidão. São Paulo nos ensina, com veemência, que só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me agarro a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível – totalmente disponível – para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que fazem hoje tantas pessoas que não guardam a própria vida para si próprias, mas fazem dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Ser livre e participar de uma comunidade eclesial que vive a liberdade cristã é viver voltada para o amor, para a partilha, para as necessidades e carências dos irmãos que estão à sua volta.

Irmãos e Irmãs,

O Evangelho de hoje(cf. Lc. 9,51-62) nos provoca a uma caminhada interior. A mesma caminhada que Jesus faz para Jerusalém. Partir do que somos até o esvaziamento completo de nós mesmos e a vivência em plenitude da vontade do Pai. É essa caminhada por dentro de nós que nos possibilita, de perto Jesus, a morrer e ressuscitar com ele e com ele ser glorificados.

Assim todos nós devemos ter presente que a vida cristã é o seguimento de Cristo. Seguir Jesus significa imitar e colocar-se atrás de Jesus para caminhar sobre seus passos. O Evangelho de hoje apresenta-nos Jesus a caminho e os discípulos caminhando com ele. Caminhada em dois âmbitos: no pó da estrada e na confusão do nosso coração. Mais importante do que tudo isso é a caminhada dentro de nós, a luta e o combate espiritual, se Jesus está na nossa frente como modelo e guia.

Seguimento de Jesus que exige de nós uma decisão, uma mudança radical de vida para seguirmos a Jesus, para caminharmos com Jesus, para sermos santos e cumprimos a nossa missão de anunciar o Evangelho a todas as criaturas.

Amados Irmãos,

Amados em Cristo, isto mesmo, amados em Cristo porque Jesus passou a maior parte de sua vida distribuindo o amor, vivenciando a compaixão e ensinando a perdoar.  Isso, porque entre os judeus e samaritanos existia um ódio de morte e contínuos atritos de fundo religioso, racial e político. Os samaritanos eram intrusos, sem o querer. Quando os assírios destruíram o reino de Israel, em 722 a.C., deportaram todos os habitantes da região e, em seu lugar, trouxeram um povo pagão. Voltando os israelitas, inclusive o monoteísmo. Mas, não tendo sangue hebreu, jamais conseguiram a amizade, nem mesmo comercial, com os judeus. É, então, compreensível que os samaritanos neguem hospedagem ao grupo de Jesus pelo fato de ser evidente que estavam indo para Jerusalém.

Tudo tem o seu significado: Quando Jesus foi a primeira vez a Jerusalém, ainda no seio de Maria, para alcançar Belém, não havia lugar na hospedaria. Agora, na última ida a Jerusalém, quando deve acontecer o Natal de toda a humanidade, também não há lugar. Hospedar-se, sentar-se à mesa com alguém indicam aceitação. E Jesus não é aceito, é rejeitado. Mas sua resposta não é a violência e a vingança como querem Tiago e João. Cristo é a encarnação da misericórdia e o tempo, agora, é de perdão e salvação. O fogo que Jesus enviará não é destruidor, mas o fogo do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, com força para “derrubar os muros da separação e da inimizade”(cf. Ef 2,14).

Irmãos e Irmãs,

Quais são as condições para seguir a Jesus? Primeiro abandonar a tudo, ao mundo e seguir a Jesus. Em segundo lugar abandonar qualquer forma de violência sobre os outros, despindo os instintos de autodefesa e vingança e revestindo-se a túnica do amor. E nisso João é um exemplo magnífico: em Jerusalém tornar-se-á o Apóstolo do amor e deixará escrito para a eternidade: “Quem não amar o irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”. (cf. 1 Jo 4,20).

Ser seguidor ou discípulo é ser desapegado. Desapego dos pais, da casa, da segurança de onde repousar o corpo e a cabeça.

Se Eliseu foi ungido por Elias e coloca-se à serviço dele. Fomos todos pela paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo libertados para o exercício da liberdade.

Caros irmãos,

A todos nós, batizados, que somos discípulos de Jesus, é proposto que O sigamos no “caminho” de Jerusalém, nesse “caminho” que conduz à salvação e à vida plena. Trata-se de um “caminho” que implica a renúncia a nós mesmos, aos nossos interesses, ao nosso orgulho, e um compromisso com a cruz, com a entrega da vida, com o dom de nós próprios, com o amor até às últimas consequências.

Jesus recusa, liminarmente, responder à oposição e à hostilidade do mundo com qualquer atitude de violência, de agressividade, de vingança. Por isso o “caminho do discípulo” é um caminho exigente, que implica um dom total ao “Reino”. Quem quiser seguir Jesus, não pode deter-se a pensar nas vantagens ou desvantagens materiais que isso lhe traz, nem nos interesses que deixou para trás, nem nas pessoas a quem tem de dizer adeus.

Meus queridos Irmãos,

São Paulo, na Segunda Leitura, nos diz que fomos libertos por Cristo para vivermos na liberdade. Mas como combina essa liberdade com a severa exigência pronunciada no Evangelho? A liberdade crista é “liberdade de”e “liberdade para”. “Liberdade de”outros sistemas, valores, apegos. Liberdade de outros mestres e senhores a não ser Cristo. Não é libertinagem, pois libertinagem não é liberdade e sim escravidão de veleidades, instintos, vícios, orgulho, auto-suficiência. O cristão “é livre para” o que Cristo deseja: a dedicação ao irmão, ao próximo, ao pobre, ao maltrapilho, ao doente, ao excomungado. Livre para a corajosa transformação da exploração em fraternidade; para a verdade que afugente a mentira; para tudo o que o Espírito de Deus nos inspira.

Irmãos e Irmãs, caminhemos, pois, para Jerusalém celeste. Caminho longo. Caminho penoso. Caminho que devemos fazer dentro de nós para conseguir morrer para o pecado e buscar a santidade, o rosto sereno e radioso do Senhor. Por isso, na missa de hoje, devemos sair renovados no caminhar com Jesus rumo à liberdade e à glória. Jesus Cristo nos chama ao seu seguimento, porque Ele tem um projeto para cada um de nós. Não podemos, destarte, deixar que outras propostas nos desviem do caminho proposto por Jesus Cristo. Que nos coloquemos nos caminhos de Jesus, o Redentor!

 Homilia por: Padre Wagner Augusto Portugal